quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Narrativa pró-Rússia na mídia brasileira

    Em seu esforço contínuo pra advogar em prol da causa ucraniana no Brasil, meu amigo Claudio Cavalcante Junior, doutor em Antropologia pela UFRJ e constante aparição nesta humilde página, participou online da conferência internacional Global Disinformation Conference – Kharkiv 2026, promovida pela cátedra de Relações Internacionais da Universidade Nacional V. N. Karazin de Kharkiv. Na qualidade de membro da Universidade Livre Ucraniana Wira Wowk Selansky do Brasil, ele apresentou em inglês o trabalho “Pro-Russia narratives in the context of political polarization in Brazil” (“Narrativas pró-Rússia no contexto de polarização política no Brasil”), ao qual ele deu o nome alternativo “Pro-Russian narratives in Brazilian media” (Narrativas pró-Rússia em meios de comunicação do Brasil).

Agradeço ao Claudio a permissão de publicar aqui sua versão prévia em português, com redação revisada por mim e notas de rodapé que completei com todos os dados das referências. Exceto pelo formato, nem eu nem ele acrescentamos conteúdo novo à comunicação depois de ter sido lida no evento. Esperamos que ela possa ajudar a serem formuladas outras reflexões sobre a detecção e o combate a narrativas da mídia tradicional ou “alternativa” e da academia defendendo a agressão de Putin à Ucrânia e suas ameaças aos países da OTAN.


A apresentação trata de narrativas pró-Rússia no contexto de polarização política do Brasil. Por isso, vou abordar as relações de autoridades brasileiras com Putin nos últimos quatro anos e expor uma pequena amostra de reportagens que demonstram certo “apoio” à “operação militar especial” da Rússia na Ucrânia.

Tanto em 2022 quanto em 2026, vivemos uma forte polarização entre o que podemos identificar como os dois movimentos políticos liderados por Jair Bolsonaro (direita/extrema-direita) e pelo atual presidente Luís Inácio Lula da Silva (esquerda).

No ano da invasão em larga escala da Rússia à Ucrânia, o Brasil mais uma vez elegeu Lula, ex-presidente de esquerda. Naquele ano, Bolsonaro havia ido à Rússia pouco antes da invasão em larga escala e, três dias após a invasão, fez piada sobre o assunto em entrevista. Ao ser perguntado sobre a guerra, o então presidente afirmou que a Ucrânia “confiou em comediante para traçar destino da nação”. (1) Naquele mesmo ano, Lula relativizou a responsabilidade de Putin e comentou que “os motivos para o conflito seriam resolvidos no Brasil em uma mesa de bar regada a cerveja”. (2) Quatro anos depois, o Brasil continua polarizado e Lula tenta um quarto mandado como presidente contra o filho de Jair Bolsonaro, Flávio. A forte divisão do país entre esquerda e direita, em alguma medida, impacta sobre a forma de enxergar o mundo de forma geral e a guerra entre a Rússia e a Ucrânia de forma particular.

Independentemente de quem está no poder, o Brasil é um país onde atuam livremente os instrumentos russos de soft power, entre eles a filial do Balé Bolshoi, única presente fora da Rússia. Anualmente há uma seleção de novos alunos, amplamente coberta por reportagens na televisão. (3) Meninas e meninos pobres, egressos de projetos sociais, têm suas vidas transformadas ao serem selecionados para um dos melhores balés do mundo. Nestas ocasiões, em geral, não há qualquer menção sobre a invasão da Rússia à Ucrânia, ausência notável também na imprensa ou em sites oficiais quando o Brasil celebra convênios com a Rússia. Podemos destacar a cooperação na área de tecnologia e ciência com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (4) e o investimento para o ensino de russo no Brasil, integrado como língua estrangeira em escolas selecionadas por meio de um acordo recente entre os ministérios da Educação brasileiro e russo. (5)

O Brasil recebe muito bem os russos que decidem viver aí e não parece haver grande preocupação com histórias envolvendo a presença de espiões russos em território nacional. (6) Existe também a Sputnik BR, sucursal no Rio de Janeiro da mídia propagandista russa Sputnik onde é operada uma estação de rádio. (7) Em geral, os meios de comunicação não somente não demonstram preocupação com a presença russa no Brasil, mas também replicam acriticamente as fontes oficiais de propaganda do Kremlin, tratadas de forma distinta de outros emissores, como Donald Trump ou Jair Bolsonaro, cujos conteúdos são muito mais questionados.

Ao analisarmos artigos de um jornalista para o importante jornal brasileiro Folha de S. Paulo, observamos uma postura que pode ser considerada pró-Rússia. Em vários textos, ele apresenta a expansão da OTAN como a principal queixa estratégica de Moscou; em outros artigos, descreve explicitamente a guerra como resultado de uma disputa de segurança entre a Rússia e o Ocidente. Em um dos textos, o jornalista escreve que existe um “embate subjacente” à guerra, definido como uma disputa entre Moscou e EUA/OTAN sobre o desenho das fronteiras de segurança do Leste Europeu. (8) Logo em seguida, afirma que “o Kremlin vê a expansão a leste de estruturas ocidentais como inaceitável”. O texto também identifica a entrada dos países bálticos na OTAN como um dos principais pontos de atrito para Putin. Mesmo sendo um texto escrito há mais de quatro anos, o argumento para uma possível ação militar no Báltico já estava posto.

Em outro texto, aponta que Putin colocou “de vez” a ideia de que sua guerra seria uma reação à expansão ocidental, destacando que 14 “países ex-comunistas” haviam aderido à OTAN desde 1999. (9) Também aponta que, naquele contexto, uma das condições russas era a neutralidade da Ucrânia, e sua não entrada na aliança. Aqui, o jornalista não está apenas dizendo que Putin criticava a OTAN, mas também apresentando a expansão da aliança como a explicação estratégica que o Kremlin utiliza para justificar a guerra. (10)

Mesmo antes da invasão de 24 de fevereiro, ao explicar as exigências russas durante a “crise”, o jornalista afirmara que Putin reivindicava que a OTAN retirasse as tropas posicionadas nos “países ex-comunistas” incorporados à aliança após 1999 e que já fosse permanentemente vetada a entrada da Ucrânia na OTAN. Em outro texto também escrito e publicado antes da invasão, usa o mesmo argumento ao expor sua abordagem sobre o que chamou “contexto histórico da expansão da OTAN”, na qual apresenta a crise como uma disputa da Rússia com a Ucrânia e a OTAN e explica que Putin buscava impor uma determinada visão estratégica para o Leste Europeu. (11)

O jornalista esteve nos territórios ocupados do Donbás, (12) onde fez reportagem sob tutela dos ocupantes em novembro de 2024, (13) o que não gerou reações de meios de comunicação no Brasil. Apesar disso, no mesmo jornal, são expostas posições divergentes, incluindo um texto do cientista político Vicente Ferraro, que debate a seletividade moral na academia e na imprensa com relação ao conflito. (14) O jornalista supracitado é reconhecido por ser uma pessoa pró-Rússia. Em conversa privada com um jornalista da mesma publicação que esteve na Ucrânia, onde fez algumas reportagens, elogiei seu trabalho e comparei-o ao desse jornalista, a quem acusei de ser pró-Rússia. A resposta do jornalista foi: “(...) ele é super pró-Rússia”. (15) Desta forma, não há qualquer problema ou impedimento em ser assumidamente um apoiador da Rússia em uma publicação da relevância da Folha de S. Paulo. (16)

Ao longo de minha pesquisa, convergindo com Ferraro, identifiquei a falta de uma visão crítica sobre a invasão da Rússia à Ucrânia da parte de jornalistas e intelectuais, que não questionam as mentiras de Putin e Lavrov sobre sua invasão em larga escala e as acusações à Ucrânia (e aos ucranianos) de ser agente do “Ocidente”, sobretudo por meio da “ameaça” da expansão da OTAN, e de ser “nazista”. (17) O argumento da expansão da OTAN e da ameaça do “Ocidente” é de grande recorrência nas narrativas que podem ser identificadas como propagandistas pró-Rússia no Brasil.

Essa abordagem é reforçada pelo sentimento antiamericano recorrente no jornalismo e, sobretudo, no mundo acadêmico, cuja comunidade geralmente reivindica um engajamento “de esquerda”. Segundo reportagem da Al-Jazeera, (18) o argumento dos “esquerdistas brasileiros” para apoiar a Rússia é a expansão da OTAN, contra a qual o país estaria se defendendo. Para esses “esquerdistas”, a Rússia de Putin é a sucessora da URSS, perspectiva alimentada pelo presidente Lula em seu terceiro mandato, que imagina que Putin pode pôr fim ao imperialismo americano e pavimentar o caminho rumo a um mundo multipolar. A reportagem aponta ainda que a “esquerda brasileira” não acredita no término da “guerra fria”. (19) Aqueles que enxergam o regime putinista pelo viés “progressista” ignoram, por exemplo, a criminalização do movimento LGBT e a emergência de políticas em seu desfavor na Rússia. (20)

Isso não quer dizer que antes de 2022 não existissem apoiadores de Bolsonaro simpáticos à Rússia. É importante frisar que o estreitamento dos laços de Lula com Putin, a quem o presidente brasileiro chamou de “amigo”, (21) pode ter impactado positivamente sobre alguns militantes de “direita”, “bolsonaristas” pró-Rússia que veem em Putin uma liderança lutando contra “globalistas”. (22)

A abordagem daqueles que se reivindicam “conservadores” e apoiam Putin no Brasil está parcialmente sintetizada no discurso do ex-presidente Bolsonaro por ocasião da visita à Rússia (23) dias antes da invasão em larga escala: “Compartilhamos de valores comuns, como a crença em Deus e a defesa da família (...)”. Durante o encontro, Putin fez a defesa de um “mundo multipolar”, (24) assunto constantemente reforçado em discursos de Lula ao longo de seu terceiro governo. (25) A partir daquela visita, Bolsonaro aumentou as relações comerciais com a Rússia, em especial de óleo diesel e fertilizantes comprados pelo Brasil, relações que se intensificariam ao longo do terceiro mandato de Lula. (26)

O presidente Lula foi à Rússia para as comemorações do Dia da Vitória (que os russos chamam de “Grande Guerra Patriótica”) em 2025. (27) Ele e sua esposa Rosângela usaram a fita de São Jorge e assistiram ao desfile militar. (28) A primeira-dama visitou o Teatro Bolshoi e assistiu a uma apresentação de balé no Teatro Mariinski. (29) Não houve qualquer crítica ou identificação do país anfitrião com a guerra que ele causou.

Com relação à invasão da Rússia à Ucrânia, defendo que existe não uma homogeneidade de perspectivas no que podemos chamar de meios de comunicação tradicionais, mas uma dependência maior da perspectiva de cada jornalista/autor. Em suma, não há posturas únicas expostas em editoriais, por exemplo, o que pode se explicar em parte pela ingenuidade resultante de uma abordagem política questionável. Porém, provavelmente existem aquelas pessoas e meios financiados a partir do exterior, por isso, devemos ficar atentos a sua produção de conteúdos que semeiam a desinformação no Brasil.


Notas (Clique pra voltar ao texto)

(1) BOLSONARO sobre guerra: ‘Povo da Ucrânia confiou em comediante para traçar destino da nação’. [S. l.: s. n.], 2022. 1 vídeo (1 min). Publicado pelo canal UOL. Disponível nesta página. Acesso em: 29 maio 2024.

