quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A “genealogia” em Foucault (parte 1)

Tendo guardado por alguns anos meus primeiros trabalhos escritos da graduação em História na Unicamp em seu formato impresso original, com as correções, observações e notas dos professores, resolvi um dia digitalizar a maioria deles, quando não tivesse backup dos arquivos Word originais. Nunca tinha pensado em os publicar na página, mas quando percebi que o navegador Chrome estava avançado o suficiente pra detectar textos automaticamente e possibilitar sua cópia pra outros programas, decidi tentar fazer isso com essas relíquias, que de fato só exigiram alguns reparos pontuais, pois o conteúdo saiu quase todo com espantosa exatidão!

Portanto, estou publicando hoje um trabalho da disciplina “HH582A – Teoria da História III” ministrada por Margareth Rago, com quem desenvolvi uma querida relação de amizade, no 1.º semestre de 2008, entregue no dia 6 de maio. O título é “Explorando os princípios básicos da história genealógica de Michel Foucault”, e meu objetivo era fazer uma análise do capítulo “Nietzsche, a genealogia e a história”, publicado por Michel Foucault em sua célebre Microfísica do poder, complementada por textos relacionados. Esse artigo era um de meus preferidos na graduação, e a matéria era basicamente uma introdução à corrente chamada genericamente de “pós-estruturalista”, mais conhecida vulgarmente como “pós-moderna” e centrada em Foucault, mas incluindo também Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Félix Guattari e similares, com quem tive então meu primeiro contato.

Esta primeira publicação foi o que se costumava chamar “projeto de trabalho”, e alguns professores preferiam que fizéssemos primeiro tal projeto em meados do semestre pra que no final produzíssemos um texto mais rigoroso e encorpado, como foi o caso de minha análise sobre a “história genealógica”. O que vou falar aqui pode parecer “comprometedor”, mas nessa época, a Margareth falou em classe que no passado, ela e outros colegas empreenderam “uma luta” pra que fosse então implantada a então chamada “Teoria III”, cujo conteúdo básico já informei. Antes, a seu ver, “os estudantes viam só Thompson, Thompson e ficavam mal preparados pra concursos”, em referência ao marxista não ortodoxo britânico Edward Thompson, a principal referência da História Social, área na qual eu mesmo fiz minha pós. Por sua vez, não sei bem em que contexto, um de nossos professores da “Social” criticou na classe a própria condução da “Teoria III” (pela Margareth, suponho), dizendo que deveria ser “um curso de historiografia pós-moderna”, enquanto ela estava se limitando apenas à teoria em si.

Não quero nem saber: picuinhas tretas à parte, só sei que ela escreveu à caneta “muito bom” na primeira página e “Parabéns! Está indo muito bem” na última, rs. Aguarde o próximo capítulo pra saber como terminou tudo isso. Novamente, apenas atualizei a ortografia e as normas de citação bibliográfica e corrigi pontos que realmente não davam pra engolir ou que ficariam melhores de outra forma, sem alterar, contudo, o estilo redacional geral.



A ascensão do método genealógico, proposto e praticado por Michel Foucault, foi um dos fatos que mais abalou a tradicional “história dos historiadores”, considerada pelo filósofo francês como absoluta, estigmatizante, violenta e purista. O modo tradicional de se escrever a história não passou incólume à onda que exigiu a escavação das antigas interpretações, a desconstrução dos postulados consagrados da verdade, a ênfase na ruptura em detrimento da continuidade e um trabalho que não partisse de objetos previamente dados, mas que os construísse ao longo da análise das práticas. O secular louvor às origens das coisas e a consideração de que elas guardam о verdadeiro, o puro e o original sofreram o escárnio de um homem ridente que mostrou a importância das relações de poder para a emergência das interpretações históricas, que não passam de visões dos vencedores e marcam, sobretudo, o corpo das pessoas. Enfim, o novo panorama vivido pela disciplina histórica conduziu todos os seus profissionais, aprendizes e simpatizantes a abandonar o passado como referência primordial para suas visões de mundo e a ver no presente a razão e o palco de todos os embates de interpretações e práticas relacionadas aos tempos passados.

Esses são alguns dos temas a serem tratados nesta primeira etapa do mapeamento dos princípios básicos da história genealógica, cujos elementos, no trabalho final, entrarão mais sintetizados e articulados com o que se verá nas próximas leituras. Ela consiste na apresentação dos principais conceitos que sustentam esse modo de escrever a história, como “opacidade da linguagem”, “recusa da origem”, “emergência”, “proveniência”, “corpo”, entre outros, e tem por base o texto “Nietzsche, a genealogia e a história”, publicado no livro Microfísica do poder, de Foucault. Tais conceitos foram extraídos desse texto, organizados de uma maneira que pudesse mostrar melhor a relação que eles têm entre si e explicados de acordo com as indicações dadas no próprio texto. Outros conceitos, menos desenvolvidos no referido texto, ainda que a ele apareçam referências implícitas, como “história do presente” e “sujeito”, serão retomados em fases posteriores deste mapeamento e desdobrados após a leitura de outros textos. Complementou-se a explicação com dois artigos de Margareth Rago e um de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, que tratam de assuntos diretamente relacionados à história genealógica e, por isso, expõem alguns conceitos básicos importantes para entendê-la.


A primeira coisa que o historiador deve ter em mente é algo que o pós-estruturalismo repetiu até a exaustão e que marca profundamente essa corrente de pensamento: a linguagem não é transparente, ou seja, a palavra não é o reflexo fiel de uma coisa-essência que se esconde atrás dela. O próprio Foucault diz que as palavras não guardam seu sentido ao longo dos tempos, e que atrás das coisas não há uma essência sagrada, secreta e atemporal, mas a falta dessa essência ou uma essência construída, finita e terrena. A própria linguagem é uma coisa a mais que apenas torna a realidade ainda mais opaca, pois há grande separação entre o que é dito e o que é entendido, resultando na total diferença entre o que se diz e o que se deseja dizer. Por isso, toda a pretensão do historiador de que seu texto tenha um significado inequívoco é inválida, o que o obriga a não dirigir a leitura feita pelos outros e a permitir que sua obra produza vários significados de acordo com quem a lê.

Essa primeira afirmação leva o historiador a rever radicalmente seus procedimentos e seus instrumentos de trabalho, pois porquanto as palavras e as práticas não são reflexos, mas coisas em si, elas devem ser o ponto de partida de todas as suas análises. Assim, o historiador é levado a partir não de objetos já prontos, previamente dados, que expliquem as práticas sociais, mas daquilo que está na “superfície”, para que, a partir delas, percorra um caminho que culmine na construção de seu objeto. O corolário desse método, assim sendo, é não considerar o “objeto-realidade” como fundação da unidade dos discursos, mas as práticas discursivas e as não-discursivas como instituidoras de objetos e figuras sociais. Isso levou Foucault, apesar de suas divergências com os Annales, a defender a história-problema e a figura do historiador como aquele que pergunta, não aquele que responde, e que também não crê na existência de fatos históricos dados, regidos por leis e os quais cabia ao historiador decifrar por seus métodos.

Após essa discussão, fica uma pergunta: como surgem os discursos? Um dos conceitos pelo qual Foucault deseja substituir a ideia de origem, que será abordada mais adiante, é o de emergência, o ponto de surgimento, que ocorre em um certo estado de forças que, na história, lutam entre si ou contra circunstâncias diversas ou contra a degenerescência. A emergência é o momento em que essas forças, que não obedecem a um fim determinado, mas ao acaso, entram em cena, e é um lugar de afrontamento, porém não se trata de um campo fechado de luta, mas da distância e da desigualdade entre os adversários. Por isso, ninguém é responsável pela emergência histórica, que sempre ocorre no interstício dessas lutas e conflitos que geram as coisas, as ideias. As regras gerais da história em cada momento histórico, portanto, são a dominação e a violência, o que torna quimeras a reciprocidade e o consenso universais. As regras em si são vazias, mas o jogo da história consiste na dominação das regras, que ora são impostas, ora são obedecidas: em outras palavras, as emergências são substituições, conquistas e inversões, e interpretar não é descobrir um significado oculto na origem, mas apoderar-se e dar uma direção a um sistema de regras.

Disso tudo se concluem várias coisas. Primeira, se interpretar é dar direção a regras, o historiador tradicional, ao dizer que efetua uma descrição, não faz mais do que estigmatizar, rotular, baseado em absolutos. Segunda, se a história é resultado de constantes lutas, as interpretações sobre ela que predominarão, emersas nos interstícios, serão as interpretações dos vencedores dessas lutas, ou, de modo mais simples, a história é a história dos vencedores. Terceira, se a violência e a dominação são as regras gerais e se são os vencedores que as dominam, o ato de descrever e o consequente ato de estigmatizar são violentos, logo o historiador tradicional também é violento. Quarta, se as lutas obedecem ao acaso, logo a história também é fruto dele, e não formada por um ou vários sujeitos determinados que comandariam a política e a sociedade. E quinta, se a história, assim como qualquer visão de mundo, é um resultado do acaso, nada é verdadeiro, porque tanto a consciência histórica quanto a científica possuem, no fundo, instinto, paixão, do que se conclui que tudo é construção, portanto parcial, não eterno. O genealogista, destarte, diferencia-se do historiador tradicional ao assumir sua parcialidade.

Tais ideias terão um impacto avassalador no modo como se escreve a história e como se lê, ou melhor, se constrói o passado. O intelectual e as verdades sobre as quais ele baseava sua posição serão abalados de uma hora para outra, e ele passará a não ser mais o detentor da verdade, o baluarte das classes oprimidas, em especial do proletariado, que seria libertado por essa verdade. De sua parte, Foucault, em um ambiente dominado pela centralização dos estudos na classe operária, na “base” econômica e nas maneiras de se fazer a “revolução”, deslocará seu foco para as “minorias” e os relegados da história: de maneira inédita, o filósofo lançar-se-á de cabeça na chamada “superestrutura”, que tradicionalmente não era vista como portadora de campos que podiam ser historicizados. Consagrar-se-á, então, o desafio iniciado pelos Annales de fugir de uma história das guerras, dos triunfos e das batalhas ao se perscrutar o mundo dos maltratados, dos excluídos e dos segregados e, a partir daí, contestar-se o poder burguês, moral, masculino, eclesiástico e ocidental exercido sobre essas pessoas. A questão torna-se mais instigante quando se nota que opressões e desigualdades como a social e a de gênero continuaram nos meios revolucionários sob o pretexto de que a “revolução” social e econômica acabaria automaticamente com elas: assim o homem, vencedor da história, impunha suas regras às mulheres e lhes atribuía um papel social de um modo que acomodasse a si mesmo em sua posição tradicional. Minadas as bases nas quais se baseavam os discursos ditos “verdadeiros”, Foucault ainda lembrará que о historiador, cujo modelo tradicional era baseado no demagogo, não precisaria mais se esconder “sob a máscara do universal”, invocar a objetividade dos fatos e aniquilar sua individualidade em busca da revelação da “lei inevitável de uma vontade superior”. Contribuirá para isso o fato de a história não ser considerada como mais do que um discurso, o passado não ser mais visto como algo pronto e natural a ser desvelado e apreendido e os sujeitos e objetos não serem mais dados prontos com os quais o historiador iniciaria seu trabalho, devendo o historiador, portanto, tecer a trama que constitui o acontecimento. Por isso mesmo, não existe “a” verdade, mas “verdades”, que comandam, cada uma a seu tempo, um respectivo regime de verdade, diferente segundo o lugar e segundo a época, e sendo cada uma criada por determinado profissional da história ou alguém, ou alguns, que, em uma sociedade, é (são) disso encarregado(s).

Ao saber que por trás das coisas não existe uma essência portadora de uma pureza original e, consequentemente, que não existe uma verdade histórica pronta para ser desvelada por instrumentos eficazes, sendo ambas construções dos “vencedores” da história, o historiador negar-se-á, pois, a pesquisar a origem das coisas, algo que seria um começo unitário, indubitável e indissolúvel. Segundo Foucault, um dos usos que Friedrich Nietzsche, como um genealogista, faz do termo “origem” (em alemão, Ursprung) é depreciativo, referindo-se a uma origem mágica da moral, suposta por Platão, e da religião, deduzida por Schopenhauer. Há três motivos pelo qual o filósofo alemão se recusa à pesquisa dessa origem. O primeiro é a suposição da ausência de uma “identidade primeira” das coisas, revelada após a retirada de todas as máscaras, que seriam acidentais. Porém, não só não existe um “segredo essencial” atrás das coisas, como já foi dito, mas também seu começo histórico não possui identidade, mas a discórdia, o disparate. O segundo motivo é a negação da lei metafísica de que as coisas, na origem, antes da “queda”, encontravam-se em estado de perfeição, pois o começo histórico é baixo, no sentido de derrisório e irônico, não de modesto ou discreto: assim o esclarece Foucault, que exemplifica com a teoria darwinista de que o homem teria vindo, ou mais corretamente, teria o mesmo antepassado, do macaco. O terceiro, por fim, é a recusa de ver na origem o lugar da verdade, que possibilitaria um saber que ao mesmo tempo a recobriria, porquanto, como também já se disse acima, a verdade é uma invenção, um “erro” que foi cozido pela história e que tem nela sua própria história.

