domingo, 23 de junho de 2024

Latim escrito em alfabeto cirílico


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Esta é uma publicação aleatória cuja ideia eu já tinha tido há alguns anos, pelo menos desde que traduzi o Hino do Vaticano do latim e fiz ao mesmo tempo, por pura diversão, uma versão da letra original em alfabeto cirílico russo, rs. Hoje resolvi sintetizar minhas opções, mudei e precisei algumas escolhas, e embora sua utilidade prática seja nula, espero que você tenha gostado pelo menos da estética!

Como você já leu várias vezes aqui, quando faço leituras em voz alta de textos em latim, opto pela externalização da língua na chamada “pronúncia eclesiástica” ou “romana”, isto é, decalcada da língua italiana. Faço isso porque a chamada “reconstituída” não se constitui apenas na diferença de pronúncia dos ditongos e de algumas consoantes, mas também na expressão correta das vogais curtas como “abertas” e das longas como “fechadas”. Ora, nem todo texto comum indica as vogais longas com exatidão (se valendo do diacrítico “mácron”), e dá um trabalhão pegar um manual calcado na variante clássica ou um dicionário qualquer e ver a pronúncia “certa” de cada palavra... Não adianta deixar esse traço de lado, mas pronunciar C sempre como K, G sempre como “guê”, S sempre como SS e Æ e Œ sempre como “ái” e “ói”. É ridículo!

Mesmo assim, decidi agradar aos dois campos, e embora não introduzindo nenhuma indicação da duração vocálica, coloquei as opções de pronúncia diferente das consoantes e vogais, mostrando qual seria “reconstituída” e qual seria “eclesiástica”. Por ser a versão do cirílico mais usada, escolhi a russa, quase toda também compartilhada com o búlgaro, e preferi não fazer menções a outros cirílicos, pois misturar idiomas é horrível. Exceto por casos extremos, também não acho necessário empregar letras de cirílicos não eslavos, sobretudo da Ásia Central. Criei o “sistema” de forma que mais nada sobre a língua pudesse ser conhecido, mas apenas se conhecessem as regras pra troca direta de letras.

Espero que quem lê esta publicação já tenha pelo menos um conhecimento básico do alfabeto cirílico russo, e de sua fonética básica, no limite, pois não vou ensinar nada aqui, embora a pronúncia cirílica seja deduzida pelas letras latinas equivalentes. Seguem a lista numerada, de acordo com o tipo de letra e a dificuldade, e alguns textos de exemplo:


1. Vogais simples: А а (A), Е е (E), И и (I), О о (O), У у (U). No começo das palavras e após outra vogal, “E e” deve ser transliterado Э э, e IE/JE deve ser transliterado Е е. Alguns exemplos com hiatos pra esclarecimento: poeta ou poëta = поэта; aer ou aër (ar) = аэр. Aqui, ao contrário do russo e assim como em várias línguas eslavas, é preciso reconhecer que as letras Е е e И и não palatizam automaticamente a consoante anterior, e por isso seu emprego em determinadas situações vai obrigar ao recurso a grafemas diferentes dos usados com as outras vogais.

2. A semivogal “i”: Quando está no começo de palavras (antes de uma vogal, obviamente) ou entre vogais e pode, portanto, ser escrita como um J conforme costume mais medieval, é transliterada em conjunto com a vogal seguinte: Я я (IA/JA), Е е (IE/JE), Ё ё (IO/JO), Ю ю (IU/JU).

Quando está após uma consoante e antes de uma vogal, é de preferência transliterado da mesma forma acima, mas se adiciona um И и pra que o caráter semivocálico seja mais marcado: ИЯ ия, ИЕ ие, ИЁ иё, ИЮ ию. Não seria errado colocar essas “vogais brandas” diretamente após a consoante, ou colocar entre elas o “sinal brando” (Ь ь) pra ressaltar a ditonguização. Porém, em ambos os casos, teríamos que admitir, mais do que com a inserção do И, uma “palatização” das consoantes estranha ao latim.

Outra possibilidade pra separar o ditongo da consoante seria o uso do “sinal duro” russo (Ъ ъ) entre as duas letras. Porém, embora nesse caso a consoante inevitavelmente permaneça dura, seu uso é limitado mesmo em russo (prefixos + raízes e umas poucas palavras estrangeiras), por isso seu aparecimento constante tornaria o texto pouco estético. Portanto, a solução de inserir um И entre uma consoante e um ditongo iniciado com “i” parece mais aceitável.

É importante destacar que em russo e belarusso, salvo raríssimas exceções, a letra Ё ё sempre está na sílaba tônica, o que não necessariamente vai acontecer em minha transliteração do latim. Aqui, a sílaba tônica deve seguir as regras dessa língua, portanto, o Ё ё não vai ser necessariamente tônico. Além disso, o uso dos dois pontos sobre a letra é opcional em russo, mas não poderia ser em latim, assim como também é obrigatório em belarusso e tajique.