(2) GAIER, Rodrigo Viga. Lula diz que no Brasil motivos para guerra na Ucrânia seriam resolvidos numa mesa de bar. Reuters, Rio de Janeiro, 30 mar. 2022, 20:49. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(3) CRIANÇAS do Brasil participam de seleção para o balé Bolshoi. Band.com.br, 30 dez. 2024, 21:46. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(4) RAMOS, Vitor. UFRJ recebe comitiva russa para ampliar cooperação científica e tecnológica. UFRJ, 7 ago. 2026. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(5) LÍNGUA russa será introduzida em escolas do Brasil como língua estrangeira. Sputnik Brasil, 23 jul. 2026. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(6) SCHWIRTZ, Michael; BRADLEY, Jane. Espiões de Putin no Brasil: como a Polícia Federal agiu para desmantelar a rede de espionagem russa. The New York Times. 21 maio 2025, 12:23. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(7) SPUTNIK inaugura rádio FM com transmissão 24 horas em português no Brasil. Brasil 247, 01 ago. 2025, 8:37. Disponível nesta página. Acesso em: 05 out. 2026.

(8) Conflito na Ucrânia tira fantasma da Terceira Guerra Mundial da aposentadoria. Folha de S. Paulo, São Paulo, 01 mar. 2022, 14:11. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(9) Putin acusa Ocidente de causar guerra na Ucrânia e tentar cancelar a Rússia. Folha de S. Paulo, São Paulo, 16 mar. 2022, 12:01. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(10) Ibid.

(11) Entenda a crise entre a Rússia de Putin, a Ucrânia e as forças da Otan. Folha de S. Paulo, São Paulo, 25 jan. 2022, 11:24. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(12) Invasão russa traz misto de alívio e incerteza a Donetsk. Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 nov. 2024, 12:00. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(13) Folha percorreu 3.500 km em visita à frente russa da guerra. Folha de S. Paulo, São Paulo, 10 nov. 2024, 23:00. Disponível nesta página. Acesso em: 07 out. 2026.

(14) FERRARO, Vicente. Atrocidades russas em 3 anos de guerra na Ucrânia não devem ser relativizadas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 26 fev. 2025, 10:00. Disponível nesta página. Acesso em: 07 out. 2026.

(15) Conversa pelo direct do Instagram em 30 de junho de 2023.

(16) No mesmo jornal, podemos encontrar este artigo escrito pelo embaixador da Rússia no Brasil: LABETSKI, Alexei. Em Donbass, a cultura é resistência à propaganda falsa. Folha de S. Paulo, São Paulo, 03 ago. 2026, 22:00. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(17) POR QUE a Rússia diz combater o nazismo na Ucrânia – e qual é a verdade. Carta Capital, São Paulo, 24 fev. 2022, 09:59. Disponível nesta página. Acesso em: 08 out. 2026.

(18) GARCIA, Raphael Tsavkko. Why is the Brazilian left supporting Putin’s Russia? Al-Jazeera, Doha, 21 maio 2022. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(19) Ibid.

(20) Rússia adiciona ‘movimento internacional LGBTQIA+’ a lista de entidades terroristas. AFP, 22 mar. 2024, 12:40. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(21) LAZZARO, Paloma. ‘Falei com meu amigo Putin’, diz Lula ao pedir por reunião do Conselho de Segurança. Exame, São Paulo, 05 ago. 2026, 13:43. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(22) “A era em que um pequeno grupo de nações decidia pelo mundo inteiro acabou”, declara Putin. Hora do Povo, São Paulo, 06 out. 2025. Disponível nesta página. Acesso em: 08 out. 2026.

(23) PRAZERES, Leandro. Bolsonaro fala em ‘casamento perfeito’ com Rússia e diz que Putin ‘busca a paz’. BBC News Brasil, 16 fev. 2022. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(24) Ibid.

(25) ZARUR, Camila; TRUFFI, Renan. Em discurso, Lula defende mundo multipolar e governança de IA ‘justa, inclusiva e equitativa’. Valor Econômico, Rio de Janeiro, 06 jul. 2025, 17:58. Disponível nesta página. Acesso em: 08 out. 2026.

(26) PRAZERES, Leandro. Sob Bolsonaro e Lula, diesel da Rússia vira negócio bilionário e coloca o Brasil na mira de Trump. G1, 08 ago. 2025, 15:51. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(27) NERY, Laila. Lula participa do Dia da Vitória na Rússia ao lado de Putin e Xi. UOL, São Paulo, 09 maio 2025, 00:01. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(28) Ibid.

(29) AGENDA de Janja na Rússia inclui ida ao Bolshoi e a universidade. PODER360, Brasília, 03 maio 2025, 12:45. Disponível nesta página. Acesso em: 07 out. 2026.



segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Ativismo da diáspora ucraniana nos EUA

    Este texto, provavelmente traduzido a partir do inglês, tem o título “Como os ucranianos nos EUA defendem os interesses da Ucrânia” e foi escrito por Michael Sawkiw, Jr., presidente do UCCA (Comitê Ucraniano do Congresso da América, ou Comitê Congressional Ucraniano da América). Vitório Sorotiuk, que o enviou a um grupo de WhatsApp comum e chamou o autor de “Mykhailo Savkiv” (nome ucraniano original, mas que quase me impediu de achar uma foto pública sua), informa o seguinte: “Nós somos primos, a mãe dele é Drohomeredskyi e a minha avó pelo lado paterno è Drohomeredskyi. O texto é muito importante pois relata a ação dos descendentes de ucranianos nos Estados Unidos.”

Além de presidente do UCCA, Sawkiw também é presidente do Conselho de Política Internacional do Congresso Mundial Ucraniano (UWC), diretor do Serviço Nacional de Informação da Ucrânia (UNIS) e detentor da Ordem do Mérito da Ucrânia, 2.ª classe, concedida pessoalmente pelo presidente Zelensky. Como escreveu Sawkiw, “ajudar a Ucrânia pode ser feito de muitas maneiras, e cada uma delas é importante”; portanto, que tal divulgar esta publicação, acompanhar e compartilhar conteúdo pró-Ucrânia em português e inglês e continuar falando nas redes sociais sobre a resistência antirrussa? Segue o conteúdo original, com alterações na redação apenas quando estritamente necessário:


A comunidade ucraniana nos Estados Unidos tem trabalhado há décadas para garantir que as relações entre a Ucrânia e os Estados Unidos permaneçam fortes e que a Ucrânia tenha parceiros confiáveis em Washington.

O Comitê Ucraniano do Congresso dos Estados Unidos (UCCA) é uma organização apartidária de ucraniano-americanos que representa os interesses da comunidade desde 1940. Nossa posição não depende de qual partido está no poder, e nossa missão é proteger os interesses da Ucrânia. Em nosso trabalho e comunicações, explicamos consistentemente ao público americano que apoiar a soberania ucraniana é importante para os próprios Estados Unidos.

Uma das áreas de nossa atuação é o aumento da pressão econômica sobre a Rússia. Como parte desse trabalho, apoiamos, entre outras coisas, iniciativas legislativas dos senadores Lindsey Graham e Richard Blumenthal para fortalecer as sanções contra o Kremlin.

As últimas decisões da administração do presidente dos EUA, Donald Trump, em particular no que diz respeito ao retorno do combustível diesel russo ao mercado mundial e ao alívio das sanções contra a Rússia, contradizem nossa posição sobre a necessidade de aumentar a pressão econômica sobre o Kremlin, uma vez que fornecem à Rússia recursos adicionais para continuar a guerra.

Embora o governo dos EUA possa justificar o acordo sobre o diesel como um desejo de “reduzir os preços dos combustíveis” para os consumidores americanos, o alívio das sanções deve ser avaliado à luz de suas consequências. Uma decisão que supostamente proporciona apenas benefícios marginais aos cidadãos americanos, ao mesmo tempo que aumenta as receitas russas utilizadas para financiar sua guerra, é contrária aos interesses de segurança de longo prazo dos EUA e, principalmente, aos valores e princípios democráticos globais.

Discordamos também da crítica do governo dos EUA aos ataques ucranianos à infraestrutura petrolífera russa como argumento para concessões ao Kremlin. A Ucrânia está se defendendo de um Estado que lançou uma invasão em grande escala em 24 de fevereiro de 2022 e ainda não demonstrou disposição para cessar a agressão. Concessões unilaterais por parte dos parceiros não garantem, por si só, a paz.

Além disso, a experiência dos últimos anos demonstra que Vladimir Putin não busca um compromisso em prol de uma paz justa, mas sim a oportunidade de continuar a guerra em termos que lhe sejam favoráveis. Portanto, em sua comunicação com o público americano, a UCCA tenta explicar claramente as verdadeiras intenções da Rússia e discutir mecanismos reais para deter o agressor.

Ao mesmo tempo, vemos que as preocupações com essas decisões são compartilhadas não apenas pelos democratas, mas também pelos republicanos no Congresso. Isso é importante, porque o apoio à Ucrânia não deve se tornar refém de disputas internas no partido.

Não apenas protestos – Ao falarmos sobre a influência da comunidade ucraniana nos Estados Unidos, é importante compreender as peculiaridades do sistema político americano. A democracia americana possui mecanismos próprios para influenciar o governo, e os protestos de rua em massa são apenas um deles. Podem chamar a atenção para o problema, mas por si só não garantem uma mudança no rumo político.

Manifestações em larga escala sobre diversas questões de política interna e externa ocorrem regularmente nos Estados Unidos. No entanto, nossa experiência nos convence de que, se quisermos alcançar resultados concretos para a Ucrânia, devemos trabalhar simultaneamente em vários níveis: no Congresso, na mídia, com organizações da sociedade civil, representantes empresariais e diversas comunidades étnicas.

As atividades da UCCA não se limitam a ações públicas; mantemos também contato constante com membros da Câmara dos Representantes e do Senado, transmitimos nossa posição aos círculos políticos de ambos os partidos, cooperamos com jornalistas e procuramos garantir a presença da questão ucraniana no espaço informativo americano.

Estabelecemos parcerias com outras comunidades, incluindo as polonesas, bálticas, georgianas, judaicas e cubanas. Por exemplo, em 1994, a UCCA desempenhou um papel fundamental na fundação da Coalizão da Europa Central e Oriental (CEEC), que une os interesses de mais de 20 milhões de cidadãos americanos de ascendência da Europa Central e Oriental. Muitos deles têm suas próprias razões históricas para serem sensíveis à agressão russa, ao autoritarismo e às questões de segurança internacional. Trabalhar em conjunto ajuda a explicar ao público americano em geral por que apoiar a Ucrânia não é apenas do interesse dos ucranianos, mas também dos Estados Unidos e seus aliados.

Também trabalhamos com representantes empresariais. Se empresários influentes apoiarem publicamente decisões que possam enfraquecer a capacidade da Ucrânia de se defender, é importante que os americanos compreendam as consequências de tais decisões e prestem especial atenção às empresas americanas que têm sido alvo de ataques russos na Ucrânia desde 24 de fevereiro de 2022.

Consideramos a comunicação pública e as ações pacíficas perto de instalações comerciais como uma forma de chamar a atenção para a responsabilidade das empresas pelo seu impacto nos processos sociais.

Nossa tarefa não é simplesmente expressar discordância, mas transmitir argumentos ao público mais amplo possível e transformar o apoio público à Ucrânia em decisões políticas concretas.

