quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A “genealogia” em Foucault (parte 2)

Tendo guardado por alguns anos meus primeiros trabalhos escritos da graduação em História na Unicamp em seu formato impresso original, com as correções, observações e notas dos professores, resolvi um dia digitalizar a maioria deles, quando não tivesse backup dos arquivos Word originais. Nunca tinha pensado em os publicar na página, mas quando percebi que o navegador Chrome estava avançado o suficiente pra detectar textos automaticamente e possibilitar sua cópia pra outros programas, decidi tentar fazer isso com essas relíquias, que de fato só exigiram alguns reparos pontuais, pois o conteúdo saiu quase todo com espantosa exatidão!

Portanto, como prometi ontem, estou publicando hoje o trabalho final da disciplina “HH582A – Teoria da História III” ministrada por Margareth Rago no 1.º semestre de 2008, consistindo na versão completa daquele projeto (de fato, alguns trechos são idênticos) e entregue no dia 26 de junho. O título se manteve como “Explorando os princípios básicos da história genealógica de Michel Foucault”, e tive como ponto de partida o capítulo “Nietzsche, a genealogia e a história”, publicado por Michel Foucault em sua célebre Microfísica do poder, complementado por textos relacionados. A corrente chamada genericamente de “pós-estruturalista”, mais conhecida vulgarmente como “pós-moderna”, centrada em Foucault e incluindo Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Félix Guattari e similares, sempre foi muito criticada (sobretudo Derrida) por uma linguagem hermética e embromada, que propositalmente serviria pra passar uma impressão de erudição e um clima iniciático.

Pra mim, quando estamos aprendendo as diversas correntes da história, o importante é entendermos o conteúdo e sabermos comprovar o aprendizado na avaliação final: se no futuro vamos fazer pesquisas baseadas nesta ou naquela corrente, só o tempo pode dizer. É óbvio que muitos colegas se chocaram com o aparente teor disruptivo de Foucault, tanto que (lá vem fofoca de novo!) um deles aludiu a “essas novas ideias” no meio da aula, e a Margareth até respondeu dizendo que “essas ideias já têm pelo menos uns 30 anos”, rs. Pior é quando a repulsa leva ao enfrentamento, infundado quando somos graduandos: outro colega que eu respeitava pela personalidade, mas recentemente chegou a aludir à “possibilidade” dos dinossauros terem convivido com os humanos e, obviamente, terem sido salvos pela Arca de Noé, sempre se indispôs com ela por insistir em fazer trabalhos negando totalmente os autores apresentados.

Antes de construir sua iniciativa de “história cristã”, foi pioneiro no hoje comum procedimento de se fingir de desentendido pra depois se pintar como a maioria com complexo de vítima. O clima seguiu tóxico no 2.º semestre com a mesma professora lecionando História do Brasil III e nosso exegeta a acusando de não aceitar um tema de trabalho (provavelmente mal recortado e mal articulado) só porque “abordava o cristianismo”. Enquanto em seu finado Blogger ele até acusava a Margareth de “idolatrar o são Foucault dela”, banquei a Suíça e ganhei um “Ótimo trabalho! 10,0” anotado no final, rs. Novamente, apenas atualizei a ortografia e as normas de citação bibliográfica e corrigi pontos que realmente não davam pra engolir ou que ficariam melhores de outra forma, sem alterar, contudo, o estilo redacional geral.


O método genealógico, proposto e praticado por Michel Foucault, abalou a tradicional “história dos historiadores”, considerada como absoluta, estigmatizante, violenta e purista, e cujo modo tradicional de ser escrita não passou incólume à onda de escavação das antigas interpretações, desconstrução da verdade, ênfase na ruptura e fim dos objetos previamente dados. O louvor às origens e sua visão como abrigo do puro e original sofreram o escárnio de um homem ridente que mostrou como a emergência de uma interpretação histórica não passa de uma visão de vencedores e incentivou os profissionais a verem no presente a razão e o palco de todos os embates de interpretações e práticas relacionadas aos tempos passados. Esses são alguns dos temas a serem tratados neste trabalho que procura mapear os princípios básicos da história genealógica e consiste na apresentação dos principais conceitos que sustentam esse modo de escrever a história. Entre eles, estão a “opacidade da linguagem”, a “recusa da origem”, a “emergência”, a “proveniência”, o “corpo”, a “história do presente”, a “crítica do sujeito” etc., extraídos dos principais textos de Foucault que tratam mais diretamente de sua genealogia, unidos a dois artigos de Margareth Rago e um de Durval Muniz de Albuquerque Júnior.


A primeira coisa que o historiador deve ter em mente é algo que o pós-estruturalismo repetiu até a exaustão e que marca profundamente essa corrente de pensamento: a linguagem não é transparente, ou seja, a palavra não é o reflexo fiel de uma coisa-essência que se esconde atrás dela. O próprio Foucault diz que as palavras não guardam seu sentido ao longo dos tempos, e que atrás das coisas não há uma essência sagrada, secreta e atemporal, mas a falta dessa essência ou uma essência construída, finita e terrena. Da mesma forma, o conhecimento não é aparentado, semelhante ou afim com o mundo a conhecer, ou, em termos kantianos, “as condições de experiência e as condições do objeto de experiência” são diferentes. E assim como há diferença entre conhecimento e mundo a conhecer, não há qualquer ligação entre natureza humana, mundo е o conhecimento que está entre eles. A própria linguagem é uma coisa a mais que apenas torna a realidade ainda mais opaca, pois há grande separação entre o que é dito e o que é entendido, resultando na total diferença entre o que se diz e o que se deseja dizer. Por isso, toda a pretensão do historiador de que seu texto tenha um significado inequívoco é inválida, o que o obriga a não dirigir a leitura feita pelos outros e a permitir que sua obra produza vários significados de acordo com quem a lê. Também devem ser colocadas em suspenso as unidades do livro e da obra, pois se elas forem bem examinadas, apresentam complicações. O livro não possui uma unidade homogênea, pois que as diferenças entre dois livros de uma ou outra especialidade não são as mesmas e que os limites de um livro são tênues, pois ele não existe em si mesmo, mas é um ponto em uma “relação de apoio e dependência” com outros livros. Assim, de acordo com a relação de um livro a uma certa temática, o sistema de autonomia e de heteronomia, deveras complexo, será diferente. Definir uma obra, ou seja, um conjunto de textos sob um nome próprio, é mais difícil ainda: somente por escolhas teóricas dificilmente justificáveis é que se pode pensar em unificar e dar um mesmo valor a diferentes pseudônimos, obras esboçadas encontradas após a morte do autor, rabiscos, notas, traduções etc. Mesmo a forma de expressão do autor, que seria a mesma em toda a obra, é constituída a posteriori. Em suma, não se deve considerar a obra como uma unidade imediata, certa ou homogênea.

Essas primeiras afirmações levam o historiador a rever radicalmente seus procedimentos e seus instrumentos de trabalho, pois porquanto as palavras e as práticas não são reflexos, mas coisas em si, elas devem ser o ponto de partida de todas as suas análises. Assim, o historiador é levado a partir não de objetos já prontos, previamente dados, que expliquem as práticas sociais, mas daquilo que está na “superfície”, para que, a partir delas, percorra um caminho que culmine na construção de seu objeto. O corolário desse método, assim sendo, é não considerar o “objeto-realidade” como fundação da unidade dos discursos, mas as práticas discursivas e as não discursivas como instituidoras de objetos e figuras sociais. O discurso, o qual Foucault se propõe a analisar, não seria apenas uma reunião de fatos linguísticos que se ligam por regras sintáticas de construção, nem teria apenas uma linguagem que obedeça a umas tantas “leis ou regularidade internas”. Ele ainda seria caracterizado por “jogos estratégicos” nos quais há luta, ação e reação, perguntas e respostas, dominação e esquiva. Isso levou Foucault, apesar de suas divergências com os Annales, a defender a história-problema e a figura do historiador como aquele que pergunta, não aquele que responde, e que também não crê na existência de fatos históricos dados, regidos por leis e os quais cabia ao historiador decifrar por seus métodos.

Após essa discussão, fica uma pergunta: como surgem os discursos? Um dos conceitos pelo qual Foucault deseja substituir a ideia de origem, que será abordada mais adiante, é o de emergência, o ponto de surgimento, que ocorre em um certo estado de forças que, na história, lutam entre si ou contra circunstâncias diversas ou contra a degenerescência. A emergência é o momento em que essas forças, que não obedecem a um fim determinado, mas ao acaso, entram em cena, e é um lugar de afrontamento, porém não se trata de um campo fechado de luta, mas da distância e da desigualdade entre os adversários. Por isso, ninguém é responsável pela emergência histórica, que sempre ocorre no interstício dessas lutas e conflitos que geram as coisas, as ideias.

As regras gerais da história em cada momento histórico, portanto, são a dominação e a violência, o que torna quimeras a reciprocidade e o consenso universais. As regras em si são vazias, mas o jogo da história consiste na dominação das regras, que ora são impostas, ora são obedecidas: em outras palavras, as emergências são substituições, conquistas e inversões, e interpretar não é descobrir um significado oculto na origem, mas apoderar-se e dar uma direção a um sistema de regras. Foucault ressalta que, para Friedrich Nietzsche, também o conhecimento é perspectivo por ser um conjunto de atos usados pelo homem para se apoderar das coisas, reagir a certas situações e lhes impor relações de força. Destarte, ele é uma relação estratégica na qual está o homem e também é polêmico, parcial e resultante de uma batalha. Esse conhecimento é, ao mesmo tempo, generalizante porque ignora as diferenças, ou seja, é um desconhecimento, e é também particular, pois ele só existe na medida em que acontece uma espécie de luta entre o homem e o que este conhece. Assim, na própria raiz do conhecimento estaria “o ódio, a luta, a relação de poder”, ao contrário do que pensa o restante da filosofia ocidental, que é logocêntrica, beata, unitária e preza pela semelhança e pela adequação. Por isso, o melhor meio de se conhecer o conhecimento não é aproximar-se do filósofo, mas do político, que mais se aproxima das relações de luta, poder, ódio e dominação. [Margareth marcou esta última frase com um ponto de interrogação na lateral. Se nem ela entendeu, que dirá eu...]

Disso tudo se concluem várias coisas. Primeira, se interpretar é dar direção a regras, o historiador tradicional, ao dizer que efetua uma descrição, não faz mais do que estigmatizar, rotular, baseado em absolutos. Segunda, se a história é resultado de constantes lutas, as interpretações sobre ela que predominarão, emersas nos interstícios, serão as interpretações dos vencedores dessas lutas, ou, de modo mais simples, a história é a história dos vencedores. Terceira, se a violência e a dominação são as regras gerais e se são os vencedores que as dominam, o ato de descrever e o consequente ato de estigmatizar são violentos, logo o historiador tradicional também é violento. [Frase também ladeada por ponto de interrogação.] Quarta, se as lutas obedecem ao acaso, logo a história também é fruto dele, e não formada por um ou vários sujeitos determinados que comandariam a política e a sociedade. E quinta, se a história, assim como qualquer visão de mundo, é um resultado do acaso, nada é verdadeiro, porque tanto a consciência histórica quanto a científica possuem, no fundo, instinto, paixão, do que se conclui que tudo é construção, portanto parcial, não eterno. O genealogista, dessa forma, diferencia-se do historiador tradicional ao assumir sua parcialidade [Margareth sugeriu a troca desta palavra por “perspectivismo”].

Tais ideias terão um impacto avassalador no modo como se escreve a história e como se lê, ou melhor, se constrói o passado. O intelectual e as verdades sobre as quais ele baseava sua posição serão abalados de uma hora para outra, e ele passará a não ser mais o detentor da verdade, o baluarte das classes oprimidas, em especial do proletariado, que seria libertado por essa verdade. De sua parte, Foucault, em um ambiente dominado pela centralização dos estudos na classe operária, na “base” econômica e nas maneiras de se fazer a “revolução”, deslocará seu foco para as “minorias” e os relegados da história: de maneira inédita, o filósofo lançar-se-á de cabeça na antiga “superestrutura”, que tradicionalmente não era vista como portadora de campos que podiam ser historicizados. Consagrar-se-á, então, o desafio iniciado pelos Annales de fugir de uma história das guerras, dos triunfos e das batalhas ao se perscrutar o mundo dos maltratados, dos excluídos e dos segregados e, a partir daí, contestar-se o poder burguês, moral, masculino, eclesiástico e ocidental exercido sobre essas pessoas. A questão torna-se mais instigante quando se nota que opressões e desigualdades como a social e a de gênero continuaram nos meios revolucionários sob o pretexto de que a “revolução” social e econômica acabaria automaticamente com elas: assim, o homem, vencedor da história, impunha suas regras às mulheres e lhes atribuía um papel social de um modo que acomodasse a si mesmo em sua posição tradicional. Minadas as bases nas quais se baseavam os discursos ditos “verdadeiros”, Foucault ainda lembrará que o historiador, cujo modelo tradicional era baseado no demagogo, não precisaria mais se esconder “sob a máscara do universal”, invocar a objetividade dos fatos e aniquilar sua individualidade em busca da revelação da “lei inevitável de uma vontade superior”. Contribuirá para isso o fato de a história não ser considerada como mais do que um discurso, o passado não ser mais visto como algo pronto e natural a ser desvelado e apreendido e os sujeitos e objetos não serem mais dados prontos com os quais o historiador iniciaria seu trabalho, devendo o historiador, portanto, tecer a trama que constitui o acontecimento. Por isso mesmo, não existe “a” verdade, mas “verdades”, que comandam, cada uma a seu tempo, um respectivo regime de verdade, diferente segundo o lugar e segundo a época, e sendo cada verdade criada por determinado profissional da história ou alguém, ou alguns, que, em uma sociedade, é (são) disso encarregado(s).