Por todos esses motivos, Foucault afirma que fazer uma genealogia dos valores ou da moral, por exemplo, não é buscar sua “origem”, mas dissecar as meticulosidades e os acasos dos começos, e é então que entra o conceito de proveniência. Esta não é a busca de características gerais que assimilem um indivíduo a outros, mas das marcas que o tornam diferente, marcas que nele se entrecruzam e formam uma rede impossível de se desembaraçar, é a busca dos inumeráveis começos, da dissociação do Eu e o encontro em sua “síntese vazia” de “mil acontecimentos agora perdidos”. A proveniência recupera os acontecimentos que ajudam a formar um caráter ou conceito e não ajuda a genealogia a mostrar uma continuidade ou influência do passado sobre о presente, mas os erros, desvios e acidentes desse percurso, do que se conclui que a origem da moral não é venerável, mas crítica. A herança da proveniência é “perigosa”, pois não é sólida, mas frágil, e sua pesquisa agita o imóvel, fragmenta o unido e mostra que tudo o que se pensava “em conformidade consigo mesmo” é, na realidade, heterogêneo. Um dos exemplos de ruptura das descontinuidades é a história da prisão elaborada por Foucault, segundo a qual ela não mostra que a humanização das pessoas progrediu, mas que o exercício da violência e as formas de dominação aperfeiçoaram-se.

Considerar a “multiplicidade dos começos” ajuda o historiador a considerar que todo acontecimento é singular, e deve ser espreitado onde se supõe não haver história. O acontecimento, que é uma relação de forças em constante luta, não deve ser dissolvido em uma “continuidade ideal” obedecendo a uma “necessidade interna dos fatos históricos”, mas deve ter revelado o que “pode ter de único e agudo”. Já que essas forças obedecem ao acaso, como foi visto, o mundo, portanto, não é uniforme e estável, mas matizado e caótico, no qual vivemos uma vida grotesca, barroca e cheia de contrastes. Assim, em lugar de se proceder ao modo dos historiadores tradicionais, cuja história é unitária, identitária e absoluta, Nietzsche propõe um “sentido histórico” que serve à genealogia ao não se apoiar em absolutos, ao distinguir, dissociar as coisas e a unidade do ser humano, privilegiando, assim, a mistura, o deslocamento e a “convivência dos contrários”. É baseado nisso que Foucault afirmará que o saber não é feito para compreender, mas para cortar, pois nada é eterno e tudo tem história, como os sentimentos, os instintos e o corpo, que será abordado mais adiante. É de tal pressuposto que parte a chamada “história efetiva”, que não deve apoiar-se em constâncias (que não existem), nem em reconhecimentos, continuidades ou obstinação a fins milenares, em outras palavras, é proposta aqui uma história baseada na ruptura. Somado a isso, se a história é uma sucessão de vitórias nas quais várias interpretações vão se sobrepondo ao longo do tempo, eis o que dá o nome e a função da genealogia: ela busca esmiuçar essas verdades acumuladas, os já citados acasos е meticulosidades dos começos, busca não efetuar sínteses ou totalidades, mas a “descrição da dispersão”. Por isso, a história, para o genealogista, com seus acasos, vitórias e derrotas, é “o próprio corpo do devir”, é “uma série de interpretações” que a prática genealógica faz aparecer, o que leva o profissional, cujo trabalho é regido por uma atitude irônica com relação aos relatos e ao que se chama de documentos, a conjurar a fantasia da origem. É uma atitude irônica, pois o humor ajuda a encarar a incerteza e a finitude e faz nascer o riso a partir de nossa descoberta de que se encontra um enorme abismo entre aquilo que somos e aquilo que julgamos ser.

Procedendo dessa maneira, o historiador dará sequência a uma contínua desconstrução das coisas e das verdades, as quais, mapeadas toda a sua estrutura e a luta que está por trás de sua emergência, serão desnaturalizadas, isto é, não serão vistas como algo eterno, nem como coisas que sempre tiveram a mesma forma que apresentam hoje. Por isso mesmo, Foucault pede que não se atribua à emergência os termos do presente. É o mesmo autor que se utilizava constantemente da ironia para desconstruir, desnaturalizar e problematizar relações ditas inabaláveis e “metáforas biológicas”, ou seja, legitimações que tinham como sustentáculo estarem fundadas na originalidade da natureza e supostamente podiam ser descritas com instrumentos fornecidos pela biologia. Para proceder à desconstrução e à desnaturalização, o historiador deve levar a cabo três usos da história, chamados pelo filósofo de “antiplatônicos”, já que Platão foi o fundador da oposição aparência/essência, a qual Foucault tanto combate e que baseia a metafísica de hoje. О primeiro uso é o paródico e destruidor da realidade: deve-se reconhecer que as identidades que o historiador oferece ao europeu confuso são apenas máscaras, mas o genealogista não deve rechaçar esse oferecimento de máscaras, apenas se devem recusar as “identidades marcadamente reais” e usar outras, irreais, o que torna a história uma “palhaçada”. Por isso, a genealogia faz algo como uma paródia da paródia para mostrar que a história não passa de uma paródia. O segundo uso é o dissociativo e destruidor da identidade, uma identidade frágil, pois ela é um “sistema complexo de elementos múltiplos, distintos”, não sintetizáveis: esse é o motivo pelo qual a história baseada na genealogia não encontra as raízes da identidade, mas dissipa-a, não demarca territórios, mas aflora descontinuidades, permite a criação de e “clarifica os sistemas heterogêneos” que proíbem a identidade. E o terceiro uso é o sacrificial e destruidor da verdade, segundo o qual se as consciências histórica e científica não são neutras, portanto, o conhecimento é repousado na injustiça, visto que não há uma verdade universal. O querer-saber evocado por Foucault, destarte, é “mau”, pois desfaz a unidade do sujeito de conhecimento, dissociando-o e destruindo-o, fato que não limita a vontade de verdade, mas tira dela seu limite e intenção de verdade. É então que o sujeito de conhecimento, que julga saber tudo, dá lugar ao intelectual específico, que sabe de suas limitações e de sua posição.

Dois elementos dos quais o historiador genealógico não pode prescindir e que estão profundamente ligados são a noção de micropoder e a importância do corpo na reconstituição genealógica. Ao citar o anarquismo, Foucault o faz como um ideário que, entre outras coisas, se caracteriza por uma crítica acerba do modo como se exerce o poder, principalmente na Modernidade, e por denunciar não só a dominação estatal, mas também os micropoderes. Difusos por toda a sociedade, eles ultrapassam em importância o poder jurídico, na sua forma visível e repressiva, mas são um poder invisível e molecular, caracterizado pela positividade, que atua em todos os cantos do social e que constitui redes de relações que abarcam tudo e todos. E o corpo, agora também historicizado, é precisamente a unidade mínima, mas central, sobre a qual recai a ação desses micropoderes, e por isso Foucault o julga fundamental para entender as formas de dominação dos últimos séculos. Para o pensador, a proveniência, ou seja, os múltiplos começos, dizem respeito ao corpo, que reflete os erros do passado e é o lugar no qual ficam as marcas da história e onde nascem, se atam, se exprimem, se desatam e batalham “os desejos, os desfalecimentos e os erros”. Assim, a genealogia está “no ponto de articulação do corpo com a história” e tem por obrigação mostrar esse corpo todo “marcado de história” e revelar como a história “arruína” o corpo.

Torna-se mais fácil entender esse papel do corpo ao se exporem as várias situações nas quais ele está presente, sendo a mais importante para os historiadores, no trabalho de Foucault, a história da prisão, que, além da descontinuidade da história, esclarece sobre o poder disciplinar, por sua vez útil na reflexão dos modos de dominação no dia-a-dia da vida social. Ainda que Foucault não tenha desenvolvido muitos estudos completos sobre as questões de gênero, seu pensamento foi importante também para entender que as mulheres, cuja identidade era considerada como biologicamente fundada, sofrem diretamente a dominação em seu corpo. As identidades do homem e da mulher, que na verdade são social e culturalmente construídas, e não fundadas na biologia, legitimaram a sujeição feminina perpetrada pela sociedade patriarcal, que impôs à mulher os papéis obrigatórios de reprodutora, mãe e doméstica. Há muito tempo as feministas desconstroem os referidos papéis e abrem a possibilidade de construir uma própria definição de si mesmas e de lutar contra a opressão sexual por meio da maior participação no espaço público, incentivada, sobretudo, nos meios libertários que efervesciam nas primeiras décadas do século 20. Os objetivos principais da iniciativa, e que as mulheres ainda lutam para fazer valer integralmente, eram abolir as hierarquias sexuais, tirar do amor livre e do aborto o status de tabus e conquistar o pleno direito à maternidade consciente, à educação, à cultura e ao trabalho. O mesmo pode ser dito sobre os homossexuais, cuja vivência é uma ironia devido à distância entre o que eles dizem sobre si e o que realmente são, e que são pessoas que baseiam sua identidade em uma opção que diz respeito diretamente ao corpo. É um corpo esse oprimido por uma sociedade homófoba que não aceita a convivência amorosa entre pessoas consideradas do mesmo sexo e que admite como natural apenas a relação entre homem e mulher, sem desconstruí-la e desnaturalizá-la, como faria o genealogista. Não se deve esquecer também que Foucault, em vários textos, muitos deles publicados em Microfísica do poder, denuncia como os médicos, a partir do século 19, adquiriram grande poder na sociedade e como o hospital, lugar por excelência da cura do corpo malsão, tornou-se uma fortaleza na qual se abrigam vários saberes que proporcionam enorme poder a quem os detém.

Afora esses princípios básicos, há muitas outras questões para entender a constituição e o emprego da história genealógica e que nesta parte do trabalho serão apenas esboçadas, mas posteriormente serão melhor desenvolvidas por meio da leitura de textos que as abordem com mais vagar. Entre esses temas, é interessante ver como Foucault lida com um sujeito que, em sua opinião, não está separado, mas dentro do poder, um sujeito que, como já foi mencionado, seria, na visão dos historiadores tradicionais, o principal responsável pelo andamento da história e já estaria pronto, esperando apenas para ser abordado pelo historiador em seu trabalho. A intenção de Foucault ao estudar os saberes, as disciplinas, a produção da verdade e o poder foi justamente poder explicar como o sujeito se constituiu enquanto objeto e enquanto sujeito na cultura ocidental. Em outras palavras, esse sujeito não mais era o fundamento constituinte privilegiado no Ocidente, mas algo passível de ser problematizado “como objeto a ser constituído”, o que explica o sacrifício do sujeito de conhecimento, promovido pela história genealógica, visto no parágrafo anterior.

Como último ponto importante a ser esboçado nesta etapa, é importante lembrar que o historiador genealógico está sempre consciente, por saber que ele não revela um passado exato e que não existe uma continuidade ideal entre o presente e o passado, de que toda história é história do presente, feita nos termos da contemporaneidade de quem a escreve e baseada em indagações atuais. Antes, a “história dos historiadores” tentava compreender o passado e recontava ordenadamente os fatos para que assim se compreendesse o presente e se visualizassem futuros possíveis. Mas no moderno carnaval paródico da história, o procedimento é o inverso: desfila-se usando máscaras criadas pela atualidade, celebra-se o esquecimento em detrimento da lembrança e predomina a descrença no passado como portador e transmissor aos seus descendentes da justiça, da beleza e da verdade, coisas que de fato são criações humanas. A interpretação feita de cada texto não busca adequar-se a uma suposta realidade localizada no passado, mas produzir certos efeitos no presente, ao permitir múltiplas interpretações regidas não por uma leitura direcionada, mas por sentidos imaginados, pela ausência de qualquer regra ou norma e por uma linguagem vertiginosa.