Vemos justificativa para isso. De acordo com a pesquisa sociológica em que nos baseamos, a maioria dos americanos apoia a ajuda à Ucrânia e considera a Rússia uma ameaça existencial aos interesses americanos. Ao mesmo tempo, esse apoio não pode ser dado como certo – ele precisa ser constantemente fortalecido, explicando aos americanos o que está em jogo.

A força reside na capacidade de unir – A comunidade ucraniana nos Estados Unidos não é homogênea, e entre os ucraniano-americanos há apoiadores de democratas e republicanos, representantes de diferentes gerações de emigração, pessoas com diferentes experiências e visões sobre a política interna dos EUA.

A UCCA tem sido uma organização que une a comunidade em torno de interesses nacionais comuns, independentemente de filiação partidária. Mantemos contato com pessoas que trabalharam em administrações republicanas e democratas, e cooperamos com representantes de ambos os partidos. Isso nos permite transmitir a posição ucraniana a diferentes ambientes políticos, independentemente de quem esteja no comando da Casa Branca ou do Congresso.

A diversidade da nossa comunidade não é uma fraqueza, mas sim uma vantagem. Ela nos dá a oportunidade de falar com diferentes públicos na linguagem dos seus valores e interesses. Para alguns, o principal argumento é a proteção da democracia, para outros, a segurança nacional, e para outros ainda, a necessidade de impedir que regimes autoritários agressivos alterem as fronteiras internacionais pela força.

Os ucranianos que chegaram aos Estados Unidos após o início da invasão em larga escala requerem atenção especial. A questão do futuro deles e do seu status imigratório continua sendo importante, e estamos trabalhando com nossos parceiros no Congresso e outras autoridades governamentais para defender seus interesses.

Ao mesmo tempo, a contribuição dessas pessoas para o apoio à Ucrânia já é extremamente tangível. A comunidade ucraniana nos Estados Unidos está arrecadando fundos, organizando o envio de suprimentos humanitários, auxiliando hospitais e a população civil. Desde o início da guerra em grande escala, dezenas e centenas de milhões de dólares em ajuda foram enviados à Ucrânia por meio de diversas iniciativas públicas e projetos beneficentes.

Nem todos podem participar de uma manifestação ou se pronunciar publicamente contra uma determinada decisão política. Mas ajudar a Ucrânia pode ser feito de muitas maneiras, e cada uma delas é importante. Nosso objetivo é criar oportunidades para que todos participem, independentemente de sua origem, crenças políticas ou circunstâncias de vida.

Uma de nossas áreas de atuação é o apoio humanitário direto à Ucrânia. Recentemente, participei da missão “Foco na Ucrânia” para transportar ambulâncias montadas na Europa e entregues à Ucrânia. Desta vez, foram cerca de cinquenta veículos destinados às necessidades da Defesa Territorial Ucraniana e de outras unidades que necessitam de transporte médico.

Outra área importante é a defesa de interesses políticos. Em 2000, a UCCA lançou os Dias Ucranianos em Washington, D.C., para que representantes das comunidades ucranianas de todo o país pudessem se encontrar com seus congressistas e senadores, grupos de reflexão [think tanks], diplomatas e outras figuras influentes. Após a agressão russa em 2014, intensificamos esse trabalho.

Também estamos trabalhando com outras iniciativas para fortalecer o apoio americano à Ucrânia. Nosso princípio fundamental é que a voz da comunidade ucraniana deve ser ouvida constantemente, não apenas quando surge a próxima crise.

A segurança da Ucrânia é a segurança dos Estados Unidos – Durante décadas, a liderança americana e a cooperação com os aliados europeus têm sido essenciais para a estabilidade do mundo democrático. Se os Estados Unidos se distanciarem de seus parceiros na Europa ou criarem a impressão de que a agressão pode ser recompensada com concessões, as consequências não serão sentidas apenas pelos ucranianos. Isso afetará a confiança dos aliados nos compromissos americanos, a capacidade de dissuadir futuros conflitos e um sistema internacional no qual a soberania dos Estados não deve depender da força de seus vizinhos.

Estamos trabalhando diligentemente para garantir que a cooperação entre a Casa Branca e o Congresso possa encontrar um caminho para uma política mais consistente com relação à Ucrânia. É importante que a questão da nossa segurança não se torne um instrumento de luta política interna e que o apoio à Ucrânia permaneça um interesse estratégico compartilhado pelos Estados Unidos.

Muitas vezes me lembro das palavras do pastor americano Mark Burns, que, após visitar a Ucrânia e ver a situação com os próprios olhos, disse: “A Ucrânia é América em primeiro lugar”. Essas palavras são especialmente eloquentes no contexto do slogan “América em primeiro lugar” [America First], frequentemente usado pelo presidente Trump. Seu significado é que proteger a Ucrânia não contradiz os interesses americanos. Pelo contrário, a Ucrânia faz parte do mundo democrático, e o resultado desta guerra afetará a segurança, a estabilidade e o futuro muito além de suas fronteiras.

Portanto, continuaremos a explicar aos americanos que a assistência à Ucrânia não é apenas uma questão de solidariedade, mas também um investimento na segurança internacional e na proteção dos princípios da democracia americana.

Quero dizer ao povo da Ucrânia que estamos trabalhando incansavelmente pela vitória da Ucrânia. A Ucrânia permanece em nossos pensamentos, em nosso trabalho humanitário, em nossos encontros com políticos e em todas as nossas tentativas de convencer a sociedade americana de que nossa luta é importante para todo o mundo democrático.

Tendo visitado pessoalmente a Ucrânia diversas vezes desde o início da invasão russa em larga escala, minha organização e eu compreendemos o que é viver sob constantes ataques de foguetes e drones, e a importância crucial do apoio de parceiros. É por isso que continuaremos a trabalhar – em contextos humanitários, na defesa de causas políticas e na construção de parcerias que ajudem a Ucrânia a sobreviver.

Gostaria de agradecer aos ucraniano-americanos pelo seu trabalho incansável. Independentemente de quando eles ou suas famílias chegaram aos Estados Unidos, de suas opiniões políticas ou de como se envolvem nos esforços de ajuda humanitária, suas contribuições são inestimáveis.

Devemos permanecer unidos em torno de um objetivo comum. Não precisamos concordar em todas as questões da política interna americana para entender que uma Ucrânia livre, democrática e soberana é do interesse tanto da Ucrânia quanto dos Estados Unidos.

Nossa tarefa é dar continuidade ao nosso trabalho, expandir nossa rede de parceiros, encontrar novas maneiras de comunicar nossa posição e transformar o apoio em ações concretas. Estou convencido de que uma Ucrânia forte, democrática e soberana sempre será um importante parceiro estratégico dos Estados Unidos. E é exatamente nisso que estamos trabalhando.



sábado, 24 de outubro de 2026

Sargon Gabriel – “Hakkari” (canção assíria)

    Desde a vinda pra Bragança Paulista de um grupo de caldeus (às vezes chamados “assírios”) residente em Sarcelles, periferia de Paris, em julho de 2013, antes que partissem ao Rio de Janeiro pra participar da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) católica – primeiro grande evento internacional do recém-empossado papa Francisco –, fiquei fascinado por essa cultura quanto à língua, história e música. Eles são cristãos que praticam o “rito caldeu”, em comunhão com a igreja de Roma, e usam o aramaico como língua litúrgica, enquanto seu próprio idioma oral familiar é uma variante aramaica simplificada e modernizada. Apesar da diáspora já grande, os caldeus viviam em grande parte no noroeste do Iraque e no nordeste da Síria, mas em 2014 a expansão ofensiva do Daesh (vulgo Estado Islâmico) praticamente esvaziou a região dessa população. Apenas recentemente começou a haver um ressurgimento, sobretudo no Curdistão iraquiano, mais autônomo que seu congênere sírio.

Do ramo semítico a que também pertencem o árabe e o hebraico, o aramaico e suas variantes modernas, incluindo o sureth (ou suret), a mais usada delas, quase não são mais falados por populações nativas e correm o risco de ter a transmissão geracional cortada, em particular na diáspora euro-americana. Uma de minhas principais fontes sobre o assunto é o livro Parlons soureth, de Bruno Poizat, especialista francês que escreveu muitas outras obras didáticas, mas há também inúmeros sites sob o título genérico de “Learn Assyrian” ou “Assyrian Language”. Não vou entrar no mérito do gentílico “assírio”, embora há quem use a forma conciliatória “assírio-caldeu” e eu prefira usar “caldeu” pro idioma atual e seus dialetos modernos. Importa dizer que a cultura musical ainda é riquíssima, e quem se interessa pelas culturas do Levante, do Cáucaso e da Turquia em geral (há também ativas comunidades no sul da Rússia, especialmente em Krasnodar), vai achar aí um poço inesgotável de diversão.

Uma dessas canções que fala sobre a saudade da terra natal e a complexidade da história ancestral foi gravada várias vezes pelo cantor Sargon Gabriel. Infelizmente, a primeira versão (talvez a original solo, se descontados duetos antigos que ele fez), que era minha preferida, sumiu do YouTube, mas na gravação de 2004, que segue incorporada abaixo, um usuário trouxe em comentário a tradução em inglês da canção, cuja correção não pude confirmar. Por isso, estou a trazendo junto com minha própria versão em português, quase toda dependente desse texto em inglês. O título é Hakkari e se refere a uma região montanhosa, de maioria historicamente caldeia (vou usar aqui o termo como sinônimo de “assírio” em outras fontes), abrangendo atuais partes do extremo nordeste da Turquia e o extremo norte do Iraque e sonhada como futura pátria independente após a 1.ª Guerra Mundial.

Hoje, Hakkâri (com circunflexo) é nome de uma cidade, de um distrito e de uma província na Turquia, historicamente partes da citada região, mas hoje habitados majoritariamente por curdos, cuja relação com os caldeus até hoje está longe de ser tranquila. Hakkari esteve sob domínio nominal turco desde o século 16, mas até 1868, quando se tornou um sancak (ou sanjak, ou “sanjaco”, uma divisão administrativa) do Império Otomano, era na prática administrada de forma autônoma pelos caldeus e curdos. Os caldeus dessa região pertenciam a uma denominação cristã sem comunhão com Roma e viveram aí até 1924, quando foram expulsos os últimos remanescentes do genocídio perpetrado pelos turcos durante o conflito mundial (geralmente eclipsado pelo que ocorreu com os armênios). Suas exigências por um Estado próprio nas conferências de paz em Paris em 1919 não foram ouvidas, e após as rebeliões de 1924, os poucos que puderam ficar tiveram de se aliar aos curdos e se converter ao catolicismo caldeu.

Sargon Gabriel nasceu no centro do Iraque em 1947 e fez sua primeira aparição televisada em Bagdá, aos 17 anos, tendo feito back vocal pro cantor caldeu Albert Ruel Tamras antes de iniciar carreira solo. Seu primeiro álbum foi lançado em 1973, e desde então, entre duetos e a ajuda no lançamento de outros artistas caldeus, teve suas canções popularizadas em regravações de outros membros da diáspora e na execução em casamentos, festas e outros eventos sociais. Gabriel, que hoje vive em Chicago, lançou mais de 20 álbuns, o mais recente em 2012, e colaborou em vários outros, tendo como um de seus mais notáveis letristas o poeta sírio Adwar Mousa.

