sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O caráter complexo do Sete de Setembro

Tendo guardado por alguns anos meus primeiros trabalhos escritos da graduação em História na Unicamp em seu formato impresso original, com as correções, observações e notas dos professores, resolvi um dia digitalizar a maioria deles, quando não tivesse backup dos arquivos Word originais. Nunca tinha pensado em os publicar na página, mas quando percebi que o navegador Chrome estava avançado o suficiente pra detectar textos automaticamente e possibilitar sua cópia pra outros programas, decidi tentar fazer isso com essas relíquias, que de fato só exigiram alguns reparos pontuais, pois o conteúdo saiu quase todo com espantosa exatidão!

Portanto, estou publicando hoje outro trabalho de disciplina ministrada por Sidney Chalhoub, um dos maiores especialistas na obra de Machado de Assis, mas desta vez da disciplina “História do Brasil II”, sua especialidade, que ele ministrou no 2.º semestre de 2007. O título autoexplicativo é “Primeiro trabalho de análise historiográfica – A historiografia brasileira recente sobre a Independência”, consistindo num repasse de visões consagradas sobre a proclamação de 1822 e, mais importante, de como a identidade brasileira não estava dada no momento do “grito do Ipiranga”, mas foi sendo construída ao longo das décadas de uma separação sempre sob o risco de ser revertida. Os três primeiros parágrafos constituem a tarefa a ser feita, e mantive o estilo de redação original, apenas abolindo a numeração romana.

Dado que avancei muito mais em experiência (o texto, por exemplo, tem bem menos rabiscos), esclareço que meu objetivo não é tornar pública minha “evolução”, comparando uma publicação com outra, mas simplesmente disponibilizar à consulta geral o conteúdo em si. O quanto evoluí não interessa a ninguém senão a mim, que percebi pessoalmente o resultado do esforço ou da falta dele. Mais uma vez, precisei atualizar a ortografia e as normas de citação bibliográfica e corrigir pontos que realmente não davam pra engolir ou que ficariam melhores de outra forma, sem alterar, contudo, o estilo redacional geral. Algo que realmente me espantou e que realmente precisei arrumar foi eu ter usado mesóclise em alguns pontos, mas tanto eu quanto o Sidney termos deixado passar um “teria-se” e um “acentuaria-se”, ou seja, ênclise com o futuro do pretérito (condicional), que não existe, pois também exige mesóclise.


1) Leia o trecho abaixo, extraído de Jurandir Malerba, org., A Independência Brasileira: Novas Dimensões, Rio de Janeiro, Editora FGV, 2006, р. 20:

“É debate antigo determinar qual teria sido o ‘caráter’ da independência, se conservadora, reformista ou revolucionária. Em outras palavras: o que haveria de ruptura e o que de continuidade no processo de independência? Quanto à inserção do Brasil no contexto internacional da chamada ‘crise do antigo sistema colonial’, interpretações consagradas sobre os efeitos dessa crise no processo de independência vêm sendo ultimamente contestadas. O processo político foi razoavelmente escrutinado, mas as novas abordagens derivadas do cultural turn na historiografia têm permitido aos historiadores aquilatar melhor a significância de outros fatores decisivos e até recentemente negligenciados. Por exemplo, que peso se deve atribuir às radicais transformações culturais geradas pela abertura de 1808 e pelo afluxo de levas de migrantes de todos os pontos? Ou às transformações civilizacionais vividas pela população do Rio de Janeiro, geradas pela presença e pelas demandas do rei na arte, na ciência, na educação, nas melhorias urbanas? Atesta-o a criação do que se poderia chamar de uma ‘esfera pública’ – ou ao menos o surgimento de uma opinião pública –, de que é rico testemunho o caloroso debate na imprensa nascente”.

2) Imagine que o trecho citado é o primeiro parágrafo de um texto seu, cujo objetivo é apresentar uma breve resenha de aspectos marcantes da historiografia da Independência brasileira de meados do século 20 até hoje. Como se vê, o texto de Malerba identifica mudanças nos paradigmas de interpretação, nos modos de os historiadores conceberem os problemas pertinentes à análise do processo de Independência. Escreva, pois, a continuação do texto, buscando utilizar os autores lidos no curso até aqui como representativos dos caminhos percorridos pela historiografia da Independência (focalize autores tais como Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda, Maria Odila da Silva Dias, Isabel Lustosa, Gladys Ribeiro, Ivana Lima).


Jurandir Malerba, em obra sobre a Independência brasileira, ressaltou a permanência da discussão sobre o caráter do qual se imbuía o “grito do Ipiranga”, para alguns, de continuidade e, para outros, de ruptura, e lembrou as diversas viradas recentes sofridas pela historiografia sobre o assunto. Aí se inserem as novas interpretações relativas ao peso atribuído à participação brasileira no contexto internacional do que se costuma chamar de “crise do antigo sistema colonial” e às “transformações culturais” que se sucederam à “abertura de 1808” e à entrada maciça de estrangeiros. A imprensa brasileira, que estava em seu início, teria sido o palco de agitados debates que serviram de testemunho da criação de uma “esfera pública”, ou ao menos de uma “opinião pública”. (1) É a partir dessas temáticas que foram selecionados os eixos centrais que guiarão o presente balanço sobre a historiografia da Independência do Brasil produzida de meados do século 20 até hoje.

A maioria dos autores dá grande importância aos acontecimentos de 1808, quando, segundo Sérgio Buarque de Holanda, os estrangeiros que chegaram após o grande fluxo migratório ressaltarão as grandezas do Brasil e farão com que os nativos enxerguem a disparidade que é uma colônia tão grande ser governada por uma metrópole tão pequena. (2) Essa análise da transformação na mentalidade dos brasileiros durante o processo de Independência será uma característica recorrente na obra O Brasil Monárquico, segundo a qual a valorização do nosso território será importante para compreender os acontecimentos. Caio Prado Jr. igualmente enfatiza 1808 como importante para a emancipação política brasileira, mas pelo viés econômico: foi então que o sistema colonial sofreu seu desmonte por iniciativa de D. João 6.º, em especial com a abertura dos portos. A Inglaterra teria papel importante nesse processo, visto o seu interesse em comerciar com o Brasil, o que fica claro pelas vantagens concedidas à parceira comercial e política nessa abertura, em detrimento da própria metrópole. O contato com estrangeiros também teria colaborado para a modificação dos costumes da população do Rio de Janeiro. (3) Para Maria Odila da Silva Dias, 1822 foi apenas a consumação de um processo que se iniciou em 1808, quando a Inglaterra se encontrava na vanguarda da luta do liberalismo econômico contra os interesses mercantilistas, impulsionando, assim, a liberação do comércio. Porém, não se deve vincular demais os fatos a causas externas, pois, apesar de a vinda da Família Real ter-se dado por motivos alheios a ela, aquele ano representou o “enraizamento de interesses portugueses e sobretudo o processo e interiorização da metrópole no Centro-Sul da colônia”. (4) Voltando-se para fatos menos políticos, a autora também destaca as melhorias que a Corte proporcionou, como o aperfeiçoamento das comunicações e dos transportes, o incentivo ao povoamento, o aproveitamento das riquezas naturais e os primeiros mapeamentos geográficos e hidrográficos do Reino. (5)

Ivana Stolze Lima aborda a importância da imprensa na construção dos discursos de identidade raciais, marcando o ano de 1808 pelo aparecimento da Impressão Régia no Brasil, instituição que não imprimia apenas “papéis oficiais, leis e avisos”. Segundo a autora, a transformação da imprensa, que sofreu evoluções no sentido da liberdade de expressão principalmente a partir de 1821 (ano em que as Cortes de Lisboa decretaram a liberdade de imprensa), conjuga-se estritamente com a da política, às quais também se misturavam representações de identidade. (6) Isabel Lustosa dá a mesma importância à imprensa e a 1808 ao ressaltar não só o progresso cultural ocorrido com a “abertura das mentes”, mas também o industrial e o comercial. Essa relevância que a cultura teria subitamente adquirido transformou os homens cultos numa “nova aristocracia”. (7) Já Gladys Sabina Ribeiro, ainda que não negue a importância da imprensa no processo de construção das identidades, não cita seu surgimento e prefere ver como relativa a importância de 1808 por ele ser a data da emancipação econômica, e não política. Esta não interessava aos comerciantes brasileiros, que, numa época marcada pela pujança, e não pela tão falada “crise”, disputavam mercados com os portugueses, motivo pelo qual a abertura de 1808 foi vista pelos lusitanos como prejudicial à sua economia. (8)

A maior parte dos autores postula que não é certo datar 1822 como o surgimento de um Brasil independente, entre eles Buarque de Holanda, ao informar que a unidade nacional não veio nem com a chegada da Família Real, nem com a separação política, que não teria passado de um episódio da corrente “guerra civil de portugueses” iniciada com a Revolução Constitucionalista do Porto, em 1820. As brigas com os portugueses teriam continuado até 1831, quando, em 7 de abril, com a abdicação de D. Pedro 1.º, a monarquia brasileira finalmente “ganhou verdadeiramente um selo nacional”. (9) Quanto à unidade nacional, cujas tentativas de realização, tanto no período colonial quanto no Primeiro Reinado, foram malfadadas, teria sido menos favorecida no período regencial, que pregava a descentralização administrativa, tão característica da Colônia, quando possivelmente se evitava a centralização do poder para que, em caso de sublevação, não fossem todas as capitanias levadas pela onda separatista. (10) Exceto a supressão das Câmaras, após a Independência, houve predominância da continuidade entre Colônia e Império, como o indicam a permanência da ordem aristocrática (ainda que o número de agraciados tenha aumentado substancialmente ao longo das décadas, nunca houve aqui propriamente um corpo de nobreza), a pouca ortodoxia e a fraca ligação com Roma do clero brasileiro, as poucas mudanças na ordem social e nos costumes antigos e a vigência da ordem escravista e dos preconceitos raciais. (11)

Prado Jr. mostra a Independência como um processo teleológico, o que resulta da tentativa de aplicar o modelo marxista à história do Brasil: a estrutura econômica do país desenvolveu-se, o que postulou o rompimento da superestrutura política para lhe dar mais espaço, resultando, assim na emancipação política. Porém, como aquela estrutura econômica permaneceu a mesma, não ocorreram mudanças sociais profundas, o que, juntamente com a falta de coesão dos livres pobres e dos escravos, impediu a eclosão de revoltas populares: sem a participação popular, a “revolução da Independência” permaneceu incompleta. (12) Para o autor, apesar de o “partido brasileiro” não ter permitido a recolonização pretendida pelas Cortes lisboetas, sua sombra ainda pairou por muito tempo sobre o país, sendo a Independência mais uma simples “transferência pacífica de poderes” de Portugal ao Brasil, resultando num Estado não baseado na monarquia autocrática. Soma-se a isso a recalcitrância de várias províncias a ter o Rio de Janeiro como centro político nacional, o caráter de classe da separação, que beneficiou os grandes proprietários rurais, seus articuladores, e a preponderância do “partido português” durante o Primeiro Reinado, em especial após 1824, que resistia ao desenvolvimento da Independência e identificou-se com o absolutismo de D. Pedro 1.º. (13) A consolidação do “Estado nacional” ter-se-ia dado com a abdicação de D. Pedro 1.º, sendo o período anterior de “transição” e o posterior, até 1837, de consolidação da Independência. Isso não impediu a eclosão de revoltas resultantes, segundo Prado Jr., da luta entre as classes médias urbanas e a política aristocrática dos grandes proprietários rurais, tal como a revolta dos cabanos no Pará, que durou de 1833 a 1836 e incluiu uma proclamação de desligamento da província do resto do Império. (14)