Em consequência, não pode haver um conhecimento do em-si, de uma verdade, de uma realidade ou de um ser em-si, pois o conhecimento não tem essência, é o produto pontual e histórico de condições que são de uma ordem diferente dele, não é uma faculdade ou uma estrutura universal: como ficará ainda mais claro adiante, o conhecimento é construído. Ao saber que por trás das coisas não existe uma essência portadora de uma pureza original e, consequentemente, que não existe uma verdade histórica pronta para ser desvelada por instrumentos eficazes, sendo ambas construções dos “vencedores” da história, o historiador negar-se-á, pois, a pesquisar a origem das coisas, algo que seria um começo unitário, indubitável e indissolúvel. Segundo Foucault, um dos usos que Nietzsche, como um genealogista, faz do termo “origem” (em alemão, Ursprung) é depreciativo, referindo-se a uma origem mágica da moral, suposta por Platão, e da religião, deduzida por Schopenhauer. Há três motivos pelo qual o filósofo alemão se recusa à pesquisa dessa origem. O primeiro é a suposição da ausência de uma “identidade primeira” das coisas, revelada após a retirada de todas as máscaras, que seriam acidentais. Porém, não só não existe um “segredo essencial” atrás das coisas, como já foi dito, mas também seu começo histórico não possui identidade, mas a discórdia, o disparate. O segundo motivo é a negação da lei metafísica de que as coisas, na origem, antes da “queda”, encontravam-se em estado de perfeição, pois o começo histórico é baixo, no sentido de derrisório e irônico, não de modesto ou discreto: assim o esclarece Foucault, que exemplifica com a teoria darwinista de que o homem teria vindo ou, mais corretamente, teria o mesmo antepassado do macaco. O terceiro, por fim, é a recusa de ver na origem o lugar da verdade, que possibilitaria um saber que ao mesmo tempo a recobriria, porquanto, como também já se disse acima, a verdade é uma invenção, um “erro” que foi cozido pela história e que tem nela sua própria história.

Por todos esses motivos, Foucault afirma que fazer uma genealogia dos valores ou da moral, por exemplo, não é buscar sua “origem”, mas dissecar as meticulosidades e os acasos dos começos, e é então que entra o conceito de proveniência. Esta não é a busca de características gerais que assimilem um indivíduo a outros, mas das marcas que o tornam diferente, marcas que nele se entrecruzam e formam uma rede impossível de se desembaraçar, é a busca dos inumeráveis começos, da dissociação do Eu e o encontro em sua “síntese vazia” de “mil acontecimentos agora perdidos”. A proveniência recupera os acontecimentos que ajudam a formar um caráter ou conceito e não ajuda a genealogia a mostrar uma continuidade ou influência do passado sobre o presente, mas os erros, desvios e acidentes desse percurso, do que se conclui que a origem da moral não é venerável, mas crítica. A herança da proveniência é “perigosa”, pois não é sólida, mas frágil, e sua pesquisa agita o imóvel, fragmenta o unido e mostra que tudo o que se pensava “em conformidade consigo mesmo” é, na realidade, heterogêneo.

Um dos exemplos de ruptura das continuidades é a história da prisão elaborada por Foucault, segundo a qual ela não mostra que a humanização das pessoas progrediu, mas que o exercício da violência e as formas de dominação aperfeiçoaram-se. Há ainda a proposta de ver as formas jurídicas como origem de certas “formas de verdade” que se definiram a partir da prática penal e de analisar o inquérito como “forma bem característica da verdade” nas sociedades ocidentais. Isso porque as técnicas do inquérito, que seriam originadas de uma prática política e administrativa, mas também judiciária, foram depois empregadas nas ordens da ciência e da reflexão filosófica. Da mesma forma, no fim do século 19, o exame, também de origem jurídica, nasceu no mesmo momento em que apareciam formas de controle político e social durante a formação da sociedade capitalista. Ele originou ciências como a sociologia, a psicologia, a psicopatologia, a criminologia e a psicanálise, o que mostra a estreita ligação do conhecimento com os modos de sujeição que floresciam no Ocidente.

Na mesma lógica, deve-se dizer ainda que Nietzsche auxilia Foucault a analisar historicamente a formação do sujeito e o surgimento de um certo tipo de saber, mas sem que se admita um sujeito de conhecimento preexistente. Assim, também é negada a atribuição de uma origem ao conhecimento, ao qual se dá em troca uma invenção ocorrida em um ponto do tempo e em um lugar do universo bem definidos e ocasionada por algum motivo especial ou pela ideia que se teve de criar esse conhecimento. Para Nietzsche, a invenção é a ruptura, algo mesquinho, vil, com um começo baixo surgido no embalo de “obscuras relações de poder” e distante de uma “solenidade da origem” que se opõe ao “bom método histórico” perscrutador dos começos. Е о conhecimento, por seu turno, não é o instinto mais antigo do homem, relaciona-se com os instintos, mas não está presente neles nem é como eles, pois constitui o resultado do compromisso e da luta entre esses instintos. Ele é um resultado de um combate, porém, não pode ser deduzido dos próprios instintos, pois é contrainstintivo e contranatural. Porquanto não há continuidade entre instinto e conhecimento, ela também não existe, como se viu anteriormente, entre conhecimento e o que se deve conhecer, havendo entre ambos luta, violência. Por isso, о conhecimento não passa de uma “violação das coisas a conhecer”, não permitindo a percepção delas, e deste modo se comprova o papel estigmatizador e violento que o historiador exerce de sua cátedra ao impor nomes, rótulos e classificações.

Considerar a “multiplicidade dos começos” ajuda o historiador a considerar que todo acontecimento é singular, e deve ser espreitado onde se supõe não haver história. О acontecimento, que é uma relação de forças em constante luta, não deve ser dissolvido em uma “continuidade ideal” obedecendo a uma “necessidade interna dos fatos históricos”, mas deve ter revelado o que “pode ter de único e agudo”. Já que essas forças obedecem ao acaso, como foi visto, o mundo, portanto, não é uniforme e estável, mas matizado e caótico, no qual vivemos uma vida grotesca, barroca e cheia de contrastes. Ele é caótico e privado de supostas leis da natureza, e é contra ele que o conhecimento luta, portanto, este não tem nada que o habilite a conhecer o mundo, não sendo a natureza passível de ser conhecida. Assim, em lugar de se proceder ao modo dos historiadores tradicionais, cuja história é unitária, identitária e absoluta, Nietzsche propõe um “sentido histórico” que serve à genealogia ao não se apoiar em absolutos, ao distinguir, dissociar as coisas e a unidade do ser humano, privilegiando, assim, a mistura, o deslocamento e a “convivência dos contrários”. É baseado nisso que Foucault afirmará que o saber não é feito para compreender, mas para cortar, pois nada é eterno e tudo tem história, como os sentimentos, os instintos e o corpo, que será abordado mais adiante. É de tal pressuposto que parte a chamada “história efetiva”, que não deve apoiar-se em constâncias (que não existem), nem em reconhecimentos, continuidades ou obstinação a fins milenares, em outras palavras, é proposta aqui uma história baseada na ruptura. Entretanto, tal tendência não se reserva apenas à história, mas também concerne à literatura, ao estudo da história da mesma e à história das ciências, que então abandonavam as grandes unidades de tempo. Chegava ao fim, pois, a necessidade de a análise histórica, dentro da ideologia burguesa, reconstituir e legitimar a Antiguidade e a unidade do passado das nações, que eram necessárias ao capitalismo. Dever-se-ia deslegitimar o reino da burguesia como fruto de longa maturação, originada em tempos imemoriais e que justificava a inutilidade de uma nova revolução para derrubá-lo, e encerrar a história que tentava ressuscitar o passado e realizar a totalidade do passado nacional.

Isso porque a história, a partir de então, deveria analisar as transformações que as sociedades podem efetivamente realizar e focar-se não mais no tempo e no passado, mas nas mudanças e nos acontecimentos: a nova história, pois, procurou dar “um estatuto e um sentido novos” à noção antiga destes e o estruturalismo tentou dar mais rigor à análise daquelas. Pode-se dizer também que, como fez Georges Dumézil, foram salientadas as diferenças, a interação, a conexão entre elas em detrimento das semelhanças, estabeleceu-se “o sistema de diferenças, com sua hierarquia e sua subordinação”. A análise estrutural do filólogo tinha por objetivo perscrutar sistemas transformáveis e as condições nas quais acontecem suas transformações. Quanto aos acontecimentos, sempre singulares, como já visto, eles protagonizam uma história contemporânea que aparentemente prefere fenômenos gerais e amplos, mas na verdade constitui uma história chamada de “serial”. Esta não visa a objetos gerais, mas define seu objeto não por grandes recortes temporais e espaciais, mas por documentos que se tem à disposição e que pertencem a tempo e espaço pontuais, não se decifrando uma grande problemática, mas se estabelecendo certas relações por esses documentos. Atrás destes, o historiador não procura mais uma “realidade social ou espiritual”, mas manipula-os para obter “as relações internas ou externas” desse conjunto de documentos, revelando assim acontecimentos que não surgiriam de outra maneira. A história “serial” não busca acontecimentos imediatamente visíveis, mas revela diferentes camadas de acontecimentos, uns visíveis aos contemporâneos do que ocorreu, outros invisíveis, mas muitas vezes mais importantes do que os visíveis. Ela ainda possibilita a passagem de uma “história global”, que privilegia a homogeneidade, a inércia e a centralização, para uma “história geral”, que se caracteriza pelas correlações, pelas dominâncias, pela transformação e pela dispersão.

A multiplicação dos estratos de acontecimentos ocasiona duas conclusões importantes. A primeira é a multiplicação das descontinuidades, que não se localizam nos acontecimentos, mas em toda a história, que se torna “um emaranhado de continuidades sobrepostas”. A descontinuidade, antes rejeitada, mas hoje imprescindível à análise histórica, aparece com tripla função: ser uma escolha do historiador para distinguir níveis de análise e fixar periodizações; resultar da descrição do profissional para descobrir inflexões, inversões, desregulações e as já citadas emergências; e ser algo que o trabalho sempre especifica e que se mostra diferente de acordo com o domínio e o nível onde é notado. Agora, tudo o que é rejeitado são noções ligadas à ideia de continuidade, como tradição, influência, desenvolvimento, teleologia ou evolução e mentalidade ou “espírito de uma época”. Deste modo, fazer a história de um conceito não é mostrar como cresceram e progrediram seu refinamento e sua racionalidade, mas ver em que campos ele se constituiu e se validou, quais regras de seu uso se sucederam e em que “meios teóricos múltiplos” ele se elaborou. A segunda conclusão é a detecção, dentro da história, de tipos de duração diferentes, dos ciclos curtos perfeitamente isoláveis às “inércias”, o que torna a história não mais uma duração, mas uma “multiplicidade de tempos” emaranhados e envolvidos entre si, cada um portando um tipo específico de acontecimentos. O aparecimento de lentidões, cortes, rupturas e escansões, junto com os mesmos estratos, fez com que não se perguntasse mais qual era a ligação a ser estabelecida entre os acontecimentos descontínuos, mas quais estratos devem ser isolados uns dos outros e qual sistema de relações pode ser descrito entre eles.

Entrando novamente na questão da análise dos discursos, Foucault considera que um dos postulados a serem rejeitados em tal procedimento é o de que todo discurso pronunciado está contido de forma secreta em um “já dito” que, ao mesmo tempo, é um “jamais dito”, em outras palavras, o discurso manifesto não seria mais do que “a presença depressiva do que ele não diz”. Porém, deve-se renunciar às tentativas de perpetuar a continuidade no discurso e acolher cada um de seus momentos em sua aparição como acontecimento, não detectando um discurso que se remeta à presença de uma origem distante, mas tratando-o “no jogo da instância própria” a ele mesmo. O fim das continuidades libera o conjunto dos enunciados efetivos a serem trabalhados como dispersão e população de acontecimentos dentro do discurso em geral, ou seja, propõe-se aí uma “descrição dos fatos de discurso”, cuja análise consiste em definir o conjunto de sequências linguísticas formuladas que o delimitam, sendo tal discurso, portanto, um conjunto finito. Essa análise não pretende procurar discursos por baixo do que é manifesto, mas apreender a estreiteza e a singularidade do acontecimento do enunciado, as condições de sua existência, seus limites, ligações com outros enunciados, quais os outros enunciados que ele exclui. Apagar as unidades permite devolver ao enunciado sua “singularidade de acontecimento”, que consiste em uma irredutível emergência com sua irrupção histórica e não esgotável nem pela língua nem pelo sentido. Foucault lembra que neste caso o objetivo principal é estudar as condições que fazem surgir os enunciados em uma certa sociedade em um certo tempo, seus laços, seu agrupamento em “conjuntos estatuários”, seu papel, os valores e sacralizações que os afetam, seu uso, sua circulação, enfim, sua institucionalização. Assim, um arquivo não consistiria nos vestígios do passado, mas no “jogo de regras” que salvam ou descartam os enunciados, que existem como acontecimento e coisas. Nesse arquivo, a análise dos fatos do discurso é considerá-los não como documentos, mas como monumentos.