Expostas as principais bases da história genealógica que nortearão o trabalho em andamento, vale a pena traçar uma conclusão prévia da presente discussão. Mostrar que a verdade é mera construção e que a imposição de uma só verdade ao heterogêneo conjunto da sociedade é um ato de violência deve servir de base de reflexão ao historiador que não deseja tornar-se um facínora no meio que o circunda. Pode parecer mentira, mas os discursos possuem uma força enorme e muitos historiadores, talvez não se dando conta disso, ou não querendo o reconhecer, passam-se por agentes do poder ou mesmo procuram tornar-se seus detentores. Contudo, não só se esquecem de que o poder não é algo que se detém nas mãos, mas também não recordam que nada é eterno, e que seus castelos (de cartas) não durarão para sempre. A desconstrução e a desnaturalização são as armas pacíficas que Foucault legou ao historiador genealógico para que ele abra caminhos livres do autoritarismo, do sexismo e de todas as formas de dominação social.


Referências

ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. Michel Foucault e a Mona Lisa ou como escrever a história com um sorriso nos lábios. In: A arte de inventar o passado: Ensaios de Teoria da História. Bauru: EDUSC, 2007.

FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a genealogia e a história. In: Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. 23. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2007, p. 15-37.

RAGO, Margareth. Foucault e as artes de viver do anarco-feminismo. In: RAGO, Margareth; VEIGA NETO, Alfredo. Figuras de Foucault. Belo Horizonte: Autêntica, 2006, p. 165-175.

______. O Efeito Foucault na Historiografia Brasileira. Tempo Social – Revista de Sociologia da USP, São Paulo, n. 7, p. 67-82, out. 1995. Disponível nesta página (versão arquivada). Acesso em: 16. abr. 2008.



terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O que Sergey falou em russo no Domingão

Após meses de espera de acordo com as regras do quadro, este peculiar Homo sovieticus chamado Sergey (ou Sergio) Loewitz finalmente participou do “Quem quer ser um milionário?”, apresentado por Luciano Huck em seu Domingão. Professor de idiomas e casado com uma brasileira, com quem tem uma filha e mora em Niterói, é falante nativo de russo e nasceu na antiga RSS da Moldávia, atualmente a República da Moldova independente. Embora o país seja multicultural, o romeno (chamado pelos soviéticos de “moldávio”) é a língua predominante e o russo, falado desde a ocupação tsarista da Bessarábia histórica (século 19), ainda tem um papel relevante; é majoritário, por exemplo, na região separatista da Transnístria.

Volta e meia escrevo aqui na página sobre esse pequeno país, mas essa é mais uma ocasião pra eu pegar no pé de quem faz pouca ou nenhuma pesquisa sobre o que está falando. O Gonzo, por exemplo, ao invés de fazer uma breve leitura sobre a história recente da Moldova, repetiu várias vezes a versão russa do nome (“Moldávia”), usada predominantemente na Rússia e em sua mídia estatal, enquanto mesmo entre os moldovos russófonos se usa “Moldova”. Pra quem combate o colonialismo do Kremlin e convive diariamente com o assunto, soa como o arranhar de um disco ouvir “Moldávia” o tempo todo, ou pior, ocasionalmente misturando as duas formas e soltando um “Moldóvia”! Não sei se o Trololó fluminense o “assessorou” de alguma forma, mas nem ele deve entender ou sequer ligar pra essas “minúcias”.

Em todo caso, ao contrário de minha bisavó Tekla, que nasceu justamente na Bessarábia histórica e era o cão chupando manga, a inocência e bom coração de Sergey evocam muito mais meu bisavô Basílio, nascido, porém, em Kyiv. Como os dois se casaram e tiveram uma penca de filhos, só a NASA explica. Porém, fiquei muito tocado com sua iniciativa de dedicar o dinheiro ganho no Domingão distribuindo bolsas a alunos pobres, embora não tenha ganhado o prêmio máximo e, pior, errado uma pergunta sobre biquíni! Mesmo assim, seu Instagram pessoal, que passou de pouco mais de 600 seguidores pra mais de 29 mil até a tarde da segunda-feira seguinte, se tornou um registro permanente da aguardada façanha.

No encerramento do quadro, depois de Sergey ter errado uma das perguntas, ele pediu pra mandar um recado pra sua família, acredito que pra sua mãe e seu irmão, embora ele não os tenha mencionado antes. Embora ele também fale romeno, sua mãe só fala russo, e nessa língua ele pediu pra se comunicar, ocasião que aproveitei, obviamente, pra fazer uma “média” no WhatsApp entre meus amigos, rs: filmei com o celular a transmissão no Globoplay após voltar alguns minutos em meu computador e espalhei o vídeo com a transcrição (como acredito que deve ser) e a tradução. Foi uma pena que não consegui lançar esta publicação ainda ontem.

O que me chamou a atenção foi a palavra “taliánchik”, que tirei de ouvido e não sabia se estava certa, porque parecia algo relacionado à “Itália”. De fato, o significado mais corrente é o de “qualquer pedra ou cristal precioso”, “ametista”, “quartzo puro”, e em russo dialetal (não descobri o lugar exato) é um sinônimo de “querido”, “amado”, ou seja, faz sentido neste contexto. Se você tem outra tradução, favor escrever nos comentários. Além disso, pra obter uma versão de melhor qualidade, infelizmente o vídeo baixado da fonte original com a extensão que costumo usar ficou danificado exatamente no trecho concernido, e acabei usando outra extensão que “despedaçou” o vídeo e tive de juntar as partes desejadas. Apesar de não estar límpido como sempre, vale muito a pena pra nossos fins:


“Мамочка, люблю тебя! Братишка-тальянчик, спасибо вам огромное за всё, за жизнь, за любовь вашу. Люблю тебя, мамуля!” (Mámochka, liubliú tebiá! Brátishka-taliánchik, spasíbo vam ogrómnoie za vsió, za zhizn, za liubóv váshu. Liubliú tebiá, mamúlia!)

“Mamãe, eu te amo! Meu irmãozinho querido, muito obrigado por tudo, pela vida, pelo amor de vocês. Eu te amo, mãezinha!”


Aliás, aproveitando a ocasião pra descarregar um print cômico: numa das edições do jornal diário Vot Tak Moldova, transmitido em russo a partir da Polônia, a apresentadora com um dos deputados do PAS, partido de Maia Sandu, parece a Ana Castela entrevistando o Zohran Mamdani, rs.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Pero Gandavo, Fernão Cardim e colonização

Tendo guardado por alguns anos meus primeiros trabalhos escritos da graduação em História na Unicamp em seu formato impresso original, com as correções, observações e notas dos professores, resolvi um dia digitalizar a maioria deles, quando não tivesse backup dos arquivos Word originais. Nunca tinha pensado em os publicar na página, mas quando percebi que o navegador Chrome estava avançado o suficiente pra detectar textos automaticamente e possibilitar sua cópia pra outros programas, decidi tentar fazer isso com essas relíquias, que de fato só exigiram alguns reparos pontuais, pois o conteúdo saiu quase todo com espantosa exatidão!

Portanto, estou publicando hoje um trabalho de disciplina ministrada por Leila Mezan Algranti, “HH384 – História do Brasil I” (período colonial) no 1.º semestre de 2007, entregue no dia 9 de abril. O título é “Análise comparativa das obras História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gandavo (estava assim, talvez o correto seja Gândavo), e Tratados da terra e gente do Brasil, de Fernão Cardim”, dois cronistas portugueses do século 16 que pensavam estar fazendo as vezes de historiadores e descreveram, sobretudo, as populações indígenas da costa brasileira, com preconceitos bem peculiares aos exploradores da época. No primeiro parágrafo expliquei bem minha tarefa, mas este texto específico merece algumas observações sobre a nova edição.

Primeiro, acrescentei alguns sublinhados feitos pela própria Leila, seguidos de suas observações entre colchetes e que originalmente estavam nas laterais das folhas. Segundo, no trabalho original, bem como nesta reedição, mantive a ortografia, incluindo falta ou excesso de acentos gráficos, como figurava nos textos do século 16, o que explica, por exemplo, que nas citações a obra História da Província de Santa Cruz apareça como “História da Provincia Santa Cruz”, sem o agudo de “Província” nem a preposição “de”. E terceiro, apenas atualizei a ortografia e as normas de citação bibliográfica e corrigi pontos que realmente não davam pra engolir ou que ficariam melhores de outra forma, sem alterar, contudo, o estilo redacional geral.

Qual foi a nota? 8,5, acompanhada do garrancho (ai de mim!) ao final que transcrevo a seguir: “Erick, muito boa a pesquisa, a seleção dos autores e a contextualização. O trabalho está também bem escrito e estruturado. Senti falta, apenas, de um pouco mais de ‘liberdade’ sua para proceder à análise de alguns trechos selecionados por você.” Realmente, a gente não pode ter “liberdade” quando não é especialista num tema e tem um baita medo de parecer estar “inventando” coisas de que o professor não vai gostar, rs. Mas é essa “ousadia” que de fato vamos aprendendo a ter durante a graduação e, sobretudo, a pós-graduação. Curiosidade: era pra ter outro trabalho no fim do semestre, o que não ocorreu devido a uma das célebres greves do período, a primeira que peguei, inclusive. Portanto, em todas as matérias, ficamos com a nota do primeiro trabalho como média, neste caso... oito e meio.



O presente trabalho consiste na análise comparativa entre duas obras de dois cronistas que escreveram sobre o Brasil no século 16, a saber História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gandavo, e Tratados da terra e gente do Brasil, com ênfase no opúsculo Do principio e origem dos indios do Brasil, do padre jesuíta Fernão Cardim. A escolha da obra de Cardim deu-se pelo fato de seu autor compartilhar com Gandavo um mesmo projeto de colonização para o Brasil, que priorizava a conversão das populações nativas ao catolicismo em detrimento da exploração econômica [será que de fato separou?], num momento em que o Império português voltava sua atenção para a América, porquanto sua primazia no Oriente começava a se tornar menos sustentável. Será demonstrada a predominância da visão detratora com relação ao Brasil [ou seus habitantes?] por parte dos cronistas contemporâneos, e como, para isso, colaborou a projeção do imaginário, ou seja, o monstruoso (com ênfase no demoníaco) ao desconhecido, o que justificou a empreitada catequizadora em terras americanas.


Sabe-se pouco sobre a vida de Fernão Cardim, cuja data de nascimento é objeto de discórdia, sendo a hipótese mais provável a de que tenha nascido em 1548, em Viana do Alentejo. Foi ministro do Colégio de Évora e, a 5 de março 1583, partiu para o Brasil, tendo passado por várias cidades da costa brasileira, o que lhe rendeu material para a Narrativa epistolar, encerrada quando ainda era reitor do Colégio da Bahia. Eleito na congregação provincial para procurador da Província do Brasil em Roma, Cardim partiu para lá em 1598 e, ao sair da Europa, a 24 de setembro de 1601, teve o navio em que viajava abordado por corsários ingleses. Isso resultou na sua condução à Inglaterra como prisioneiro, onde teve seus manuscritos tomados, retornando ao Brasil apenas em 1604. De volta, recebeu o cargo de provincial, que ocupou até 1609 e, mais tarde, assumiu o cargo de vice-provincial e, novamente, de reitor do Colégio da Bahia, até que, em 1624, os holandeses tomaram a Bahia e expulsaram muitos padres do Colégio, e, na ausência do provincial, Cardim assumiu o governo da província, falecendo a 27 de janeiro de 1625. (1)

Também são escassas as informações sobre a vida de Pero de Magalhães Gandavo, nascido em Braga, em ano desconhecido. Filho de pai flamengo, possuía conhecimentos do latim (que ele lecionava) e do grego, como todo humanista, escreveu uma Gramática da língua portuguesa acompanhada de um diálogo sobre a elegância da língua vernácula e foi moço de câmara do rei D. Sebastião. Tendo trabalhado na transcrição de documentos na Torre do Tombo, em Lisboa, é possível que tenha ocupado o cargo de Provedor-Mor do Brasil no Governo-Geral de Mem de Sá entre 1565 e 1570, período em que teria residido na Bahia e talvez teria visitado outras regiões da colônia portuguesa. De seus registros, para os quais teria auxiliado seu contato com líderes jesuítas, que possuíam grande prestígio político, publicou História da Província de Santa Cruz, em 1576, e, se é válida a hipótese de que ele nunca esteve no Brasil, deve ter se valido de informações fornecidas por jesuítas, o que se nota pela semelhança de sua obra com as cartas jesuíticas ao tratar de certos assuntos. Gandavo morreu em 1579, em Portugal, em local incerto. (2)