Maria Odila Dias concorda com Buarque de Holanda ao afirmar que a independência não foi acompanhada da unidade nacional, mas adiciona que também não veio um movimento nacionalista que portasse uma determinada “identidade brasileira”. (15) Inicialmente, os “homens da geração da independência” não se teriam animado com a formação de uma nova nação, vistas as fragmentações regionalistas e as inseguranças sociais, o que não impediu de a centralização ter se dado através da repressão aos nativismos, mas firmada apenas entre 1840 e 1850. Essa insegurança da sociedade colonial, agravada também pela agitação de Portugal e do resto da Europa, só seria resolvida com a interiorização da metrópole, o que se deu com a vinda da Corte ao centro-sul brasileiro. Apesar da elevação do Brasil à condição de Reino Unido, houve continuidade na estrutura política e administrativa e, no ponto de vista das demais capitanias, um recrudescimento do modo de dominação antes existente. Aquela continuidade foi fruto especialmente da união das elites em torno de interesses próprios e dos “mecanismos sociais de acomodação” criados por elas e tornados poderosos abafadores de divergências. (16) Mesmo com a vinda da Corte, o velho monopólio do comerciante, quase sempre português, e sua ligação com o campo só aumentariam, respaldados pelo “recrudescimento da presença de portugueses” e pelo aumento da fragmentação localista, gerando uma profunda lusofobia entre os nativos. Caracterizam-se também como traços continuístas o “elitismo burocrático”, ou seja, a participação de ilustrados brasileiros na administração pública portuguesa, e o desrespeito que os governadores das capitanias demonstravam pelas ordens centralizadoras de D. João 6.º. (17)

Entre os autores aqui citados, a primeira a tratar com mais atenção a questão das identidades, com ênfase no tratamento dado pela imprensa ao assunto, é Isabel Lustosa, para quem os habitantes da Colônia, num gesto de ruptura, repentinamente deixavam de se ver como portugueses para se considerarem brasileiros, transformação acompanhada por uma imprensa que procurava influenciar sobretudo o então príncipe D. Pedro. Os jornalistas, arrogando-se o papel de educadores, procuravam educar o povo para o liberalismo e o processo constitucional, e construir uma sociedade cujos mentores seriam os intelectuais, sociedade essa necessitada de uma identidade distinta daquela do português e baseada na mistura racial e na grandeza do território e de suas riquezas. (18) Contudo, estava criando-se o falso mito, ainda presente, da “democracia racial”: falso devido ao fato de os jornais serem contra o absolutismo, mas não atacarem a escravidão, que era o limite do liberalismo no Brasil, nem o latifúndio. (19) De acordo com a autora, D. Pedro, em 1821, tendia a apoiar Portugal, mas foi a influência de José Bonifácio e Hipólito da Costa que o atirou contra as Cortes, do que resultou a Independência. A partir daí, houve coisas do governo colonial que permaneceram, outras que apareceram durante o Reino Unido e mais tantas por se consolidar, num Estado nascente cujo regime e projeto político ainda eram indefinidos, com candidatos que se debatiam por meio da imprensa para ocupar essas vagas. (20)

Ivana Lima inicia o primeiro capítulo de Cores, marcas e falas introduzindo o debate das identidades, com ênfase na questão racial, inseridas num contexto de transformação, mas ainda marcado pelo “processo da consolidação da emancipação do Estado, iniciado em 1822”: os primeiros anos da Regência. Para muitos brasileiros, a verdadeira “revolução” ocorreu em 7 de abril de 1831, e esta teria sido acompanhada por outra, no acesso à produção da palavra impressa, e pela constante disputa entre as identidades portuguesa e brasileira. (21) Já dentro da identidade brasileira, as diversas designações raciais, que apareciam principalmente em nomes de periódicos da época, eram, segundo a autora, construções que possuíam mais um significado político do que fenotípico, o mesmo acontecendo com a própria designação de “brasileiro”, que ainda estava em construção. Jornais como O Brasileiro Pardo, por exemplo, utilizavam termos que posteriormente designariam a fusão do índio, do negro e do branco, mas pregavam, na verdade, apenas a união política dos três numa causa, e não especificamente num determinado território nacional. (22) Numa demonstração de permanência das indecisões, a tensão entre brasileiros e portugueses acirrar-se-ia ainda mais no período em torno da abdicação de D. Pedro 1.º, com fatos como a substituição de artistas e militares estrangeiros por profissionais nativos e a “noite das garrafadas”, que opôs “brasileiros” constitucionalistas e “portugueses” absolutistas. (23)

Também na opinião de Gladys Sabina Ribeiro, “ser brasileiro” sempre foi algo não estático e em construção, e a maior prova disso era a noção, antes da independência, de que brasileiros e portugueses pertenciam a uma mesma “Nação portuguesa”, ideia que se tentou reforçar após o estabelecimento das Cortes, quando entraram em voga projetos detratores do Brasil e que procuravam justificar sua inferioridade e a necessidade de sua recolonização. (24) Como já foi visto, os portugueses do Brasil, devido aos seus interesses comerciais, não se interessavam na separação política, mas preferiam que D. João 6.º tivesse permanecido no Brasil. Para o país, apoiavam a continuidade da união com Portugal sob uma monarquia constitucional regida por D. Pedro 1.º, que seria o líder de um Brasil emancipado, e não independente, com representantes nas Cortes. Tal discurso teria ultrapassado o período do “grito do Ipiranga”, que teria sido um ato impensado de repúdio a essas Cortes, contra as quais, até então, o discurso da Independência era usado apenas como uma ameaça surgida em reação a seu desprezo pelo Brasil. De fato, a independência ainda era incerta após o “Sete de Setembro”, e o próprio comércio prosseguiu regularmente. Porém, a ruptura no discurso sobre os portugueses acentuar-se-ia com a certeza cada vez maior da separação. (25) A chegada das ideias liberais, em especial após a Revolução do Porto, e a incerteza da independência aumentaram a precaução do Império em se tratando dos portugueses, que passaram a ser vistos com maus olhos, ao mesmo tempo em que se via a necessidade de se criar uma “identidade para a Nação brasileira”. O reconhecimento da Independência veio, enfim, com o Tratado de 29 de agosto de 1825, mas ainda predominava o clima de conflito e de medo da recolonização, que se estendeu até aproximadamente a morte de D. João 6.º, e do qual se aproveitava o governo para fortalecer a si mesmo. (26) O surgimento de uma Carta de Lei que tratasse especificamente da aquisição da nacionalidade só viria em 23 de outubro de 1832, mas, pelas condições estabelecidas, pode-se notar como o controle permanecia estrito, tornando a situação dos portugueses contraditória durante toda a Regência. (27)

Desta discussão, pode-se concluir que, nas últimas décadas, a historiografia brasileira realmente viveu um momento de revisão dos velhos padrões que ainda ditam o senso-comum das pessoas. Em especial, deve-se ressaltar a consideração da Independência como um processo, não como um fato isolado, e que teria começado ora em 1808, com o estabelecimento da autonomia comercial do Brasil, ora em 1822, com a separação política. A consolidação definitiva da Independência, na maioria das interpretações, dá-se em 1831, com a “nacionalização” da monarquia e dos governantes, o período anterior sendo marcado pela sombra da recolonização e pelos conflitos entre portugueses e brasileiros. Também não é imediata a consolidação do Estado brasileiro, que levará algumas décadas para poder chamar-se de “unificado”, nem a constituição de uma “identidade brasileira”, que é vista, ao longo do tempo, como uma construção política sobre a qual se basearão discursos muito diversos. Por fim, a principal conclusão: com algumas exceções, foram muitas as continuidades entre o período colonial e o Império, do que se infere que, em história, a fixação de transformações importantes em determinadas datas é sempre complicada, visto que, muitas vezes, grandes rupturas são, na verdade, longas transições.


Bibliografia

HOLANDA, Sérgio Buarque de. O Brasil monárquico: o processo de emancipação. V. 3. São Paulo: Difel, 1976. (“História Geral da Civilização Brasileira”.)

LIMA, Ivana Stolze. Cores, marcas e falas: sentidos da mestiçagem no Império do Brasil. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.

LUSTOSA, Isabel. Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência (1821-1823). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

MALERBA, Jurandir. A Independência Brasileira: Novas Dimensões. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.

MOTA, Carlos Guilherme (org.). 1822: Dimensões. São Paulo: Perspectiva, 1972.

PRADO JR., Caio. Evolução política do Brasil e outros estudos. São Paulo: Brasiliense, 1979.

RIBEIRO, Gladys Sabina. A liberdade em construção: identidade nacional e conflitos antilusitanos no Primeiro Reinado. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.


Notas (Clique pra voltar ao texto)

(1) MALERBA, Jurandir. A Independência Brasileira: Novas Dimensões. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006, р. 20.

(2) HOLANDA, Sérgio Buarque de. A herança colonial – sua desagregação. In: O Brasil monárquico: o processo de emancipação. V. 3. São Paulo: Difel, 1976. (“História Geral da Civilização Brasileira”.)

(3) PRADO JR., Caio. A Revolução. In: Evolução política do Brasil e outros estudos. São Paulo: Brasiliense, 1979, p. 43 e 53.

(4) DIAS, Maria Odila da Silva. A Interiorização da Metrópole (1808-1853). In: MOTA, Carlos Guilherme (org.). 1822: Dimensões. São Paulo: Perspectiva, 1972, p. 162-165 (grifos no original).

(5) Ibid., p. 183.

(6) LIMA, Ivana Stolze. As cores dos cidadãos no teatro do jornalismo: política e identidade no Rio de Janeiro, 1831-1833. In: Cores, marcas e falas: sentidos da mestiçagem no Império do Brasil. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003, p. 35-36.

(7) LUSTOSA, Isabel. Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência (1821-1823). São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 24 e 33.

(8) RIBEIRO, Gladys Sabina. “Ser português” ou “ser brasileiro”? In: A liberdade em construção: identidade nacional e conflitos antilusitanos no Primeiro Reinado. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002, p. 32, 35 e 45.

(9) HOLANDA, Sérgio Buarque de, Op. Cit., p. 9, 13-15 e 16.

(10) Ibid., p. 18 e 20-22.

(11) Ibid., p. 29-39.

(12) PRADO Jr. Caio., p. 47 e 60-61.

(13) Ibid., p. 46, 48-49, 50-52 e 56.

(14) Ibid., p. 58, 64, 68 e 77.

(15) DIAS, Maria Odila da Silva, Op. Cit., p. 160-161.

(16) Ibid., p. 169 e 173-174.

(17) Ibid., p. 176-179 e 181 (grifo no original).

(18) LUSTOSA, Isabel, Op. Cit., p. 25-26, 29, 33, 39-40 e 50.

(19) Ibid., p. 45 e 48-49.

(20) Ibid., p. 62-64.

(21) LIMA, Ivana Stolze, Op. Cit., p. 32-34.

(22) Ibid., p. 51, 61 e 75.

(23) Ibid., p. 68 e 71.

(24) RIBEIRO, Gladys Sabina Ribeiro, Op. Cit., p. 27 e 30-31.

(25) Ibid., p. 36, 38-39, 40, 44, 45, 53-54 e 57.

(26) Ibid., p. 58-61, 65, 69 e 80-81 (grifo no original, p. 61).

(27) Ibid., p. 102-103.



Até que não me saí mal, de novo, rs.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Resenha de “O queijo e os vermes” (2006)

Tendo guardado por alguns anos meus primeiros trabalhos escritos da graduação em História na Unicamp em seu formato impresso original, com as correções, observações e notas dos professores, resolvi um dia digitalizar a maioria deles, quando não tivesse backup dos arquivos Word originais. Nunca tinha pensado em os publicar na página, mas quando percebi que o navegador Chrome estava avançado o suficiente pra detectar textos automaticamente e possibilitar sua cópia pra outros programas, decidi tentar fazer isso com essas relíquias, que de fato só exigiram alguns reparos pontuais, pois o conteúdo saiu quase todo com espantosa exatidão!