Retornando de certa forma à questão do “sentido histórico”, o próprio estruturalismo, ao menos em seu começo, na visão de Foucault, não fugiu da história, mas pretendeu dar-lhe um método mais rigoroso e preciso, torná-la mais sistemática e engendrar “um instrumento de uma análise histórica precisa”. Nikolai Trubetskoi, Franz Boas e Claude Lévi-Strauss teriam colaborado para suprimir das ciências humanas a análise biológica evolucionista inspirada em Darwin. A elas, em troca, teriam proporcionado uma análise de conjunto dos elementos de um tema estudado e das relações lógicas entre eles a fim de construir determinações causais e temporais, privilegiando as relações simultâneas ou sincrônicas. Somado a isso, se a história é uma sucessão de vitórias nas quais várias interpretações vão se sobrepondo ao longo do tempo, eis o que dá o nome e a função da genealogia: ela busca esmiuçar essas verdades acumuladas, os já citados acasos e meticulosidades dos começos, busca não efetuar sínteses ou totalidades, mas a “descrição da dispersão”. Por isso, a história, para o genealogista, com seus acasos, vitórias e derrotas, é “o próprio corpo do devir”, é “uma série de interpretações” que a prática genealógica faz aparecer, o que leva o profissional, cujo trabalho é regido por uma atitude irônica com relação aos relatos e ao que se chama de documentos, a conjurar a fantasia da origem. É uma atitude irônica, pois o humor ajuda a encarar a incerteza e a finitude e faz nascer o riso a partir de nossa descoberta de que se encontra um enorme abismo entre aquilo que somos e aquilo que julgamos ser.

Procedendo dessa maneira, o historiador dará sequência a uma contínua desconstrução das coisas e das verdades, as quais, mapeadas toda a sua estrutura e a luta que está por trás de sua emergência, serão desnaturalizadas, isto é, não serão vistas como algo eterno, nem como coisas que sempre tiveram a mesma forma que apresentam hoje. Por isso mesmo, Foucault pede que não se atribua à emergência os termos do presente. É o mesmo autor que se utilizava constantemente da ironia para desconstruir, desnaturalizar e problematizar relações ditas inabaláveis e “metáforas biológicas”, ou seja, legitimações que tinham como sustentáculo estarem fundadas na originalidade da natureza e supostamente podiam ser descritas com instrumentos fornecidos pela biologia. Para proceder à desconstrução e à desnaturalização, o historiador deve levar a cabo três usos da história, chamados pelo filósofo de “antiplatônicos”, já que Platão foi o fundador da oposição aparência/essência, a qual Foucault tanto combate e que baseia a metafísica de hoje. O primeiro uso é o paródico e destruidor da realidade: deve-se reconhecer que as identidades que o historiador oferece ao europeu confuso são apenas máscaras, mas o genealogista não deve rechaçar esse oferecimento de máscaras, apenas se devem recusar as “identidades marcadamente reais” e usar outras, irreais, o que torna a história uma “palhaçada”. Por isso, a genealogia faz algo como uma paródia da paródia para mostrar que a história não passa de uma paródia. O segundo uso é o dissociativo e destruidor da identidade, uma identidade frágil, pois ela é um “sistema complexo de elementos múltiplos, distintos”, não sintetizáveis: esse é o motivo pelo qual a história baseada na genealogia não encontra as raízes da identidade, mas dissipa-a, não demarca territórios, mas aflora descontinuidades, permite a criação de e “clarifica os sistemas heterogêneos” que proíbem a identidade. E o terceiro uso é o sacrificial e destruidor da verdade, segundo o qual se as consciências histórica e científica não são neutras, portanto, o conhecimento é repousado na injustiça, visto que não há uma verdade universal. O querer-saber evocado por Foucault, destarte, é “mau”, pois desfaz a unidade do sujeito de conhecimento, dissociando-o e destruindo-o, fato que não limita a vontade de verdade, mas tira dela seu limite e intenção de verdade. É então que o sujeito de conhecimento, que julga saber tudo, dá lugar ao intelectual específico, que sabe de suas limitações e de sua posição.

É interessante ver como Foucault lida com um sujeito que, em sua opinião, não está separado, mas dentro do poder, um sujeito que, como já foi mencionado, seria, na visão dos historiadores tradicionais, o principal responsável pelo andamento da história e já estaria pronto, esperando apenas para ser abordado pelo historiador em seu trabalho. Uma de suas críticas ao “marxismo acadêmico” é a de que seus praticantes supõem sujeito e formas de conhecimento como previamente dados. Neles já estariam depositadas ou imprimidas “as condições econômicas, sociais e políticas da existência”, e por isso os referidos especialistas fariam coisas como procurar na consciência o reflexo da economia. Ora, já dada a proposta de Foucault de principiar qualquer estudo pela “superfície”, o filósofo ainda lembra que as práticas sociais engendram também conceitos, técnicas, sujeitos e sujeitos de conhecimento, ou seja, a “verdade”. Assim, um determinado saber do homem, da individualidade nasceu das práticas sociais de controle e vigilância, saber que não se imprimiu a um sujeito de conhecimento, mas gerou um novo. A intenção de Foucault ao estudar os saberes, as disciplinas, a produção da verdade e o poder foi justamente poder explicar como o sujeito se constituiu enquanto objeto e enquanto sujeito na cultura ocidental. Seu trabalho insere a si mesmo em uma época de reelaboração e mutação da teoria do sujeito, que desde Descartes era o fundamento constituinte privilegiado no Ocidente e mostrava-se como o guardião da liberdade e da verdade, o que ainda fazia a história ater-se a um sujeito da representação que seria fonte do conhecimento e da verdade. Todavia, agora o mesmo sujeito tornava-se algo passível de ser problematizado “como objeto a ser constituído”, em um movimento protagonizado, sobretudo, pela psicanálise e do qual Foucault toma partido. Segundo essa posição, o sujeito não é dado nem é fonte da verdade na história, mas é constituído na história e por ela refundado, e por isso se deveria constituir historicamente um sujeito de conhecimento por um discurso constituído de estratégias pertencentes às práticas sociais.

Foucault informa que no começo do século 20 quis-se ressalvar a história da tendência de despojar o sujeito “das leis de seu desejo”, como ocorria em outras ciências. Porém, os que sustentavam essa ressalva fechavam os olhos para as reais mutações que aconteciam nessa disciplina, com o objetivo de reconstruir uma história “como não se faz mais”. As mesmas pessoas lamentam o fim de uma história que se referia de modo secreto, mas também integral, à “atividade sintética do sujeito”, em uma época na qual não se podia mais usar a história “para manter os privilégios”. O sacrifício do sujeito de conhecimento, promovido pela história genealógica, também se explica pela ruptura já citada entre conhecimento e instintos, pois se supunha uma continuidade entre desejo e conhecer, instinto e saber. Contudo, se há de um lado “os mecanismos do instinto, os jogos do desejo” e, de outro, de natureza diferente, o conhecimento, a unidade do sujeito humano cai por terra, havendo assim, segundo se queira, vários ou nenhum sujeito. Assim, Foucault põe de lado temas ligados à analítica do sujeito e à problemática do conhecimento, como a abordagem de uma “atividade constituinte” que uniria uma ciência moldada por regras formais e um mundo caracterizado pela experiência, e a busca do projeto e do telos que guiam a história para que a verdade venha à tona. A eles opõe o saber “como campo de historicidade” em que estão as ciências e que se liberta do apoio a uma subjetividade fundadora e à unificação dos acontecimentos descontínuos do discurso.

É importante lembrar que o historiador genealógico está sempre consciente, por saber que ele não revela um passado exato e que não existe uma continuidade ideal entre o presente e o passado, de que toda história é história do presente, feita nos termos da contemporaneidade de quem a escreve e baseada em indagações atuais. Antes, a “história dos historiadores” tentava compreender o passado e recontava ordenadamente os fatos para que assim se compreendesse o presente e se visualizassem futuros possíveis. Mas no moderno carnaval paródico da história, o procedimento é o inverso: desfila-se usando máscaras criadas pela atualidade, celebra-se o esquecimento em detrimento da lembrança e predomina a descrença no passado como portador e transmissor aos seus descendentes da justiça, da beleza e da verdade, coisas que de fato são criações humanas. A interpretação feita de cada texto não busca adequar-se a uma suposta realidade localizada no passado, mas produzir certos efeitos no presente, ao permitir múltiplas interpretações regidas não por uma leitura direcionada, mas por sentidos imaginados, pela ausência de qualquer regra ou norma e por uma linguagem vertiginosa. À medida que o presente de uma ciência se modifica, ocorrem redistribuições que revelam dentro dela uma multiplicidade de passados, hierarquias, teleologias, encadeamentos e determinações. Assim, a atualidade do saber ordena as descrições históricas, multiplica as mesmas e faz com que elas não rompam consigo mesmas. Um exemplo reside na análise que Foucault faz do formalismo, forte e variada corrente de pensamento da Europa do século 20 que, além de ter valor ideológico, foi muito associada a situações e movimentos políticos interessantes. O próprio estruturalismo, nova modalidade da pesquisa formalista, teria sido, na França e na Europa Ocidental por volta dos anos 1960, um eco dos acontecimentos ocorridos em um Leste europeu que procurava livrar-se do dogmatismo marxista dos partidos comunistas governantes, embora não fosse um “preâmbulo necessário” ao maio de 1968.

Um vício no pensamento contemporâneo a Foucault seria o de considerar o presente, na história, como ruptura, ápice, realização, o momento de retorno da aurora. A isso o filósofo contrapõe o fato de que um pensador precisa de modéstia a fim de afirmar que a própria contemporaneidade não é um momento “único, fundamental ou irruptivo da história” e que o interesse despertado por esse presente exige a decomposição e análise do hoje. Assim, a tarefa da filosofia seria dizer o que é a atualidade, sem pensar que ela é um momento de perdição ou “um sol que triunfa”, mas apenas “um dia como os outros”, ou melhor, nunca igual aos outros. Não se trata apenas de caracterizar o que somos, mas saber como o que hoje existe “poderia não ser mais o que é”, abrindo assim uma “fratura virtual” onde a transformação é possível. Nessas fraturas localiza-se o trabalho prático do intelectual, cuja função é “dizer o que existe, fazendo-o aparecer como podendo não ser, ou podendo não ser como ele é”. É aí que entraria a história, pois ela mostra que “o que é jamais foi”, que as coisas se formam nos encontros e acasos de uma história frágil e que apenas aparentemente são evidentes. Tais fraturas, enfim, proporcionariam a historicização da razão e das formas de racionalidade, o que não significa que essas formas sejam irracionais, mas que por repousarem em uma base humana, foram construídas e, por isso, podem ser desfeitas, antes se descobrindo como foram feitas.

O trabalho descritivo e prático sobre as mesmas fraturas é um pouco do que Foucault chama de microfísica ou analítica do poder, que pretende analisar em si mesmas as formas de racionalidade atuantes nos processos de dominação. Essas formas não são alheias a outras formas de poder ativadas “no conhecimento ou na técnica”, havendo transmissões, trocas, transferências, interferências, e não sendo possível designar uma só forma de racionalidade no saber, na técnica е no governo, porquanto nestas três instâncias há os mesmos tipos de racionalidade, mas deslocados. Entretanto, ao falar das relações de poder e das formas de racionalidade “que podem regulá-las ou regê-las”, Foucault não se refere a um Poder (com P maiúsculo), mas informa que são as múltiplas e multiformes relações de poder que podem atuar na família, nas instituições, nas administrações, relações que têm “formas específicas de racionalidade” que lhes são comuns. Para o pensador, o poder não é negativo, mas positivo, produtor, como ficará um pouco mais claro adiante, pois não é uma repressão de fora para dentro: se em muitos casos caíram as ditaduras, mas a repressão continuou, conclui-se que é uma repressão de dentro para dentro, por se relacionar aos modos como as pessoas se subjetivam. Por não se referir a uma instância única, o filósofo nega fazer uma “teoria geral do poder”, porque o que ele tenta construir é a história do estabelecimento da “reflexividade de si sobre si” e do “discurso da verdade a ela ligado”.