Apesar de Cardim ter atuado no campo religioso e Gandavo, no civil, ambos representaram uma época na qual o Brasil começava a tomar relevância em termos estratégicos no Império português, mas cuja colonização ainda era basicamente missionária, e cujo projeto de colonização será ferrenhamente defendido por esses dois homens ligados aos jesuítas, um diretamente, outro indiretamente. Cardim pertenceu à Companhia de Jesus, instituição cujo prestígio no Brasil era grande, como dito acima, e que influenciou as primeiras formas de povoamento do país, enquanto Gandavo gozava de prestígio perante a coroa portuguesa, vista a sua nomeação para um importante cargo em um local que também estava começando a adquirir importância. (3) Cabe ressaltar ainda que Cardim não conhecera os indígenas em estado totalmente selvagem, como os encontraram os primeiros colonizadores, mas, em grande parte, já catequizados, após a chegada dos jesuítas em 1549, o que é um empecilho para o reconhecimento de que “o amor à natural devia incliná-lo aos índios”. (4)


Gandavo, no “Prologo ao lector” da História da Província de Santa Cruz, chama sua própria obra de “historia”, e informa que ninguém havia ainda feito uma sobre o Brasil de “melhor estillo” ou “mais copiosamente” escrita do que a sua. Ele denuncia também a cobiça que os estrangeiros têm pela nova terra e a falta de conhecimento sobre a terra pelos portugueses, que dela deveriam aproveitar as riquezas e seu “remedio” aos “pobres e desamparados”, e lamenta a pouca afeição dos portugueses pela “escritura”, pela qual ele desejava dar à eternidade as “cousas” da terra, assim como faziam os antigos com outras nações. Enfim, após se mostrar “desejoso de agradar a todos os que della quizerem ter notícia”, julga seu próprio estilo “facil, e chão, como meu fraco engenho me ajudou”. (5)

Pela análise do “Prologo”, nota-se que a escrita de Gandavo tem como característica a exaltação dos grandes feitos do passado, associados aos sucessos militares e às ações bélicas necessários à manutenção do Império, sendo, portanto, seus chefes militares e líderes políticos os destinatários privilegiados, todos homens da corte portuguesa. De igual para igual, Gandavo, em seu lugar de autoridade, também alerta sobre a importância do saber letrado na tomada de decisões políticas equilibradas. Quanto ao seu desejo de dar notícia sobre a terra, é bom lembrar que a História não é uma propaganda “voltada ao público popular”, mas a tentativa de propagação de “um modelo de colonização prudente” junto ao público cortesão. Esse modelo torna-se mais visível ao se notar a preferência de Gandavo pelo nome “Terra de Santa Cruz”, que remete às finalidades devotas da busca da salvação, em detrimento de “Brasil”, ao qual está ligada a ideia da exploração puramente econômica. (6) O estilo casual é o reflexo de uma prática decorosa nas práticas retóricas e políticas da corte, da qual se infere principalmente o “efeito de naturalidade ou simplicidade”, a fim de que o relato se aproximasse mais à verdade do que “algo construído pela arte”. (7)

Nos Tratados da terra e gente do Brasil, em especial nos dois primeiros opúsculos que o integram, encontram-se informações brutas, que não tiveram a escrita devidamente polida e circularam anônimas, tendo sido atribuídas, por muito tempo, ao irmão Manuel Tristão. Deve-se lembrar que, na Companhia de Jesus, as informações brutas eram coletadas por irmãos, e não por padres, cabendo a estes a especulação teológica sobre elas e, se fossem autorizados, a escrita de obras de síntese “capazes de produzir um discurso edificante e como informação aos superiores para o recrutamento de missionários para terras além-mar”, (8) o que provavelmente é o caso dos Tratados. São características dos escritos de Cardim a simplicidade, a naturalidade e a ausência de artifícios de estilo e preocupações eruditas, com toques de bom humor, vivacidade, graça e comparações imprevistas. Além de ser um bom orador, provavelmente também estava a par dos saberes correntes em seu século, em especial a ciência médica. (9)


Os textos de Fernão Cardim, assim como os de Gabriel Soares de Souza e os de Pero de Magalhães Gandavo, não são livros de História, ainda que possam ser usados por especialistas da área, mas “descrições da realidade brasileira”. Os Tratados da terra e gente do Brasil são, na verdade, a reunião de três opúsculos: Do clima e terra do Brasil, Do principio e origem dos indios do Brasil e Narrativa epistolar. Este último foi o primeiro a ser publicado em português, em Lisboa, em 1847, foi reimpresso no Brasil em 1860 e recebeu reproduções parciais em revistas brasileiras nas décadas posteriores. Quanto aos dois primeiros, seus originais estavam entre os manuscritos roubados de Cardim durante sua prisão na Inglaterra, e foram publicados em inglês na coleção Purchas his Pilgrimes, de Samuel Purchas, com o título A treatise of Brazil written by a Portuguese which had long lived here, em 1625, tendo sido sua autoria atribuída ao irmão Manuel Tristão. Já no século 19, a obra em inglês foi comparada com dois manuscritos existentes na Biblioteca de Évora, do que se concluiu que as duas partes do Treatise eram capítulos de uma mesma obra, que estava sendo escrita em 1584. Pelo fato de os manuscritos não estarem assinados, a certeza da autoria só veio com a comparação do Treatise com a Narrativa epistolar, seguindo-se a publicação, no Brasil, em 1881, dos dois tratados separadamente e, finalmente, em 1925, o aparecimento dos três opúsculos em um só volume. Nele aparece a importância do caráter da obra de Cardim e suas múltiplas facetas, como geógrafo, etnólogo, zoólogo, botânico e o “historiador diserto”, como resultado de suas várias viagens pelo Brasil, em especial em seus primeiros anos de estadia. (10)


Desde muitos séculos, os europeus acreditavam que os habitantes de terras longínquas constituíam uma humanidade à parte, fantástica e monstruosa, e que, após a exploração de grande parte do mundo, em especial a Ásia e a África, não mais habitavam os confins desses continentes, mas a América e o oceano Atlântico. A partir do século 15, não só os monstros tenderam a se demonizar, como se somou a eles a concepção do homem selvagem, que não era tema novo e dependia da representação hierárquica da sociedade cristã, justificando a empresa colonial enquanto difusora de cultura e religião entre aqueles que não as tinham. Assim, os indígenas foram pensados, ao mesmo tempo, como uma outra humanidade, como animais e como demônios. (11) Foram fruto dessa tendência de demonização os relatos a respeito dos indígenas brasileiros escritos por Gandavo e Cardim, que enxergaram o puro pecado em práticas indígenas consideradas demoníacas, como a “cauinagem”, o paganismo, a preguiça, as guerras por vingança e a antropofagia. Tal demonização foi mais uma justificativa para a necessidade do trabalho missionário, pelo qual a Companhia de Jesus estaria conquistando espaços que antes pertenciam ao demônio, (12) mas também pode ter resultado da prática cristã de excluir os instintos de si mesmo, atribuindo-o ao Outro em termos negativos (13), e da ideia de que aqueles que não pertencem a Deus necessariamente pertencem ao diabo. (14)

A demonização não aparece somente em aspectos gerais da população indígena, mas especialmente em caracteres específicos, sendo o primeiro aqui posto em análise a personalidade. Não por acaso, Gandavo encerra a série de capítulos que edenizam a natureza brasileira com um capítulo IX dedicado especialmente ao choque de Baltezar Ferreira com o lendário monstro indígena Hipupiàra, morto por aquele homem em 1564. Quando, numa noite, uma índia alerta Ferreira da presença do monstro, "como elle fosse nam menos sizudo que esforçado, e esta gente da terra seja digna de pouco credito, nam Iho deu logo muito às suas palavras”, (15) o que resultou num susto maior. No capítulo seguinte, Gandavo não hesitou em qualificar os indígenas da costa como

de muito pouco consideraçam: sam desagradecidos em gran maneira, e mui deshumanos e crueis, inclinados a pelejar e vingativos por extremo. Vivem todos mui descançados sem terem outros pensamentos senam de comer, beber e matar gente [...]. Sam mui inconstantes e mudaveis: crêm de ligeiro tudo aquilo que lhes persuadem [...]. Sam mui deshonestos e dados á sensualidade [...]. (16)

Cardim faz poucas revelações a respeito da personalidade indígena, mas dá algumas pistas ao comentar sobre as “setenta e seis nações" de tapuias com as quais os portugueses não possuíam relações por serem “gente brava, silvestre e indomita”, “contrarias quasi todas do gentio que vive na costa do mar, vizinhos dos Portuguezes”. Com as tribos tapuias especificadas (que não são todas as existentes, mas grande parte delas), “não se pode fazer conversão por serem muito andejos, e terem muitas e diferentes linguas difficultosas”. (17)

Costumes também não escapam da detração, a começar pela língua falada pelos indígenas da costa, que, apesar de ser fácil e branda, “nam se acha nella F, nem L, nem R, cousa digna despanto porque assi nam têm Fé, nem Lei, nem Rei, e desta maneira vivem desordenadamente”, (18) ou seja, à maneira do inferno. Os dois autores também tratam dos adornos, mas de lados opostos: Gandavo diz que “ha [alguns] que trazem o rosto todo cheio de buracos e pedras, e assi parecem muito feios e disformes”, (19) enquanto Cardim informa que esses enfeites “são as riquezas que mais estimão que quanto têm. (20)

Como jesuíta, Cardim dá ênfase às crenças dos indígenas, e inicia o opúsculo Do principio e origem dos indios do Brasil informando que eles não têm “conhecimento do principio do Mundo” e descrevendo algumas de suas lendas. Mais adiante, diz que eles “têm grande medo do demonio, ao qual chamam Curupira, Taguaigba, Macachera, Anhanga [...]. Algumas vezes lhe apparecem os diabos, ainda que raramente, e entre elles ha poucos endemoniados”. (21) Essa afirmação (a de que os indígenas têm medo do diabo) entra em choque com a posterior demonização desse povo, que se inicia pela descrição dos pajés: “Entre elles se alevantarão algumas vezes feiticeiros, a que chamão Caraíba, Santo ou santidade, e é de ordinario algum Indio ruim de vida”. (22) Os pajés, considerados “mentirosos e enganadores”, eram um dos alvos preferidos da detração jesuítica, pois os “feiticeiros”, como eram chamados, afirmavam, entre outras coisas, que a água batismal gerava doenças mortais. Da conexão entre pajés e demônios, nasceu uma guerra vencida pelos jesuítas, que incluiu a pregação e a detração, seguidos da violência levada a cabo pelas autoridades influenciadas pelos religiosos. (23)

As ocas e as festas que nelas ocorrem constituem o lugar infernal por excelência. Gandavo já descreve as casas “feitas á maneira de cordoarias ou tarracenas fabricadas sómente de madeira”, nas quais “vivem todos muito conformes, sem haver nunca entre elles nenhumas differenças”. (24) Mas é Cardim quem falará das festas que duravam dois, três dias, durante as quais não se comia, mas apenas se bebia, “e de bebados fazem muitos desmandos, e quebrão as cabeças uns aos outros, e tomão as mulheres alheias etc.”, (25) e dos dias de comemorações que antecediam a execução de um prisioneiro: no terceiro dia, há danças com bater dos pés e toque de gaitas, fazendo “uma harmonia que parece a musica do inferno, mas elles aturão nellas como se fossem as mais suaves do mundo”, e no quarto dia, mais festas, com bebedeira, cantoria, danças e contar de histórias, “e tanto que começam a beber é um lavarinto ou inferno ve-los e ouvi-los, porque os que bailão e cantão aturam com grandiosíssimo fervor quantos dias e noites os vinhos durão”. (26) Porém, a harmonia na qual os indígenas convivem é ressaltada pela possibilidade que Cardim apresenta de se fazer conviver os costumes indígenas com a natureza cristã, gerando assim uma “narrativa de consolação” em meio à dificuldade missionária. (27)