Portanto, estou publicando hoje meu texto universitário mais antigo já saído na página: o primeiro trabalho escrito, entregue no dia 11 de maio de 2006, pra disciplina “Laboratório de História I”, ministrada no 1.º semestre por Sidney Chalhoub, um dos maiores especialistas na obra de Machado de Assis. Lá se vão quase 20 anos que escrevi esta resenha sobre o livro O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela inquisição, do italiano Carlo Ginzburg (tradução de Maria Betânia Amoroso, 5. reimpr. da 3. ed, São Paulo, Companhia das Letras, 2005), gênero que aprendi a fazer ao longo de minha graduação. Algo de minha indecisão redacional, típica de quem ainda estava se iniciando na rigorosa escrita acadêmica, pode ser percebida na própria versão abaixo, da qual não só precisei atualizar a ortografia, mas também corrigir pontos que realmente não davam pra engolir.

Quem pegasse o arquivo original, veria parte desses deslizes comuns que o Sidney marcou tão incisivamente, tanto que depois ele fez um apanhado geral de todos os trabalhos pra depois nos dar preciosas dicas de redação que levei pra minha vida toda. Porém, como valioso estímulo pra jornada futura, fiquei impressionado ao ver os papéis sem muitos rabiscos e saber que minha primeira resenha causou boa impressão num dos mestres de nossa turma. A julgar pela avaliação final, cuja cor original infelizmente foi perdida pelo preto-e-branco do escâner, rs:



Esse clássico da micro-história tem como principal objetivo demonstrar uma nova visão sobre cultura popular e cultura hegemônica nos princípios da Idade Moderna europeia, que, segundo о escritor italiano Carlo Ginzburg, autor da obra, demonstrando hipóteses formuladas pelo russo Mikhail Bakhtin, se relacionavam seguindo a hipótese da “circularidade”, ou seja, as classes altas influenciavam as classes baixas e vice-versa; além disso, a cultura popular não teria sido passivamente moldada pelas classes dominantes, sendo fruto de tradições que remontavam há séculos e tinham as mais profundas raízes em culturas muito antigas. Tudo isso Ginzburg tenta demonstrar em sua obra-prima, passando por temas que abarcam a Inquisição, a cultura humanista, os principais grupos “hereges” do século 16 e a história das populações do Norte da península Itálica.

O livro conta a história do moleiro Domenico Scandella, dito Menocchio, habitante do Friuli na segunda metade do século 16, acusado pela Inquisição de pronunciar heresias graves sobre Cristo, desrespeitar as autoridades eclesiásticas e afirmar que era um melhor conhecedor de Deus do que o clero. Era conhecido pelos conterrâneos por suas agudas críticas à Igreja Católica, seus dogmas e por sua negação da divindade de Cristo e mesmo da existência de Deus, que, segundo Menocchio, não teria sido o criador do mundo. Após denúncias de testemunhas que se iniciaram em 1583, mesmo ocupando cargos importantes na administração de sua aldeia, Montereale, e vilarejos próximos e tendo trocado ideias com padres que conhecia, o moleiro é preso no ano seguinte e submetido a uma longa série de interrogatórios durante o ano, baseados em relatos de testemunhas que tiveram contato com ele e relataram aos inquisidores suas reações diante de ideias tão incomuns. Nessas ocasiões, o suposto herege tem a oportunidade de relatar sua visão sobre a religião e uma estranha cosmogonia que comparava a criação do mundo, de Deus e dos anjos (entre os quais estaria Ele) à fabricação do queijo por meio do leite e a aparição de vermes no alimento. Ao se defender, acaba atribuindo seus pensamentos a espíritos malignos, mas mesmo assim é condenado à prisão perpétua, da qual é libertado em 1586 após os inquisidores reconhecerem sua debilidade física como sinal de conversão, trocando a pena pelo confinamento em sua aldeia. Porém, após várias idas e vindas, a Inquisição volta a prender Menocchio em 1599 e, definitivamente, é torturado para confessar seus cúmplices e executado em Montereale para servir de exemplo.

Como pano de fundo, hão de se notar três fatos fundamentais para a formação da mentalidade moderna: a Reforma, as Grandes Navegações e o Renascimento, que influenciarão, ainda que indiretamente, o ideário de Menocchio. Sem a revolução cujo ápice se materializaria na figura de Lutero, o protagonista não teria espaço para expor suas ideias ditas heréticas, às quais alcançam dissertações sobre os sacramentos, a Bíblia, os santos e a paixão de Cristo. Ambos têm em comum denúncia da abastança do clero, do uso do latim nas missas como forma de traição e enganação, e dos sacramentos como instrumento de lucro. Porém, Ginzburg, devido à extrema particularidade do caso italiano, que possui muitas diferenças entre as correntes tradicionais, refuta tanto sua ligação com luteranos quanto com outra seita protestante, a dos anabatistas, que eram os maiores críticos dos sacramentos; a colocação em primeiro plano do raciocínio por Menocchio também o distingue dos profetas e pregadores tradicionais, pois ele priorizava seu pensamento e crença. O autor prefere relacioná-lo com uma corrente camponesa de raízes profundas que não sofreu qualquer influência “de cima”, sem qualquer denominação tradicional, que, de uma tradição oral radicada nos campos, prova a existência aí de uma “religião” sem dogmas e cerimônias, ligada aos ciclos da natureza, ao modo pré-cristão, um “radicalismo religioso” somado a um materialismo com desejos de mudança social. O materialismo, no caso, pode ser encontrado em sua cosmogonia, segundo a qual Deus, por meio dos anjos, teria criado o mundo com a matéria surgida do movimento do caos e da qual os próprios anjos, inclusive Deus, teriam surgido, pela vontade de uma “santíssima majestade”. Mesmo assim, Menocchio é pouco afeito a esse radicalismo devido à sua grande carga, pondo lado a lado a página impressa e a cultura oral, o que pode ser concluído pelo modo como ele lia, o que é tido como mais importante para sua compreensão. Essa é a primeira prova da tese sobre a independência da cultura camponesa em relação às ideias “superiores” e pré-concebidas, que Ginzburg defenderá durante todo o livro.

O Renascimento será a segunda grande força que encontrará em Menocchio um poderoso eco. Em seu pensamento, podemos encontrar ainda a tolerância, a redução da religião à moralidade e a “equivalência das religiões”, originadas de uma tradição oral camponesa absorvida por hereges humanistas. Dentro do movimento, encontra-se ainda a invenção da imprensa, que quebrou o monopólio do conhecimento pelas pessoas poderosas e foi determinante para a publicação de livros lidos pelo moleiro, nos quais ele busca palavras e o método expositivo para expressá-las e exprimir um materialismo simples de muitas gerações camponesas. Segundo Ginzburg, Menocchio compartilha com Montaigne a ideia da relativização de credos e instituições e, com outros grupos, a redução da religião a um vínculo moral e político, como expressara Maquiavel ao tratá-la como elemento de coesão política. Outro reflexo humanista em suas ideias está em tratar que, durante o caos antecessor da criação do mundo, os quatro elementos estariam se confundindo, além de relacionar a Santíssima Trindade aos mesmos, o que seria reflexo indireto das teorias gregas clássicas sobre a constituição da matéria, sintetizadas especialmente por Aristóteles e resgatadas pelos humanistas junto com outras obras da literatura grega antiga. Já a impressão da Bíblia em língua vulgar, que também estará descrita nas leituras de Menocchio, se relaciona tanto à Reforma, que criticava o uso do latim, como já foi visto (Lutero também quebrou esse monopólio ao traduzir o livro para o alemão), quanto à Renascença, pois não só o primeiro livro impresso foi a Bíblia, como também os humanistas foram os pioneiros na edição de algumas das primeiras obras em línguas modernas.

Há uma enorme relação entre as Grandes Navegações e as leituras de Menocchio, pois é por meio dos livros que ele tomará contato com ideias e lendas formuladas por viajantes a lugares conhecidos, como Jerusalém, a “Terra Santa”, e desconhecidos, como a recém-descoberta América; é por meio dos seus discursos ao tribunal e dos possíveis escritos no qual se inspirava que Ginzburg analisa seu pensamento. A maior parte dos livros era emprestada, volumes que passavam de mão em mão, o que prova o importante papel do coletivismo camponês na difusão do conhecimento; porém, isto não seria possível se boa parte da população da aldeia de Menocchio não tivesse sido alfabetizada em escolas abertas em suas cercanias. Entre esses livros, podem ser citados: a Bíblia em vulgar, Il Fioretto della Bibbia, Il cavalier Zuanne de Mandavilla (As viagens de John Mandeville), Il sogno dil Caravia e, provavelmente, uma edição do Alcorão em italiano. Do Fioretto, podem-se encontrar relações entre a filosofia grega e as tradições cristãs e metáforas que explicam a criação usando elementos cotidianos, e que ajudarão o acusado a expor e sintetizar suas ideias. Nas Viagens, assim como em outros livros, encontram-se relatos a lugares reais e fantasiosos, onde as pessoas de diferentes costumes tão diversos dos europeus vivem na mais perfeita harmonia, o que será uma alusão à ideia de liberdade e tolerância religiosa e sua diversidade. Do Sogno, sai uma crítica à hipocrisia eclesiástica e outros costumes da Igreja Católica. Quanto ao Alcorão, cuja presença é apenas suposta e é associado a um “livro lindíssimo” que Menocchio lera, são nele encontradas descrições sobre um paraíso mítico, delicioso e cheio de prazeres. São livros que não só expressam o desejo por uma nova Igreja, pobre e pura, como no passado, mas visões de um “mundo novo”, expressão que designa relatos sobre a América, escritos estes que ele entende como um exemplo de sociedade a ser alcançada, com detalhes influenciados pelos autores utopistas e pela tradição utópica popular, cuja paixão por um “passado mítico perfeito” pode ser encontrada já na Roma Antiga, com a lenda da “Ætas Aurea” (Idade Áurea).

A atitude de Menocchio e seu discurso impressionam. A maior prova de que certas ideias não podem ser consideradas exclusividade da burguesia renascentista é o fato de ele afirmar com toda a convicção e durante todo o tempo que nunca discutira com ninguém suas ideias, que teriam saído de sua própria cabeça, ainda que ele possa ter trocado informações com um certo Nicola de Melchiori. O acusado também cai muitas vezes em contradição. Primeiro, porque ele faz muitas afirmações que depois acaba desmentindo, como sobre a alma, que, segundo ele, morria junto com o corpo e não se distinguia de espírito, mas depois substituiu pela diferenciação entre os dois, sendo o espírito algo vindo de Deus e que a ele retorna na morte, e as almas, operações da mente que acabam com o corpo. Segundo, porque há grande contraste entre os relatos das testemunhas e os autos dos processos, como quando ele conta aos inquisidores que amar o próximo é mais importante do que amar a Deus, não negando a existência deste, numa atitude de defesa contra os dogmas da Igreja Católica, mas as pessoas relatam que ele negava Deus, a divindade de Cristo e a virgindade de Maria, e atacava o clero e os sacramentos. Fora isso, há a associação da figura do moleiro com o luteranismo e com a figura de alguém espertalhão, enganador e ladrão, sendo os moinhos locais de encontros suspeitos. Já no primeiro processo, Menocchio é condenado como heresiarca, com uma sentença cujo tamanho revela não somente o quão inaudito era o caso julgado, que não se enquadrava em nenhum estereótipo até então traçado, mas também a enorme distância entre a cultura de Menocchio e a dos inquisidores.

A narrativa é enriquecida com relatos sobre o Friuli daquela época, de modo que não se torna cansativa e o enredo principal não é quebrado. O leitor encontrará uma breve referência ao sistema de ocupações de cargos administrativos em Montereale e uma descrição sobre a política e a sociedade de uma área dominada pela cidade de Veneza. Administradora do Friuli desde 1420, colaborou para a permanência de características arcaicas, como resquícios do feudalismo e dominação das terras em mãos de poucas famílias. As lutas entre os nobres favoráveis e contrários a Veneza são entremeadas por lutas camponesas duramente reprimidas, após as quais Veneza decreta séries de benefícios para os camponeses, em detrimento da nobreza, o que não impediu a emigração em massa devido às condições do campo e às pestes frequentes.