Esta página tem uma tradução alternativa de Hakkari, e segundo ela a melodia é anônima e vem do folclore turco tradicional, enquanto a letra foi criada por Melis Ishaya (às vezes “Eshaya”), cantor e produtor também focado na cultura caldeia. Os arranjos modernos são de Francis “Bijou”, baixista, compositor e produtor que colaborou longamente com Gabriel. Seguem abaixo o vídeo a que me referi, uma versão em karaokê (escrita perso-arábica) de um canal especializado em canções “assírias” e uma tradução pro polonês que achei por acaso; com esta, pelo menos, consegui comparar parte da gramática, que estava meio estranha em minha fonte. E finalmente minha tradução indireta pro português e a versão em inglês que utilizei (cada estrofe é cantada duas vezes):






Refrão:
Vou subir as montanhas de Hakkari
As montanhas de teu avô e de meu avô
Meu pai vem das montanhas e vales
Minha mãe vem das planícies e desertos
Meu pai vem das montanhas e vales
Minha mãe vem das planícies e desertos

1. Vou beber um vinho velho
Servido pelas mãos das donzelas
Vou cantar um rawe sobre a saudade
Da terra natal, que nunca esqueci

(Refrão)

2. E as donzelas de bela aparência
Vão estar ornadas com joulet khomaleh
Com faixas douradas e prateadas
E também lenços vermelhos e amarelos

(Refrão)

3. A dança em fila longa vai começar
A dança da juventude heroica
De Jilu, de Baz e até de Tyare
E Tkhuma com suas espadas e escudos

(Refrão)

4. A zurna e o tambor vão ser tocados
Vão ressoar em alto e bom som
Os cantores vão cantar
E os moços vão dançar com as donzelas

(Refrão)

Notas culturais:
1) O rawe é um canto folclórico tradicional e a cappella do povo caldeu, considerado uma das expressões mais antigas de sua literatura oral e herança cultural. São cantos épicos, melancólicos ou narrativos que expressam a vida social, as emoções, as dores e a história dos caldeus, em geral executados sem acompanhamento instrumental ou com ritmos tradicionais marcados.
2) Joulet khomaleh (ou julet khomala, que sei lá por que cargas d’água foi traduzido como “clothes of garages”) é o traje folclórico e vestimenta tradicional do povo caldeu, reservado pra ocasiões festivas, casamentos e celebrações importantes.
3) Jilu, Baz, Tyare e Tkhuma (junto com Dez) eram tribos cristãs não católicas e autogovernadas que povoavam localidades na referida região histórica de Hakkari, até o início de sua expulsão durante a 1.ª Guerra Mundial.

Chorus:
I will ascend the mountain of Hakkari
The mountains of your grandfather
    [and my grandfather
My father from the mountain and valley
My mother from the plain and desert
My father from the mountain and valley
My mother from the plain and desert

1. I will drink old wine
In the hands of maidens, held
I will sing rawe in [on?] my longed for
Country that I haven’t forgotten

(Chorus)

2. And the good-looking maidens
Ascended with clothes of garages
Gold and silver, belts/sashes
Red and yellow the shawls

(Chorus)

3. The long line-dance will begin
Heroic youths dance
Of Jilu and Baz even Tyari
Tkhume with his sword and shield

(Chorus)

4. The zurna and drum striking (playing)
Thundering with a loud sound
The singers singing
The youths and maidens dancing

(Chorus)



quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Bom dia, Ucrânia (Pavló Tychyna, poema)

    O José, um colega do módulo 5 do curso online de ucraniano oferecido nas manhãs de sábado pela Unicentro de Irati, PR, publicou outro dia em nosso grupo de WhatsApp o vídeo que segue mais abaixo. Trata-se de sua recitação de um pequeno poema do ucraniano Pavló Hryhórovych Tychýna (1891-1967), datado de 1907 e cujo título varia de acordo com a fonte. Pra meus propósitos, vou o chamar aqui de “Добридень, Україно” (Dobrýden, Ukraíno), “Bom dia, Ucrânia”, lembrando que “dobrýden” não é somente uma forma curta de “добрий день” (dóbry den), literalmente “bom dia”, mas geralmente usado entre 10 da manhã e 4 ou 5 da tarde. É também o cumprimento genérico mais ou menos formal pra qualquer instante do dia claro.

Nossa turma tem pessoas muito inteligentes e criativas tipo eu, rs que elaboram diversos recursos pra ajudar a si e a outros a aprenderem ucraniano de forma divertida e didática. O José gravou um vídeo curto em que criou seu próprio texto introdutório falando sobre a relação entre as belezas da Ucrânia e a riqueza da poesia nacional e fez uma montagem com desenhos, legendas bilíngues e sua recitação ao fundo, ainda que apenas da segunda parte. Realmente fazia muito tempo que eu não traduzia poesia a partir de outras línguas, sobretudo eslavas (se não contarmos as já célebres canções brasileiras em esperanto), e a bela iniciativa do colega me inspirou a verter ao português o poema de Tychyna, que no final das contas constava apenas de oito versos divididos em duas estrofes.

O processo demorou menos de uma hora, e procurei ao máximo manter a métrica das sílabas tônicas, embora no original ela me parecesse essencialmente irregular. De qualquer forma, creio que os efeitos sonoros e rítmicos ficaram bons, mesmo em um dos trechos recorrendo a uma rima imperfeita (fit-i-nha e í-gnea). Esses versos de Tychyna ficaram famosos por servirem de exemplo a palavras raramente empregadas na linguagem corrente, mesmo escrita, e eu usei o texto ucraniano encontrado neste portal de literatura.

Pavló Tychyna nasceu no vilarejo de Písky, hoje pertencente à região de Chernihiv, numa família de dez filhos, e seu pai era o diácono local. Começou a publicar seus trabalhos em 1912, quando estudava no Seminário Teológico de Chernihiv, e estudou no Departamento de Economia do Instituto Comercial de Kyiv de 1913 a 1917, sem ter se graduado, porém. Nesse período, além de trabalhar no corpo editorial de periódicos, também atuou no instituto de estatística de Chernihiv e como regente assistente no coral do teatro de Mykola Sadovsky. Tendo feito amizade com outros poetas ucranianos que o ajudaram nos momentos mais difíceis da vida, alcançou a fama durante o renascimento literário e cultural da Ucrânia na década de 1920, antes de começar a sofrer as primeiras pressões ideológicas típicas do stalinismo.

De fato, sem abandonar sua língua materna, Tychyna se submeteu aos cânones do “realismo socialista”, escreveu poemas patrióticos durante a invasão nazista e cantou loas a Iosif Stalin, o que não só o livrou de futuros expurgos, mas também lhe propiciou cargos na política e nas instituições literárias e científicas. Escreveu a letra do hino da RSS da Ucrânia, da qual foi ministro da Educação (1943-1948) e de cujo Soviete Supremo foi membro (1938-1967) e presidente (1953-1959); também integrou o Soviete Supremo da URSS de 1946 a 1962. Não integrou o renascimento cultural ucraniano do pós-guerra e chegou a criticar os “sessentistas”, grupo de intelectuais mais jovens que procurou retomar o nacionalismo e os laços com o Ocidente, sem renegar os dogmas leninistas. Ativos durante o “degelo” de Khruschov, sobretudo entre 1959 e 1965, foram perseguidos sob Brezhnev.

Entre os ucranianos exilados no período soviético, assim como entre atuais ativistas da proteção e renascimento linguísticos, Tychyna é mal visto por ter se submetido à ditadura stalinista e sacrificado a qualidade de sua obra no altar da glorificação do regime e do enquadramento às típicas temáticas “proletaristas”. Porém, analistas mais finos não enxergam uma queda qualitativa mesmo depois da década de 1920 e encontram inclusive um desvio dos excessos laudatórios então vigentes e até mesmo uma crítica sutil a eles. Seja como for, seguem o vídeo do José, minha tradução poética e o original ucraniano. Críticas e sugestões são sempre bem-vindas, inclusive sobre possíveis mudanças que eu poderia fazer em meu texto:


O azul recobriu toda minh’alma,
O Sol devolveu-lhe toda a calma,
A relva no espírito fez mansidão:
Bom dia! eu disse a meu chão.

Riacho pelo bosque, qual fitinha.
Florada e borboletas: vela ígnea.
Pintura, mosaico, campal frenesi:
Bom dia desejo, Ucrânia, a ti!

____________________


Блакить мою душу обвіяла,
Душа моя сонця намріяла,
Душа причастилася кротості трав –
Добридень я світу сказав!

Струмко серед гаю, як стрічечка.
На квітці метелик, мов свічечка.
Хвилюють, маюють, квітують поля –
Добридень тобі, Україно моя!


terça-feira, 20 de outubro de 2026

Macron critica arruaça em Paris (2026)


    Mais uma vez a França entrou em ebulição com protestos sociais que degeneraram em quebradeira geral e violência entre policiais e jovens manifestantes nas ruas de Paris e de outras grandes cidades. Sob o governo de Emmanuel Macron, caracterizado por seu anacrônico liberalismo desmantelador da proteção social estatal e protetor dos ricaços contra taxação, esses espasmos se tornaram mais frequentes. O mais famoso deles foi o movimento dos “coletes amarelos” em 2018 e 2019, contra o aumento no preço do diesel (então devido a um imposto que o presidente queria implantar) e interrompido apenas pela pandemia de covid-19. Outro que marcou os espíritos foi contra o assassinato do jovem Nahel por policiais, dentro de um carro, em 2024, e o deste ano começou com paralisações em escolas públicas de ensino médio (os famosos lycées, ou liceus) e em universidades, às quais se juntaram outras categorias profissionais. O mote passou a ser cada vez mais a crítica ao aumento dos preços, especialmente dos combustíveis (agora ligados às instabilidades na região do Golfo), e à deterioração geral dos serviços públicos, em particular da saúde.

É curioso que no Brasil, o bolsonarismo que reivindica o “liberalismo” econômico jamais reivindicou o macronismo, preferindo a amizade com o grupo estatista de Marine Le Pen, enquanto Lula, em defesa da tal “democracia”, vive de passeios com Janja e o banqueirinho de Amiens. Além disso, o presidente vive falando que quer “dialogar, escutar, resolver tudo junto”, mas nos primeiros debates ele vira as costas e sai reclamando do mundo, resolvendo as coisas da própria cabeça. Pra piorar, veio com a desculpa de que precisava “garantir as reservas de combustível” pra escapulir exatamente pro Golfo, deixando seu premiê Tião “chifrando” sozinho os desafetos. O quadro geral é esse, e não vou entrar em mais detalhes históricos e ideológicos, destacando apenas que toda vez que algo desses ocorre na Gália, me lembro desta página “Sou fã dos franceses porque qualquer coisa eles vão lá e queimam carros” no Facebook, não atualizada desde junho de 2025, mas cuja última publicação curiosamente traz Jones Manoel bem antes de ser eleito deputado phoderal...