Demonizam-se também as guerras realizadas entre os indígenas, entre os quais, segundo Gandavo, “nunca se acha nelles paz nem será possivel, segundo são vingativos e odiosos”, cuja solução seria a doutrinação católica. São “desejosos de exercitarem sua crueldade” e “mui atrevidos [...] e tam confiados em sua valentia, que nam há forças de contrarios tam poderosas que [...] os façam desviar de suas barbaras e vingativas tenções”. (28) Para Gandavo, os indígenas, na paz, se governam com justiça, mesmo com poucas noções de hierarquia, mas guerreando, são ferozes, desumanos e frágeis, cabendo aos portugueses, portanto, governá-los na paz, momento no qual o demônio estaria mais enfraquecido. (29) E é essa guerra que, em Gandavo, demonizará os aimorés, que são “mais ferozes e de menos razam”, vivem como “brutos animaes”, têm uma guerra danosa, pois “são mui barbaros, e toda a gente da terra lhes he odiosa”, são “pérfidos” e muito rápidos nas batalhas, o que os torna muito temidos. (30) Desses relatos se infere que

A violência cotidiana era uma das faces com que se pintava a humanidade-anti-humana dos ameríndios. Humanidade ameaçadora, que colocava os europeus entre o risco de ser flechado e o de ser comido. (31)

Realmente, a prática antropofágica está estritamente relacionada à guerra, cuja união se deve à cerimônia que precede a captura de um inimigo por uma aldeia. A ocasião, relatada em minúcias tanto por Gandavo quanto por Cardim, consiste no seguinte: capturado o inimigo, ele é levado à aldeia e recebido com grande entusiasmo pelos indígenas. Lá, ele permanece prisioneiro por meses ou até anos, possuindo relativa liberdade de movimentação, com uma corda amarrada ao pescoço e convivendo com uma mulher que lhe faz companhia. Marcado o dia para a sua execução, começam as festas, já descritas acima, que começam cinco dias antes, chegando ao ápice, que é o encaminhamento do prisioneiro ao seu executor. Com a corda agora na cintura, após um ritual que envolve um índio “padrinho” do algoz, o prisioneiro, sendo “tanta a bruteza destes”, provoca o carrasco, dizendo que “muito embora morra, pois muitos tem mortos, e que alem disso cá ficão seus irmãos e parentes para o vingarem”. (32) Logo após, o prisioneiro é morto com uma paulada (os cronistas chamam o instrumento de “espada”) no crânio, e logo é assado e repartido entre os convidados para que seja comido.

Para Gandavo, esse destino é “Huma das cousas em que estes Indios mais repugnam o ser da natureza humana, e em que totalmente parece que se extremam dos outros homens”, e, ao lhe comerem a carne, usam “nesta parte de cruezas tam diabolicas, que ainda nellas excedem aos brutos animaes que nam tem uso de razam nem foram nascidos pera obrar clemencia”. (33) Já Cardim julga que, dessas cerimônias, “são muitas dellas tão penosas que se alguem por amor de Deus sofresse os seus trabalhos não ganharia pouco”, e finaliza informando que “estas são as infelizes festas, em que estes tristes antes de terem conhecimento de seu Creador põem sua felicidade e gloria”. (34) As descrições de atos antropofágicos dão a clara impressão de que se está diante de cenas totalmente demoníacas, que não abrem espaço para considerações valorativas, predominando a detração, a oposição entre indígenas e cristãos e um limite, à primeira vista, intransponível, entre barbárie e verdade. (35) Como não há estado de inocência após a queda, a ausência de fé, lei, e rei, como diria Gandavo, não pode fazer com que a índole cruel se revele durante a guerra, gerando as instituições diabólicas que se fazem ver na vingança, na morte do inimigo e no consumo de sua carne. (36)


Como os comentadores das obras de Fernão Cardim e Pero de Magalhães Gandavo não cansaram de dizer, em especial Capistrano de Abreu, elas não foram as melhores histórias do Brasil escritas no século 16, se é que podem se enquadrar no gênero histórico, mas elas têm seu valor devido ao pioneirismo que carregam em si. Ainda que esses registros possam carecer de confiabilidade, pois não se tem a certeza de que foram escritos com base na observação direta, e de que os autores realmente viram as cenas que descreveram (37), eles guardam importantes dados, que são a mentalidade dos pioneiros da colonização e a carga cultural que eles levavam consigo, coisas que se perderam de geração para geração, mas se mantiveram nos documentos. As obras ajudam também a pensar na origem de muitos preconceitos com relação aos indígenas, que acompanham a população branca е católica do Brasil desde o início da formação de sua identidade.


Bibliografia

CARDIM, Fernão. Tratados da terra e gente do Brasil. Introdução e notas de Batista Caetano, Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia. São Paulo: Companhia Editora Nacional; Brasília: INL, 1978.

GAMBINI, Roberto. O espelho índio: os jesuítas e a destruição da alma indígena. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1988.

GANDAVO, Pero de Magalhães. História da Provincia Santa Cruz. Introdução de Capistrano de Abreu. São Paulo: Obelisco, 1964. (“Cadernos de História”, 2.)

LUZ, Guilherme Amaral. Pero de Magalhães Gandavo e a ética ultramarina portuguesa na Terra de Santa Cruz. História e Perspectivas, Universidade Federal de Uberlândia, n. 32-33, jan.-jun./jul.-dez. 2005.

______. Carne Humana: a retórica do canibalismo na América portuguesa quinhentista. Tese de Doutorado. Campinas: UNICAMР, 2003.

SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.


Notas (Clique pra voltar ao texto)

(1) GARCIA, Rodolfo. Introdução. In: CARDIM, Fernão. Tratados da terra e gente do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional; Brasília: INL, 1978, p. 10-15.

(2) LUZ, Guilherme Amaral. Pero de Magalhães Gandavo e a ética ultramarina portuguesa na Terra de Santa Cruz. História e Perspectivas, Universidade Federal de Uberlândia, n. 32-33, jan.-jun./jul.-dez. 2005, p. 70 e 82-83; “Pero de Magalhães Gândavo”. Disponível nesta página (versão arquivada). Acesso em: 08 abr. 2007.

(3) LUZ, Guilherme Amaral Luz, Op. Cit., p. 72-73.

(4) ABREU, Capistrano de. Apenso (De O JORNAL, de 27 de janeiro de 1935). In: CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 256.

(5) GANDAVO, Pero de Magalhães. História da Provincia Santa Cruz. São Paulo: Obeliscо, 1964, р. 22.

(6) LUZ, Guilherme Amaral, Op. Cit., p. 73 e 76-79.

(7) Ibid., p. 74.

(8) CASTELNAU-L’ESTOILE, Charlotte de. Les ouvriers d’une vigne stérile : les jésuites et la conversion des Indiens au Brésil, 1580-1620. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000, p. 376-377 apud LUZ, Guilherme Amaral. Carne Humana: a retórica do canibalismo na América portuguesa quinhentista. Tese de doutorado, Campinas, SP, UNICAMP, 2003, р. 195.

(9) GARCIA, Rodolfo. Introdução. In: CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 19.

(10) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 9, 94 e 250-252.

(11) SOUZA, Laura de Mello e Souza. O Novo Mundo entre Deus e o Diabo. In: O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p. 49-56.

(12) LUZ, Guilherme Amaral. Pero de Magalhães Gandavo e a ética ultramarina..., Op. Cit., p. 81.

(13) GAMBINI, Roberto. O espelho índio: os jesuítas e a destruição da alma indígena. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1988, р. 128.

(14) Ibid., p. 159.

(15) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 52 (grifo nosso).

(16) Ibid., p. 55.

(17) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 127.

(18) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 54.

(19) Ibid., p. 56.

(20) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 109.

(21) Ibid., p. 102-103.

(22) Ibid., p. 103.

(23) GAMBINI, Roberto, Op. Cit., p. 166-167 e 170-171.

(24) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 55.

(25) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 104-105.

(26) Ibid., p. 115-116.

(27) LUZ, Guilherme Amaral. Carne Humana..., Op. Cit., p. 193-194.

(28) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 58-60.

(29) LUZ, Guilherme Amaral. Pero de Magalhães Gandavo e a ética ultramarina..., Op. Cit., p. 90.

(30) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 65-66.

(31) SOUZA, Laura de Mello e. O Novo Mundo entre Deus e o Diabo..., Op. Cit., p. 59.

(32) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 117-118.

(33) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 62.

(34) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 119-120.

(35) LUZ, Guilherme Amaral. Carne Humana..., Op. Cit., p. 196.

(36) Ibid., p. 214.

(37) GAMBINI, Roberto, Op. Cit., p. 150.



domingo, 1 de fevereiro de 2026

Já se fala no “kholodomor” de Putin!

É fato: no último verão europeu, Putin não conseguiu avançar grande coisa com sua invasão criminosa e injustificada à Ucrânia. Óbvio que foi mais território que nos outros anos, mas uma área extremamente irrisória pra seu objetivo último de capturar Zelensky e sem ruptura maior na frente de batalha nem captura de grandes cidades estratégicas (fora um ou outro ponto logístico). Pior, nunca morreram ou se feriram tantos militares russos quanto no ano de 2025, em comparação com os três anteriores; e estima-se que só as baixas invasoras já são muito maiores que as ucranianas. O império da mentira é tão descarado que, enquanto o Estado-maior do agressor anuncia com fanfarra a tomada de uma cidadezinha lá no fim do mundo, os próprios blogueiros pró-guerra (chamados de “Z-voienkory”), cobrindo no local, negam as informações dos mestres! (Não duvido que esses sabujos um dia vão se lascar quando o Kremlin resolver estabelecer o monopólio da propaganda...)

Quando o exército ucraniano se encontra em dificuldades, os simpatizantes ocidentais de Putin logo rejubilam dizendo pro público ingênuo que “agora a Rússia está com a iniciativa na guerra”; “guerra”, não “invasão”, “agressão”, “anexação” ou “genocídio”. Não nego que outras potências imperialistas no passado tenham usado a destruição de infraestrutura civil pra diminuir a resistência inimiga (os EUA no Iraque, especialmente em Bagdá, em 2003, por exemplo). Por isso, não quero ser acusado de hipocrisia ao tratar o caso de hoje. Mas o que me incomoda não são grupos “progressistas” se esquecendo de guerras ao redor do mundo (há dezenas, e ninguém, muito menos a direita liberaloide, dá conta), e sim claramente pintando criminosos como vítimas ou anti-imperialistas.

Nessa invasão que virou guerra de usura, o recurso à avaria na água, luz, energia, transportes, aquecimento etc. revela justamente a fraqueza, e não a força, do lado que o comete. Porém, a história recente mostra que esse tipo de atitude gera muito mais resistência do povo agredido do que resignação e rendição. Se “viver pra ver”, Putin não vai ter que pagar só diante da Ucrânia e do resto do mundo, mas também, e sobretudo, diante da Rússia que ele está arruinando aos poucos (sim, pode demorar anos, mas os efeitos negativos um dia vão explodir) e dos muitos povos que ele está usando de carne de canhão. Se a tal “comunidade internacional” vai se conscientizar e finalmente tomar uma firme atitude um dia, já é outra questão. O que eu trouxe aqui são fatos que aparecem na mídia combatente em diversas línguas, inclusive russo, e independem de adesão ideológica ou partidária.

E um desses fatos que pode passar esquecido no futuro, mas que faço questão de registrar aqui, mesmo fazendo o mês de fevereiro ser aberto por inominável tragédia, foi informado por Kirill Martynov em seu Notícias Terríveis (Novaya Gazeta Evropa) deste sábado. Uma senhora de 90 anos, sobrevivente do Holocausto, morreu sozinha em seu apartamento de problemas no coração, agravados pela situação em que os bombardeios russos deixaram as infraestruturas civis. As autoridades locais (com que finalidade, hein?...) fizeram questão de ressaltar que o problema foi cardíaco, e não decorrente de congelamento, mas a nova ofensiva de Putin já está sendo chamada de “kholodómor” (холодомор), em analogia com o “holodomór” (голодомор), fome na Ucrânia em 1933-34 que Kyiv acredita ter sido arquitetada por Stalin. “Hólod” em ucraniano e “gólod” em russo significam “fome”, e “khólod” significa “frio” nas duas línguas.

Adendo de um amigo (3/2/2026): “Há dados suficientes (documentos como leis e cartas) que provam que o Holodomor foi dirigido contra certas populações, como as ucranianas, inclusive que viviam em Kursk, Belgorod e no Kuban [hoje partes da Rússia]. No caso do Holodomor, os cazaques e os alemães do Volga [também] foram alvo da fome genocida.”

A informação, que traduzi mais abaixo, foi dada em inglês no Équis pelo rabino-chefe da Ucrânia, Moshe Azman, e noticiada também em inglês pelo portal Inkorr, em russo pelo portal TSN e em ucraniano pelo portal Vikna. O mesmo Inkorr também noticiou o laudo sobre sua morte por isquemia cardíaca crônica, e não por hipotermia.