Ginzburg utiliza documentos do século 16 guardados em arquivos episcopais, arquiepiscopais, estatais e do Vaticano, como os autos dos processos, cartas de Menocchio aos inquisidores, notas dos escrivães e contratos de casamento, em especial um de sua filha; são documentos que revelam seus pensamentos, suas atividades econômicas e a vida de sua família, além de obras de autores renomados, como Geneviève Bollème, Michel Foucault, Umberto Eco e Robert Mandrou. Tudo isso para traçar a história de alguém que não era um mero repetidor de informações geradas por outras pessoas e que muitas vezes deformava, e em outras reelaborava originalmente os conteúdos dos livros por seu modo de ler, um herdeiro de tradições indo-europeias sobre a criação do mundo relacionada à geração espontânea, que chegaram até ele por meio de relações e migrações culturais, e de uma cultura oral que pertencia não só a ele, mas a uma vasta população da Europa do século 16.



quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A Brief History of the Russian Language

I’ve been criticizing Putin’s imperialism on this blog for at least four years, but I couldn’t help publishing this content, which was originally a PowerPoint slideshow. It was a part of a short lecture given at a 6-month academic English course at my university (Unicamp), when I was a doctorate student. The federal program, launched by former Brazilian President Dilma Rousseff, was called ‘Languages Without Borders’ (Idiomas sem Fronteiras), and its aim was to help undergraduate and graduate students improve their proficiency in languages to study and make research abroad. Like another wider program (‘Science Without Borders’), it couldn’t reach its goals and was eventually closed by President Bolsonaro.

Our teacher Luane asked us to make a presentation about a topic of our interested, and I chose the history of the Russian language. Later at the course, I make another one about the Communist Party of Brazil, but I found no use to make a post from it. She gave me a 9 for both lectures, but for me it was a great experience to practice my English to such an extent. Since I’ve kept the slideshow among my personal files, I decided to make a new post from it so that you could also know more about the language I began to learn in 2007. We must distinguish between Putin’s genocidal penchant and the broader Russian culture and people: I hope some day they can live free from the current dictatorship and in harmony with their neighboring countries.

Breve explicação em português: Eu fiz esse PowerPoint como parte de um semestre de inglês acadêmico que cursei na Unicamp dentro do extinto programa “Idiomas sem Fronteiras” (IsF). A professora Luane nos pediu pra darmos breves palestras sobre temas de nossa predileção, e o primeiro foi este sobre a história da língua russa, e o segundo, sobre a história do PCB, o qual, porém, não achei interessante pra transformar numa publicação. Tirei 9 em ambos, mas foi uma ótima experiência, e como não achei outra maneira mais fácil de reciclar o material, converti em imagens mesmo. Reitero que devemos distinguir o imperialismo genocida de Putin, que sempre combato aqui, do povo e cultura russos, que espero ver um dia libertados da ditadura.

















terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A Pérsia “roubou” o conceito de Irã!

Há algum tempo acompanho no YouTube o canal Hikma History, de um rapaz com sotaque (a meus ouvidos) levemente britânico e identificado como Tariq, que afirma estar fazendo seu PhD em História. Entre outras coisas, “hikma” em árabe significa “conhecimento, sabedoria”, e o assunto é justamente a história política do mundo muçulmano desde a Idade Média europeia, abrangendo de antigos impérios até os ditadores modernos. De um ponto de vista laico, sem proselitismos. Eu também achava que sua pronúncia de alguns nomes era baseada no persa, ainda que desconfiasse que ele não fosse iraniano.

Porém, após uma pesquisa, descobri esses dias que o estudante é um imigrante afegão de nome completo Tariq Basharat, sua língua materna é o pastó – e não o persa, do qual ele teria um conhecimento básico – e ele mora nos EUA, e não no Reino Unido. Há poucas informações soltas sobre sua biografia, e embora sua data de nascimento seja desconhecida (ao menos sem uma conta no LinkedIn; aparenta estar na faixa dos 30), ele teria vindo do Afeganistão com oito anos de idade, segundo uma página que reúne informações sobre youtubers relevantes. Exceto em vídeos antigos, só recentemente ele começou a mostrar mais seu rosto, intercalando com as já célebres gravuras lindíssimas.

Praticamente TODOS os seus vídeos são ótimos e úteis, mas raramente resolvo os traduzir pra transformar em texto aqui, como fiz ontem com o vídeo do francês Mounir Laggoune, da Finary, sobre a Suíça. Sendo um vídeo explicando como o atual Irã, que até 1935 se chamava Pérsia e era herdeiro de um império milenar, “surrupiou” a identidade iraniana – que abarca diversos povos – como exclusividade dos persas, possui considerável interesse e utilidade pros brasileiros hoje, se acompanham o noticiário internacional. Imprimi um tom mais informal à linguagem e, sempre que possível, tentei achar versões portuguesas dos nomes endógenos.



A história é um tema muito útil no âmbito da política. Ela pode ser usada pra conectar uma nação a um passado antigo, repleto de contos de glória e conquistas. No período moderno, vários países muçulmanos começaram a demonstrar grande interesse pela história de suas nações. A Pérsia, bastião da civilização que sempre foi, abraçou esse desenvolvimento com entusiasmo. Tanto que seu governante autocrático e modernizador, Reza Shah Pahlavi, decidiu mudar oficialmente o nome do país pro seu nome histórico, “Irã”. Esse era o termo pelo qual a região era conhecida no passado.

O único problema era que o termo, na verdade, implicava uma área muito maior que apenas o atual Irã. Pérsia deriva de Fars, que é apenas uma das muitas províncias do Irã. Consequentemente, os persas tiveram um papel dominante na formação da cultura iraniana. No entanto, a mudança oficial do nome foi criticada por muitos intelectuais em países vizinhos como o Afeganistão, porque “o nome do todo foi dado a uma parte”. Junte-se a mim enquanto discuto a formação das identidades modernas e como a história pode moldá-las.

Nem todos os iranianos são persas, bem como nem todas as pessoas que se identificam como persas são necessariamente de origem iraniana. Eu explico: em sua definição mais literal, alguém é iraniano se a língua nativa de seus ancestrais puder ser incluída no grupo linguístico iraniano do ramo indo-iraniano, que por sua vez pertence à grande família linguística indo-europeia. De acordo com essa definição, um osseto cristão lutando contra a Geórgia e a Rússia hoje é tão iraniano quanto um persa xiita comerciando em Shiraz. Existem hoje aproximadamente 200 milhões de falantes nativos de línguas iranianas, como o pastó, o curdo e o persa, que por si só representa quase metade desses 200 milhões. Todas essas línguas descendem da mesma língua hipotética proto-iraniana, que surgiu há cerca de 4 mil anos na estepe pôntica-cáspia, após a separação dos povos iranianos e indo-arianos ou índicos.

Os antigos iranianos cultuavam um panteão de deuses, com Aúra-Masda como ser supremo. Eles se distinguiam por sua devoção a Aúra-Masda e se definiam por essa devoção: a coleção de textos sagrados zoroastrianos conhecida como Avestá define “Arya” – um termo que se traduz mais ou menos como “iraniano” nos dias de hoje – em parte pelo culto da pessoa a Aúra-Masda. Se ela não a cultuava, essa pessoa não era iraniana. Os diversos povos iranianos gradualmente se espalharam pela Europa Oriental, Ásia Central e Oriente Médio. Entre os diversos grupos de iranianos, nenhuma cultura teve uma presença mais duradoura em toda a região do que a dos persas.

O primeiro Império Persa, fundado por Ciro, da dinastia dquemênida, por volta de 559 AEC, foi mais poderoso e influente que qualquer outro império na história que o precedeu. A cultura persa era vista pelos contemporâneos como refinada e irretocável, enquanto Ciro era conhecido como um adversário implacável e um governante benevolente. À medida que ele e seus sucessores xás conquistavam mais territórios, interagiam com os diversos povos do Levante, da Mesopotâmia e da Ásia Central. Com o tempo, muitos desses povos adotaram os costumes persas e ampliaram a extensão do Grande Irã. De fato, a cultura persa era tão estimada que os conquistadores de terras persas tentavam se legitimar como governantes por meio de suas próprias conexões com o prestígio persa. Alexandre [“o Grande”] da Macedônia misturou elementos helenísticos e persas em sua conquista do Império Aquemênida, frequentemente enfatizando demais o aspecto persa aos olhos de seus súditos macedônios.

Mesmo cerca de um milênio após a conquista muçulmana, permaneceu na moda entre os não persas reivindicar descendência genética ou filosófica de figuras como Ciro. Mais tarde, em 224 EC, surgiu um segundo Império Persa sob a dinastia sassânida, cujos governantes patrocinaram avanços incríveis na ciência e na literatura e buscaram ativamente emular seus predecessores aquemênidas. Até a era sassânida, o termo “Ērān” era usado apenas em referência às terras onde os iranianos viviam, sendo, portanto, mais conceitual do que tangível. Foi durante a era sassânida que Ērān passou a ser usado também para se referir às terras controladas pelo Ērānšahr [ou Iranshahr], endônimo sassânida que significa Império dos Iranianos.

Essencialmente, o conceito de Irã é anterior à hegemonia persa, embora as noções de identidades iraniana e persa continuem a interagir e se influenciar mutuamente. A noção de Irã como uma nação com fronteiras, no entanto, é uma ideia inerentemente persa. A rápida conquista de todo o Império Sassânida pelos califas islâmicos destruiu o Irã politicamente. Mas a cultura persa sobreviveu aos califados ortodoxo [rashidun] e omíada, até permear a cultura dos califas abássidas muçulmanos. Então, no contexto do declínio dos abássidas no século 9, diversas dinastias iranianas muçulmanas afirmaram sua autoridade no Iraque, na Pérsia, no Corassã e na Transoxiana. Esse período ficou conhecido como o Interlúdio [Intermezzo] Iraniano ou Renascimento Persa.

Apesar de estarem sob a suserania dos abássidas, na prática esses Estados desfrutavam de independência, que utilizaram para revitalizar o espírito nacional iraniano. Curiosamente, dos cerca de 15 estados regionais durante o Interlúdio, apenas dois (taíridas e buídas) eram provavelmente de origem étnica persa. Os 13 restantes incluíam três dinastias de origem iraniana oriental, quatro dinastias de origem iraniana cáspia, cinco dinastias de origem curda, pelo menos em parte, e uma dinastia de origem turca que tinha sido culturalmente persianizada. Apesar de suas origens díspares, cada uma dessas dinastias contribuiu de alguma forma pra revitalizar a influência cultural persa no Grande Irã.

O Interlúdio serviu como uma expressão de rebelião contra a dominação cultural e política dos árabes sobre os iranianos. Isso se estendeu à esfera religiosa, já que alguns dos Estados do Interlúdio eram xiitas. Os buídas do Irã e do Iraque simbolizavam isso: eram xiitas duodecimanos que orgulhosamente destacavam seus laços com a Pérsia pré-islâmica. Os governantes buídas gravaram muitas inscrições na capital aquemênida, Persépolis, e fizeram referência constante ao Ērānšahr, ou Grande Irã. De muitas maneiras, o xiismo ofereceu aos iranianos a possibilidade de serem diferentes, mantendo sua recém-descoberta identidade islâmica, que a essa altura já estava integrada à consciência iraniana. Isso se tornou importante aos safávidas mais tarde, quando buscavam se diferenciar dos otomanos.

Além disso, o xiismo lhes deu espaço pra expressar suas práticas culturais juntamente com suas práticas religiosas, considerando que o xiismo era muito menos ortodoxo que o islamismo sunita dominante. Nesse contexto, a rebelião antiabássida do Movimento Curramita foi uma seita sincrética que se inspirou tanto no islamismo xiita quanto no zoroastrismo. Na época, os xiitas ainda estavam formulando o cânone de suas crenças – pros xiitas duodecimanos, esse processo só se completou no século 17 com as obras de Mohamed Baqer al-Majlesi.