3. Os “ditongos” Æ (AE) e Œ (OE): Provavelmente pra economia de espaço na era medieval, diante de sua alta frequência, os ditongos latinos AE e OE, cuja pronúncia clássica equivalia ao AI e OI gregos, ou seja, “ái” e “ói”, foram fundidas naquelas ligaturas, ou seja, não consistem em letras separadas do alfabeto. Ao evoluírem pras línguas românicas, passaram a ter a pronúncia (e, portanto, a ortografia) “E e”, igualmente refletida no latim eclesiástico (geralmente “é” em sílaba tônica e “ê” em sílaba átona), assim como em decalques eruditos da Renascença, quando adquiriram a pronúncia “i” em inglês. Eu não seria contra transcrevê-los Э э (início de palavra ou após vogal: Mariæ, “de Maria” ou “a/pra Maria” = Мариэ) ou Е е (outros casos), mas não é minha primeira escolha.

Eu prefiro utilizar os ditongos АЙ ай e ОЙ ой em cirílico, porque praticamente não existem AI e OI com que possam ser confundidos (de fato, AE/Æ e OE/Œ passaram a ser sua ortografia padrão) e porque podem agradar igualmente aos classicistas que preferem as pronúncias “ái” e “ói” (ou “áe” e “óe” com o E um pouco semivocálico). No caso do latim eclesiástico, a vantagem maior é da associação gráfica, já que o uso do Е е poderia levar a confusões, restando fazer a convenção de que АЙ e ОЙ, apesar das ortografias, devem ser pronunciados como um E.

4. Duração vocálica: Assim como nos textos eclesiásticos, a duração vocálica do latim clássico não é marcada, pois isso não traz grandes prejuízos pro significado, exceto por algumas formas gramaticais que podem ser quase sempre deduzidas pelo contexto. Caso clássico é o da palavra rosa, que tem o A curto no nominativo singular e o A longo (“rosā”) no ablativo singular (“pela rosa”, “com a rosa”, “por meio da rosa”). Em cirílico, portanto, uma vogal dobrada indica exatamente uma vogal dobrada, e não uma vogal longa: tuus (teu) = туус, filiis (aos/pros filhos, às/pras filhas) = филиис.

5. A letra agá (H): No latim clássico e pós-clássico, ela representava uma aspiração que talvez já estivesse perdida na fala comum, por isso não tem uma representação própria quando aparece no começo das palavras: homo (homem, ser humano) = омо, habitus (hábito, disposição, aparência e vários outros sentidos) = абитус, hebræus (hebreu, judeu) = эбрайус, huius (deste/a, disto) = уюс.

Atenção: no caso de hebræus, não podemos transliterar como эбраюс, porque o ditongo Æ (portanto, também a combinação АЙ) é passível de ser lido como um E simples. Dessa forma, o uso compulsório de um Ю quebraria a possibilidade de dupla leitura e só seria aceitável se realmente tivéssemos um AIU/AJU no original (majus, mês de maio = маюс).

O ocasional aparecimento de um H (geralmente mudo) entre vogais também não é transcrito, assim como sua ocorrência após consoantes que não sejam nas seguintes combinações, geralmente criadas pra transcrever consoantes de origem grega originalmente aspiradas. Aqui, como se nota, preferi levar em conta a pronúncia pós-clássica ou medieval/moderna: CH (som K) = К к, PH (som F) = Ф ф, RH (H mudo) = Р р, TH (H mudo) = Т т. Num punhado de palavras do latim eclesiástico, como mihi (me, mim) e nihil (nada), o H geralmente soa K, portanto, poderíamos transliterá-las мики e никил, mas мии e ниил também seria aceitável.

6. A vogal de origem grega Y: Geralmente transcrevia palavras gregas com Υ υ, que na pronúncia clássica soava como os modernos U francês “com biquinho” e o Ü alemão, e voltou como uma praga em palavras modernas durante a Renascença e a reabilitação do latim e grego clássicos. Porém, na era pós-clássica, senão antes, já tinha ocorrido sua deslabialização, ou seja, a pronúncia como “i”. Então, nada mais natural do que assim a transcrever: hybrida (híbrido, pessoa mestiça) = ибрида. De fato, seguindo alguns velhos dicionários, o Wiktionary também menciona uma forma alternativa hibrida que justifica minha escolha.

7. Consoantes simples (finalmente!): Б б (B b), Д д (D d), Ф ф (F f), Л л (L l), М м (M m), Н н (N n), П п (P p), Р р (R r), Т т (T t), В в (V v), КС кс (X x). Essas consoantes não têm nenhuma ambiguidade, e em caso de geminação, obviamente elas aparecem dobradas.