O mais revoltante é uma sobrevivente do Holocausto ter morrido perto de 27 de janeiro, dia internacional de lembrança de suas vítimas, e vários outros sobreviventes da Shoah, bem como veteranos, centenários ou quase, da 2.ª Guerra Mundial (que a memória stalino-putinista instrumentalizou como “Grande Guerra Patriótica”) terem perecido sob as bombas do Kremlin, apesar de sua verborragia “antifascista”. A mesma comemoração que parte da esquerda lembra pelo fato dos soviéticos terem sido os libertadores de Auschwitz não os alerta sobre o crescimento global do antissemitismo, sobretudo na Rússia “anti-imperialista”, e a distorção, por esse invasor, do combate ao adolfismo, que cresce a olhos vistos em sua própria pátria.



Em Kyiv, Ievgenia Mikhailovna Bezfamilnaia [tal como figura no post, deixei o nome em russo, e Martynov disse que ela falava essa língua e o ídiche], uma senhora de 90 anos da comunidade judaica, morreu devido às condições de vida insuportáveis. Ela sobreviveu milagrosamente ao Holocausto, mas não sobreviveu às ações dos “desnazificadores” ruSSos, que a condenaram a uma morte terrível em um apartamento gelado durante uma severa onda de frio invernal, privando não só ela, mas todos os moradores de Kyiv de aquecimento, água e eletricidade. Numa época em que a temperatura chegou a 24 °C negativos!!!

Oficialmente, a causa da morte consta como insuficiência cardíaca, mas todos nós entendemos perfeitamente que, dada a sua idade e as suas inúmeras doenças, as terríveis condições de vida em que se encontrava, devido aos constantes ataques ruSSos à infraestrutura civil de Kyiv, simplesmente “acabaram” com esta avó heroica, que resistiu até o fim...

Ievgenia Bezfamilnaia foi morta pelo exército ruSSo, assim como o médico Alexander Bonder, de 84 anos, membro da comunidade judaica de Kherson, que faleceu recentemente em decorrência dos ferimentos sofridos em um bombardeio ruSSo. Sob os slogans de “desnazificação” e “libertação”, eles lançam drones, mísseis e todos os meios de destruição, matando pessoas inocentes na Ucrânia e condenando-as a uma existência em um frio insuportável, sem água ou eletricidade...

O funeral de Ievgenia Mikhailovna será realizado no domingo, no cemitério judaico de Barakhty.

Baruch Dayan a-Emet. Que sua memória seja abençoada!


sábado, 31 de janeiro de 2026

O sociólogo FHC sobre a escravidão

Tendo guardado por alguns anos meus primeiros trabalhos escritos da graduação em História na Unicamp em seu formato impresso original, com as correções, observações e notas dos professores, resolvi um dia digitalizar a maioria deles, quando não tivesse backup dos arquivos Word originais. Nunca tinha pensado em os publicar na página, mas quando percebi que o navegador Chrome estava avançado o suficiente pra detectar textos automaticamente e possibilitar sua cópia pra outros programas, decidi tentar fazer isso com essas relíquias, que de fato só exigiram alguns reparos pontuais, pois o conteúdo saiu quase todo com espantosa exatidão!

Assim, nos despedimos de janeiro com meu segundo e último trabalho da disciplina HH483A – História do Brasil II, ministrada no 2.º semestre de 2007 por Sidney Chalhoub, um dos maiores especialistas na obra de Machado de Assis. O título é “Comentário sobre excerto do livro Capitalismo e escravidão no Brasil meridional, de Fernando Henrique Cardoso”, em que fomos “forçados” a um exercício crítico sobre dois parágrafos publicado pelo sociólogo em 1977. Escolhi esses, mas havia um parágrafo de outro livro como opção, ambos obrigando a um delicado exercício que demandava impessoalidade, uso do arcabouço que adquirimos durante o curso e cuidado pra não cair em contradição nem em julgamentos apressados.

Os primeiros parágrafos constituem a tarefa a ser feita, cujo prazo final e data de entrega foram 11 de dezembro de 2007. Embora o Sidney só tivesse feito uma única observação que consta nesta publicação, acabei recebendo um “A -” obviamente não copiado aqui, o que não me impediu (pela segunda vez!) de receber a média 10 numa disciplina de graduação sua. Ele herdou esse sistema de letras de sua longa experiência lecionando nos EUA, mas como ele disse certa vez, no final ele sempre dava “um jeito de transformar isso em número”, que todos os outros professores já nos atribuíam diretamente. Mais uma vez, precisei atualizar a ortografia e (desta vez com bem menos frequência) corrigir pontos que realmente não davam pra engolir ou que ficariam melhores de outra forma, sem alterar, contudo, o estilo redacional geral:


Escolha um e somente um dos temas sugeridos.

Leia o trecho abaixo:

“Do ponto de vista jurídico é óbvio que, no sul como no resto do país, o escravo era uma coisa, sujeita ao poder e à propriedade de outrem, e, como tal, havido por morto, privado de todos os direitos e sem representação alguma. A condição jurídica de coisa, entretanto, correspondia à própria condição social do escravo.

“A reificação do escravo produzia-se objetiva e subjetivamente. Por um lado, tornava-se uma peça cuja necessidade social era criada e regulada pelo mecanismo econômico de produção. Por outro lado, o escravo autorrepresentava-se e era representado pelos homens livres como um ser incapaz de ação autonômica. Noutras palavras, o escravo se apresentava, enquanto ser humano tornado coisa, como alguém que, embora fosse capaz de empreender ações com ‘sentido’, pois eram ações humanas, exprimia, na própria consciência e nos atos que praticava, orientações e significações sociais impostas pelos senhores. Os homens livres, ao contrário, sendo pessoas, podiam e exprimir socialmente a condição de ser humano organizando e orientando a ação através de valores e normas criados por eles próprios Nesse sentido, a consciência do escravo apenas registrava e espelhava, passivamente, os significados sociais que lhe eram impostos”.

(Fernando Henrique Cardoso, Capitalismo e escravidão no Brasil meridional, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977, p. 125.)

A sua tarefa é escrever um comentário sobre esta passagem, enfatizando, explicando e/ou criticando o que lhe aprouver. O seu texto deve ter até 3 páginas, espaço um e meio, letra Times New Roman 12.


Nas ciências humanas, existe uma corrente interpretativa tradicional que costuma ver a escravidão como um processo de simples coisificação de homens, mulheres e crianças de origem africana. Transferidos de lar involuntariamente, eles teriam sido privados de quaisquer direitos jurídicos e se tornado como que objetos vivos e meros reflexos da cultura e do pensamento dos “homens livres”, que, ao contrário, seriam portadores de autonomia de ação e valores e normas particulares. E não somente esses “homens livres” assim enxergavam os escravos, como estes próprios assim se consideravam. Tal é a hipótese defendida por Fernando Henrique Cardoso em Capitalismo e escravidão no Brasil meridional (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977), mais especificamente na página 125, que trata de tal passividade, inação e “reificação” inatas à condição servil. No presente texto, quero comentar de modo crítico algumas das afirmações expostas pelo sociólogo, situadas no local citado, que comporta certas generalizações e ideias que, após a publicação de vários estudos inovadores, podem ser relativizadas ou mesmo descartadas.

Cardoso, para qualificar suas afirmações, inicia com a expressão “é óbvio”. Mas será que uma descrição generalizada sobre a escravidão pode ser tomada como tão óbvia assim? Deve-se considerar primeiramente que, embora, como afirma o autor, o escravo tenha sido considerado juridicamente uma “coisa”, a prática foi deveras diferente em muitas situações que não são mais tidas hoje como casos particulares, mas exemplos de atitudes que eram muito comuns. Em segundo lugar, a situação servil variou consideravelmente de uma época a outra, o que se torna mais claro se for feita uma comparação entre a primeira metade do século 19 e a segunda, período no qual foram aprovadas várias leis, ainda que não totalmente eficazes, que tentaram acabar aos poucos com a escravidão e melhorar a vida do escravo. Uma dessas atitudes foi a oficialização da alforria por pecúlio, um direito consuetudinário consolidado, no artigo 4.º da Lei n.º 2040 de 28 de setembro de 1871, dita “do Ventre Livre”. Só o fato de existir antes da lei essa possibilidade ao escravo já comprova também a discrepância entre legislação e práticas reais, além de desqualificar a afirmação de que o escravo era “privado de todos os direitos”.

Também é complicado afirmar, como faz Cardoso, que o escravo não possuía representação, à luz do conhecimento de vários advogados que atuaram em causa dos escravos cansados dos maus tratos perpetrados pelos senhores, destacando-se, entre tantos, Luiz Gama, ele mesmo um ex-escravo. É-nos conhecido que o escravo não podia representar-se a si mesmo autonomamente, porém, a representação por meio de outrem, que era possível, já invalida quase totalmente a assertiva. Outro problema consiste em afirmar que “A condição jurídica de coisa [...] correspondia à própria condição social do escravo”. Ser escravo não significava exatamente ser uma “coisa”, pois uma “coisa” não poderia cultivar sua própria roça de subsistência ou mesmo receber uma alimentação relativamente farta em relação à de grande parte da população brasileira. A preocupação com sua nutrição acontecia pelas necessidades de se obter trabalho garantido do negro por meio da constante reposição de suas forças e de conservar uma mercadoria que, ao longo dos anos, tornou-se cada vez mais custosa. Já falei do pecúlio destinado à compra da própria liberdade, mas devem ser citados ainda os casos em que o escravo comprava outro escravo, ou, como acontecia com mais frequência, fazia-o já liberto para garantir sua nova condição, muitas vezes abrindo um negócio com esse trabalho alheio. Não é estranho uma “coisa” poder possuir um bem tão valioso?

A “necessidade social” do escravo, segundo Cardoso, “era criada e regulada pelo mecanismo econômico de produção”. Não devemos discordar disso totalmente, pois não só pensar um país sem escravidão não fazia parte das possibilidades da quase totalidade do período escravista, como também a demanda de braços para o trabalho nas regiões monocultoras era sempre contínua e considerável. Todavia, a escravidão nas cidades, além da questão dos castigos menos frequentes, possuía várias diferenças em comparação com a situação do escravo rural, decorrentes do dinamismo urbano que tornava a instituição mais flexível. Em outras palavras, a socialização era mais fácil, a possibilidade de juntar dinheiro fazia-se realidade, abrindo caminho à alforria, e as opções de trabalho constituíam um leque maior de escolhas, com ênfase no aprendizado de novos ofícios pela relação mestre-aprendiz.

É mais difícil ainda acompanhar Cardoso na ideia de que o escravo via-se e era visto pelos “homens livres” como “um ser incapaz de ação autonômica”, a começar pela visão do próprio escravo. Havia múltiplas formas de resistência ativa e passiva, sendo uma das mais famosas o “banzo”, a melancolia ocasionada pela opressão, que muitas vezes levava o escravo ao suicídio ou à morte por inanição. Se o escravo se sentisse mesmo como uma “coisa”, não deixaria a depressão e o desânimo tomarem conta de si. Outra pedra no sapato é a questão dos “homens livres”: quem eram eles? Podiam ser livres tanto senhores de engenho, ricos, poderosos e, muitas vezes, cruéis, como também o sertanejo e o trabalhador urbano pobres, de vida instável, poucas posses e sem proteção contra as vicissitudes da vida. O cotidiano de escravos e o de homens livres pobres eram comparáveis em vários aspectos, isso quando não surgia uma solidariedade entre os dois grupos, ou mesmo quando o livre não levava uma existência pior que a do escravo, que ao menos, por ser considerado um bem caro, gozava de abrigo, medicina e alimentação garantidos.

Por fim, podem-se contestar as afirmações de Cardoso sobre o intercâmbio sociocultural entre a classe dos escravos e a dos homens livres. Os primeiros, nas palavras do ex-Presidente da República [anotação lateral ao lado dessa frase: “não o era, à época que escreveu o livro em questão”], não faziam mais do que refletir “orientações e significações sociais impostas pelos senhores” (grifo no original), enquanto os segundos regiam-se por “valores e normas criados por eles próprios”. A princípio, verifiquemos se é verdade que os escravos eram apenas reflexo dos valores senhoriais. Estes homens tradicionais, conservadores e católicos, por acaso, teriam condições de inspirar uma revolta em Salvador que foi planejada sobretudo pela troca de em mensagens em árabe? Não conheço senhores que compartilhassem da cultura e do pensamento dos malês, os escravos muçulmanos que, em 1835, levaram a cabo a rebelião que terminou levando seu nome.