Mais ao norte dos emirados buídas, nas costas isoladas do mar Cáspio, a antiga religião zoroastriana ainda mantinha uma forte presença. No Tabaristão, Mardavij estabeleceu a dinastia ziárida com a intenção de restaurar um império iraniano nativo, com o zoroastrismo como religião oficial. Logo depois, os ziárias se converteram ao islã, mas os cronistas árabes consistentemente se referiam aos dailamitas e guilitas que viviam na região como ateus, provavelmente devido à sua heterodoxia religiosa. Assim, de modo geral, o Interlúdio Iraniano permitiu que marcadores de identidade pré-islâmicos – a herança aquemênida e sassânida, o zoroastrismo, bem como a língua persa – fossem incorporados de forma robusta a uma identidade iraniana muçulmana.

Falando em persa, a obra quintessencial da literatura iraniana, a Epopeia dos Reis [Shāhnāmeh], também surgiu durante este Interlúdio. Desde sua conclusão, há mais de mil anos, moldou o conceito de nacionalidade iraniana. Servindo nas cortes dos samânidas e dos gasnévidas, o poeta Ferdusi compilou centenas de contos persas de grande importância cultural, incluindo textos do Irã pré-literário e histórias de sua própria autoria. A origem persa dos contos da Epopeia dos Reis, portanto, vinculou para sempre os iranianos a uma herança cultural persa compartilhada. A Epopeia redefiniu o significado de ser iraniano e até hoje permanece uma fonte de unidade e reverência para milhões de iranianos.

Mais de 900 anos após a Epopeia dos Reis definir a identidade iraniana, o espectro do imperialismo europeu do século 20 desencadeou intensos debates sobre a melhor forma de proteger a nação iraniana – e a quem essa nação pertencia. Em 1925, após anos conduzindo o Irã à ruína, a dinastia cajar foi deposta por Reza Shah Pahlavi. O novo xá declarou à comunidade internacional em 1935 que não era o “Xá da Pérsia”, mas sim o “Xá do Irã”, e que a partir de então seu país deveria ser chamado apenas “Irã”. O pedido de Reza Shah tinha como objetivo obter legitimidade histórica pra sua nação. As nações ocidentais prontamente adotaram a mudança de nome, mas a declaração de Reza Shah provocou uma reação muito mais diversa entre os não persas no Grande Irã.

Nesse período, no mundo islâmico, houve uma explosão repentina de interesse pela herança pré-islâmica, especialmente por sua capacidade de legitimar o Estado-nação. No Afeganistão vizinho, havia uma intelectualidade vibrante e em expansão, ansiosa por explorar o rico passado antigo de sua nação. O historiador afegão Ahmad Ali Kohzad denunciou a mudança de nome como uma tentativa persa de reivindicar a posse do Grande Irã em sua totalidade, opinando amargamente que “o nome do todo foi dado a uma parte”. Contudo, Kohzad também reconheceu, ainda que relutantemente, a enorme influência persa sobre o Grande Irã como um todo.

Nesse sentido, Reza Shah, que nasceu Reza Khan numa família mazandarani do Cáspio, lançou uma campanha de persianização que visava eliminar as identidades culturais de não persas, incluindo os mazandaranis étnicos. Os povos turcos foram os principais alvos, embora muitos dos arquitetos e apoiadores mais fervorosos dessa política de assimilação forçada fossem azerbaijanos étnicos que tinham rejeitado sua etnia turca em favor de uma identidade persa.

Além do Oriente Médio, a política identitária desempenhava um papel fundamental na política europeia. Reza Shah era um admirador de Hitler. Da mesma forma, seu filho e sucessor, Mohammed Reza Shah, chegou a fazer alusão positiva à teoria da raça ariana ao descrever o Irã como semelhante às “outras nações arianas da Europa”. Lembremos que na época, a Europa e o Ocidente eram vistos como o ápice da civilização. Muitos líderes do Oriente Médio, incluindo Atatürk, amigo de Reza Shah, sentiam que precisavam se tornar semelhantes aos europeus pra serem fortes e poderosos como eles.

Ambos os xás da dinastia Pahlavi fomentaram essa fusão entre o excepcionalismo persa e o secularismo radical que o acompanhava e reprimiram brutalmente qualquer descontentamento manifestado pelos influentes clérigos islâmicos do país e pelas massas iranianas em geral. Isso culminou com a deposição de Mohammad Reza em 1979 e a instalação de uma teocracia islâmica ultraconservadora em seu lugar, inaugurando uma Pérsia sem monarquia pela primeira vez na história registrada e um futuro instável.

As identidades iraniana e persa se misturaram e divergiram com tanta frequência ao longo de mais de 2 mil anos que, às vezes, é difícil discernir quais aspectos de cada uma são distintos. A autoridade duradoura e relativamente incontestada da república islâmica, portanto, pode potencialmente redefinir permanentemente a identidade iraniana mais uma vez. O domínio do islã no Irã não é novidade, mas a rejeição da herança persa pela liderança iraniana, sim. Ferdusi relatou com orgulho mais de mil anos de tradição cultural persa zoroastriana na Epopeia dos Reis, embora ele próprio fosse muçulmano.

O atual Estado iraniano se mantém distante de grande parte da herança persa, intrinsecamente ligada à terra. Só o tempo vai dizer se ele vai se engajar com a identidade persa histórica ou contribuir pro desenvolvimento de uma nova. Meu palpite é que vai ter o mesmo efeito pendular das reformas modernizadoras dos Pahlavi: fazer com que, no final, um número suficiente de iranianos retorne ao extremo oposto.



segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Como a Suíça criou o país perfeito?

Achei por acaso o vídeo incorporado no final da página, publicado em 19 de novembro de 2025 no canal do Finary, um aplicativo francês que ajuda na gestão das finanças pessoais. Foi gravado por Mounir Laggoune, um dos fundadores e atual CEO da Finary, que tenta explicar brevemente qual seria o “segredo” por trás da riqueza e bem-estar dos habitantes da Suíça, embora ela tivesse tudo pra “dar errado”, ou melhor, a princípio “nada a seu favor”, como ele diz. Decidi o traduzir porque, embora em formato texto fique bastante longo, o vídeo em si é curtinho e contém o essencial dos argumentos que outros vídeos também apresentam.

Laggoune é formado pela Escola Superior de Ciências Econômicas e Comerciais (ESSEC) francesa e, embora não seja historiador nem sociólogo, teve o mérito de apresentar também os pontos fracos do “modelo suíço”. Se você não gostou de suas credenciais, recomendo ver o documentário (26 de março de 2024) da própria TV suíça de língua francesa com o mesmíssimo tema, incluindo honestamente as partes “podres” desse crescimento, como o assentimento em depositar ouro alemão durante a 2.ª Guerra Mundial. Deixei a redação em estilo mais informal, mas qualquer erro que possa haver é de minha responsabilidade: se você achar algum ou se achar que certas passagens podiam ter sido traduzidas de outra forma, pode comentar!

Obviamente nem todas as passagens têm tradução literal, e também inseri algumas explicações entre chaves quando necessário. Lembremos que Laggoune fala enquanto francês, portanto, fiz algumas adaptações quando ele não cita explicitamente a Europa e a França. Por fim, a divisão em parágrafos é minha, mas mantive os subtítulos que ele próprio inseriu e apenas pulei uma parte no meio em que ele simplesmente faz a propaganda de seu Finary:



A Suíça tem tudo pra fracassar. Sem petróleo, sem acesso ao mar. 60% de seu território é coberto de montanhas. Porém, um em cada sete suíços é milionário. Um funcionário do comércio, um caixa ou ainda um recepcionista ganha em média 52 mil euros por ano. Já um engenheiro chega a 102 mil euros por ano. Esse pequeno país e 9 milhões de habitantes intriga pela constância de seu sucesso. Tranquilo, metódico, discreto. Então, como a Suíça transformou seus piores defeitos em seus melhores atributos? Me deixem lhes contar a história excepcional do país que nada tinha a seu favor.

Como a Suíça enriqueceu – A maioria dos países ricos têm um trunfo secreto. Alguns descobriram o ouro negro. Já a Suíça recebeu o ouro neutro. O ouro negro é o petróleo vendido em troca de ouro. O ouro neutro é a neutralidade que atrai o ouro dos outros. Ao contrário do que se podia crer, a famosa neutralidade suíça na verdade não era uma escolha, mas um cruzamento de circunstâncias. Desde seus princípios, a Suíça é um país instável. Ela era conhecida por vender, ao preço mais alto possível, mercenários que estavam entre os melhores da Europa. Aliás, desde sua criação, em 1506, a Guarda Pontifícia sempre foi suíça.

Congresso de Viena, 1815, Napoleão foi vencido. A Grã-Bretanha, a Áustria, a Prússia e a Rússia selam o destino da Suíça. As maiores potências querem pacificar a Europa. Em comum acordo, elas impõem a neutralidade à Suíça. Alguns anos mais tarde, a Constituição Federal de 1848 ratifica definitivamente o fim do mercenariado suíço, que era, porém, um ramo componente da economia. O plano das grandes potências deu certo. Concretamente, a neutralidade suíça não é uma escolha moral, mas uma obrigação. Mas ao contrário do petróleo, que pode ser vendido imediatamente, a neutralidade permanece como um estatuto diplomático, uma assinatura sobre o papel.

Durante 100 anos, a Suíça permaneceu como um país médio, nem rico, nem pobre. Foi em 1914 que tudo vai mudar. Os beligerantes da Grande Guerra procuram um lugar seguro pra seus ativos. A Suíça lhes apresenta três argumentos convincentes. O primeiro, segurança física. Eram os próprios signatários do Congresso de Viena que estavam em guerra: ocupados com a defesa de suas fronteiras ou a condução de invasões, violar o acordo invadindo a Suíça não lhes traria nenhum ganho estratégico. Portanto, a Suíça não vai ser invadida.

O segundo argumento é a estabilidade monetária. Em toda a Europa, a guerra é financiada pela emissão monetária. A cada dia que passa, as moedas perdem seu valor. A fim de evitar uma deflação massiva, o Banco Central Suíço decide abandonar o padrão-ouro. Mas em virtude de sua não intervenção no conflito, o franco suíço resiste bem melhor à inflação do que as moedas vizinhas.

O terceiro é a tributação. A fim de financiar a guerra, os Estados aumentam massivamente os impostos. O resultado imediato é uma fuga de capitais privados rumo à Suíça. Durante a Grande Guerra, os fundos gerados pelos bancos suíços vão triplicar. Pela primeira vez, a neutralidade é convertida em ouro. A Suíça repete exatamente a mesma manobra durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1945, é o único país industrializado com todas as infraestruturas ainda intactas. As fábricas suíças podem produzir pro continente inteiro. Os capitais continuam afluindo.

Mas então, a neutralidade basta por si só pra transformar qualquer país pequeno em caixa-forte mundial? Bem, na verdade não. Em 1939, a Bélgica se declara neutra. Resultado, foi invadida em 1940. Sua neutralidade não protegeu nem suas fronteiras, nem sua economia. Por quê? Até aqui, podíamos acreditar que a Suíça simplesmente teve sorte: uma neutralidade imposta e vizinhos ocupados em guerrearem entre si. Mas a verdade é que a partir do século 20, a Suíça decidiu tomar o controle de seu destino a fim de armar sua neutralidade. Ela entendeu antes de todo mundo que um tratado, na verdade, não protege ninguém. Tinta sobre um pedaço de papel não basta. Pra Suíça, sua postura de entreposto central financeiro e diplomático era uma questão de sobrevivência. Invadir a Suíça implicaria destruir o lugar onde ainda se faziam os negócios. Fosse o ouro aliado ou o nazista, a Suíça não fazia distinção.

O segredo bancário suíço data de 1934, mas há muito tempo os bancos suíços ofereciam contas numeradas. Elas não são anônimas no sentido estrito, mas permitem uma proteção que não é oferecida em nenhum outro lugar. Em 2013, o economista Gabriel Zucman tinha feito este cálculo: 80% das fortunas offshore na Suíça não estariam declaradas às autoridades fiscais dos países de residência. O Banco Nacional Suíço, a imprensa e o consenso universitário mais prudente falam antes em 10%. Mas a Suíça, ao contrário da Bélgica, sabia que a diplomacia não bastaria.