Macron teve de sair do silêncio e, antes de seu “Tour d’Arabes”, gravou um discurso mostrando sua opinião e, mais uma vez, seus planos fajutos pra “resolver as coisas no diálogo”. Dada a importância histórica, não pude deixar de traduzir nem de publicar o quanto antes, mesmo tendo de adiar conteúdo que já tava programado. Eu mesmo traduzi a partir do texto original publicado no portal da presidência francesa, e seguem abaixo o vídeo incorporado a partir do canal pessoal de Emmanuel Macron e o discurso completo. É curioso que mesmo em francês, a palavra “factieux”, que em português daria literalmente em “facciosos”, não é de uso comum, e pra nosso propósito traduzi como “arruaceiros”, ideia que imprimi a todo o discurso – a da “arruaça”. Sendo algumas escolhas difíceis de se resolverem literalmente, também ressalto que traduzi “préfet” (que não se trata de um “prefeito” brasileiro) como “administrador/administração regional”, não eleito por sufrágio universal, e “casseur” e “casse” (ligados a “casser”, i.e. “quebrar”) como “vândalo” e “vandalismo”:



Meus caros compatriotas, estou me dirigindo a vocês esta noite num momento de extrema gravidade, após o que vivenciamos ontem em inúmeras cidades da França, tanto no território europeu como nos ultramarinos. Ontem, sábado, 17 de outubro, arruaceiros [factieux] oriundos de grupúsculos de extrema-esquerda, aos quais se juntaram inúmeros delinquentes, promoveram uma violência desenfreada em nossas cidades. Estabelecimentos comerciais foram saqueados, prédios públicos, lojas e prefeituras foram atacados e, em alguns casos, destruídos. Centenas e centenas de policiais civis e militares ficaram feridos.

Vendo essas imagens, todos nos perguntamos: o que eles têm na cabeça? Como franceses podem fazer isso com a França? Por que incendiar a prefeitura de Limoges e o escritório de turismo em Lyon, invadir a prefeitura em Marselha ou atacar a residência do administrador regional [préfet] em Bordeaux? Como podem chegar a esse ponto? Nada justifica, nada explica e nada desculpa tais atos.

Esta noite, todos sentimos raiva e vergonha. É insuportável ver as ruas de nossas cidades devastadas assim. Em nome de vocês, expresso o apoio da nação a nossas forças da ordem e de segurança interna. Elas resistiram e fizeram o melhor que podiam. Somos solidários com os inúmeros feridos e suas famílias. Expresso também nosso apoio a todos os nossos prefeitos e políticos. Quero demonstrar também nosso apoio aos inúmeros comerciantes, artesãos e agentes econômicos que sofreram as consequências dessa violência e que se encontram hoje em total desamparo. Alguns defenderam por conta própria suas lojas e vitrines contra os delinquentes. Quero lhes dizer que não vão ser deixados sozinhos diante dessas dificuldades. O governo vai lhes trazer respostas. A partir de amanhã, o primeiro-ministro vai presidir um comitê de crise pra mobilizar os auxílios mais rápidos possíveis e acompanhar aquelas e aqueles que atravessam esses momentos tão difíceis.

É preciso ser lúcido. Ontem, nossas forças da ordem, apesar de seu profissionalismo, tiveram de enfrentar uma violência inaudita em inúmeras cidades, por várias vezes. Solicitei ao governo que extraia todas as lições necessárias em matéria de inteligência e antecipação, garantindo que tais episódios não voltem a ocorrer. Estou esperando respostas claras e garanto que a transparência vai ser total; foi o que pedi ao ministro do Interior. As investigações vão ser conduzidas com toda a diligência necessária e o mais rápido possível, e o ministro da Justiça solicitou ao procurador a maior firmeza possível. O monitoramento judicial deve ser exemplar. Nossos juízes estão administrando a justiça em nome de vocês e sabem o que vocês esperam. Sempre que infrações são cometidas, elas devem resultar nos devidos monitoramentos judiciais. Quem destruiu deve pagar. Quem saqueou deve reembolsar. Quem tentou derrubar a República vai ter de responder por isso.

É preciso também observar com lucidez o que está se expressando no país. Ontem, centenas e centenas de milhares de nossos compatriotas protestaram, desejando trazer reivindicações legítimas. Jamais devemos confundir estes últimos com os que destruíram, quebraram e saquearam. Esses manifestantes demonstraram sua preocupação com o custo de vida e o preço dos combustíveis, cuja origem reside no conflito deflagrado no Golfo Pérsico, do qual a França não participou, mas cujas consequências estamos sofrendo. Entendo perfeitamente sua preocupação. Aliás, ela também se expressa em várias outras capitais europeias. Nesse sentido, tomei várias iniciativas em nível internacional pra garantir nosso abastecimento de combustíveis e gás e atuar nos mercados de energia. Vou dar sequência a essas ações a partir de amanhã de manhã, visitando países do Golfo pra assegurar nosso suprimento. O primeiro-ministro e o governo também tomaram decisões, em articulação com os distribuidores de combustíveis, pra que esses esforços se reflitam concretamente nos preços. O governo está fazendo o máximo esforço pra resolver a questão fundamental do poder de compra. Sei que os franceses esperam resultados concretos, e vamos continuar agindo.

E há várias semanas, nossos jovens vêm expressando uma angústia profunda nas escolas de ensino médio e nas universidades. Uma inquietação quanto ao futuro, às condições de vida e de estudo, à capacidade de se orientar, fazer planos e encontrar seu lugar na sociedade. De algum modo, a ideia de que o futuro pode não ser desejável. Entendo nossos secundaristas e universitários. Eles estão no centro de minha atuação política há mais de dez anos. Suas vozes devem ser ouvidas, sem preconceitos e sem minimizar as dificuldades. O governo já iniciou um trabalho nesse sentido. O ministro da Educação Nacional se mobilizou e criou uma plataforma que reuniu mais de 100 mil contribuições, somando-se às reuniões realizadas no nível das circunscrições educacionais [académies] e das escolas. Isso vai nos permitir construir respostas adequadas junto com nossos jovens.

Portanto, nossa responsabilidade é dupla: ouvir a raiva e atuar sobre suas causas, bem como garantir o firme respeito à ordem republicana. Não devemos confundir as reivindicações legítimas com a violência nem permitir que a violência impeça essas reivindicações de serem ouvidas. Por isso, nesta noite quero apresentar um método claro. Primeiro, no contexto atual, as administrações regionais vão tomar decisões em articulação com os prefeitos pra proteger nossas cidades, prédios públicos e estabelecimentos comerciais, inclusive proibindo, se necessário, certas aglomerações e adotando todas as medidas cabíveis. Segundo, apelo a todos os partidos políticos, organizações profissionais e sindicatos que condenem inequivocamente qualquer violência e peçam calma. Cada um deve assumir suas responsabilidades. O país precisa de ordem e pacificação, não de ainda mais tensão. Nos próximos dias, o primeiro-ministro vai reunir esses grupos pra obter posicionamentos claros e públicos. Terceiro, não podemos pedir a nossos jovens que acreditem no futuro sem lhes dar a possibilidade de construir as respostas e estar à mesa de negociação. Sim, precisamos nos sentar à mesa e juntos construir soluções. Alunos, universitários, professores, representantes das organizações patronais e sindicais, autoridades locais e parlamentares, a partir desta semana, vão elaborar propostas concretas com o governo. O primeiro-ministro vai os reunir nos próximos dias com esse objetivo. Quero ser muito claro aqui: vamos ser implacáveis com os vândalos e todos que cometem violência. A escuta e o diálogo não significam fraqueza nem impunidade.

Meus caros compatriotas, estamos a seis meses de nossa eleição presidencial. A seis meses. Portanto, todos os que hoje dizem a vocês que a prioridade é ir pra rua protestar e causar desordem têm um só objetivo: estragar a República e roubar o debate. As escolhas que vocês e todos nós teremos de fazer pro futuro daqui a seis meses são fundamentais. A França é uma grande força democrática e merece esses debates. Eles devem ocorrer em reuniões públicas, congregando os partidos, e não na rua por meio da violência. Devem ocorrer nos jornais, nas bancadas de televisão e em manifestações pacíficas, onde conversamos e esclarecemos com respeito, e nunca na desordem e no vandalismo. Em seis meses, nosso país merece uma bela eleição presidencial. Ela também está se definindo agora, mediante o senso de responsabilidade. Sim ao diálogo, sim às respostas concretas de curto prazo e à preparação das decisões futuras. Mas não à violência, sempre, seja ela qual for. Precisamos de unidade, calma e respeito.

Viva a República e viva a França.


domingo, 18 de outubro de 2026

[REPOST] Meu BBB dos sonhos


    Esta publicação foi originalmente ao ar em junho de 2024 sob o rótulo do antigo “Mix de política”, que estou gradualmente desmantelando pra criar novas publicações originais (como a do “Sarkolula” de anteontem) ou inserir parte do conteúdo em publicações já existentes. Portanto, ocasionais referências datadas são dessa época. Além disso, a publicação era uma das que está com a incorporação “quebrada” do vídeo, e agora tive a chance de consertar. No mais, aproveito o relançamento pra ressaltar o lado “televisão brega” das décadas de 1990 e 2000, que pode ser o que unifica essas montagens!

Quem nunca pensou em sua própria lista pro Big Brother Brasil, ou quem nunca brincou com novas possibilidades bizarras entre amigos? Inspirado numas conversas que tive com um amigo, fiz minha própria lista com personalidades mais ou menos conhecidas da internet e do mundo da cultura, sabendo que pensei em muitas outras mais e que você pode a achar incompleta e ter esperado outros nomes, rs. Mesmo tentando ser representativo entre gênero, sexualidade, ideologia, idade e cor, foi a isto que cheguei. Uma das primeiras montagens dessa monta que consegui fazer, relembrando a primeira edição, única da qual tenho alguma “nostalgia”:


Foi revelado que Liza, filha de Dmitri Peskov, porta-voz de Vladimir Putin pra imprensa, está sob sanções ocidentais (porque ela vive nas custas do papai, e como este está sancionado...), mas ainda consegue fazer compras de luxo no Cazaquistão. As fotos mostradas outro dia na Radio Svoboda são tão fofas que decidi fazer uma montagem orkutizada com o trecho, usando uma canção ainda mais brega de Rick & Renner sobre o “amor de pai”, rs (dedicada à memória do Rick agora em 2026!):


A canção Moshiach (ou Mashiach, “Messias”), típica do judaísmo hassídico, é interpretada nesta versão pelo cantor Mordechai Ben David, também conhecido como MBD. Há também a versão mais célebre de Eitan Masuri, com tradução em português no link, mas em todo caso, pra quem não sabe do que se trata nem entende hebraico, não vai distinguir do tema de abertura de qualquer desenho japonês que fazia sucesso na extinta TV Manchete na primeira metade da década de 1990, rs. Publiquei primeiro em junho de 2024, mas já tinha feito esta montagem um tempo antes, com parte da versão do MBD pra mostrar como pode não fazer nenhuma diferença. Meu próprio amigo que me apresentou a música adorou a montagem, e outros comentaristas nos vídeos da gravação também acharam parecida com o gênero nipônico:


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Nicolas Sarkozy diz admirar Lula (2023)


    Nesta entrevista a um dos principais canais de TV públicos da França dada em 23 de agosto de 2023, o ex-presidente direitista Nicolas Sarkozy reconhece admirar Lula. Corrupto, grosseiro, pouco culto, policialesco, um dos piores governantes que o país já teve (não conseguiu se reeleger em 2012) e amigo de ditadores, em especial do líbio Gaddafi – de quem se suspeita ter financiado ilegalmente a primeira campanha do francês em 2007 –, vejam como o advogado admira o ex-metalúrgico. Com um fã-clube desses, eu preferia viver numa caverna, rs... Seguem a tradução sem transcrição e o trecho separado do resto da conversa:

“Sarkolula” – A política foi minha vida. Estaria mentindo se lhe dissesse que ela não me interessava mais. Aliás, esta é a prova: estamos falando a respeito. Sou apaixonado, interessado, às vezes fico exasperado ou entusiasmado...

Gilles Bouleau – Em seu livro o sr. expressa sua admiração por Lula, homem de esquerda no Brasil, e diz que ele é inoxidável e superou tantas provações, deixou o poder, foi condenado e preso, ele voltou e foi reeleito presidente...