Isso sem contar as ressignificações dos símbolos europeus que os africanos promoveram, por meio do uso corriqueiro de nomes e imagens dos santos brasileiros para disfarçar seus antigos cultos, ou por meio da prática de um catolicismo à sua própria maneira. Aí se encaixam as repetições de ritos católicos sem que se conhecesse minimamente seu significado, repetições (ou tentativas de repetições) automáticas que acabaram criando uma expressão cultural própria.

E o que dizer da suposta imunidade das ações dos livres, sobretudo os pobres? Não a vejo em um grupo de pessoas que se contaminou com o vocabulário escravo, rico de miudezas de idiomas como o iorubá; com a culinária que legou a feijoada, prato que, apesar de originado dos restos do que era destinado à refeição senhorial, tornou-se tradicional em várias camadas da sociedade brasileira; ou com o folclore, em especial as cantigas de ninar, cantadas pelas amas-de-leite aos filhos dos senhores, muitos dos quais sempre lhes retribuíram toda a atenção e o carinho concedidos durante sua infância.

Diante de inúmeras evidências trabalhadas pelas pesquisas mais recentes, fica praticamente impossível sustentar integralmente as hipóteses de Fernando Henrique Cardoso, que, em resumo, postulam uma suposta condição reificada e heterônoma do escravo, e a ausência de expressões próprias do escravo e de transmissão de valores do escravo para o homem livre. Com efeito, é sensato concluir que o escravo possuía consciência de sua humanidade; que nem sempre lhe faltaram as condições necessárias para uma existência razoável; que ele desenvolveu formas de expressão próprias, muitas vezes remodelações dos significados brancos cristãos; e, finalmente, que a tradição dos homens livres, especialmente aqueles que tinham contato mais direto com os escravos, não foi imune às influências da cultura negra.



sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O caráter complexo do Sete de Setembro

Tendo guardado por alguns anos meus primeiros trabalhos escritos da graduação em História na Unicamp em seu formato impresso original, com as correções, observações e notas dos professores, resolvi um dia digitalizar a maioria deles, quando não tivesse backup dos arquivos Word originais. Nunca tinha pensado em os publicar na página, mas quando percebi que o navegador Chrome estava avançado o suficiente pra detectar textos automaticamente e possibilitar sua cópia pra outros programas, decidi tentar fazer isso com essas relíquias, que de fato só exigiram alguns reparos pontuais, pois o conteúdo saiu quase todo com espantosa exatidão!

Portanto, estou publicando hoje outro trabalho de disciplina ministrada por Sidney Chalhoub, um dos maiores especialistas na obra de Machado de Assis, mas desta vez da disciplina “História do Brasil II”, sua especialidade, que ele ministrou no 2.º semestre de 2007. O título autoexplicativo é “Primeiro trabalho de análise historiográfica – A historiografia brasileira recente sobre a Independência”, consistindo num repasse de visões consagradas sobre a proclamação de 1822 e, mais importante, de como a identidade brasileira não estava dada no momento do “grito do Ipiranga”, mas foi sendo construída ao longo das décadas de uma separação sempre sob o risco de ser revertida. Os três primeiros parágrafos constituem a tarefa a ser feita, e mantive o estilo de redação original, apenas abolindo a numeração romana.

Dado que avancei muito mais em experiência (o texto, por exemplo, tem bem menos rabiscos), esclareço que meu objetivo não é tornar pública minha “evolução”, comparando uma publicação com outra, mas simplesmente disponibilizar à consulta geral o conteúdo em si. O quanto evoluí não interessa a ninguém senão a mim, que percebi pessoalmente o resultado do esforço ou da falta dele. Mais uma vez, precisei atualizar a ortografia e as normas de citação bibliográfica e corrigir pontos que realmente não davam pra engolir ou que ficariam melhores de outra forma, sem alterar, contudo, o estilo redacional geral. Algo que realmente me espantou e que realmente precisei arrumar foi eu ter usado mesóclise em alguns pontos, mas tanto eu quanto o Sidney termos deixado passar um “teria-se” e um “acentuaria-se”, ou seja, ênclise com o futuro do pretérito (condicional), que não existe, pois também exige mesóclise.


1) Leia o trecho abaixo, extraído de Jurandir Malerba, org., A Independência Brasileira: Novas Dimensões, Rio de Janeiro, Editora FGV, 2006, р. 20:

“É debate antigo determinar qual teria sido o ‘caráter’ da independência, se conservadora, reformista ou revolucionária. Em outras palavras: o que haveria de ruptura e o que de continuidade no processo de independência? Quanto à inserção do Brasil no contexto internacional da chamada ‘crise do antigo sistema colonial’, interpretações consagradas sobre os efeitos dessa crise no processo de independência vêm sendo ultimamente contestadas. O processo político foi razoavelmente escrutinado, mas as novas abordagens derivadas do cultural turn na historiografia têm permitido aos historiadores aquilatar melhor a significância de outros fatores decisivos e até recentemente negligenciados. Por exemplo, que peso se deve atribuir às radicais transformações culturais geradas pela abertura de 1808 e pelo afluxo de levas de migrantes de todos os pontos? Ou às transformações civilizacionais vividas pela população do Rio de Janeiro, geradas pela presença e pelas demandas do rei na arte, na ciência, na educação, nas melhorias urbanas? Atesta-o a criação do que se poderia chamar de uma ‘esfera pública’ – ou ao menos o surgimento de uma opinião pública –, de que é rico testemunho o caloroso debate na imprensa nascente”.

2) Imagine que o trecho citado é o primeiro parágrafo de um texto seu, cujo objetivo é apresentar uma breve resenha de aspectos marcantes da historiografia da Independência brasileira de meados do século 20 até hoje. Como se vê, o texto de Malerba identifica mudanças nos paradigmas de interpretação, nos modos de os historiadores conceberem os problemas pertinentes à análise do processo de Independência. Escreva, pois, a continuação do texto, buscando utilizar os autores lidos no curso até aqui como representativos dos caminhos percorridos pela historiografia da Independência (focalize autores tais como Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda, Maria Odila da Silva Dias, Isabel Lustosa, Gladys Ribeiro, Ivana Lima).


Jurandir Malerba, em obra sobre a Independência brasileira, ressaltou a permanência da discussão sobre o caráter do qual se imbuía o “grito do Ipiranga”, para alguns, de continuidade e, para outros, de ruptura, e lembrou as diversas viradas recentes sofridas pela historiografia sobre o assunto. Aí se inserem as novas interpretações relativas ao peso atribuído à participação brasileira no contexto internacional do que se costuma chamar de “crise do antigo sistema colonial” e às “transformações culturais” que se sucederam à “abertura de 1808” e à entrada maciça de estrangeiros. A imprensa brasileira, que estava em seu início, teria sido o palco de agitados debates que serviram de testemunho da criação de uma “esfera pública”, ou ao menos de uma “opinião pública”. (1) É a partir dessas temáticas que foram selecionados os eixos centrais que guiarão o presente balanço sobre a historiografia da Independência do Brasil produzida de meados do século 20 até hoje.

A maioria dos autores dá grande importância aos acontecimentos de 1808, quando, segundo Sérgio Buarque de Holanda, os estrangeiros que chegaram após o grande fluxo migratório ressaltarão as grandezas do Brasil e farão com que os nativos enxerguem a disparidade que é uma colônia tão grande ser governada por uma metrópole tão pequena. (2) Essa análise da transformação na mentalidade dos brasileiros durante o processo de Independência será uma característica recorrente na obra O Brasil Monárquico, segundo a qual a valorização do nosso território será importante para compreender os acontecimentos. Caio Prado Jr. igualmente enfatiza 1808 como importante para a emancipação política brasileira, mas pelo viés econômico: foi então que o sistema colonial sofreu seu desmonte por iniciativa de D. João 6.º, em especial com a abertura dos portos. A Inglaterra teria papel importante nesse processo, visto o seu interesse em comerciar com o Brasil, o que fica claro pelas vantagens concedidas à parceira comercial e política nessa abertura, em detrimento da própria metrópole. O contato com estrangeiros também teria colaborado para a modificação dos costumes da população do Rio de Janeiro. (3) Para Maria Odila da Silva Dias, 1822 foi apenas a consumação de um processo que se iniciou em 1808, quando a Inglaterra se encontrava na vanguarda da luta do liberalismo econômico contra os interesses mercantilistas, impulsionando, assim, a liberação do comércio. Porém, não se deve vincular demais os fatos a causas externas, pois, apesar de a vinda da Família Real ter-se dado por motivos alheios a ela, aquele ano representou o “enraizamento de interesses portugueses e sobretudo o processo e interiorização da metrópole no Centro-Sul da colônia”. (4) Voltando-se para fatos menos políticos, a autora também destaca as melhorias que a Corte proporcionou, como o aperfeiçoamento das comunicações e dos transportes, o incentivo ao povoamento, o aproveitamento das riquezas naturais e os primeiros mapeamentos geográficos e hidrográficos do Reino. (5)

Ivana Stolze Lima aborda a importância da imprensa na construção dos discursos de identidade raciais, marcando o ano de 1808 pelo aparecimento da Impressão Régia no Brasil, instituição que não imprimia apenas “papéis oficiais, leis e avisos”. Segundo a autora, a transformação da imprensa, que sofreu evoluções no sentido da liberdade de expressão principalmente a partir de 1821 (ano em que as Cortes de Lisboa decretaram a liberdade de imprensa), conjuga-se estritamente com a da política, às quais também se misturavam representações de identidade. (6) Isabel Lustosa dá a mesma importância à imprensa e a 1808 ao ressaltar não só o progresso cultural ocorrido com a “abertura das mentes”, mas também o industrial e o comercial. Essa relevância que a cultura teria subitamente adquirido transformou os homens cultos numa “nova aristocracia”. (7) Já Gladys Sabina Ribeiro, ainda que não negue a importância da imprensa no processo de construção das identidades, não cita seu surgimento e prefere ver como relativa a importância de 1808 por ele ser a data da emancipação econômica, e não política. Esta não interessava aos comerciantes brasileiros, que, numa época marcada pela pujança, e não pela tão falada “crise”, disputavam mercados com os portugueses, motivo pelo qual a abertura de 1808 foi vista pelos lusitanos como prejudicial à sua economia. (8)

A maior parte dos autores postula que não é certo datar 1822 como o surgimento de um Brasil independente, entre eles Buarque de Holanda, ao informar que a unidade nacional não veio nem com a chegada da Família Real, nem com a separação política, que não teria passado de um episódio da corrente “guerra civil de portugueses” iniciada com a Revolução Constitucionalista do Porto, em 1820. As brigas com os portugueses teriam continuado até 1831, quando, em 7 de abril, com a abdicação de D. Pedro 1.º, a monarquia brasileira finalmente “ganhou verdadeiramente um selo nacional”. (9) Quanto à unidade nacional, cujas tentativas de realização, tanto no período colonial quanto no Primeiro Reinado, foram malfadadas, teria sido menos favorecida no período regencial, que pregava a descentralização administrativa, tão característica da Colônia, quando possivelmente se evitava a centralização do poder para que, em caso de sublevação, não fossem todas as capitanias levadas pela onda separatista. (10) Exceto a supressão das Câmaras, após a Independência, houve predominância da continuidade entre Colônia e Império, como o indicam a permanência da ordem aristocrática (ainda que o número de agraciados tenha aumentado substancialmente ao longo das décadas, nunca houve aqui propriamente um corpo de nobreza), a pouca ortodoxia e a fraca ligação com Roma do clero brasileiro, as poucas mudanças na ordem social e nos costumes antigos e a vigência da ordem escravista e dos preconceitos raciais. (11)