O plano de redução nacional visava implodir o máximo possível de caminhos sob túneis e pontes [em caso de invasão estrangeira]. Contavam-se entre 2 e 3 mil instalações de destruição. O túnel de Gothar, por exemplo, continha 3,5 toneladas de explosivos, o bastante pra condenar a passagem durante ao menos alguns meses ou até alguns anos. O exército suíço não precisava vencer, mas apenas tornar a invasão dispendiosa demais.

O terreno e a criatividade são a dissuasão nuclear da Suíça. Se isso viesse a falhar, a ordem era simples: recolher-se nos Alpes pra forçar o invasor numa guerra em declive contra 430 mil homens que conhecem perfeitamente o ambiente. Dos 4 milhões de habitantes da época, é proporcionalmente mais que a França e inclusive a Alemanha.

A Suíça: um modelo perfeito – Hoje, mesmo se a neutralidade suíça é contestada, a cultura dessa neutralidade continua bem enraizada. Genebra abriga mais de 40 organizações internacionais, entre as quais a ONU, a OMS ou ainda a OMC. Todos os anos, ocorrem aí mais de 3,5 mil reuniões diplomáticas. Ao contrário de diversos países europeus, o serviço militar continua sendo obrigatório na Suíça. Cada cidadão, se assim o deseja, pode guardar em casa sua arma, um fuzil de assalto SIG SG 550. Com 28 armas detidas por cada 100 habitantes, a Suíça é um dos países europeus mais armados. Porém, isso não a impede de ter uma das taxas de homicídio mais baixas do mundo.

As estruturas de redução nacional continuam presentes, mas não são mais operacionais. A isso se juntam mais de 9 milhões de vagas em abrigos subterrâneos que abarcam amplamente a população. A título de comparação, somente 4% dos franceses poderiam garantir uma vaga em um de nossos poucos milhares de abrigos. Concretamente, as coisas não mudam. Se o pior viesse a acontecer, cada suíço podia se refugiar aí. Neutralidade, mas armada.

No imaginário popular, a Suíça é o país dos bancos e da relojoaria de luxo. Patek Philippe vende o relógio mais caro do mundo por 31 milhões de francos suíços. Os bancos suíços controlam 11,6 trilhões de dólares em ativos, ou seja, cerca de 11 vezes o PIB nacional. Mas no total, a indústria bancária e financeira suíça só representa 10% de seu PIB. Já sua relojoaria mal chega a 1,5%. Reduzir a Suíça aos bancos e aos relógios é ignorar quase 90% do que faz sua riqueza atual.

Pra além dos clichês, eis o que dizem os números sobre os setores em que as suíças e os suíços realmente trabalham. A Suíça não tem acesso ao mar, porém, sedia MSC, o primeiro grupo mundial de transporte marítimo de contêineres. A partir de Genebra, a MSC controla mais de 800 navios e cerca de 20% do comércio marítimo mundial em contêineres. O setor de transportes e logística representa cerca de 4% do PIB suíço. A Suíça não tem nenhuma matéria-prima, porém, é a sede da Nestlé, o maior grupo agroalimentar ao mundo. Vitol, Mercuria, Cargill: Genebra é o principal entreposto do comércio mundial. É aí que se decide o destino de uma parte do petróleo que consumimos ou ainda dos cereais que comemos.

Vocês sabem que a Suíça se constitui de 60% de montanhas, das quais 25% constituem terrenos inacessíveis. Isso não impede o setor imobiliário e de construção de pesarem 21% do PIB em 2025. A Suíça não tem petróleo nem um Vale do Silício, porém, exporta mais valor per capita que a China e os EUA. Seu motor principal é a indústria farmacêutica e química, que representa cerca de 7% do PIB e mais de 49% das exportações suíças. Dois gigantes, Roche e Novartis, dominam o cenário mundial.

Mas então, por que tamanho sucesso? Como esse país de 9 milhões de habitantes sem nada a seu favor é tão presente e influente em tantos setores? Pra começar a entender isso na história da Suíça, suas vantagens sempre se deveram a uma dose de sorte e a decisões ponderadas.

O alinhamento planetário – Eu lhes dizia que a Suíça sempre teve um pouco de sorte. Ela se encontra no coração do que os geógrafos chamam de “banana azul”, o arco europeu que concentra 80% da riqueza e da população do continente. De Londres a Milão, passando pelo Ruhr, por Zurique e Genebra, no corredor econômico mais denso do mundo ocidental. A Suíça está bem no meio, mas a sorte não explica tudo sozinha. Entre os países, a Suíça é como a Apple: ela não busca fazer mais barato, mas melhor. Novartis e Roche desenvolvem medicamentos inovadores e testes que o mundo inteiro adquire. ABB e Georg Fischer produzem equipamentos industriais raros, insubstituíveis e únicos.

A Suíça ocupa o primeiro lugar mundial do Índice Global de Inovação 2025. Seu segredo é um sistema educativo dual, único no mundo. A partir dos 16 anos, cerca de 70% dos jovens escolhem sua grade. Eles alternam entre escola e empresa durante três ou quatro anos. Um marceneiro iniciante pode facilmente ganhar entre 4 e 4,5 mil francos suíços, não descontados os impostos. Os ofícios manuais são respeitados e mesmo concorridos. A trilha da formação técnica na Suíça é bem mais valorizada e socialmente aceita que na França.

As universidades não ficam pra trás e figuram entre as melhores do mundo. O EPFL, o ETH de Zurique e a Universidade de St. Gallen rivalizam todos os anos com o MIT ou Stanford. Aliás, deixam bem pra trás a Politécnica Nacional francesa. Os egressos dessas faculdades vão parar em indústrias de ponta. Farmacologia, finanças, engenharia, tecnologia: 27 ganhadores do Prêmio Nobel são suíços. No país, teoria e prática contribuem de mãos dadas e em pé de igualdade pra competitividade nacional. Resultado, um PIB per capita de 103 mil dólares, o terceiro maior do mundo, mesmo preservando uma taxa horária média de 38 francos suíços, também uma das mais altas do mundo. Já o salário bruto médio é de 7 mil francos mensais, e a taxa de desemprego é de 2,8%, ou seja, três vezes menor que na França.

Mas a Suíça faz mais que produzir recursos: ela produz confiança.

A cultura da confiança, do trabalho e da disciplina financeira – Na Suíça, a democracia direta dá aos cidadãos um poder único. Eles podem bloquear ou aprovar qualquer lei por referendo. Crescimento rima com estabilidade. Na Suíça, a democracia direta provoca decisões, de fato, lentas, mas raramente erradas. Sem crise política explosiva, sem revolução fiscal, sem ideologia dominante, somente um pragmatismo frio. Tomemos o exemplo do sistema de transporte ferroviário: em 2024, 93,2% dos trens suíços chegaram pontualmente. Na Suíça, “pontualmente” significa menos de três minutos de atraso, contra cinco minutos na França, seis na Alemanha e 15 na Itália. A Suíça ocupa o primeiro lugar no ranking europeu de pontualidade global. A França, com 91,9% de pontualidade pra seus trens regionais em 2019, fica no 11.º lugar entre 16 países analisados.

É isso o pragmatismo suíço. Além disso, esse modelo de democracia valoriza a responsabilidade individual e reforça uma cultura da confiança. 62% dos suíços entrevistados confiam em suas instituições. A média da OCDE está em 39%. Na França, esse número até cai pra 30%. Essa confiança também se reflete na relação com o dinheiro. Trabalhar, gastar pouco, poupar, investir. O sistema previdenciário suíço se assenta em três pilares: a aposentadoria pública, a previdência profissional obrigatória e a poupança privada voluntária. Esses dois últimos pilares funcionam por capitalização: os suíços poupam e investem ao longo de toda a sua vida ativa. Resultado, uma das taxas de poupança mais altas do mundo e uma população acostumada a pensar no longo prazo.

Mas é sobretudo na disciplina orçamentária que essa cultura se revela. Na década de 1990, as finanças federais suíças sofreram uma profunda crise. O endividamento explodiu em várias dezenas de pontos do PIB em uma década. A resposta: em 2001, os suíços aprovam por 85% um novo artigo constitucional sobre o freio ao endividamento. A regra é muito simples: as despesas não podem ultrapassar as receitas, exceto em caso de crise econômica maior. Desde então, o Parlamento e o Conselho Federal são constitucionalmente obrigados a respeitar essa regra durante a elaboração do orçamento, o que trouxe a disciplina de volta. Em 2024 o orçamento consolidado da Confederação apresentou um superávit de 11,3 bilhões de francos suíços. Não são os impostos que permitem isso, mas um sistema econômico público espantosamente performático. Mas então, pra onde vai esse excedente? Em grande parte, pro reembolso de dívidas anteriores e pra constituição de reservas.

Os paradoxos suíços – A Suíça parece regulada como um relógio, ao menos na aparência: por trás do mostrador bem cuidado, a engrenagem ainda está longe de funcionar perfeitamente. Como eu lhes dizia há pouco, o salário bruto médio na Suíça é de cerca de 7 mil francos mensais. Pra uma família de quatro pessoas, os gastos correntes atingem de 5 a 6 mil francos. Um apartamento de 60 m² em Lausanne fica entre 2,4 e 2,8 mil francos suíços por mês. Já a alimentação é 58% mais cara que na França. Pra certos produtos, os preços chegam a dobrar. Se ajustamos o poder de compra, os suíços seriam apenas 11% mais ricos que os alemães. Apesar dos salários duas vezes maiores, eles são apenas entre 30 e 50% mais ricos que os franceses. Não há método milagroso: os salários suíços são acompanhados de preços suíços.

A Suíça tem um dos melhores sistemas de saúde do mundo. Mas esse sistema não é gratuito. Todo adulto deve contratar um plano básico obrigatório que custa entre 350 e 450 francos suíços por mês. Na Suíça, as deduções obrigatórias são menores, mas cada um é responsável por sua saúde. Claro que quanto mais recursos você tem, melhor vai ser sua cobertura.

A Suíça é classificada como o 4.º pior país da Europa em termos de déficit habitacional. A taxa de proprietários é de 42%, uma das mais baixas da Europa. Em outras palavras, 58% dos lares pagam aluguel. No cantão de Zurique, um dos mais ricos da Suíça, apenas 9% dos casais entre 30 e 40 anos podem pensar em comprar um apartamento.

A Suíça está longe de ser um modelo de justiça social entre os países ricos. Na Suíça, a pobreza está igualmente presente. Nesse país liberal por excelência, 8,1% da população vive abaixo da linha da pobreza. Curiosamente, a taxa é de 10,1% na Noruega, um país igualmente rico que apostou, contudo, numa abordagem radicalmente oposta e baseada na redistribuição. A taxa também está entre 14 e 15% na França. Mas ao contrário da Noruega, a Suíça ainda está atrasada com relação à paridade entre homens e mulheres. Elas ganham em média 19% menos que os homens. Em participação econômica feminina, a Suíça ocupa o 20.º lugar entre os 33 países da OCDE. Isso se deve, sobretudo, ao custo exorbitante do cuidado com as crianças, um dos mais elevados do mundo.

Desde 2018, os bancos suíços são legalmente obrigados a coletar os dados discais de seus clientes que residem no exterior e, a seguir, partilhá-los com as autoridades fiscais dos países parceiros: trata-se do EAR, o Intercâmbio Automático de Informações. Porém, a recente falência do Crédit Suisse gera questionamentos: nos cofres do banco, contas ligadas a criminosos de alto nível, traficantes e oligarcas. Apesar da regulação, a cultura da discrição segue resistente.

As lições do laboratório suíço – A Suíça é um paradoxo vivo: um país minúsculo, sem acesso ao mar, sem petróleo, em um século se tornou uma caixa-forte, uma fábrica de patentes e um porto de estabilidade. Deveríamos então importar o modelo suíço pra França? A Suíça prova que um país rico pode muito bem focar a educação em torno de suas subsidiárias profissionais, uma lição pro elitismo francês das grandes écoles [grandes escolas superiores].