O corpo, agora também historicizado, mas em um movimento relativamente recente, é precisamente a unidade mínima, mas central, sobre a qual recai a ação desses micropoderes, e por isso Foucault o julga fundamental para entender as formas de dominação dos últimos séculos. Para o pensador, a proveniência, ou seja, os múltiplos começos, dizem respeito ao corpo, que reflete os erros do passado e é o lugar no qual ficam as marcas da história e onde nascem, se atam, se exprimem, se desatam e batalham “os desejos, os desfalecimentos e os erros”. Assim, a genealogia está “no ponto de articulação do corpo com a história” e tem por obrigação mostrar esse corpo todo “marcado de história” e revelar como a história “arruína” o corpo. Torna-se mais fácil entender esse papel do corpo ao se exporem as várias situações nas quais ele está presente, sendo a mais importante para os historiadores, no trabalho de Foucault, a história da prisão, que, além da descontinuidade da história, esclarece sobre o poder disciplinar, por sua vez útil na reflexão dos modos de dominação no dia a dia da vida social. Ainda que Foucault não tenha desenvolvido muitos estudos completos sobre as questões de gênero, seu pensamento foi importante também para entender que as mulheres sofrem diretamente a dominação em seu corpo, pois sua identidade era considerada como biologicamente fundada e seu corpo era considerado inferior е impossibilitado de realizar tarefas “masculinas”.

As identidades do homem e da mulher, que na verdade são social e culturalmente construídas, e não fundadas na biologia, legitimaram a sujeição feminina perpetrada pela sociedade patriarcal, que impôs à mulher os papéis obrigatórios de reprodutora, mãe e doméstica. Há muito tempo as feministas desconstroem os referidos papéis e abrem a possibilidade de construir uma própria definição de si mesmas e de lutar contra a opressão sexual por meio da maior participação no espaço público, incentivada, sobretudo, nos meios libertários que efervesciam nas primeiras décadas do século 20. Os objetivos principais da iniciativa, e que as mulheres ainda lutam para fazer valer integralmente, eram abolir as hierarquias sexuais, tirar do amor livre e do aborto o status de tabus e conquistar o pleno direito à maternidade consciente, à educação, à cultura e ao trabalho. Quanto à produtividade do poder sobre a mulher, pode-se lembrar do que aconteceu entre os séculos 18 e 19, quando surgiu uma disciplina sobre certos grupos sociais que pode ser pensada, por exemplo, por um embelezamento que controla e normatiza o corpo. А mulher é obrigada a enquadrar-se em um modelo que, se não for seguido, implica-lhe problemas de autoestima e dificuldades para encontrar um marido, o que é um poder produtor, pois instiga o seguimento de determinado padrão estético. Em especial no século 20, tal tipo de produção é uma forma de poder mais sutil, contudo, também mais cruel, pois que a mulher vê-se na obrigação de construir-se e reconstruir-se diariamente. A mulher negra, por sua vez, sofre duplamente, pois, pelo menos até há algum tempo, a ela era imposto um processo de “embranquecimento” para que pudesse ter acesso a uma forma de beleza reservada às mulheres brancas de classe média residentes em cidades grandes.

O mesmo pode ser dito sobre os homossexuais, cuja vivência é uma ironia devido à distância entre o que eles dizem sobre si e o que realmente são, e que são pessoas que baseiam sua identidade em uma opção que diz respeito diretamente ao corpo. De certa forma, também sobre eles recaem as relações de gênero, que não deixam de ser atravessadas por relações de poder dinâmicas, visto que os heterossexuais sentem-se superiores e julgam poder subordiná-los. É um corpo esse oprimido [nota da Margareth: “ou produzido?”] por uma sociedade homófoba que não aceita a convivência amorosa entre pessoas consideradas do mesmo sexo e que admite como natural apenas a relação entre homem e mulher, sem desconstruí-la e desnaturalizá-la, como faria o genealogista. Com efeito, Foucault trata de um dispositivo da sexualidade, segundo o qual ela seria uma experiência da atualidade e cujo relevo foi iniciado, no Ocidente, no século 19. É um dispositivo porque se trata da relação do Ocidente com o sexo, que configura a sexualidade de seus povos, enquanto em épocas como a Antiguidade grega, por exemplo, não havia sexualidade, já que o sexo não era normatizado, e enquanto em lugares como o Oriente o sexo não é regulamentado, mas simplesmente vivido. Quanto à relação, é problemática, pois ela passa pelo poder, o que ocorre pelo fato de as pessoas serem obrigadas a domesticar o próprio sexo, ou seja, a Modernidade produziu, e não omitiu, o sexo, o que não quer dizer que a sexualidade seja livre. Há um conceito mais geral em Foucault que faz parte do dispositivo aqui mencionado e resume os últimos temas discutidos, que é a vontade de saber, que consiste no desejo de conhecer, mas, sobretudo, de domesticar, instituir e normatizar uma realidade, dominação que não se dá [nota dela: “somente?”] pela política [nota dela: “do Estado?”], mas pelo corpo.


É importante lembrar novamente, como foi feito na primeira parte do trabalho, que a desconstrução e a desnaturalização são as armas pacíficas [ponto de interrogação posto sobre a palavra] que Foucault legou ao historiador genealógico para que ele abra caminhos livres do autoritarismo, do sexismo e de todas as formas de dominação social. Destarte, a função do profissional da história, como o pensador bem lembrou, não é mais manter privilégios de uma minoria sobre a grande população que habita o mundo, mas desmistificar a perenidade das instituições e de seus grandes discursos, ainda hoje regidos, em muitos casos, pela homofobia, pela discriminação social e pelo racismo. A mudança é fundamental para que as sociedades possam aliviar-se de seu próprio peso, e o intelectual, embora não deva mais se pensar como um grande nome que toma para si o papel de baluarte das revoluções, tem por obrigação acelerar as transformações por meio de seu ofício. Pois Foucault já dizia sabiamente: “Não me pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo: é uma moral de estado civil; ela rege nossos papéis. Que ela nos deixe livres quando se trata de escrever.”


Referências

ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. Michel Foucault e a Mona Lisa ou como escrever a história com um sorriso nos lábios. In: A arte de inventar o passado: Ensaios de Teoria da História. Bauru: EDUSC, 2007.

FOUCAULT, Michel. Introdução. In: A arqueologia do saber. Tradução Luiz Felipe Baeta Neves. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007, p. 1-20.

______. Sobre a Arqueologia das Ciências. Resposta ao Círculo de Epistemologia; Retornar à História; Estruturalismo e Pós-estruturalismo. In: Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Organização e seleção de textos de Manoel Barros da Motta. Tradução Elisa Monteiro. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005, p. 82-118, 282-295 e 307-334. (Coleção "Ditos e escritos", II.)

______. Conferência 1. In: A verdade e as formas jurídicas. Tradução Roberto Cabral de Melo Machado e Eduardo Jardim Morais. Supervisão final do texto de Léa Porto de Abreu Novaes et al. 2. ed. Rio de Janeiro: Nau Editora, 1999, p. 7-27.

FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a genealogia e a história. In: Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. 23. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2007, p. 15-37.

RAGO, Margareth. Foucault e as artes de viver do anarco-feminismo. In: RAGO, Margareth; VEIGA NETO, Alfredo. Figuras de Foucault. Belo Horizonte: Autêntica, 2006, p. 165-175.

______. O Efeito Foucault na Historiografia Brasileira. Tempo Social – Revista de Sociologia da USP, São Paulo, n. 7, p. 67-82, out. 1995. Disponível nesta página (versão arquivada). Acesso em: 16. abr. 2008.



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A “genealogia” em Foucault (parte 1)

Tendo guardado por alguns anos meus primeiros trabalhos escritos da graduação em História na Unicamp em seu formato impresso original, com as correções, observações e notas dos professores, resolvi um dia digitalizar a maioria deles, quando não tivesse backup dos arquivos Word originais. Nunca tinha pensado em os publicar na página, mas quando percebi que o navegador Chrome estava avançado o suficiente pra detectar textos automaticamente e possibilitar sua cópia pra outros programas, decidi tentar fazer isso com essas relíquias, que de fato só exigiram alguns reparos pontuais, pois o conteúdo saiu quase todo com espantosa exatidão!

Portanto, estou publicando hoje um trabalho da disciplina “HH582A – Teoria da História III” ministrada por Margareth Rago, com quem desenvolvi uma querida relação de amizade, no 1.º semestre de 2008, entregue no dia 6 de maio. O título é “Explorando os princípios básicos da história genealógica de Michel Foucault”, e meu objetivo era fazer uma análise do capítulo “Nietzsche, a genealogia e a história”, publicado por Michel Foucault em sua célebre Microfísica do poder, complementada por textos relacionados. Esse artigo era um de meus preferidos na graduação, e a matéria era basicamente uma introdução à corrente chamada genericamente de “pós-estruturalista”, mais conhecida vulgarmente como “pós-moderna” e centrada em Foucault, mas incluindo também Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Félix Guattari e similares, com quem tive então meu primeiro contato.

Esta primeira publicação foi o que se costumava chamar “projeto de trabalho”, e alguns professores preferiam que fizéssemos primeiro tal projeto em meados do semestre pra que no final produzíssemos um texto mais rigoroso e encorpado, como foi o caso de minha análise sobre a “história genealógica”. O que vou falar aqui pode parecer “comprometedor”, mas nessa época, a Margareth falou em classe que no passado, ela e outros colegas empreenderam “uma luta” pra que fosse então implantada a então chamada “Teoria III”, cujo conteúdo básico já informei. Antes, a seu ver, “os estudantes viam só Thompson, Thompson e ficavam mal preparados pra concursos”, em referência ao marxista não ortodoxo britânico Edward Thompson, a principal referência da História Social, área na qual eu mesmo fiz minha pós. Por sua vez, não sei bem em que contexto, um de nossos professores da “Social” criticou na classe a própria condução da “Teoria III” (pela Margareth, suponho), dizendo que deveria ser “um curso de historiografia pós-moderna”, enquanto ela estava se limitando apenas à teoria em si.

Não quero nem saber: picuinhas tretas à parte, só sei que ela escreveu à caneta “muito bom” na primeira página e “Parabéns! Está indo muito bem” na última, rs. Aguarde o próximo capítulo pra saber como terminou tudo isso. Novamente, apenas atualizei a ortografia e as normas de citação bibliográfica e corrigi pontos que realmente não davam pra engolir ou que ficariam melhores de outra forma, sem alterar, contudo, o estilo redacional geral.



A ascensão do método genealógico, proposto e praticado por Michel Foucault, foi um dos fatos que mais abalou a tradicional “história dos historiadores”, considerada pelo filósofo francês como absoluta, estigmatizante, violenta e purista. O modo tradicional de se escrever a história não passou incólume à onda que exigiu a escavação das antigas interpretações, a desconstrução dos postulados consagrados da verdade, a ênfase na ruptura em detrimento da continuidade e um trabalho que não partisse de objetos previamente dados, mas que os construísse ao longo da análise das práticas. O secular louvor às origens das coisas e a consideração de que elas guardam о verdadeiro, o puro e o original sofreram o escárnio de um homem ridente que mostrou a importância das relações de poder para a emergência das interpretações históricas, que não passam de visões dos vencedores e marcam, sobretudo, o corpo das pessoas. Enfim, o novo panorama vivido pela disciplina histórica conduziu todos os seus profissionais, aprendizes e simpatizantes a abandonar o passado como referência primordial para suas visões de mundo e a ver no presente a razão e o palco de todos os embates de interpretações e práticas relacionadas aos tempos passados.

Esses são alguns dos temas a serem tratados nesta primeira etapa do mapeamento dos princípios básicos da história genealógica, cujos elementos, no trabalho final, entrarão mais sintetizados e articulados com o que se verá nas próximas leituras. Ela consiste na apresentação dos principais conceitos que sustentam esse modo de escrever a história, como “opacidade da linguagem”, “recusa da origem”, “emergência”, “proveniência”, “corpo”, entre outros, e tem por base o texto “Nietzsche, a genealogia e a história”, publicado no livro Microfísica do poder, de Foucault. Tais conceitos foram extraídos desse texto, organizados de uma maneira que pudesse mostrar melhor a relação que eles têm entre si e explicados de acordo com as indicações dadas no próprio texto. Outros conceitos, menos desenvolvidos no referido texto, ainda que a ele apareçam referências implícitas, como “história do presente” e “sujeito”, serão retomados em fases posteriores deste mapeamento e desdobrados após a leitura de outros textos. Complementou-se a explicação com dois artigos de Margareth Rago e um de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, que tratam de assuntos diretamente relacionados à história genealógica e, por isso, expõem alguns conceitos básicos importantes para entendê-la.


A primeira coisa que o historiador deve ter em mente é algo que o pós-estruturalismo repetiu até a exaustão e que marca profundamente essa corrente de pensamento: a linguagem não é transparente, ou seja, a palavra não é o reflexo fiel de uma coisa-essência que se esconde atrás dela. O próprio Foucault diz que as palavras não guardam seu sentido ao longo dos tempos, e que atrás das coisas não há uma essência sagrada, secreta e atemporal, mas a falta dessa essência ou uma essência construída, finita e terrena. A própria linguagem é uma coisa a mais que apenas torna a realidade ainda mais opaca, pois há grande separação entre o que é dito e o que é entendido, resultando na total diferença entre o que se diz e o que se deseja dizer. Por isso, toda a pretensão do historiador de que seu texto tenha um significado inequívoco é inválida, o que o obriga a não dirigir a leitura feita pelos outros e a permitir que sua obra produza vários significados de acordo com quem a lê.