“Sarkolula” – Ele teve um câncer na garganta que o privou... [da voz?]

Gilles Bouleau – Essa trajetória o inspira ou não? O sr. diz que o que ele fez, o sr. também está fazendo.

“Sarkolula” – Admiro e gosto do Lula, mas... eu jamais romperia com a França. E a política sempre vai me interessar. Mas não voltaria a responsabilidades ativas ou operacionais, porque meu tempo passou, e como dizia um grande autor [Jean Jaurès, outro político de esquerda], “O rio é fiel a sua fonte correndo para o mar.”


Outro copríncipe de Andorra que adorava passear com o Molusco (e a Janja, claro) era Emmanuel Macron. Em maio de 2027, ele vai ter que procurar outro emprego, mas aproveitou bem essa década no cargo, sobretudo quando dava de visitar nossa vizinha Guiana. O cacique Raoni Metuktire, condecorado em 2023 “Cavaleiro da Legião de Honra” da França (seja lá o que isso signifique numa República), tá mandando o RURA acordar diante da possibilidade de perder pro Flávio, rs. Uma das pérolas que vai entrar pros anais da tradução é a interpretação de “Olouluoluolouluuuuula” como “Considero o Lula como irmão”:


Como alívio cômico, nesta edição do programa francês C dans l’air dedicada a como manifestantes em vários países muçulmanos estavam protestando contra a França após o 7 de Outubro em Israel e como as tensões intercomunitárias podiam respingar em Paris, um dos especialistas convidados (aqui abreviado) explica o medo que o presidente do Egito tem de abrir completamente a fronteira com a Faixa de Gaza e sofrer um afluxo de refugiados. Porém, parece que o apresentador Axel de Tarlé teve um problema pra pronunciar o nome do ditador, que em português acabou soando algo bem dúbio... Segue apenas a tradução sem transcrição:

Basbous – O Hamas é a ramificação palestina da Irmandade Muçulmana, e esta é a inimiga do regime no Egito. Abrir o caminho entre Gaza e o Sinai significa transportar o êxodo dos palestinos armados do Hamas e pôr o regime em dificuldades. Então...

Tarlé – Al-Xixi teme o Hamas, é isso?

Basbous – Obviamente!


quarta-feira, 14 de outubro de 2026

V. Kará-Murzá em francês (8/10/2026)


    Na manhã de 8 de outubro de 2026, o político e historiador russo Vladímir Kará-Murzá concedeu uma nova entrevista em francês à Rádio França Internacional (RFI), desta vez se concentrando nos movimentos de oposição na Rússia, em especial o partido Iábloko, contrário à guerra, e na incapacidade das potências ocidentais de frear a agressão de Putin contra a Ucrânia. Abaixo você pode assistir à íntegra de sua conversa com o jornalista Arnaud Pontus no canal oficial, e achei o conteúdo tão importante que decidi, mesmo sem autorização, traduzir pro português e colocar aqui. No portal da RFI em inglês também há uma transcrição adaptada da entrevista, mas não a usei pra fins de comparação.

Usei o site Turboscribe pra tirar do vídeo uma primeira versão da transcrição usando a tecnologia IA, depois comparei o resultado com o áudio e finalmente traduzi com o Google a versão corrigida, tendo revisado manualmente o resultado. Sendo um grande intelectual, Kará-Murzá é fluente em francês, mas tive que tirar alguns cacoetes orais mais repetitivos e corrigir a gramática. Não sendo o francês minha língua materna, meu trabalho pode não estar perfeito, mas espero que possa ter contribuído a quem se interessa pelo assunto:


Olá, Vladimir Kará-Murzá.

Olá e muito obrigado por seu convite.

Nós que agradecemos por estar aqui na RFI. Após mais de quatro anos e meio de guerra na Ucrânia, a Rússia intensifica seus ataques, especialmente contra a capital, Kyiv. Estaria Vladimir Putin, hoje, embarcando numa fuga pra frente?

Vladimir Putin está no poder há quase 27 anos. Durante todo esse tempo, esse homem continuou matando em nosso país, no interior da Rússia, e também fora de nossas fronteiras. O regime de Putin significa guerra. O regime de Putin significa agressão. O regime de Putin significa represálias. Portanto, enquanto esse homem permanecer no poder, essa guerra vai continuar. De fato, esse é o único jeito dele se manter no poder, porque obviamente ele é um usurpador e não possui nenhuma legitimidade democrática, já que não há eleições na Rússia há muitos anos.

Houve eleições recentemente, as eleições legislativas em setembro?

Entre aspas, sim, claro. Eleições entre aspas, isso sem falar do controle total do governo sobre a mídia e o sistema político. Mas mesmo nessas condições, como você sabe muito bem, o único partido contrário à guerra, chamado Iábloko – um partido liberal que se opõe à guerra na Ucrânia e pede um cessar-fogo imediato –, foi excluído do pleito pelo regime de Putin. Eles temiam que, mesmo com todo o controle, toda a censura e todas as manipulações, não conseguissem esconder o fato de que milhões e milhões de pessoas na Rússia se opõem a essa guerra e a essa ditadura. Isso poderia ser uma repetição do que vimos em Belarus há seis anos, em 2020.

Mesmo numa eleição que não passa de uma farsa, que não é uma eleição de verdade, se existe uma alternativa na cédula, milhões de russos votam nela, e por isso o regime de Putin excluiu esse partido da disputa. Mas, ao mesmo tempo, eles deram uma clara e eloquente demonstração de medo, pois admitiram que toda aquela propaganda sobre todos na Rússia estarem aparentemente apoiando essa guerra não passa de uma grande mentira.

Vladimir Kará-Murzá, como você entende a estratégia de Putin? Que ele precisa absolutamente da guerra pra se manter no poder, que essa é a única maneira dele continuar?

Todo ditador precisa de inimigos.

Inimigos internos ou externos?

Ambos. Ao mesmo tempo, é claro. E as coisas estão ligadas. Eu, por exemplo, fui preso porque me opus publicamente à guerra na Ucrânia. São os dois lados da mesma moeda.

Gostaria de relembrar brevemente que você foi condenado a 25 anos de prisão por condenar essa guerra na Ucrânia, a invasão russa da Ucrânia, e que foi condenado por alta traição.

Sim, agora é isso. Na Rússia de hoje em dia, é considerado crime manifestar-se publicamente contra o governo, sobretudo contra a guerra. Temos agora mais de 2 mil presos políticos identificados na Rússia, pelo que se pode sabe até o momento. Em meados da década de 1980, havia cerca de 750 presos políticos identificados nominalmente em toda a URSS, isso englobando o que são hoje 15 países. Só a Rússia, atualmente, tem mais de 2 mil presos políticos. E, claro, a categoria que cresce mais rapidamente é a de pessoas, meus compatriotas russos, que se manifestam publicamente contra essa guerra criminosa e cruenta que o regime de Putin está travando na Ucrânia.

Vladimir Kará-Murzá, você fala em presos políticos. Há alguns dias, Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, negou categoricamente a existência de presos políticos na Rússia. O que esse tipo de declaração lhe inspira?

Nada de novo aqui. Na década de 1950, por exemplo, Nikita Khruschov, então líder da URSS, disse exatamente a mesma coisa. De fato, é uma simples repetição direta. Ele dizia que não havia prisioneiros políticos na URSS, mas apenas criminosos ou loucos. Afinal, como você sabe muito bem, os dissidentes eram enviados pelo regime soviético não apenas a prisões, mas também a hospitais psiquiátricos. Isso é uma forma de tortura. Portanto, não surpreende nem um pouco que o porta-voz da propaganda putinista diga isso.

O que me surpreende – e acredito ser importante falar sobre isso aqui em Paris – é que, como você sabe, há duas semanas a França pediu a suspensão das sanções contra dois grandes oligarcas do Kremlin, Alisher Usmanov e Mikhail Fridman. A União Europeia o fez em conjunto, mas por iniciativa da França. E pra mim, antes de tudo, isso é um sinal muito perigoso de que o Ocidente, a UE e, especificamente, a França estão dispostos a retomar o business as usual com o regime de Putin, a normalizar novamente as relações com o Kremlin. Mas o fato da França estar tão determinada, por razões que desconheço, a suspender as sanções contra esses dois oligarcas próximos a Putin é algo absolutamente incompreensível pra mim. Por que o governo francês não pediu, pelo menos, a libertação de alguns prisioneiros políticos russos que estão à beira da morte?

Você gostaria de ter criado uma moeda de troca? Que houvesse uma troca, de certa forma? Teria sido mais aceitável, nesse contexto, suspender as sanções contra oligarcas russos em troca da libertação de prisioneiros políticos?

Primeiramente, como já disse, pra mim é completamente incompreensível por que a França fez isso, em primeiro lugar, porque o que foi que eles fizeram, Fridman ou Usmanov? Eles criticaram o regime de Putin? Não. Eles tomaram distância da guerra na Ucrânia? Não. E não consigo ver absolutamente nenhuma razão pra França estar tão determinada a suspender as sanções. Mas o que digo é: se o governo francês tinha suas razões, as quais desconheço, pra suspender as sanções contra esses dois senhores realmente próximos do Kremlin e da ditadura de Putin, enquanto a guerra na Ucrânia continua e as represálias dentro da Rússia aumentam a cada dia, o mínimo que a França podia fazer era exigir, em troca, a libertação de, sei lá, uma centena de presos políticos russos que podem morrer amanhã ou na semana que vem.

E pra mim, o fato da França não ter feito isso é espantoso, incompreensível. E, se me permite a palavra, em minha opinião, é vergonhoso. Mas também preciso dizer que não quero ficar sentado aqui criticando apenas a França, pois não é só ela. Existe uma tendência perigosa em todo o mundo ocidental. Por exemplo, há um mês, o Canadá suspendeu as sanções contra outro oligarca putinista, Anatoli Chubais, novamente sem qualquer motivo.

Você quer nos dizer que existe uma tendência geral no mundo de pensar: “Ora, pois, no fim das contas vamos poder conversar, vamos ter que conversar com Putin”.

Mas isso é uma loucura total, porque, pra mim, uma das lições mais claras da história do século 20 é que as tentativas de apaziguar um agressor, na verdade, nunca levaram à paz. Sempre levam a mais guerra, mais sangue, mais dor e mais crimes. Porque tentar apaziguar um agressor, um ditador, só serve pra aumentar seu apetite e suas ambições. E já vimos isso acontecer com Vladimir Putin ao longo dos últimos 27 anos.

E pra mim, é absolutamente espantoso que os países ocidentais estejam prestes a fazer isso novamente. Há apenas uma semana, Donald Trump, presidente dos EUA, convidou Putin pra cúpula do G20 em Miami, em dezembro. Lembre-se que Putin tem um mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra. E o presidente dos EUA, aparentemente a democracia mais importante do mundo, o convida pra uma cúpula... Não tenho palavras, nem em russo, e não apenas em francês, pra descrever o que penso sobre tudo isso.

A Rússia é acusada com frequência pela Europa de intensificar, em seu território, o que se chama de ataques híbridos, tentativas de sabotagem e violações do espaço aéreo por drones. Você vê nisso uma tentativa de intimidação por parte do presidente russo? E a resposta europeia lhe parece suficientemente firme?

Primeiro, por favor, não chame Putin de presidente. Ele não é presidente, é um ditador sob vários aspectos.