Já a neutralidade suíça constitui um atributo inigualável. Mas pra França, seria muito complicado adicionar esse atributo a seu arsenal. Com a bomba nuclear e territórios nos cinco continentes, a França se engaja em numerosos jogos de alianças pra proteger seus interesses e sobrevivência. É simplesmente impossível pensar em neutralidade.

A democracia suíça é frequentemente citada como o sistema político perfeito. Podíamos ser inspirados por ela? A resposta a essa pergunta mereceria um vídeo inteiro. Não se pode negar que a Suíça é um ideal de riqueza e gestão orçamentária. Mas atenção: não é uma condição suficiente pra garantir a felicidade de seus habitantes. O país ocupa o 3.º lugar na classificação do PIB per capita, mas o 13.º entre os países mais felizes, logo atrás da Nova Zelândia, que só ocupa, porém, o 25.º lugar em termos de PIB per capita.

O laboratório suíço tem o mérito de provar que um jogo aparentemente perdido de antemão não sela o destino de uma nação. Com as decisões certas e um pouco de criatividade, ela pode até fazer disso uma vantagem brilhante. Hoje, a questão mais inquietante é o reverso da medalha da lendária estabilidade suíça. A produtividade só cresce entre 0,3 e 0,5% por ano, ou seja, duas vezes mais devagar do que na década de 1990. É o indício de uma economia com dificuldades pra inovar no plano tecnológico fora das finanças e da farmacologia. Os dois gigantes Roche e Novartis respondem sozinhos por quase 40% das despesas privadas com pesquisa e desenvolvimento do país.

Mas ao contrário do que se poderia crer, no quesito startups, a Suíça se destaca com admiráveis 13 “unicórnios” [que ultrapassam valor de mercado de US$ 1 bilhão] registrados. Na França, há 29 “unicórnios”. Porém, você talvez nunca tenha ouvido falar dos “unicórnios” suíços: os investimentos em startups suíças são predominantemente voltados pra deep tech e pra bio tech. São setores conhecidos por seus tempos extremamente longos de maturação e suas gigantescas demandas de capitais.

Essa escolha se coaduna com o posicionamento econômico da Suíça: não fazemos mais barato, fazemos melhor. Por isso, apesar dessas inovações, a estagnação continua inquietando. Uma estagnação dourada e confortável, mas perigosa. Apesar da excelência de sua educação científica, a Suíça ocupa apenas o 12.º lugar mundial em IA. Já a França ocupa o 5.º lugar. Cerca de 60% da energia suíça ainda provêm do petróleo e do gás. Atualmente, o país está atrasado em suas metas de transição energética pra 2030.

Finalmente, a pergunta levantada pela Suíça e que todos os países ricos se fazem mais cedo ou mais tarde é parecida com a da Noruega: deve-se correr atrás do crescimento quando o conforto basta? Em outras palavras, a verdadeira riqueza não consiste naquele momento em que nos permitimos desacelerar? A Suíça ainda não tem a resposta, mas é um excelente laboratório pra encontrá-la. A Noruega, com condições de partida parecidas e com a mesma riqueza, tomou a direção totalmente oposta. Qual desses dois modelos vai triunfar, é o futuro que vai dizer.



domingo, 25 de janeiro de 2026

Eu trabalho lá na hípica

Lá na hípica, eu trabalho tosando os cavalos, e o Olivier Ferrando, rs. Não resisti a essa piada de “quinta série”! Porém, o assunto deste fim de semana foi a mais nova trumpada que conseguiu gerar vergonha alheia até nos atlantistas mais empedernidos. Ache o erro! (Dicas: como se vê bem, a cena em tese se passa na Groenlândia, e o erro não está no tamanho igual das pegadas dos dois selvagens.)





Inspirado numa das figuras da miniatura da última edição do programa semanal Notícias Terríveis (Novaya Gazeta Evropa), refiz a cena como realmente deveria ser:


E agora, nossos intervalos comerciais pra um serviço mais que aprovado e recomendado:


sábado, 24 de janeiro de 2026

Onde fica a Magnólia?

Até parece implicância quando zoo os repórteres da Grobe, sobretudo os mais jovens, mas a quantidade de memes tá superando minha capacidade de enfrentar a realidade. Na edição da última quinta-feira do Jornal Hoje, Leonardo Monteiro chamou a Mongólia de “Magnólia”, uma espécie de flor. Baseado em Lisboa desde 2015, ele estava comentando a iniciativa do Véi Gagá de criar um “Board of Peace” (Conselho da Paz) pra cuidar da restauração de Gaza, junto a países que formalizaram em Davos, Suíça, sua adesão à iniciativa.

Bizarro como a própria mentalidade do criador (que vai ser o líder perpétuo, ter poder de veto etc.), o conselho já está sendo chamado de “ONU paralela”, já que o Bibi do Hamas e o próprio ditador de Uoxto desmantelaram as estruturas humanitárias internacionais na região, embora eles aleguem que vão trabalhar “em cooperação” com a velha instituição. Presidentes menos pernósticos, como a Jararaca e seu amigo Marcão, não deram a mínima pelota pra essa palhaçada.

Enquanto isso, nosso funcionário grobá incorpora Charlie Chaplin, que em seu filme O grande ditador, parodiando a Europa do entreguerras, chamou a Alemanha de “Tomânia”, a Itália de “Bactéria” e criou guetos com letreiros em esperanto. Se você não acredita no vídeo abaixo, veja também o print da mesma matéria sobre o assunto no portal Jeum, com a lista atualizada até o momento da exibição: são praticamente os mesmos nomes, na mesma ordem, incluindo “Côzovo” (que é tão país quanto o Hopi Hari), rs:





Em 2023, o mesmo Monteiro teve uma gafe viralizada, depois que chamou a GloboNews de “Globo Lixo” durante uma entrada ao vivo:


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Crarrembú e o Trampe: o retorno

A publicação em que alguns anos atrás zoei com o fato da rara pérola do jornalismo da Grobe, Raquel Krähenbühl, mais conhecida como Crarrembú devido à inépcia dos jornaleiros bananianos médios em pronunciar seu encapetado nominho, alcançou um número de visualizações que eu não podia imaginar. Não é lá grande coisa em se tratando de um blog e em comparação com as mídias modernas, mas dentro dos padrões de minha página, se tornou uma das peças mais acessadas. Confesso que fui um pouco injusto com ela, já que na própria Voice of America (hoje calada pelo fascismo laranja) alguns locutores falavam mesmo “Volodomôr”, mas acho que a cara de desespero do Zelensky fez muito mais pelo humor da cena, rs.

Nesta movimentada semana em que os donos do dindim global planejam novamente seus sadismos e em que o Véi Gagá resolveu encasquetar de novo com a “Terra Verde” coberta de gelo, se valendo pra isso de um sonífero discurso de uma hora e 25 minutos em linguagem destinada antes a suas bases fanáticas, o canal mais chupa-saco dos EUA fez a festa. Qualquer aparição destacada ou “chegada na frente da fila” era tratada pelos noticiários como um grande feito nada extraordinário. Há de se fazer jus à autoglorificação tão típica do Grupo Marinho, tanto mais que nunca vi nossos cão-peões nacionais darem sinais em tantos veículos estrangeiros. Além da célebre Crarrembú ter sido “a primeira a fazer a pergunta” na coletiva do Laranjão, o noticiário da France 24 da última quarta-feira se dignou até a traduzir a já célebre pergunta sobre a ONU paralela que a NOM tá querendo criar, rs.

Claro que nada vai superar a Ilze Scamparini, maior conhecedora de telhados do que os gatos romanos, estampando no peito sua insinuação aeronáutica sobre o bonde da sopa de letrinhas ao então estreante Bispo Bergóio, que então lhe respondeu, como que macetando o catecismo: “Chi sono io per giudicare?” Mas a Loira da Boina que já é feliz só por morar na Suíça também quis ostentar sua quase trombada com o Véi Gagá lhe questionando sobre seus planos a respeito da ilha de Itu. E embora ela não tivesse percebido, sua ousadia (sem alegria, Thiaguinho?) diante de Emmanuel al-Asad com um francês mais afiado que o meu apareceu até na Radio Svoboda, valiosa mídia anti-Putin em russo financiada pelo Congresso ianque que, apesar dos cortes recentes, “envergou mas não quebrou”. Depois de quase fazer o Rei Sol paraguaio chupar o microfone que nem um picolé, quem sabe os patrões não a promovam trocando sua boina por uma touca ou um chapéu aveludado do Chaves? Rs:







Descoberto único jeito de acabar com Vladimir Putin:


Também na quarta-feira, a Sky News chamou a Eslovênia de “Solvenia”. Esqueceram de dizer que quem se “solveu” não foi a Eslovênia, mas a Iugoslávia, rs:


Após a vergonhosa punhalada do Parlatório Európico contra o acordo milenar com o Mercoçú que nunca saía do lugar, mas podia os proteger um pouco diante das constantes ameaças do Véi Gagá de lhes encher o fiofó com tarifas, só posso dizer uma coisa:


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Ajude a Ucrânia congelada por Putler



A Ucrânia enfrenta um dos momentos mais críticos desta guerra.

Em meio a um dos invernos mais rigorosos dos últimos tempos, a infraestrutura do país é atacada diariamente, deixando milhares de pessoas sem energia, aquecimento, luz e água por horas, às vezes por dias. ❄️🇺🇦

Pedimos sua divulgação, colaboração e contribuição para ajudar na compra de geradores e itens de aquecimento.


📲 Contribua via pix:
ajudasocialmetropolia@gmail.com


A Ucrânia precisa de você 🇺🇦


Por que o Brasil não liga pra Ucrânia?

Esta é a transcrição da fala em português e inglês que o antropólogo Claudio Cavalcante Jr. gentilmente me cedeu, permitindo que eu a republicasse aqui pra tentar lhe fornecer um pouco mais de visibilidade, após sua leitura num painel de discussões intitulado “How Ukraine Can Gain Support from Brazil” em 19 de dezembro de 2025. A reunião ocorreu online, nos quadros da 4.ª Conferência Internacional Dedicada a Yuri Knorozov “Ukraine – Latin America: Geopolitical Transformations and New Forms of Interaction”. Apesar do painel se chamar “Como a Ucrânia pode ganhar apoio do Brasil”, só pude intitular a publicação daquele jeito, dado o conteúdo do texto e dado o pessimismo de que o Claudio me tem feito parte ultimamente. Fiz poucas adaptações:



Boa tarde/Boa noite! Obrigado ao Ivan Fechko (do Ukranian Prism), ao Oskar Slushchenko e o Heorhii Erman (ambos da Embaixada da Ucrânia no Brasil). Meu nome é Claudio Cavalcante Junior, sou Ph.D. em Ciências Humanas (Antropologia Cultural) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Minha tese defendida em março deste ano trata de política na diáspora ucraniana no Brasil, além inserção dos ucranianos a sociedade brasileira, relações interétnicas e com o Estado brasileiro, além dos impactos da invasão em larga escala.

É difícil responder questão que intitula esse painel, então vou tentar expor como a Ucrânia ganhou o meu apoio. Eu nasci no Rio de Janeiro, onde fiz toda a minha formação acadêmica. Há quase 16 anos eu vivo no Paraná, em uma cidade no interior chamada União da Vitória, região pioneira da presença ucraniana no Brasil. Os ucranianos chegaram à região em 1896.

Eu moro na rua que carrega o nome do Marechal Deodoro da Fonseca, que foi o primeiro presidente do Brasil. Na mesma rua encontramos a igreja São Basílio, igreja greco-católica ucraniana, e o Clube Ucraniana de União Vitória, fundado em 1923 como União Ucraína do Brasil (Soiuz) que atualmente tem sua sede em Curitiba, capital do Paraná, e é chamada de Sociedade Ucraniana no Brasil (SUBRAS), onde desenvolvem atividades culturais. Aqui encontramos também entre a igreja e o clube, a praça da Ucrânia, onde está uma estátua de Taras Shevchenko.