Essa primeira afirmação leva o historiador a rever radicalmente seus procedimentos e seus instrumentos de trabalho, pois porquanto as palavras e as práticas não são reflexos, mas coisas em si, elas devem ser o ponto de partida de todas as suas análises. Assim, o historiador é levado a partir não de objetos já prontos, previamente dados, que expliquem as práticas sociais, mas daquilo que está na “superfície”, para que, a partir delas, percorra um caminho que culmine na construção de seu objeto. O corolário desse método, assim sendo, é não considerar o “objeto-realidade” como fundação da unidade dos discursos, mas as práticas discursivas e as não-discursivas como instituidoras de objetos e figuras sociais. Isso levou Foucault, apesar de suas divergências com os Annales, a defender a história-problema e a figura do historiador como aquele que pergunta, não aquele que responde, e que também não crê na existência de fatos históricos dados, regidos por leis e os quais cabia ao historiador decifrar por seus métodos.

Após essa discussão, fica uma pergunta: como surgem os discursos? Um dos conceitos pelo qual Foucault deseja substituir a ideia de origem, que será abordada mais adiante, é o de emergência, o ponto de surgimento, que ocorre em um certo estado de forças que, na história, lutam entre si ou contra circunstâncias diversas ou contra a degenerescência. A emergência é o momento em que essas forças, que não obedecem a um fim determinado, mas ao acaso, entram em cena, e é um lugar de afrontamento, porém não se trata de um campo fechado de luta, mas da distância e da desigualdade entre os adversários. Por isso, ninguém é responsável pela emergência histórica, que sempre ocorre no interstício dessas lutas e conflitos que geram as coisas, as ideias. As regras gerais da história em cada momento histórico, portanto, são a dominação e a violência, o que torna quimeras a reciprocidade e o consenso universais. As regras em si são vazias, mas o jogo da história consiste na dominação das regras, que ora são impostas, ora são obedecidas: em outras palavras, as emergências são substituições, conquistas e inversões, e interpretar não é descobrir um significado oculto na origem, mas apoderar-se e dar uma direção a um sistema de regras.

Disso tudo se concluem várias coisas. Primeira, se interpretar é dar direção a regras, o historiador tradicional, ao dizer que efetua uma descrição, não faz mais do que estigmatizar, rotular, baseado em absolutos. Segunda, se a história é resultado de constantes lutas, as interpretações sobre ela que predominarão, emersas nos interstícios, serão as interpretações dos vencedores dessas lutas, ou, de modo mais simples, a história é a história dos vencedores. Terceira, se a violência e a dominação são as regras gerais e se são os vencedores que as dominam, o ato de descrever e o consequente ato de estigmatizar são violentos, logo o historiador tradicional também é violento. Quarta, se as lutas obedecem ao acaso, logo a história também é fruto dele, e não formada por um ou vários sujeitos determinados que comandariam a política e a sociedade. E quinta, se a história, assim como qualquer visão de mundo, é um resultado do acaso, nada é verdadeiro, porque tanto a consciência histórica quanto a científica possuem, no fundo, instinto, paixão, do que se conclui que tudo é construção, portanto parcial, não eterno. O genealogista, destarte, diferencia-se do historiador tradicional ao assumir sua parcialidade.

Tais ideias terão um impacto avassalador no modo como se escreve a história e como se lê, ou melhor, se constrói o passado. O intelectual e as verdades sobre as quais ele baseava sua posição serão abalados de uma hora para outra, e ele passará a não ser mais o detentor da verdade, o baluarte das classes oprimidas, em especial do proletariado, que seria libertado por essa verdade. De sua parte, Foucault, em um ambiente dominado pela centralização dos estudos na classe operária, na “base” econômica e nas maneiras de se fazer a “revolução”, deslocará seu foco para as “minorias” e os relegados da história: de maneira inédita, o filósofo lançar-se-á de cabeça na chamada “superestrutura”, que tradicionalmente não era vista como portadora de campos que podiam ser historicizados. Consagrar-se-á, então, o desafio iniciado pelos Annales de fugir de uma história das guerras, dos triunfos e das batalhas ao se perscrutar o mundo dos maltratados, dos excluídos e dos segregados e, a partir daí, contestar-se o poder burguês, moral, masculino, eclesiástico e ocidental exercido sobre essas pessoas. A questão torna-se mais instigante quando se nota que opressões e desigualdades como a social e a de gênero continuaram nos meios revolucionários sob o pretexto de que a “revolução” social e econômica acabaria automaticamente com elas: assim o homem, vencedor da história, impunha suas regras às mulheres e lhes atribuía um papel social de um modo que acomodasse a si mesmo em sua posição tradicional. Minadas as bases nas quais se baseavam os discursos ditos “verdadeiros”, Foucault ainda lembrará que о historiador, cujo modelo tradicional era baseado no demagogo, não precisaria mais se esconder “sob a máscara do universal”, invocar a objetividade dos fatos e aniquilar sua individualidade em busca da revelação da “lei inevitável de uma vontade superior”. Contribuirá para isso o fato de a história não ser considerada como mais do que um discurso, o passado não ser mais visto como algo pronto e natural a ser desvelado e apreendido e os sujeitos e objetos não serem mais dados prontos com os quais o historiador iniciaria seu trabalho, devendo o historiador, portanto, tecer a trama que constitui o acontecimento. Por isso mesmo, não existe “a” verdade, mas “verdades”, que comandam, cada uma a seu tempo, um respectivo regime de verdade, diferente segundo o lugar e segundo a época, e sendo cada uma criada por determinado profissional da história ou alguém, ou alguns, que, em uma sociedade, é (são) disso encarregado(s).

Ao saber que por trás das coisas não existe uma essência portadora de uma pureza original e, consequentemente, que não existe uma verdade histórica pronta para ser desvelada por instrumentos eficazes, sendo ambas construções dos “vencedores” da história, o historiador negar-se-á, pois, a pesquisar a origem das coisas, algo que seria um começo unitário, indubitável e indissolúvel. Segundo Foucault, um dos usos que Friedrich Nietzsche, como um genealogista, faz do termo “origem” (em alemão, Ursprung) é depreciativo, referindo-se a uma origem mágica da moral, suposta por Platão, e da religião, deduzida por Schopenhauer. Há três motivos pelo qual o filósofo alemão se recusa à pesquisa dessa origem. O primeiro é a suposição da ausência de uma “identidade primeira” das coisas, revelada após a retirada de todas as máscaras, que seriam acidentais. Porém, não só não existe um “segredo essencial” atrás das coisas, como já foi dito, mas também seu começo histórico não possui identidade, mas a discórdia, o disparate. O segundo motivo é a negação da lei metafísica de que as coisas, na origem, antes da “queda”, encontravam-se em estado de perfeição, pois o começo histórico é baixo, no sentido de derrisório e irônico, não de modesto ou discreto: assim o esclarece Foucault, que exemplifica com a teoria darwinista de que o homem teria vindo, ou mais corretamente, teria o mesmo antepassado, do macaco. O terceiro, por fim, é a recusa de ver na origem o lugar da verdade, que possibilitaria um saber que ao mesmo tempo a recobriria, porquanto, como também já se disse acima, a verdade é uma invenção, um “erro” que foi cozido pela história e que tem nela sua própria história.

Por todos esses motivos, Foucault afirma que fazer uma genealogia dos valores ou da moral, por exemplo, não é buscar sua “origem”, mas dissecar as meticulosidades e os acasos dos começos, e é então que entra o conceito de proveniência. Esta não é a busca de características gerais que assimilem um indivíduo a outros, mas das marcas que o tornam diferente, marcas que nele se entrecruzam e formam uma rede impossível de se desembaraçar, é a busca dos inumeráveis começos, da dissociação do Eu e o encontro em sua “síntese vazia” de “mil acontecimentos agora perdidos”. A proveniência recupera os acontecimentos que ajudam a formar um caráter ou conceito e não ajuda a genealogia a mostrar uma continuidade ou influência do passado sobre о presente, mas os erros, desvios e acidentes desse percurso, do que se conclui que a origem da moral não é venerável, mas crítica. A herança da proveniência é “perigosa”, pois não é sólida, mas frágil, e sua pesquisa agita o imóvel, fragmenta o unido e mostra que tudo o que se pensava “em conformidade consigo mesmo” é, na realidade, heterogêneo. Um dos exemplos de ruptura das descontinuidades é a história da prisão elaborada por Foucault, segundo a qual ela não mostra que a humanização das pessoas progrediu, mas que o exercício da violência e as formas de dominação aperfeiçoaram-se.

Considerar a “multiplicidade dos começos” ajuda o historiador a considerar que todo acontecimento é singular, e deve ser espreitado onde se supõe não haver história. O acontecimento, que é uma relação de forças em constante luta, não deve ser dissolvido em uma “continuidade ideal” obedecendo a uma “necessidade interna dos fatos históricos”, mas deve ter revelado o que “pode ter de único e agudo”. Já que essas forças obedecem ao acaso, como foi visto, o mundo, portanto, não é uniforme e estável, mas matizado e caótico, no qual vivemos uma vida grotesca, barroca e cheia de contrastes. Assim, em lugar de se proceder ao modo dos historiadores tradicionais, cuja história é unitária, identitária e absoluta, Nietzsche propõe um “sentido histórico” que serve à genealogia ao não se apoiar em absolutos, ao distinguir, dissociar as coisas e a unidade do ser humano, privilegiando, assim, a mistura, o deslocamento e a “convivência dos contrários”. É baseado nisso que Foucault afirmará que o saber não é feito para compreender, mas para cortar, pois nada é eterno e tudo tem história, como os sentimentos, os instintos e o corpo, que será abordado mais adiante. É de tal pressuposto que parte a chamada “história efetiva”, que não deve apoiar-se em constâncias (que não existem), nem em reconhecimentos, continuidades ou obstinação a fins milenares, em outras palavras, é proposta aqui uma história baseada na ruptura. Somado a isso, se a história é uma sucessão de vitórias nas quais várias interpretações vão se sobrepondo ao longo do tempo, eis o que dá o nome e a função da genealogia: ela busca esmiuçar essas verdades acumuladas, os já citados acasos е meticulosidades dos começos, busca não efetuar sínteses ou totalidades, mas a “descrição da dispersão”. Por isso, a história, para o genealogista, com seus acasos, vitórias e derrotas, é “o próprio corpo do devir”, é “uma série de interpretações” que a prática genealógica faz aparecer, o que leva o profissional, cujo trabalho é regido por uma atitude irônica com relação aos relatos e ao que se chama de documentos, a conjurar a fantasia da origem. É uma atitude irônica, pois o humor ajuda a encarar a incerteza e a finitude e faz nascer o riso a partir de nossa descoberta de que se encontra um enorme abismo entre aquilo que somos e aquilo que julgamos ser.

Procedendo dessa maneira, o historiador dará sequência a uma contínua desconstrução das coisas e das verdades, as quais, mapeadas toda a sua estrutura e a luta que está por trás de sua emergência, serão desnaturalizadas, isto é, não serão vistas como algo eterno, nem como coisas que sempre tiveram a mesma forma que apresentam hoje. Por isso mesmo, Foucault pede que não se atribua à emergência os termos do presente. É o mesmo autor que se utilizava constantemente da ironia para desconstruir, desnaturalizar e problematizar relações ditas inabaláveis e “metáforas biológicas”, ou seja, legitimações que tinham como sustentáculo estarem fundadas na originalidade da natureza e supostamente podiam ser descritas com instrumentos fornecidos pela biologia. Para proceder à desconstrução e à desnaturalização, o historiador deve levar a cabo três usos da história, chamados pelo filósofo de “antiplatônicos”, já que Platão foi o fundador da oposição aparência/essência, a qual Foucault tanto combate e que baseia a metafísica de hoje. О primeiro uso é o paródico e destruidor da realidade: deve-se reconhecer que as identidades que o historiador oferece ao europeu confuso são apenas máscaras, mas o genealogista não deve rechaçar esse oferecimento de máscaras, apenas se devem recusar as “identidades marcadamente reais” e usar outras, irreais, o que torna a história uma “palhaçada”. Por isso, a genealogia faz algo como uma paródia da paródia para mostrar que a história não passa de uma paródia. O segundo uso é o dissociativo e destruidor da identidade, uma identidade frágil, pois ela é um “sistema complexo de elementos múltiplos, distintos”, não sintetizáveis: esse é o motivo pelo qual a história baseada na genealogia não encontra as raízes da identidade, mas dissipa-a, não demarca territórios, mas aflora descontinuidades, permite a criação de e “clarifica os sistemas heterogêneos” que proíbem a identidade. E o terceiro uso é o sacrificial e destruidor da verdade, segundo o qual se as consciências histórica e científica não são neutras, portanto, o conhecimento é repousado na injustiça, visto que não há uma verdade universal. O querer-saber evocado por Foucault, destarte, é “mau”, pois desfaz a unidade do sujeito de conhecimento, dissociando-o e destruindo-o, fato que não limita a vontade de verdade, mas tira dela seu limite e intenção de verdade. É então que o sujeito de conhecimento, que julga saber tudo, dá lugar ao intelectual específico, que sabe de suas limitações e de sua posição.