Entendo o que você diz. Vladimir Putin está tentando intimidar os europeus? E os europeus estão dando a resposta adequada?

Quanto à primeira pergunta, sim. Quanto à segunda, não, infelizmente. Porque, mais uma vez, vemos essa tendência muito perigosa...

Estão querendo normalizar as relações, é isso?

Apaziguar, normalizar as relações com alguém que não entende só a linguagem dos princípios, a linguagem de uma posição firme. Mas, infelizmente, não vemos isso. E, sobretudo, com o crescimento do apoio político a forças pró-Putin aqui na França, na Alemanha, em outros países da Europa Ocidental... Normalmente, trata-se da extrema-esquerda ou da extrema-direita. Eles são... Talvez sejam diferentes em qualquer outro aspecto, mas quanto à atitude perante Putin, são realmente iguais. E isso é muito perigoso, em minha opinião.

Com certeza. Há um descontentamento crescente entre os cidadãos russos, hoje na Rússia, devido aos efeitos da guerra na Ucrânia. Vemos incursões de drones ucranianos quase diariamente, escassez de combustível, cortes de internet... Será que tudo isso pode ter um desdobramento político? Se fôssemos um pouco românticos, seríamos tentados a perguntar: acaso poderia haver uma revolta?

É apenas uma questão de tempo até que ocorram grandes mudanças políticas na Rússia. Vimos uma demonstração muito clara de medo por parte do Kremlin, em agosto de 2026, quando Putin excluiu o Iábloko, único partido contrário à guerra, das eleições legislativas, pois percebeu que, mesmo com todo o controle, toda a censura e tudo a seu dispor, haveria milhões de russos que votariam nesse partido. Mas o problema pro Kremlin é que, tudo bem, eles conseguiram excluir da disputa o partido de oposição, o partido contrário à guerra. Mas isso não muda o fato de haver milhões de pessoas na Rússia hoje que se opõem a essa ditadura e a essa guerra, que querem que a Rússia um dia se torne um país normal, democrático, europeu. E mesmo que Vladimir Putin não o queira realmente, esse dia chegará.

Mas a oposição russa poderia tirar algum proveito político disso? A oposição russa está hoje muito desunida e fragmentada.

Não acredito sequer que se possa usar a palavra “oposição” quando se fala de uma ditadura. “Oposição” é um termo do vocabulário dos países democráticos, como aqui na França. Mas a questão, pra mim, não é a oposição, mas os milhões de russos, incluindo muitos jovens, que têm uma visão muito diferente pro futuro de nosso país. Sabe, no dia em que o Iábloko, o partido contrário à guerra, foi excluído do pleito, a decisão partiu formalmente da Suprema Corte, embora todos saibam que foi Putin quem decidiu. Mas naquele dia havia milhares de pessoas ao redor da Corte, jovens, de fato a geração de meus filhos, com 18, 19, 20 anos, algo assim. E eu via os vídeos e as fotos de Moscou e observava como aqueles jovens gritavam palavras de ordem contra a guerra, cantavam e riam diante dos policiais que estavam ali. E eu pensava: essa juventude é o futuro da Rússia, enquanto o ditador septuagenário no Kremlin não é e nunca vai ser.

O opositor russo exilado Garry Kasparov afirmou que sua vida corria perigo. Na última quinta-feira, ele disse ter sido informado pelos serviços de segurança lituanos e americanos de que devia tomar medidas de precaução. Você também é um opositor exilado: se sente igualmente em perigo?

Não penso nisso. Todos conhecem a realidade do regime de Vladimir Putin.

Você não acha que, como opositor exilado, poderia sofrer ameaças diretas ou correr risco de vida?

Veja, pra mim, permanecer em meu país sempre foi uma questão de princípio. A razão pela qual estou aqui é aquela troca de prisioneiros que você mencionou. Pra mim, sempre foi uma questão de princípio ficar em nossa terra, em minha casa, em meu país. E o FSB, o serviço de segurança de Putin, me envenenou duas vezes, em 2015 e em 2017. Depois, me deram esses 25 anos de prisão: podiam ter me matado lá dentro a qualquer momento. Portanto, não há nada de novo. A única novidade aqui é que, aparentemente, agora coisas assim também podem acontecer nos EUA. Porque antigamente havia aquela teoria de que, na década de 1970, os serviços secretos americano e soviético firmaram um “acordo de cavalheiros” pra não realizar ações desse tipo em território um do outro.

Não se elimina ninguém no país do outro.

Exatamente. Mas, com essa notícia, esse anúncio do Departamento de Justiça americano [que Kará-Murzá chama erroneamente de “ministério”], a questão da repressão transnacional em si não é novidade. Sabemos que o regime de Putin ataca seus opositores políticos não apenas na Rússia, mas também no exterior. Isso ocorreu em Londres, em Berlim, mas nunca, até agora, nos EUA. Então, a verdadeira novidade aqui é que, aparentemente, isso também pode ocorrer em solo americano.

Você não se sente protegido? Não há ameaça, você se sente seguro onde quer que esteja exilado?

Não penso nisso. Tenho trabalho demais pra pensar nessas coisas, porque...

Você toma precauções especiais?

Não, na verdade, não. O que se pode fazer?

Pois é, estamos conversando livremente, você chegou aqui tranquilamente.

O que se pode fazer? Não, se vivermos cada dia pensando nisso, ficamos paranoicos. E tenho trabalho demais pra entrar nessa enrascada.

E já fico claro que isso não vai o intimidar, de qualquer forma, Vladimir Kará-Murzá?

Não, mas acredito no que estou fazendo. Amo meu país e quero que a Rússia tenha um futuro normal, que a Rússia se torne um país civilizado, moderno, europeu, democrático, e vou fazer tudo o que estiver a meu alcance pra que esse dia chegue um pouco mais cedo.

Obrigado, Vladimir Kará-Murzá, por ter vindo à RFI.

Muito obrigado a vocês.



segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Vladimir Kara-Mourza (RFI, 8/10/2026)


    Le matin du 8 octobre 2026, le politicien et historien russe Vladimir Kara-Mourza a concédé une nouvelle interview à la Radio France Internationale (RFI), cette fois-ci en se concentrant sur les mouvements d’opposition en Russie, notamment le parti anti-guerre Yabloko, et l’incapacité des puissances occidentales à freiner l’aggression de Poutine contre l’Ukraine. Ci-dessus on peut regarder l’intégralité de son entretien avec Arnaud Pontus sur la chaine officielle, mais j’ai trouvé son contenu si important que j’ai décidé, même sans autorisation, d’en publier la transcription.

J’ai utilisé le site Turboscribe pour extraire de la vidéo une première version des sous-titres par IA, après j’ai confronté le résultat avec l’audio et enfin j’ai finalisé la rédaction finale du texte. Kara-Mourza parle couramment le français, mais j’ai dû supprimer les traits les plus répétitifs d’oralité et corriger la grammaire. Comme le français n’est pas aussi ma langue maternelle, mon travail peut ne pas être parfait, mais j’espère avoir fait une contribution à ceux qui étudient « la langue de Molière » ou qui, par n’importe quelle raison, préfèrent avoir le texte écrit :


Bonjour, Vladimir Kara-Mourza.

Bonjour et merci beaucoup pour votre invitation.

Merci à vous d’être ici sur RFI. Après plus de quatre ans et demi de guerre en Ukraine, la Russie intensifie ses frappes, notamment sur la capitale Kiev. Est-ce que Vladimir Poutine est aujourd’hui engagé dans une fuite en avant ?

Vladimir Poutine est au pouvoir maintenant depuis presque 27 ans. Pendant tout ce temps-là, cet homme a continué à tuer dans notre pays, dans la Russie à l’intérieur, aussi au-dehors de nos frontières. Le régime de Poutine, ça veut dire la guerre. Le régime de Poutine, ça veut dire l’agression. Le régime de Poutine, ça veut dire les représailles. Et donc, pendant que cet homme reste au pouvoir, cette guerre va continuer. C’est le seul moyen pour lui, en fait, de rester au pouvoir parce que, évidemment, il est un usurpateur, il n’a aucune légitimité démocratique, bien sûr, parce qu’on n’a pas eu d’élections en Russie pendant beaucoup d’années.

Il y a eu des élections récemment, les élections législatives en septembre ?

Entre guillemets, oui, bien sûr. Les élections, entre guillemets, on ne parle même pas du contrôle total du gouvernement sur les médias, sur le système politique. Mais même dans des conditions comme ça, comme vous le savez très bien, le seul parti anti-guerre, qui s’appelle Yabloko – un parti libéral qui s’oppose à la guerre en Ukraine et demande un cessez-le-feu immédiat –, il a été exclu du scrutin par le régime de Poutine. Parce qu’ils avaient peur que, même avec tout le contrôle, même avec toute la censure, même avec toutes les manipulations, ils ne pourraient pas cacher le fait que des millions et des millions de gens en Russie s’opposent à cette guerre, s’opposent à cette dictature. Ça pourrait être une répétition de ce qu’on avait vu en Biélorussie il y a six ans, en 2020.

Même dans une élection qui est une farce d’élection, qui n’est pas une vraie élection, mais s’il y a une alternative sur le scrutin, des millions de Russes ont voté pour cette alternative, et c’est pour ça que le régime de Poutine a exclu ce parti du scrutin. Mais en même temps, ils ont fait une très grande déclaration de peur, et une déclaration très claire de peur, parce qu’ils ont accepté que toute la propagande qu’apparemment tout le monde en Russie soutient cette guerre, c’est un grand mensonge.

Vladimir Kara-Mourza, qu’est-ce que vous comprenez à la stratégie de Poutine ? Qu’il lui faut absolument la guerre pour se maintenir au pouvoir, que c’est la seule façon pour lui de continuer ?

Chaque dictateur a besoin des ennemis.

Ennemis de l’intérieur ou ennemis de l’extérieur ?

Les deux. En même temps, bien sûr. Et c’est lié. Moi, par exemple, j’étais en prison parce que je me suis opposé publiquement à la guerre en Ukraine. Ce sont les deux côtés de la même médaille.

Je vais rappeler au passage que vous avez été condamné à 25 ans de prison pour avoir condamné cette guerre en Ukraine, l’invasion russe en Ukraine, et que vous avez été condamné pour haute trahison.

Oui, c’est ça maintenant. C’est un délit criminel maintenant, dans la Russie d’aujourd’hui, de s’exprimer publiquement contre le gouvernement, surtout contre la guerre. On a maintenant plus de 2 000 prisonniers politiques connus en Russie, jusqu’à ce qu’on puisse savoir à l’instant. Au milieu des années 80, il y avait à peu près 750 prisonniers politiques connus par nom dans l’ensemble de l’Union soviétique. Ça veut dire 15 pays d’aujourd’hui. La Russie seulement aujourd’hui a plus de 2 000 prisonniers politiques. Et bien sûr, la catégorie qui augmente le plus vite, ce sont des gens, ce sont mes concitoyens russes, qui s’expriment publiquement contre cette guerre criminelle et sanglante que le régime de Poutine mène en Ukraine.

Vladimir Kara-Mourza, vous parlez des prisonniers politiques. Il y a quelques jours, Dmitri Peskov, qui est le porte-parole du Kremlin, a nié catégoriquement l’existence de prisonniers politiques en Russie. Qu’est-ce que ça vous inspire, ce genre de déclaration ?