Estes são alguns exemplos da visibilidade da Ucrânia e dos ucranianos em uma cidade no interior do Brasil. Resultado de mais de 130 anos da imigração ucraniana para o Brasil que pode ser dividido em três ondas. A primeira onda no final do século 19 até 1914, a segunda no Entre guerras e a terceira depois da Segunda Guerra. Os antepassados dos descendentes de ucranianos portavam, na primeira onda, passaportes austríacos (provinham do Império Austro-Húngaro), da segunda onda, da Polônia (vinham de territórios sob domínio polonês) e, na terceira onda, eram apátridas (a maioria era Ostarbeiter, vítimas de trabalhos forçadas, deportadas para Alemanha que não voltam para a Ucrânia, então completamente sob domínio soviético no pós-Segunda Guerra Mundial).

Teríamos um problema para definir quem é de “nacionalidade ucraniana” na diáspora, se nos limitássemos aos documentos, entretanto estes ucranianos permaneceram ucranianos mesmo se inserindo na sociedade brasileira ao longo de várias gerações. Mesmo assim há um envolvimento limitado de brasileiros com raízes ucranianas em ações de mobilização contra a Guerra Russo-Ucraniana, visto que são todos brasileiros. Não posso deixar de esclarecer que há um grupo de ucraniano-brasileiros fazendo um bom trabalho.

Há a presença de ucranianos de quarta onda que vieram para o Brasil a partir do restabelecimento da independência da Ucrânia em 1991. O perfil sociológico destes “novos ucranianos” é muito diferente daqueles de ondas anteriores. Estes “novos ucranianos” organizam manifestações contra a Rússia, contra a guerra, juntos com alguns cidadãos da Federação Russa e vivem em contextos distintos da diáspora ucraniana no Brasil. Mobilizações contra a invasão da Rússia a Ucrânia que ocorram (e ocorrem no Brasil) não são realizadas com frequência e contam com baixa participação. Estive duas vezes em manifestações em São Paulo (uma em 2022 e outra em 2023) e uma vez no Rio de Janeiro (neste ano).

É um desafio para os ucranianos e os brasileiros engajados nesta luta divulgar a causa ucraniana. Em meio a luta contra o imperialismo russo, tentamos divulgar que a Ucrânia, foi uma colônia russa e os objetivos de Putin na Ucrânia são apenas ações imperialistas, ilegais do ponto de vista do direito internacional. Diferentes de outros contextos não havia antes de 2014, antes do início da Guerra Russo-Ucraniana, qualquer impasse em relações a territórios que fazem parte da Ucrânia reconhecidos a partir do reestabelecimento do Estado ucraniano. Aqui no Brasil, é importante dizer, há uma certa força da propaganda russa em diferentes meios e com narrativas diversas afetando tanto aqueles que reivindicam ser “progressistas” quanto aqueles que reivindicam ser “conservadores”.

A presença russa no Brasil não é vista com desconfiança, tampouco é alvo de sanções como em outros contextos: reportagens sobre russos no mercado imobiliário de Florianópolis ou da seleção anual da filial do Escola de Balé “Bolshoi” em Joinville, ambas cidades no estado de Santa Catarina, não estabelecem um link com que está acontecendo na Ucrânia a Rússia. Há uma imagem positiva dos russos com a presença mais visível de russos que estão se estabelecendo no Brasil, deixando de lado os casos de espionagem no Brasil; são nove casos conhecidos. Há também a ação russa através do soft power, como no exemplo do Bolshoi, que frequentemente seleciona e forma bailarinos de origem periférica, com origem em projetos sociais em favelas. Talvez valha a pena citar a literatura russa, que tem muito prestígio no Brasil. Um dos caminhos na formação de uma visibilidade positiva, em especial fora de contextos no estado do Paraná, onde os ucranianos têm muita visibilidade, é através do que a embaixada da Ucrânia no Brasil no campo da diplomacia cultural.

Quanto ao governo brasileiro, este tem assumido uma posição de neutralidade pró-Rússia. O mesmo governo que em crise com o governo de Trump defendeu que não abriria mão de sua soberania. Ouvi a frase: “a soberania brasileira é inegociável”. Este mesmo governo que defende que “o Brasil é dos brasileiros”, defende que a soberania da Ucrânia é negociável, que a Ucrânia não é dos ucranianos.

Eis o desafio: a Ucrânia não é parte da Rússia, ela foi ocupada por forças estrangeiras por séculos e merece ser livre, soberana e minha luta diária como intellectuel engagé (“intelectual engajado”) é tentar divulgar nossa causa: a causa ucraniana. Os scholars no Brasil carregam usualmente sentimento antiamericano, o que estaria na base da percepção, mesmo que discreta, mais alinhada à Rússia na Guerra. As posturas adoradas por Trump favorecendo Putin na atualidade parecem não mexer com a percepção de que a Rússia é a única culpada pela guerra.

Desde 2023, eu acompanho mobilizações de professores e estudantes de universidades se engajando no “genocídio palestino” e a questão que eu coloco é: por que não há mobilização contra as violações aos direitos humanos que a Rússia comete todos os dias na Ucrânia? E as crianças ucranianas sequestradas? Eu não tenho muitas esperanças que as autoridades brasileiras se envolvam na guerra, de alguma forma contribuindo para os esforços da Ucrânia, ou mesmo que os scholars e estudantes universitários reconhecem a luta e resistência ucraniana em busca de uma paz justa e duradoura.

Quanto à população em geral, a guerra parece ser algo distante e que não faz parte do cotidiano ou das conversas diárias. Desta forma, é um desafio tentar mostrar que esta guerra é parte de um contexto mais amplo e que deve envolver todo o mundo. Tenho tentado alertar, mas com pouco sucesso, já que as preocupações são muito contextuais, seja para o governo atual ou para a população brasileira, mesmo aqueles que têm raízes ucranianas.


Good afternoon/Good evening! Thank you to Ivan Fechko (from Ukranian Prism), Oskar Slushchenko and Heorhii Erman (both from the Embassy of Ukraine in Brazil). My name is Claudio Cavalcante Junior, I have a Ph.D. in Human Sciences (Cultural Anthropology) from the Federal University of Rio de Janeiro. My thesis, defended in March of this year, deals with politics in the Ukrainian diaspora (“diáspora”) in Brazil, as well as the integration of Ukrainians into Brazilian society, interethnic relations and relations with the Brazilian State, in addition to the impacts of the large-scale invasion.

It is difficult to answer the question that titles this panel, so I will try to explain how Ukraine gained my support and how I try help Ukraine to gain support. I was born in Rio de Janeiro, where I completed all my academic training. For almost 16 years I have lived in Paraná, in a town called União da Vitória, a pioneering region of the Ukrainian presence in Brazil. The Ukrainians arrived in the region in 1896.

I live on the street that bears the name of Marechal (Marshal) Deodoro da Fonseca, who was the first president of Brazil. On the same street we find the São Basílio church, a Ukrainian Greek Catholic church, and the União Vitória Ukrainian Club, founded in 1923 as the Brazilian Ukrainian Union (Ukrainskyi Soiuz v Brazyli), which currently has its headquarters in Curitiba, the capital of Paraná, and is called the Ukrainian Society in Brazil (Sociedade Ucraniana do Brasil or SUBRAS), where it developed cultural activities. Here we also find, between the church and the club, Ukraine Square, where there is a statue of Taras Shevchenko.

These are some examples of the visibility of Ukraine and Ukrainians in a city in the interior of Brazil. This is the result of more than 130 years of Ukrainian immigration to Brazil, which can be divided into three waves. The first wave was from the end of the 19th century until 1914, the second was between the wars, and the third was after the Second World War. The ancestors of the descendants of Ukrainians carried Austrian passports in the 1st wave (they came from the Austro-Hungarian Empire), Polish passports in the 2nd wave (they came from territories under Polish rule), and in the 3rd wave, they were stateless (most were Ostarbeiter, victims of forced labor, deported to Germany and who did not return to Ukraine, then completely under Soviet rule after the Second World War).

We would have a problem defining who is of “Ukrainian nationality” in the diaspora if we limited ourselves to documents; however, these Ukrainians remained Ukrainian even after integrating into Brazilian society over several generations. Even so, there is limited involvement of Brazilians with Ukrainian roots in mobilization actions against the Russo-Ukrainian war, since they are all Brazilians. I must clarify that there is a group of Ukrainian-Brazilians doing a good job.

There is the presence of 4th wave Ukrainians who came to Brazil after the reestablishment of Ukraine’s independence in 1991. The sociological profile of these “new Ukrainians” is very different from those of previous waves. These “new Ukrainians” organize demonstrations against Russia, against the war, together with some citizens of the Russian Federation, and live in contexts distinct from the Ukrainian diaspora in Brazil. Mobilizations against the Russian invasion of Ukraine that occur are not often and have low participation. I attended two demonstrations in São Paulo (one in 2022 and another in 2023) and one in Rio de Janeiro (this year).

It is a challenge for Ukrainians and Brazilians engaged in this struggle to publicize the Ukrainian cause. In the context of the fight against Russian imperialism, we try to spread that Ukraine was a Russian colony and that Putin’s goals in Ukraine are merely imperialists, and illegal from the point of view of international law. Unlike other contexts, before 2014, before the start of the Russo-Ukrainian War, there was no impasse regarding territories that are part of Ukraine recognized since the reestablishment of the Ukrainian state. Here in Brazil, it is important to say, there is a certain strength of Russian propaganda in different media and with diverse narratives affecting both those who claim to be “progressive” (or “liberal” for Americans) and those who claim to be “conservative”.

The Russian presence in Brazil is not viewed with suspicion, nor is it subject to sanctions as in other contexts: news in traditional media about Russians in the Florianópolis real estate market or the annual selection of the Bolshoi Ballet Theater School branch in Joinville, both cities in the state of Santa Catarina, do not establish a link with what is happening in Ukraine and Russia. It seems there is a positive image of Russians who are settling in Brazil, leaving aside the espionage cases in Brazil. There are nine known cases. We also have Russian action through soft power, as in the example of the Bolshoi, which frequently selects and trains dancers from peripheral backgrounds, originating from social projects in favelas (shantytowns). Perhaps it is worth mentioning Russian literature, which has a lot of prestige in Brazil. One of the ways to create a positive visibility, especially outside of contexts in the state of Paraná, where Ukrainians have a lot of visibility, is through the work of the Embassy of Ukraine in Brazil in the field of cultural diplomacy.

Regarding the Brazilian government, it has taken a position of pro-Russian neutrality. The same government that, in crisis with the Trump administration, defended that it would not relinquish its sovereignty. I heard the phrase: “Brazilian sovereignty is non-negotiable”. This same government that defends that “Brazil belongs to Brazilians” defends that the sovereignty of Ukraine is negotiable, that Ukraine does not belong to Ukrainians.

Here is the challenge: Ukraine is not a part of Russia, it has been occupied by foreign forces for centuries and deserves to be free, sovereign, and my daily struggle as an engaged intellectual is to try to spread our cause: the Ukrainian cause. Scholars in Brazil usually carry anti-American feeling, which would be at the root of the perception, even if discreet, more aligned with Russia in this war. The stances favored by Trump in favor of Putin today do not seem to affect the perception that Russia is solely responsible for the war.

Since 2023, I have been following mobilizations of professors and students from universities engaging in the “Palestinian genocide,” and the question I raise is why there is no mobilization against the human rights violations that Russia commits every day in Ukraine? And the kidnapped Ukrainian children? I do not have much hope that the Brazilian authorities will get involved in the war, somehow contributing to Ukraine’s efforts, or even that scholars and university students will recognize the Ukrainian struggle and resistance in the pursuit of a just and lasting peace.

As for the general population, the war seems to be something far and not part of everyday life or daily conversations. In this way, it is a challenge to try to show that this war is part of a broader context and that it should involve the whole world. I have tried to warn, but with little success, since the concerns are very contextual, both for the current government and the Brazilian population, even those people with Ukrainian roots.