Dois elementos dos quais o historiador genealógico não pode prescindir e que estão profundamente ligados são a noção de micropoder e a importância do corpo na reconstituição genealógica. Ao citar o anarquismo, Foucault o faz como um ideário que, entre outras coisas, se caracteriza por uma crítica acerba do modo como se exerce o poder, principalmente na Modernidade, e por denunciar não só a dominação estatal, mas também os micropoderes. Difusos por toda a sociedade, eles ultrapassam em importância o poder jurídico, na sua forma visível e repressiva, mas são um poder invisível e molecular, caracterizado pela positividade, que atua em todos os cantos do social e que constitui redes de relações que abarcam tudo e todos. E o corpo, agora também historicizado, é precisamente a unidade mínima, mas central, sobre a qual recai a ação desses micropoderes, e por isso Foucault o julga fundamental para entender as formas de dominação dos últimos séculos. Para o pensador, a proveniência, ou seja, os múltiplos começos, dizem respeito ao corpo, que reflete os erros do passado e é o lugar no qual ficam as marcas da história e onde nascem, se atam, se exprimem, se desatam e batalham “os desejos, os desfalecimentos e os erros”. Assim, a genealogia está “no ponto de articulação do corpo com a história” e tem por obrigação mostrar esse corpo todo “marcado de história” e revelar como a história “arruína” o corpo.

Torna-se mais fácil entender esse papel do corpo ao se exporem as várias situações nas quais ele está presente, sendo a mais importante para os historiadores, no trabalho de Foucault, a história da prisão, que, além da descontinuidade da história, esclarece sobre o poder disciplinar, por sua vez útil na reflexão dos modos de dominação no dia-a-dia da vida social. Ainda que Foucault não tenha desenvolvido muitos estudos completos sobre as questões de gênero, seu pensamento foi importante também para entender que as mulheres, cuja identidade era considerada como biologicamente fundada, sofrem diretamente a dominação em seu corpo. As identidades do homem e da mulher, que na verdade são social e culturalmente construídas, e não fundadas na biologia, legitimaram a sujeição feminina perpetrada pela sociedade patriarcal, que impôs à mulher os papéis obrigatórios de reprodutora, mãe e doméstica. Há muito tempo as feministas desconstroem os referidos papéis e abrem a possibilidade de construir uma própria definição de si mesmas e de lutar contra a opressão sexual por meio da maior participação no espaço público, incentivada, sobretudo, nos meios libertários que efervesciam nas primeiras décadas do século 20. Os objetivos principais da iniciativa, e que as mulheres ainda lutam para fazer valer integralmente, eram abolir as hierarquias sexuais, tirar do amor livre e do aborto o status de tabus e conquistar o pleno direito à maternidade consciente, à educação, à cultura e ao trabalho. O mesmo pode ser dito sobre os homossexuais, cuja vivência é uma ironia devido à distância entre o que eles dizem sobre si e o que realmente são, e que são pessoas que baseiam sua identidade em uma opção que diz respeito diretamente ao corpo. É um corpo esse oprimido por uma sociedade homófoba que não aceita a convivência amorosa entre pessoas consideradas do mesmo sexo e que admite como natural apenas a relação entre homem e mulher, sem desconstruí-la e desnaturalizá-la, como faria o genealogista. Não se deve esquecer também que Foucault, em vários textos, muitos deles publicados em Microfísica do poder, denuncia como os médicos, a partir do século 19, adquiriram grande poder na sociedade e como o hospital, lugar por excelência da cura do corpo malsão, tornou-se uma fortaleza na qual se abrigam vários saberes que proporcionam enorme poder a quem os detém.

Afora esses princípios básicos, há muitas outras questões para entender a constituição e o emprego da história genealógica e que nesta parte do trabalho serão apenas esboçadas, mas posteriormente serão melhor desenvolvidas por meio da leitura de textos que as abordem com mais vagar. Entre esses temas, é interessante ver como Foucault lida com um sujeito que, em sua opinião, não está separado, mas dentro do poder, um sujeito que, como já foi mencionado, seria, na visão dos historiadores tradicionais, o principal responsável pelo andamento da história e já estaria pronto, esperando apenas para ser abordado pelo historiador em seu trabalho. A intenção de Foucault ao estudar os saberes, as disciplinas, a produção da verdade e o poder foi justamente poder explicar como o sujeito se constituiu enquanto objeto e enquanto sujeito na cultura ocidental. Em outras palavras, esse sujeito não mais era o fundamento constituinte privilegiado no Ocidente, mas algo passível de ser problematizado “como objeto a ser constituído”, o que explica o sacrifício do sujeito de conhecimento, promovido pela história genealógica, visto no parágrafo anterior.

Como último ponto importante a ser esboçado nesta etapa, é importante lembrar que o historiador genealógico está sempre consciente, por saber que ele não revela um passado exato e que não existe uma continuidade ideal entre o presente e o passado, de que toda história é história do presente, feita nos termos da contemporaneidade de quem a escreve e baseada em indagações atuais. Antes, a “história dos historiadores” tentava compreender o passado e recontava ordenadamente os fatos para que assim se compreendesse o presente e se visualizassem futuros possíveis. Mas no moderno carnaval paródico da história, o procedimento é o inverso: desfila-se usando máscaras criadas pela atualidade, celebra-se o esquecimento em detrimento da lembrança e predomina a descrença no passado como portador e transmissor aos seus descendentes da justiça, da beleza e da verdade, coisas que de fato são criações humanas. A interpretação feita de cada texto não busca adequar-se a uma suposta realidade localizada no passado, mas produzir certos efeitos no presente, ao permitir múltiplas interpretações regidas não por uma leitura direcionada, mas por sentidos imaginados, pela ausência de qualquer regra ou norma e por uma linguagem vertiginosa.


Expostas as principais bases da história genealógica que nortearão o trabalho em andamento, vale a pena traçar uma conclusão prévia da presente discussão. Mostrar que a verdade é mera construção e que a imposição de uma só verdade ao heterogêneo conjunto da sociedade é um ato de violência deve servir de base de reflexão ao historiador que não deseja tornar-se um facínora no meio que o circunda. Pode parecer mentira, mas os discursos possuem uma força enorme e muitos historiadores, talvez não se dando conta disso, ou não querendo o reconhecer, passam-se por agentes do poder ou mesmo procuram tornar-se seus detentores. Contudo, não só se esquecem de que o poder não é algo que se detém nas mãos, mas também não recordam que nada é eterno, e que seus castelos (de cartas) não durarão para sempre. A desconstrução e a desnaturalização são as armas pacíficas que Foucault legou ao historiador genealógico para que ele abra caminhos livres do autoritarismo, do sexismo e de todas as formas de dominação social.


Referências

ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. Michel Foucault e a Mona Lisa ou como escrever a história com um sorriso nos lábios. In: A arte de inventar o passado: Ensaios de Teoria da História. Bauru: EDUSC, 2007.

FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a genealogia e a história. In: Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. 23. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2007, p. 15-37.

RAGO, Margareth. Foucault e as artes de viver do anarco-feminismo. In: RAGO, Margareth; VEIGA NETO, Alfredo. Figuras de Foucault. Belo Horizonte: Autêntica, 2006, p. 165-175.

______. O Efeito Foucault na Historiografia Brasileira. Tempo Social – Revista de Sociologia da USP, São Paulo, n. 7, p. 67-82, out. 1995. Disponível nesta página (versão arquivada). Acesso em: 16. abr. 2008.



terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O que Sergey falou em russo no Domingão

Após meses de espera de acordo com as regras do quadro, este peculiar Homo sovieticus chamado Sergey (ou Sergio) Loewitz finalmente participou do “Quem quer ser um milionário?”, apresentado por Luciano Huck em seu Domingão. Professor de idiomas e casado com uma brasileira, com quem tem uma filha e mora em Niterói, é falante nativo de russo e nasceu na antiga RSS da Moldávia, atualmente a República da Moldova independente. Embora o país seja multicultural, o romeno (chamado pelos soviéticos de “moldávio”) é a língua predominante e o russo, falado desde a ocupação tsarista da Bessarábia histórica (século 19), ainda tem um papel relevante; é majoritário, por exemplo, na região separatista da Transnístria.

Volta e meia escrevo aqui na página sobre esse pequeno país, mas essa é mais uma ocasião pra eu pegar no pé de quem faz pouca ou nenhuma pesquisa sobre o que está falando. O Gonzo, por exemplo, ao invés de fazer uma breve leitura sobre a história recente da Moldova, repetiu várias vezes a versão russa do nome (“Moldávia”), usada predominantemente na Rússia e em sua mídia estatal, enquanto mesmo entre os moldovos russófonos se usa “Moldova”. Pra quem combate o colonialismo do Kremlin e convive diariamente com o assunto, soa como o arranhar de um disco ouvir “Moldávia” o tempo todo, ou pior, ocasionalmente misturando as duas formas e soltando um “Moldóvia”! Não sei se o Trololó fluminense o “assessorou” de alguma forma, mas nem ele deve entender ou sequer ligar pra essas “minúcias”.

Em todo caso, ao contrário de minha bisavó Tekla, que nasceu justamente na Bessarábia histórica e era o cão chupando manga, a inocência e bom coração de Sergey evocam muito mais meu bisavô Basílio, nascido, porém, em Kyiv. Como os dois se casaram e tiveram uma penca de filhos, só a NASA explica. Porém, fiquei muito tocado com sua iniciativa de dedicar o dinheiro ganho no Domingão distribuindo bolsas a alunos pobres, embora não tenha ganhado o prêmio máximo e, pior, errado uma pergunta sobre biquíni! Mesmo assim, seu Instagram pessoal, que passou de pouco mais de 600 seguidores pra mais de 29 mil até a tarde da segunda-feira seguinte, se tornou um registro permanente da aguardada façanha.

No encerramento do quadro, depois de Sergey ter errado uma das perguntas, ele pediu pra mandar um recado pra sua família, acredito que pra sua mãe e seu irmão, embora ele não os tenha mencionado antes. Embora ele também fale romeno, sua mãe só fala russo, e nessa língua ele pediu pra se comunicar, ocasião que aproveitei, obviamente, pra fazer uma “média” no WhatsApp entre meus amigos, rs: filmei com o celular a transmissão no Globoplay após voltar alguns minutos em meu computador e espalhei o vídeo com a transcrição (como acredito que deve ser) e a tradução. Foi uma pena que não consegui lançar esta publicação ainda ontem.

O que me chamou a atenção foi a palavra “taliánchik”, que tirei de ouvido e não sabia se estava certa, porque parecia algo relacionado à “Itália”. De fato, o significado mais corrente é o de “qualquer pedra ou cristal precioso”, “ametista”, “quartzo puro”, e em russo dialetal (não descobri o lugar exato) é um sinônimo de “querido”, “amado”, ou seja, faz sentido neste contexto. Se você tem outra tradução, favor escrever nos comentários. Além disso, pra obter uma versão de melhor qualidade, infelizmente o vídeo baixado da fonte original com a extensão que costumo usar ficou danificado exatamente no trecho concernido, e acabei usando outra extensão que “despedaçou” o vídeo e tive de juntar as partes desejadas. Apesar de não estar límpido como sempre, vale muito a pena pra nossos fins:


“Мамочка, люблю тебя! Братишка-тальянчик, спасибо вам огромное за всё, за жизнь, за любовь вашу. Люблю тебя, мамуля!” (Mámochka, liubliú tebiá! Brátishka-taliánchik, spasíbo vam ogrómnoie za vsió, za zhizn, za liubóv váshu. Liubliú tebiá, mamúlia!)

“Mamãe, eu te amo! Meu irmãozinho querido, muito obrigado por tudo, pela vida, pelo amor de vocês. Eu te amo, mãezinha!”


Aliás, aproveitando a ocasião pra descarregar um print cômico: numa das edições do jornal diário Vot Tak Moldova, transmitido em russo a partir da Polônia, a apresentadora com um dos deputados do PAS, partido de Maia Sandu, parece a Ana Castela entrevistando o Zohran Mamdani, rs.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Pero Gandavo, Fernão Cardim e colonização

Tendo guardado por alguns anos meus primeiros trabalhos escritos da graduação em História na Unicamp em seu formato impresso original, com as correções, observações e notas dos professores, resolvi um dia digitalizar a maioria deles, quando não tivesse backup dos arquivos Word originais. Nunca tinha pensado em os publicar na página, mas quando percebi que o navegador Chrome estava avançado o suficiente pra detectar textos automaticamente e possibilitar sua cópia pra outros programas, decidi tentar fazer isso com essas relíquias, que de fato só exigiram alguns reparos pontuais, pois o conteúdo saiu quase todo com espantosa exatidão!