Rien de nouveau ici. Dans les années 1950, par exemple, Nikita Khrushchov, alors le dirigeant de l’URSS, a dit exactement la même chose. En fait, c’est juste directement la répétition. Il a dit qu’on n’a pas de prisonniers politiques en Union soviétique. On a seulement soit des criminels, soit des fous. Parce que, comme vous savez très bien, des dissidents de l’Union soviétique étaient envoyés pas seulement dans les prisons, mais aussi dans les hôpitaux psychiatriques par le régime soviétique. C’est une forme de torture. Et donc, ce n’est pas étonnant du tout que le porte-parole de la propagande poutinienne le dise.

Ce qui est étonnant pour moi – et je crois que c’est important d’en parler ici à Paris –, c’est que, comme vous savez, il y a deux semaines, la France a demandé de lever des sanctions contre deux grands oligarques du Kremlin, Alicher Ousmanov et Mikhaïl Fridman. L’Union européenne l’a fait en ensemble, mais à cause de l’initiative française. Et d’abord, pour moi, c’est un signal très dangereux que l’Occident, l’Union européenne et la France spécifiquement soient prêtes à retourner à business as usual avec le régime de Poutine, à normaliser à nouveau les relations avec le Kremlin. Mais, si la France était aussi déterminée pour des raisons dont je ne sais pas, de lever des sanctions contre ces deux oligarques proches à Poutine, c’est absolument incompréhensible pour moi. Pourquoi le gouvernement français n’a pas demandé au moins de libérer quelques prisonniers politiques russes qui sont en train de mourir ?

Vous auriez voulu créer une monnaie d’échange ? Que ce soit un échange, en quelque sorte ? Ça aurait été plus acceptable, dans ce cadre-là, lever des sanctions contre des oligarques russes en échange de libération de prisonniers politiques ?

Premièrement, comme j’ai déjà dit, pour moi, c’est complètement incompréhensible pourquoi la France a fait ça, dans le premier cas, parce que, qu’est-ce qu’ils ont fait, Friedman ou Ousmanov ? Est-ce qu’ils ont critiqué le régime de Poutine ? Non. Est-ce qu’ils ont fait leur distance avec la guerre en Ukraine ? Non. Et il n’y a pas de raison du tout que je peux voir pourquoi la France était aussi déterminée de lever des sanctions. Mais, ce que je dis, si le gouvernement français avait ses raisons, dont je ne sais pas, de lever des sanctions contre ces deux messieurs qui sont vraiment proches du Kremlin et de la dictature de Poutine, pendant que la guerre en Ukraine continue, pendant que les représailles à l’intérieur de la Russie augmentent chaque jour, au moins, le minimum que la France pouvait faire est de demander en échange de la libération, je ne sais pas, d’une centaine de prisonniers politiques russes qui peuvent mourir demain, la semaine prochaine.

Et le fait que la France ne l’a pas fait, pour moi, c’est stupéfiant, c’est incompréhensible. Et si vous me permettez ce mot, à mon avis, c’est honteux. Mais aussi, il faut dire, je ne veux pas m’asseoir ici et critiquer juste la France, ce n’est pas juste la France. Il y a une tendance dangereuse dans l’ensemble du monde occidental. Par exemple, il y a un mois, le Canada a enlevé des sanctions d’un autre oligarque poutinien, Anatoly Tchoubaïs, encore sans aucune raison.

Vous voulez nous dire qu’il y a une tendance générale dans le monde à se dire : « Bon, bah, finalement on va pouvoir parler, il va falloir parler avec Poutine ».

Mais c’est complètement fou, parce que pour moi, l’une des leçons les plus claires de l’histoire du XXème siècle, c’est que l’apaisement d’un agresseur ne mène jamais à la paix, en fait. Ça mène toujours à plus de guerre, plus de sang, plus de douleur, plus de crime. Parce que l’apaisement d’un agresseur, l’apaisement d’un dictateur, ne sert qu’à accroitre son appétit, ses ambitions. Et on a déjà vu ça avec Vladimir Poutine pendant ces dernières 27 années.

Et pour moi, c’est absolument stupéfiant que les pays occidentaux aillent le faire encore. Il y a juste une semaine, Donald Trump, le président des États-Unis, a invité Poutine pour le sommet du G20 à Miami en décembre. Je vous rappelle que M. Poutine a un mandat d’arrêt de la Cour pénale internationale comme criminel de guerre. Et le président des États-Unis, la plus importante démocratie du monde, apparemment, l’invite pour un sommet... Je n’ai pas de mots, même dans le russe, pas seulement en français, pour décrire ce que je pense de tout ça.

La Russie, elle est accusée très régulièrement par l’Europe de multiplier sur son sol ce qu’on appelle des attaques hybrides, des tentatives de sabotage, des violations de l’espace aérien par des drones. Est-ce que vous y voyez une tentative d’intimidation du président russe ? Et est-ce que la réponse européenne vous semble suffisamment ferme ?

D’abord, n’appelez pas, s’il vous plaît, M. Poutine président. Il n’est pas un président. Il est un dictateur à plusieurs facteurs.

J’entends ce que vous dites. Est-ce que Vladimir Poutine tente d’intimider les Européens ? Et est-ce que les Européens ont la bonne réponse ?

La première question, oui. La deuxième, non, malheureusement. Parce qu’encore une fois, on voit cette tendance très dangereuse...

On est en train de vouloir normaliser les relations, c’est ça ?

D’apaiser, de normaliser les relations avec quelqu’un qui ne comprend pas que la langue des principes, la langue d’une position forte. Mais malheureusement, on ne le voit pas. Et surtout, avec la croissance du soutien politique pour des forces pro-Poutine ici en France, en Allemagne, dans d’autres pays de l’Europe occidentale... Normalement, c’est soit l’extrême gauche, soit l’extrême droite. Ils sont... Peut-être qu’ils sont différents dans tout autre sens, mais en ce qui concerne leur attitude à M. Poutine, ils sont vraiment les mêmes. Et ça, c’est vraiment dangereux, à mon avis.

Absolument. Il y a un mécontentement croissant des citoyens russes, aujourd’hui, en Russie, du fait des effets de la guerre en Ukraine, on voit la percée des drones ukrainiens quasi quotidiennement, les pénuries d’essence, les coupures d’internet... Est-ce que tout ça peut avoir une traduction politique ? On serait tenté de dire, si on était un peu romantique, est-ce qu’il pourrait y avoir une révolte ?

C’est seulement une question de temps, quand il y aura des grands changements politiques en Russie. On a vu une déclaration très claire de peur de la part du Kremlin, en août cette année, en août 2026, quand Poutine a exclu Yabloko, le seul parti anti-guerre, du scrutin législatif, parce qu’il a réalisé que même avec tout le contrôle, toute la censure, tout ce qu’il a, il y aurait des millions de Russes qui auraient voté pour ce parti. Mais le problème pour le Kremlin est le fait que, ok, ils ont pu écarter le parti d’opposition, le parti anti-guerre du scrutin. Mais ça ne change pas le fait qu’il y a des millions de gens en Russie aujourd’hui qui s’opposent à cette dictature, qui s’opposent à cette guerre, qui veulent que la Russie un jour devienne un pays normal, démocratique, européen. Et même si Vladimir Poutine ne le veut pas vraiment, ce jour viendra.

Mais est-ce que l’opposition russe peut en tirer un bénéfice politique ? L’opposition russe, très désunie, très disparate aujourd’hui.

Je ne crois même pas qu’on puisse utiliser le mot « opposition » quand on parle d’une dictature. L’opposition, c’est quelque chose du vocabulaire des pays démocratiques, comme ici en France. Mais pour moi, ce n’est pas à propos de l’opposition. Pour moi, c’est à propos des millions de Russes, y inclus beaucoup de jeunes, qui ont une vision très différente pour l’avenir de notre pays. Vous savez, le jour où Yabloko, le parti anti-guerre, a été exclu du scrutin, formellement c’était la Cour suprême qui a fait la décision – bien sûr, tout le monde sait que c’était M. Poutine. Mais autour de la Cour suprême, pendant ce jour-là, il y avait des milliers de gens, des jeunes, en fait c’est la génération de mes enfants, 18, 19, 20 ans, quelque chose comme ça. Et je regardais les vidéos, les photos, de Moscou, et je regardais comme ces jeunes, comme ils scandaient des slogans anti-guerre, comme ils chantaient, comme ils riaient en face de ces policiers qui étaient là-bas. Et je pensais que cette jeunesse-là, c’est l’avenir de la Russie, et le dictateur septuagénaire au Kremlin ne l’est pas, et ne le sera jamais.

L’opposant russe en exil Garry Kasparov a affirmé que sa vie était en danger. Il a dit jeudi dernier avoir été informé par les services de sécurité lituaniens et américains qu’il devait prendre des mesures de précaution. Vous êtes vous-même opposant, en exil, est-ce que vous vous sentez également en danger ?

Je n’y pense pas. Tout le monde connait la réalité du régime de Vladimir Poutine.

Vous ne pensez pas qu’en tant qu’opposant en exil, vous pourriez être menacé directement ou en danger sur votre vie ?

Regardez, pour moi, c’était toujours une question de principe de rester dans mon pays. La raison pour laquelle je suis ici, c’est à cause de cet échange de prisonniers que vous avez mentionné. Pour moi, c’était toujours une question de principe de rester chez nous, chez moi, dans mon pays. Et le FSB, le service de sécurité de Poutine, m’a empoisonné deux fois, en 2015 et en 2017. Puis ils m’ont donné ces 25 ans de prison, ils pouvaient me tuer en prison chaque jour où j’étais là-bas. Donc ce n’est rien de nouveau. La seule chose qui est nouvelle ici, c’est qu’apparemment, maintenant, des choses comme ça peuvent se passer aussi aux Etats-Unis. Parce qu’avant, il y avait cette théorie que dans les années 1970, les services secrets américains et soviétiques ont fait ce « gentlemen’s agreement », qu’ils ne font pas des choses comme ça sur les territoires de l’un et de l’autre.

On n’élimine pas dans le pays de l’autre.

Exactement. Mais avec cette nouvelle, cette annonce du Ministère [sic pour « Département »] de la Justice américain, la nouvelle ici, la répression transnationale, ce n’est pas une nouvelle. On sait que le régime de Poutine attaque ses opposants politiques pas seulement en Russie, mais aussi en dehors. On a eu ça à Londres, à Berlin, mais jamais, jusqu’à maintenant, aux Etats-Unis. Donc ça, c’est vraiment la nouvelle ici, qu’apparemment ça peut se passer aussi sur le territoire américain.

Vous ne vous sentez pas à l’abri ? C’est une menace, vous vous sentez en sécurité, là où vous êtes en exil ?

Je n’y pense pas. J’ai trop de travail pour penser à ces choses comme ça, parce que...

Vous prenez des précautions particulières ?

Non, pas vraiment. Qu’est-ce qu’on peut faire ?

Oui, on parle librement ensemble, vous êtes arrivé comme ça.

Qu’est-ce qu’on peut faire ? Non, si on passe chaque jour en y pensant, on devient paranoïaque. Et j’ai trop de travail pour aller dans cette route.

Et ça ne vous intimidera pas de toute façon, on l’a compris ça, Vladimir Kara-Mourza ?

Non, mais je crois en ce que je fais. J’aime mon pays et je veux que la Russie ait un futur normal, que la Russie devienne un pays civilisé, moderne, européen, démocratique, et je vais faire tout ce que je peux pour que ce jour arrive un peu plus tôt.

Merci, Vladimir Kara-Mourza, d’être venu sur RFI.

Merci beaucoup à vous.