Prado Jr. mostra a Independência como um processo teleológico, o que resulta da tentativa de aplicar o modelo marxista à história do Brasil: a estrutura econômica do país desenvolveu-se, o que postulou o rompimento da superestrutura política para lhe dar mais espaço, resultando, assim na emancipação política. Porém, como aquela estrutura econômica permaneceu a mesma, não ocorreram mudanças sociais profundas, o que, juntamente com a falta de coesão dos livres pobres e dos escravos, impediu a eclosão de revoltas populares: sem a participação popular, a “revolução da Independência” permaneceu incompleta. (12) Para o autor, apesar de o “partido brasileiro” não ter permitido a recolonização pretendida pelas Cortes lisboetas, sua sombra ainda pairou por muito tempo sobre o país, sendo a Independência mais uma simples “transferência pacífica de poderes” de Portugal ao Brasil, resultando num Estado não baseado na monarquia autocrática. Soma-se a isso a recalcitrância de várias províncias a ter o Rio de Janeiro como centro político nacional, o caráter de classe da separação, que beneficiou os grandes proprietários rurais, seus articuladores, e a preponderância do “partido português” durante o Primeiro Reinado, em especial após 1824, que resistia ao desenvolvimento da Independência e identificou-se com o absolutismo de D. Pedro 1.º. (13) A consolidação do “Estado nacional” ter-se-ia dado com a abdicação de D. Pedro 1.º, sendo o período anterior de “transição” e o posterior, até 1837, de consolidação da Independência. Isso não impediu a eclosão de revoltas resultantes, segundo Prado Jr., da luta entre as classes médias urbanas e a política aristocrática dos grandes proprietários rurais, tal como a revolta dos cabanos no Pará, que durou de 1833 a 1836 e incluiu uma proclamação de desligamento da província do resto do Império. (14)

Maria Odila Dias concorda com Buarque de Holanda ao afirmar que a independência não foi acompanhada da unidade nacional, mas adiciona que também não veio um movimento nacionalista que portasse uma determinada “identidade brasileira”. (15) Inicialmente, os “homens da geração da independência” não se teriam animado com a formação de uma nova nação, vistas as fragmentações regionalistas e as inseguranças sociais, o que não impediu de a centralização ter se dado através da repressão aos nativismos, mas firmada apenas entre 1840 e 1850. Essa insegurança da sociedade colonial, agravada também pela agitação de Portugal e do resto da Europa, só seria resolvida com a interiorização da metrópole, o que se deu com a vinda da Corte ao centro-sul brasileiro. Apesar da elevação do Brasil à condição de Reino Unido, houve continuidade na estrutura política e administrativa e, no ponto de vista das demais capitanias, um recrudescimento do modo de dominação antes existente. Aquela continuidade foi fruto especialmente da união das elites em torno de interesses próprios e dos “mecanismos sociais de acomodação” criados por elas e tornados poderosos abafadores de divergências. (16) Mesmo com a vinda da Corte, o velho monopólio do comerciante, quase sempre português, e sua ligação com o campo só aumentariam, respaldados pelo “recrudescimento da presença de portugueses” e pelo aumento da fragmentação localista, gerando uma profunda lusofobia entre os nativos. Caracterizam-se também como traços continuístas o “elitismo burocrático”, ou seja, a participação de ilustrados brasileiros na administração pública portuguesa, e o desrespeito que os governadores das capitanias demonstravam pelas ordens centralizadoras de D. João 6.º. (17)

Entre os autores aqui citados, a primeira a tratar com mais atenção a questão das identidades, com ênfase no tratamento dado pela imprensa ao assunto, é Isabel Lustosa, para quem os habitantes da Colônia, num gesto de ruptura, repentinamente deixavam de se ver como portugueses para se considerarem brasileiros, transformação acompanhada por uma imprensa que procurava influenciar sobretudo o então príncipe D. Pedro. Os jornalistas, arrogando-se o papel de educadores, procuravam educar o povo para o liberalismo e o processo constitucional, e construir uma sociedade cujos mentores seriam os intelectuais, sociedade essa necessitada de uma identidade distinta daquela do português e baseada na mistura racial e na grandeza do território e de suas riquezas. (18) Contudo, estava criando-se o falso mito, ainda presente, da “democracia racial”: falso devido ao fato de os jornais serem contra o absolutismo, mas não atacarem a escravidão, que era o limite do liberalismo no Brasil, nem o latifúndio. (19) De acordo com a autora, D. Pedro, em 1821, tendia a apoiar Portugal, mas foi a influência de José Bonifácio e Hipólito da Costa que o atirou contra as Cortes, do que resultou a Independência. A partir daí, houve coisas do governo colonial que permaneceram, outras que apareceram durante o Reino Unido e mais tantas por se consolidar, num Estado nascente cujo regime e projeto político ainda eram indefinidos, com candidatos que se debatiam por meio da imprensa para ocupar essas vagas. (20)

Ivana Lima inicia o primeiro capítulo de Cores, marcas e falas introduzindo o debate das identidades, com ênfase na questão racial, inseridas num contexto de transformação, mas ainda marcado pelo “processo da consolidação da emancipação do Estado, iniciado em 1822”: os primeiros anos da Regência. Para muitos brasileiros, a verdadeira “revolução” ocorreu em 7 de abril de 1831, e esta teria sido acompanhada por outra, no acesso à produção da palavra impressa, e pela constante disputa entre as identidades portuguesa e brasileira. (21) Já dentro da identidade brasileira, as diversas designações raciais, que apareciam principalmente em nomes de periódicos da época, eram, segundo a autora, construções que possuíam mais um significado político do que fenotípico, o mesmo acontecendo com a própria designação de “brasileiro”, que ainda estava em construção. Jornais como O Brasileiro Pardo, por exemplo, utilizavam termos que posteriormente designariam a fusão do índio, do negro e do branco, mas pregavam, na verdade, apenas a união política dos três numa causa, e não especificamente num determinado território nacional. (22) Numa demonstração de permanência das indecisões, a tensão entre brasileiros e portugueses acirrar-se-ia ainda mais no período em torno da abdicação de D. Pedro 1.º, com fatos como a substituição de artistas e militares estrangeiros por profissionais nativos e a “noite das garrafadas”, que opôs “brasileiros” constitucionalistas e “portugueses” absolutistas. (23)

Também na opinião de Gladys Sabina Ribeiro, “ser brasileiro” sempre foi algo não estático e em construção, e a maior prova disso era a noção, antes da independência, de que brasileiros e portugueses pertenciam a uma mesma “Nação portuguesa”, ideia que se tentou reforçar após o estabelecimento das Cortes, quando entraram em voga projetos detratores do Brasil e que procuravam justificar sua inferioridade e a necessidade de sua recolonização. (24) Como já foi visto, os portugueses do Brasil, devido aos seus interesses comerciais, não se interessavam na separação política, mas preferiam que D. João 6.º tivesse permanecido no Brasil. Para o país, apoiavam a continuidade da união com Portugal sob uma monarquia constitucional regida por D. Pedro 1.º, que seria o líder de um Brasil emancipado, e não independente, com representantes nas Cortes. Tal discurso teria ultrapassado o período do “grito do Ipiranga”, que teria sido um ato impensado de repúdio a essas Cortes, contra as quais, até então, o discurso da Independência era usado apenas como uma ameaça surgida em reação a seu desprezo pelo Brasil. De fato, a independência ainda era incerta após o “Sete de Setembro”, e o próprio comércio prosseguiu regularmente. Porém, a ruptura no discurso sobre os portugueses acentuar-se-ia com a certeza cada vez maior da separação. (25) A chegada das ideias liberais, em especial após a Revolução do Porto, e a incerteza da independência aumentaram a precaução do Império em se tratando dos portugueses, que passaram a ser vistos com maus olhos, ao mesmo tempo em que se via a necessidade de se criar uma “identidade para a Nação brasileira”. O reconhecimento da Independência veio, enfim, com o Tratado de 29 de agosto de 1825, mas ainda predominava o clima de conflito e de medo da recolonização, que se estendeu até aproximadamente a morte de D. João 6.º, e do qual se aproveitava o governo para fortalecer a si mesmo. (26) O surgimento de uma Carta de Lei que tratasse especificamente da aquisição da nacionalidade só viria em 23 de outubro de 1832, mas, pelas condições estabelecidas, pode-se notar como o controle permanecia estrito, tornando a situação dos portugueses contraditória durante toda a Regência. (27)

Desta discussão, pode-se concluir que, nas últimas décadas, a historiografia brasileira realmente viveu um momento de revisão dos velhos padrões que ainda ditam o senso-comum das pessoas. Em especial, deve-se ressaltar a consideração da Independência como um processo, não como um fato isolado, e que teria começado ora em 1808, com o estabelecimento da autonomia comercial do Brasil, ora em 1822, com a separação política. A consolidação definitiva da Independência, na maioria das interpretações, dá-se em 1831, com a “nacionalização” da monarquia e dos governantes, o período anterior sendo marcado pela sombra da recolonização e pelos conflitos entre portugueses e brasileiros. Também não é imediata a consolidação do Estado brasileiro, que levará algumas décadas para poder chamar-se de “unificado”, nem a constituição de uma “identidade brasileira”, que é vista, ao longo do tempo, como uma construção política sobre a qual se basearão discursos muito diversos. Por fim, a principal conclusão: com algumas exceções, foram muitas as continuidades entre o período colonial e o Império, do que se infere que, em história, a fixação de transformações importantes em determinadas datas é sempre complicada, visto que, muitas vezes, grandes rupturas são, na verdade, longas transições.


Bibliografia

HOLANDA, Sérgio Buarque de. O Brasil monárquico: o processo de emancipação. V. 3. São Paulo: Difel, 1976. (“História Geral da Civilização Brasileira”.)

LIMA, Ivana Stolze. Cores, marcas e falas: sentidos da mestiçagem no Império do Brasil. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.

LUSTOSA, Isabel. Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência (1821-1823). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

MALERBA, Jurandir. A Independência Brasileira: Novas Dimensões. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.

MOTA, Carlos Guilherme (org.). 1822: Dimensões. São Paulo: Perspectiva, 1972.

PRADO JR., Caio. Evolução política do Brasil e outros estudos. São Paulo: Brasiliense, 1979.

RIBEIRO, Gladys Sabina. A liberdade em construção: identidade nacional e conflitos antilusitanos no Primeiro Reinado. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.


Notas (Clique pra voltar ao texto)

(1) MALERBA, Jurandir. A Independência Brasileira: Novas Dimensões. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006, р. 20.

(2) HOLANDA, Sérgio Buarque de. A herança colonial – sua desagregação. In: O Brasil monárquico: o processo de emancipação. V. 3. São Paulo: Difel, 1976. (“História Geral da Civilização Brasileira”.)

(3) PRADO JR., Caio. A Revolução. In: Evolução política do Brasil e outros estudos. São Paulo: Brasiliense, 1979, p. 43 e 53.

(4) DIAS, Maria Odila da Silva. A Interiorização da Metrópole (1808-1853). In: MOTA, Carlos Guilherme (org.). 1822: Dimensões. São Paulo: Perspectiva, 1972, p. 162-165 (grifos no original).

(5) Ibid., p. 183.

(6) LIMA, Ivana Stolze. As cores dos cidadãos no teatro do jornalismo: política e identidade no Rio de Janeiro, 1831-1833. In: Cores, marcas e falas: sentidos da mestiçagem no Império do Brasil. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003, p. 35-36.

(7) LUSTOSA, Isabel. Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência (1821-1823). São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 24 e 33.

(8) RIBEIRO, Gladys Sabina. “Ser português” ou “ser brasileiro”? In: A liberdade em construção: identidade nacional e conflitos antilusitanos no Primeiro Reinado. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002, p. 32, 35 e 45.

(9) HOLANDA, Sérgio Buarque de, Op. Cit., p. 9, 13-15 e 16.

(10) Ibid., p. 18 e 20-22.

(11) Ibid., p. 29-39.

(12) PRADO Jr. Caio., p. 47 e 60-61.

(13) Ibid., p. 46, 48-49, 50-52 e 56.

(14) Ibid., p. 58, 64, 68 e 77.

(15) DIAS, Maria Odila da Silva, Op. Cit., p. 160-161.

(16) Ibid., p. 169 e 173-174.

(17) Ibid., p. 176-179 e 181 (grifo no original).

(18) LUSTOSA, Isabel, Op. Cit., p. 25-26, 29, 33, 39-40 e 50.

(19) Ibid., p. 45 e 48-49.

(20) Ibid., p. 62-64.

(21) LIMA, Ivana Stolze, Op. Cit., p. 32-34.

(22) Ibid., p. 51, 61 e 75.

(23) Ibid., p. 68 e 71.

(24) RIBEIRO, Gladys Sabina Ribeiro, Op. Cit., p. 27 e 30-31.

(25) Ibid., p. 36, 38-39, 40, 44, 45, 53-54 e 57.

(26) Ibid., p. 58-61, 65, 69 e 80-81 (grifo no original, p. 61).

(27) Ibid., p. 102-103.



Até que não me saí mal, de novo, rs.