Portanto, estou publicando hoje um trabalho de disciplina ministrada por Leila Mezan Algranti, “HH384 – História do Brasil I” (período colonial) no 1.º semestre de 2007, entregue no dia 9 de abril. O título é “Análise comparativa das obras História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gandavo (estava assim, talvez o correto seja Gândavo), e Tratados da terra e gente do Brasil, de Fernão Cardim”, dois cronistas portugueses do século 16 que pensavam estar fazendo as vezes de historiadores e descreveram, sobretudo, as populações indígenas da costa brasileira, com preconceitos bem peculiares aos exploradores da época. No primeiro parágrafo expliquei bem minha tarefa, mas este texto específico merece algumas observações sobre a nova edição.

Primeiro, acrescentei alguns sublinhados feitos pela própria Leila, seguidos de suas observações entre colchetes e que originalmente estavam nas laterais das folhas. Segundo, no trabalho original, bem como nesta reedição, mantive a ortografia, incluindo falta ou excesso de acentos gráficos, como figurava nos textos do século 16, o que explica, por exemplo, que nas citações a obra História da Província de Santa Cruz apareça como “História da Provincia Santa Cruz”, sem o agudo de “Província” nem a preposição “de”. E terceiro, apenas atualizei a ortografia e as normas de citação bibliográfica e corrigi pontos que realmente não davam pra engolir ou que ficariam melhores de outra forma, sem alterar, contudo, o estilo redacional geral.

Qual foi a nota? 8,5, acompanhada do garrancho (ai de mim!) ao final que transcrevo a seguir: “Erick, muito boa a pesquisa, a seleção dos autores e a contextualização. O trabalho está também bem escrito e estruturado. Senti falta, apenas, de um pouco mais de ‘liberdade’ sua para proceder à análise de alguns trechos selecionados por você.” Realmente, a gente não pode ter “liberdade” quando não é especialista num tema e tem um baita medo de parecer estar “inventando” coisas de que o professor não vai gostar, rs. Mas é essa “ousadia” que de fato vamos aprendendo a ter durante a graduação e, sobretudo, a pós-graduação. Curiosidade: era pra ter outro trabalho no fim do semestre, o que não ocorreu devido a uma das célebres greves do período, a primeira que peguei, inclusive. Portanto, em todas as matérias, ficamos com a nota do primeiro trabalho como média, neste caso... oito e meio.



O presente trabalho consiste na análise comparativa entre duas obras de dois cronistas que escreveram sobre o Brasil no século 16, a saber História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gandavo, e Tratados da terra e gente do Brasil, com ênfase no opúsculo Do principio e origem dos indios do Brasil, do padre jesuíta Fernão Cardim. A escolha da obra de Cardim deu-se pelo fato de seu autor compartilhar com Gandavo um mesmo projeto de colonização para o Brasil, que priorizava a conversão das populações nativas ao catolicismo em detrimento da exploração econômica [será que de fato separou?], num momento em que o Império português voltava sua atenção para a América, porquanto sua primazia no Oriente começava a se tornar menos sustentável. Será demonstrada a predominância da visão detratora com relação ao Brasil [ou seus habitantes?] por parte dos cronistas contemporâneos, e como, para isso, colaborou a projeção do imaginário, ou seja, o monstruoso (com ênfase no demoníaco) ao desconhecido, o que justificou a empreitada catequizadora em terras americanas.


Sabe-se pouco sobre a vida de Fernão Cardim, cuja data de nascimento é objeto de discórdia, sendo a hipótese mais provável a de que tenha nascido em 1548, em Viana do Alentejo. Foi ministro do Colégio de Évora e, a 5 de março 1583, partiu para o Brasil, tendo passado por várias cidades da costa brasileira, o que lhe rendeu material para a Narrativa epistolar, encerrada quando ainda era reitor do Colégio da Bahia. Eleito na congregação provincial para procurador da Província do Brasil em Roma, Cardim partiu para lá em 1598 e, ao sair da Europa, a 24 de setembro de 1601, teve o navio em que viajava abordado por corsários ingleses. Isso resultou na sua condução à Inglaterra como prisioneiro, onde teve seus manuscritos tomados, retornando ao Brasil apenas em 1604. De volta, recebeu o cargo de provincial, que ocupou até 1609 e, mais tarde, assumiu o cargo de vice-provincial e, novamente, de reitor do Colégio da Bahia, até que, em 1624, os holandeses tomaram a Bahia e expulsaram muitos padres do Colégio, e, na ausência do provincial, Cardim assumiu o governo da província, falecendo a 27 de janeiro de 1625. (1)

Também são escassas as informações sobre a vida de Pero de Magalhães Gandavo, nascido em Braga, em ano desconhecido. Filho de pai flamengo, possuía conhecimentos do latim (que ele lecionava) e do grego, como todo humanista, escreveu uma Gramática da língua portuguesa acompanhada de um diálogo sobre a elegância da língua vernácula e foi moço de câmara do rei D. Sebastião. Tendo trabalhado na transcrição de documentos na Torre do Tombo, em Lisboa, é possível que tenha ocupado o cargo de Provedor-Mor do Brasil no Governo-Geral de Mem de Sá entre 1565 e 1570, período em que teria residido na Bahia e talvez teria visitado outras regiões da colônia portuguesa. De seus registros, para os quais teria auxiliado seu contato com líderes jesuítas, que possuíam grande prestígio político, publicou História da Província de Santa Cruz, em 1576, e, se é válida a hipótese de que ele nunca esteve no Brasil, deve ter se valido de informações fornecidas por jesuítas, o que se nota pela semelhança de sua obra com as cartas jesuíticas ao tratar de certos assuntos. Gandavo morreu em 1579, em Portugal, em local incerto. (2)

Apesar de Cardim ter atuado no campo religioso e Gandavo, no civil, ambos representaram uma época na qual o Brasil começava a tomar relevância em termos estratégicos no Império português, mas cuja colonização ainda era basicamente missionária, e cujo projeto de colonização será ferrenhamente defendido por esses dois homens ligados aos jesuítas, um diretamente, outro indiretamente. Cardim pertenceu à Companhia de Jesus, instituição cujo prestígio no Brasil era grande, como dito acima, e que influenciou as primeiras formas de povoamento do país, enquanto Gandavo gozava de prestígio perante a coroa portuguesa, vista a sua nomeação para um importante cargo em um local que também estava começando a adquirir importância. (3) Cabe ressaltar ainda que Cardim não conhecera os indígenas em estado totalmente selvagem, como os encontraram os primeiros colonizadores, mas, em grande parte, já catequizados, após a chegada dos jesuítas em 1549, o que é um empecilho para o reconhecimento de que “o amor à natural devia incliná-lo aos índios”. (4)


Gandavo, no “Prologo ao lector” da História da Província de Santa Cruz, chama sua própria obra de “historia”, e informa que ninguém havia ainda feito uma sobre o Brasil de “melhor estillo” ou “mais copiosamente” escrita do que a sua. Ele denuncia também a cobiça que os estrangeiros têm pela nova terra e a falta de conhecimento sobre a terra pelos portugueses, que dela deveriam aproveitar as riquezas e seu “remedio” aos “pobres e desamparados”, e lamenta a pouca afeição dos portugueses pela “escritura”, pela qual ele desejava dar à eternidade as “cousas” da terra, assim como faziam os antigos com outras nações. Enfim, após se mostrar “desejoso de agradar a todos os que della quizerem ter notícia”, julga seu próprio estilo “facil, e chão, como meu fraco engenho me ajudou”. (5)

Pela análise do “Prologo”, nota-se que a escrita de Gandavo tem como característica a exaltação dos grandes feitos do passado, associados aos sucessos militares e às ações bélicas necessários à manutenção do Império, sendo, portanto, seus chefes militares e líderes políticos os destinatários privilegiados, todos homens da corte portuguesa. De igual para igual, Gandavo, em seu lugar de autoridade, também alerta sobre a importância do saber letrado na tomada de decisões políticas equilibradas. Quanto ao seu desejo de dar notícia sobre a terra, é bom lembrar que a História não é uma propaganda “voltada ao público popular”, mas a tentativa de propagação de “um modelo de colonização prudente” junto ao público cortesão. Esse modelo torna-se mais visível ao se notar a preferência de Gandavo pelo nome “Terra de Santa Cruz”, que remete às finalidades devotas da busca da salvação, em detrimento de “Brasil”, ao qual está ligada a ideia da exploração puramente econômica. (6) O estilo casual é o reflexo de uma prática decorosa nas práticas retóricas e políticas da corte, da qual se infere principalmente o “efeito de naturalidade ou simplicidade”, a fim de que o relato se aproximasse mais à verdade do que “algo construído pela arte”. (7)

Nos Tratados da terra e gente do Brasil, em especial nos dois primeiros opúsculos que o integram, encontram-se informações brutas, que não tiveram a escrita devidamente polida e circularam anônimas, tendo sido atribuídas, por muito tempo, ao irmão Manuel Tristão. Deve-se lembrar que, na Companhia de Jesus, as informações brutas eram coletadas por irmãos, e não por padres, cabendo a estes a especulação teológica sobre elas e, se fossem autorizados, a escrita de obras de síntese “capazes de produzir um discurso edificante e como informação aos superiores para o recrutamento de missionários para terras além-mar”, (8) o que provavelmente é o caso dos Tratados. São características dos escritos de Cardim a simplicidade, a naturalidade e a ausência de artifícios de estilo e preocupações eruditas, com toques de bom humor, vivacidade, graça e comparações imprevistas. Além de ser um bom orador, provavelmente também estava a par dos saberes correntes em seu século, em especial a ciência médica. (9)


Os textos de Fernão Cardim, assim como os de Gabriel Soares de Souza e os de Pero de Magalhães Gandavo, não são livros de História, ainda que possam ser usados por especialistas da área, mas “descrições da realidade brasileira”. Os Tratados da terra e gente do Brasil são, na verdade, a reunião de três opúsculos: Do clima e terra do Brasil, Do principio e origem dos indios do Brasil e Narrativa epistolar. Este último foi o primeiro a ser publicado em português, em Lisboa, em 1847, foi reimpresso no Brasil em 1860 e recebeu reproduções parciais em revistas brasileiras nas décadas posteriores. Quanto aos dois primeiros, seus originais estavam entre os manuscritos roubados de Cardim durante sua prisão na Inglaterra, e foram publicados em inglês na coleção Purchas his Pilgrimes, de Samuel Purchas, com o título A treatise of Brazil written by a Portuguese which had long lived here, em 1625, tendo sido sua autoria atribuída ao irmão Manuel Tristão. Já no século 19, a obra em inglês foi comparada com dois manuscritos existentes na Biblioteca de Évora, do que se concluiu que as duas partes do Treatise eram capítulos de uma mesma obra, que estava sendo escrita em 1584. Pelo fato de os manuscritos não estarem assinados, a certeza da autoria só veio com a comparação do Treatise com a Narrativa epistolar, seguindo-se a publicação, no Brasil, em 1881, dos dois tratados separadamente e, finalmente, em 1925, o aparecimento dos três opúsculos em um só volume. Nele aparece a importância do caráter da obra de Cardim e suas múltiplas facetas, como geógrafo, etnólogo, zoólogo, botânico e o “historiador diserto”, como resultado de suas várias viagens pelo Brasil, em especial em seus primeiros anos de estadia. (10)


Desde muitos séculos, os europeus acreditavam que os habitantes de terras longínquas constituíam uma humanidade à parte, fantástica e monstruosa, e que, após a exploração de grande parte do mundo, em especial a Ásia e a África, não mais habitavam os confins desses continentes, mas a América e o oceano Atlântico. A partir do século 15, não só os monstros tenderam a se demonizar, como se somou a eles a concepção do homem selvagem, que não era tema novo e dependia da representação hierárquica da sociedade cristã, justificando a empresa colonial enquanto difusora de cultura e religião entre aqueles que não as tinham. Assim, os indígenas foram pensados, ao mesmo tempo, como uma outra humanidade, como animais e como demônios. (11) Foram fruto dessa tendência de demonização os relatos a respeito dos indígenas brasileiros escritos por Gandavo e Cardim, que enxergaram o puro pecado em práticas indígenas consideradas demoníacas, como a “cauinagem”, o paganismo, a preguiça, as guerras por vingança e a antropofagia. Tal demonização foi mais uma justificativa para a necessidade do trabalho missionário, pelo qual a Companhia de Jesus estaria conquistando espaços que antes pertenciam ao demônio, (12) mas também pode ter resultado da prática cristã de excluir os instintos de si mesmo, atribuindo-o ao Outro em termos negativos (13), e da ideia de que aqueles que não pertencem a Deus necessariamente pertencem ao diabo. (14)

A demonização não aparece somente em aspectos gerais da população indígena, mas especialmente em caracteres específicos, sendo o primeiro aqui posto em análise a personalidade. Não por acaso, Gandavo encerra a série de capítulos que edenizam a natureza brasileira com um capítulo IX dedicado especialmente ao choque de Baltezar Ferreira com o lendário monstro indígena Hipupiàra, morto por aquele homem em 1564. Quando, numa noite, uma índia alerta Ferreira da presença do monstro, "como elle fosse nam menos sizudo que esforçado, e esta gente da terra seja digna de pouco credito, nam Iho deu logo muito às suas palavras”, (15) o que resultou num susto maior. No capítulo seguinte, Gandavo não hesitou em qualificar os indígenas da costa como

de muito pouco consideraçam: sam desagradecidos em gran maneira, e mui deshumanos e crueis, inclinados a pelejar e vingativos por extremo. Vivem todos mui descançados sem terem outros pensamentos senam de comer, beber e matar gente [...]. Sam mui inconstantes e mudaveis: crêm de ligeiro tudo aquilo que lhes persuadem [...]. Sam mui deshonestos e dados á sensualidade [...]. (16)

Cardim faz poucas revelações a respeito da personalidade indígena, mas dá algumas pistas ao comentar sobre as “setenta e seis nações" de tapuias com as quais os portugueses não possuíam relações por serem “gente brava, silvestre e indomita”, “contrarias quasi todas do gentio que vive na costa do mar, vizinhos dos Portuguezes”. Com as tribos tapuias especificadas (que não são todas as existentes, mas grande parte delas), “não se pode fazer conversão por serem muito andejos, e terem muitas e diferentes linguas difficultosas”. (17)

Costumes também não escapam da detração, a começar pela língua falada pelos indígenas da costa, que, apesar de ser fácil e branda, “nam se acha nella F, nem L, nem R, cousa digna despanto porque assi nam têm Fé, nem Lei, nem Rei, e desta maneira vivem desordenadamente”, (18) ou seja, à maneira do inferno. Os dois autores também tratam dos adornos, mas de lados opostos: Gandavo diz que “ha [alguns] que trazem o rosto todo cheio de buracos e pedras, e assi parecem muito feios e disformes”, (19) enquanto Cardim informa que esses enfeites “são as riquezas que mais estimão que quanto têm. (20)

Como jesuíta, Cardim dá ênfase às crenças dos indígenas, e inicia o opúsculo Do principio e origem dos indios do Brasil informando que eles não têm “conhecimento do principio do Mundo” e descrevendo algumas de suas lendas. Mais adiante, diz que eles “têm grande medo do demonio, ao qual chamam Curupira, Taguaigba, Macachera, Anhanga [...]. Algumas vezes lhe apparecem os diabos, ainda que raramente, e entre elles ha poucos endemoniados”. (21) Essa afirmação (a de que os indígenas têm medo do diabo) entra em choque com a posterior demonização desse povo, que se inicia pela descrição dos pajés: “Entre elles se alevantarão algumas vezes feiticeiros, a que chamão Caraíba, Santo ou santidade, e é de ordinario algum Indio ruim de vida”. (22) Os pajés, considerados “mentirosos e enganadores”, eram um dos alvos preferidos da detração jesuítica, pois os “feiticeiros”, como eram chamados, afirmavam, entre outras coisas, que a água batismal gerava doenças mortais. Da conexão entre pajés e demônios, nasceu uma guerra vencida pelos jesuítas, que incluiu a pregação e a detração, seguidos da violência levada a cabo pelas autoridades influenciadas pelos religiosos. (23)

As ocas e as festas que nelas ocorrem constituem o lugar infernal por excelência. Gandavo já descreve as casas “feitas á maneira de cordoarias ou tarracenas fabricadas sómente de madeira”, nas quais “vivem todos muito conformes, sem haver nunca entre elles nenhumas differenças”. (24) Mas é Cardim quem falará das festas que duravam dois, três dias, durante as quais não se comia, mas apenas se bebia, “e de bebados fazem muitos desmandos, e quebrão as cabeças uns aos outros, e tomão as mulheres alheias etc.”, (25) e dos dias de comemorações que antecediam a execução de um prisioneiro: no terceiro dia, há danças com bater dos pés e toque de gaitas, fazendo “uma harmonia que parece a musica do inferno, mas elles aturão nellas como se fossem as mais suaves do mundo”, e no quarto dia, mais festas, com bebedeira, cantoria, danças e contar de histórias, “e tanto que começam a beber é um lavarinto ou inferno ve-los e ouvi-los, porque os que bailão e cantão aturam com grandiosíssimo fervor quantos dias e noites os vinhos durão”. (26) Porém, a harmonia na qual os indígenas convivem é ressaltada pela possibilidade que Cardim apresenta de se fazer conviver os costumes indígenas com a natureza cristã, gerando assim uma “narrativa de consolação” em meio à dificuldade missionária. (27)

Demonizam-se também as guerras realizadas entre os indígenas, entre os quais, segundo Gandavo, “nunca se acha nelles paz nem será possivel, segundo são vingativos e odiosos”, cuja solução seria a doutrinação católica. São “desejosos de exercitarem sua crueldade” e “mui atrevidos [...] e tam confiados em sua valentia, que nam há forças de contrarios tam poderosas que [...] os façam desviar de suas barbaras e vingativas tenções”. (28) Para Gandavo, os indígenas, na paz, se governam com justiça, mesmo com poucas noções de hierarquia, mas guerreando, são ferozes, desumanos e frágeis, cabendo aos portugueses, portanto, governá-los na paz, momento no qual o demônio estaria mais enfraquecido. (29) E é essa guerra que, em Gandavo, demonizará os aimorés, que são “mais ferozes e de menos razam”, vivem como “brutos animaes”, têm uma guerra danosa, pois “são mui barbaros, e toda a gente da terra lhes he odiosa”, são “pérfidos” e muito rápidos nas batalhas, o que os torna muito temidos. (30) Desses relatos se infere que

A violência cotidiana era uma das faces com que se pintava a humanidade-anti-humana dos ameríndios. Humanidade ameaçadora, que colocava os europeus entre o risco de ser flechado e o de ser comido. (31)

Realmente, a prática antropofágica está estritamente relacionada à guerra, cuja união se deve à cerimônia que precede a captura de um inimigo por uma aldeia. A ocasião, relatada em minúcias tanto por Gandavo quanto por Cardim, consiste no seguinte: capturado o inimigo, ele é levado à aldeia e recebido com grande entusiasmo pelos indígenas. Lá, ele permanece prisioneiro por meses ou até anos, possuindo relativa liberdade de movimentação, com uma corda amarrada ao pescoço e convivendo com uma mulher que lhe faz companhia. Marcado o dia para a sua execução, começam as festas, já descritas acima, que começam cinco dias antes, chegando ao ápice, que é o encaminhamento do prisioneiro ao seu executor. Com a corda agora na cintura, após um ritual que envolve um índio “padrinho” do algoz, o prisioneiro, sendo “tanta a bruteza destes”, provoca o carrasco, dizendo que “muito embora morra, pois muitos tem mortos, e que alem disso cá ficão seus irmãos e parentes para o vingarem”. (32) Logo após, o prisioneiro é morto com uma paulada (os cronistas chamam o instrumento de “espada”) no crânio, e logo é assado e repartido entre os convidados para que seja comido.

Para Gandavo, esse destino é “Huma das cousas em que estes Indios mais repugnam o ser da natureza humana, e em que totalmente parece que se extremam dos outros homens”, e, ao lhe comerem a carne, usam “nesta parte de cruezas tam diabolicas, que ainda nellas excedem aos brutos animaes que nam tem uso de razam nem foram nascidos pera obrar clemencia”. (33) Já Cardim julga que, dessas cerimônias, “são muitas dellas tão penosas que se alguem por amor de Deus sofresse os seus trabalhos não ganharia pouco”, e finaliza informando que “estas são as infelizes festas, em que estes tristes antes de terem conhecimento de seu Creador põem sua felicidade e gloria”. (34) As descrições de atos antropofágicos dão a clara impressão de que se está diante de cenas totalmente demoníacas, que não abrem espaço para considerações valorativas, predominando a detração, a oposição entre indígenas e cristãos e um limite, à primeira vista, intransponível, entre barbárie e verdade. (35) Como não há estado de inocência após a queda, a ausência de fé, lei, e rei, como diria Gandavo, não pode fazer com que a índole cruel se revele durante a guerra, gerando as instituições diabólicas que se fazem ver na vingança, na morte do inimigo e no consumo de sua carne. (36)


Como os comentadores das obras de Fernão Cardim e Pero de Magalhães Gandavo não cansaram de dizer, em especial Capistrano de Abreu, elas não foram as melhores histórias do Brasil escritas no século 16, se é que podem se enquadrar no gênero histórico, mas elas têm seu valor devido ao pioneirismo que carregam em si. Ainda que esses registros possam carecer de confiabilidade, pois não se tem a certeza de que foram escritos com base na observação direta, e de que os autores realmente viram as cenas que descreveram (37), eles guardam importantes dados, que são a mentalidade dos pioneiros da colonização e a carga cultural que eles levavam consigo, coisas que se perderam de geração para geração, mas se mantiveram nos documentos. As obras ajudam também a pensar na origem de muitos preconceitos com relação aos indígenas, que acompanham a população branca е católica do Brasil desde o início da formação de sua identidade.


Bibliografia

CARDIM, Fernão. Tratados da terra e gente do Brasil. Introdução e notas de Batista Caetano, Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia. São Paulo: Companhia Editora Nacional; Brasília: INL, 1978.

GAMBINI, Roberto. O espelho índio: os jesuítas e a destruição da alma indígena. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1988.

GANDAVO, Pero de Magalhães. História da Provincia Santa Cruz. Introdução de Capistrano de Abreu. São Paulo: Obelisco, 1964. (“Cadernos de História”, 2.)

LUZ, Guilherme Amaral. Pero de Magalhães Gandavo e a ética ultramarina portuguesa na Terra de Santa Cruz. História e Perspectivas, Universidade Federal de Uberlândia, n. 32-33, jan.-jun./jul.-dez. 2005.

______. Carne Humana: a retórica do canibalismo na América portuguesa quinhentista. Tese de Doutorado. Campinas: UNICAMР, 2003.

SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.


Notas (Clique pra voltar ao texto)

(1) GARCIA, Rodolfo. Introdução. In: CARDIM, Fernão. Tratados da terra e gente do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional; Brasília: INL, 1978, p. 10-15.

(2) LUZ, Guilherme Amaral. Pero de Magalhães Gandavo e a ética ultramarina portuguesa na Terra de Santa Cruz. História e Perspectivas, Universidade Federal de Uberlândia, n. 32-33, jan.-jun./jul.-dez. 2005, p. 70 e 82-83; “Pero de Magalhães Gândavo”. Disponível nesta página (versão arquivada). Acesso em: 08 abr. 2007.

(3) LUZ, Guilherme Amaral Luz, Op. Cit., p. 72-73.

(4) ABREU, Capistrano de. Apenso (De O JORNAL, de 27 de janeiro de 1935). In: CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 256.

(5) GANDAVO, Pero de Magalhães. História da Provincia Santa Cruz. São Paulo: Obeliscо, 1964, р. 22.

(6) LUZ, Guilherme Amaral, Op. Cit., p. 73 e 76-79.

(7) Ibid., p. 74.

(8) CASTELNAU-L’ESTOILE, Charlotte de. Les ouvriers d’une vigne stérile : les jésuites et la conversion des Indiens au Brésil, 1580-1620. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000, p. 376-377 apud LUZ, Guilherme Amaral. Carne Humana: a retórica do canibalismo na América portuguesa quinhentista. Tese de doutorado, Campinas, SP, UNICAMP, 2003, р. 195.

(9) GARCIA, Rodolfo. Introdução. In: CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 19.

(10) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 9, 94 e 250-252.

(11) SOUZA, Laura de Mello e Souza. O Novo Mundo entre Deus e o Diabo. In: O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p. 49-56.

(12) LUZ, Guilherme Amaral. Pero de Magalhães Gandavo e a ética ultramarina..., Op. Cit., p. 81.

(13) GAMBINI, Roberto. O espelho índio: os jesuítas e a destruição da alma indígena. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1988, р. 128.

(14) Ibid., p. 159.

(15) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 52 (grifo nosso).

(16) Ibid., p. 55.

(17) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 127.

(18) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 54.

(19) Ibid., p. 56.

(20) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 109.

(21) Ibid., p. 102-103.

(22) Ibid., p. 103.

(23) GAMBINI, Roberto, Op. Cit., p. 166-167 e 170-171.

(24) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 55.

(25) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 104-105.

(26) Ibid., p. 115-116.

(27) LUZ, Guilherme Amaral. Carne Humana..., Op. Cit., p. 193-194.

(28) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 58-60.

(29) LUZ, Guilherme Amaral. Pero de Magalhães Gandavo e a ética ultramarina..., Op. Cit., p. 90.

(30) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 65-66.

(31) SOUZA, Laura de Mello e. O Novo Mundo entre Deus e o Diabo..., Op. Cit., p. 59.

(32) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 117-118.

(33) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 62.

(34) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 119-120.

(35) LUZ, Guilherme Amaral. Carne Humana..., Op. Cit., p. 196.

(36) Ibid., p. 214.

(37) GAMBINI, Roberto, Op. Cit., p. 150.