8. Pronúncia do V semivocálico: Os adeptos da pronúncia “reconstituída” que tentam ao máximo se ater ao latim clássico do século 1 AEC costumam usar apenas a letra V em forma maiúscula e a letra “u” em forma minúscula, ambas correspondendo ao “U u” tanto vocálico quanto semivocálico. Eles evitam o U maiúsculo e o “v” minúsculo, pois na era clássica, que só conhecia maiúsculas, só existia V, e as duas formas mencionadas foram criadas na era medieval, quando o U semivocálico começou a adquirir a pronúncia do V (como em português) no início da palavra ou entre vogais.

Aqui não há dúvidas: o tal “u” semivocálico transformado em V vai ser sempre transliterado В в, cabendo a pronúncia e grafia У у apenas após vogal e antes de consoante: taurus (bolsonarista) = таурус, Europa (a deusa ou o continente Europa) = Эуропа (só seria Еуропа no caso de um “Ieuropa/Jeuropa”), prout (de acordo com, exatamente como) = проут (aqui o U pode ser vocálico ou semivocálico, o que não faz diferença).

9. Letra C no latim eclesiástico: Antes de A, O ou U, é transliterada К к, mas antes de E, I, Y, Æ e Œ, conforme a pronúncia romana (“tch”), é transliterada Ч ч: centrum (centro) = чентрум, civis (cidadão) = чивис, cœlum (céu) = челум, amicæ (amigas) = амичай. Os aficionados por Quíquero Cícero podem transliterar sempre como К к, mas as outras escolhas do latim reconstituído devem ser coerentes. Como a letra K quase não aparece, teria a mesma transliteração: kalendæ (calendas, primeiro dia do mês) = календай.

10. Letra G no latim eclesiástico: Antes de A, O ou U, é transliterada Г г, mas antes de E, I, Y, Æ e Œ, conforme a pronúncia romana (“dj”), é transliterada ДЖ дж: genu (joelho ou cotovelo) = джену, magister (mestre, professor) = маджистер. Atenção à pronúncia bem colada desse “dê” e “jê”, exatamente como em ucraniano e belarusso, e não separada, como costuma ocorrer em russo (em que esse encontro não é nativo à língua) ou no português “adjetivo”, “Djalma” (“dij...”) etc. Os classicistas podem transliterar sempre como Г г, ou seja, “guê” sempre “duro”.

Sobre o encontro GN, ele costuma ser pronunciado como o NH do português na pronúncia eclesiástica, o que podíamos reproduzir, antes de outras vogais, pelo mero uso da letra Н н seguida das vogais “brandas” (НЯ, НЁ, НЮ, bem como НЬИ e НЬЕ, que seriam mais naturais em russo caso não quiséssemos confundir com o NI e NE latinos). Mas pra agradar aos classicistas e evitar confusões, eu não seria contra manter como ГН гн mesmo, apenas devendo ser pronunciado “gn” na reconstituída e “nh” na clássica. Exemplos: ignis (fogo) = игнис, magnus (grande, magno) = магнус (ou porventura иньис, манюс). GNI antes de vogal deveria se tornar ГНИ ou НЬИ (+ vogal branda): insignia (emblemas, brasões, insígnias) = инсигния ou инсинья.

11. Letra J de origem medieval: Como dito no item 2 sobre o “i” semivocálico, o J só aparece em textos medievais e em alguns didáticos de meados do século 20 pra representar aquele “i” entre vogais e no início da palavra, antes de uma vogal. Por vezes é intercambiável com “i” na ortografia, portanto não vou repetir aqui.

A letra Ж ж, que em cirílico representa o som do J pronunciado à francesa ou portuguesa, não tem serventia sozinha, e dado que o som do J não é como em português, não pode ser transliterado por Ж. Nos casos em que o “i” aparece no fim da palavra e após uma vogal, por consequência das declinações, não se trata de uma semivogal, portanto, a transliteração correta é И и: Dei (de Deus) = Деи, tui (teus) = туи.

12. A combinação QU: Em latim, assim como em italiano moderno, a letra Q só é usada em combinação com U pra fazer o ditongo que soa como o QU de “aquático” em português. Em latim e italiano, QUE e QUI sempre soam como se tivessem trema em nossa ortografia antiga (QÜE e QÜI), ou seja, com U semivocálico. A ortografia КУ ку em cirílico pode ser confundida com um CU (rs) em que o U não é semivocálico, mesmo antes de vogal, e por razões lógicas não existe nenhum equivalente exato ao Q em nenhuma versão daquele alfabeto.

Por isso, seria interessante adotar a transliteração КВ кв, convencionando que a pronúncia preferencial é “kw”, e não “kv”, por duas razões principais. Primeira, a combinação sonora “kv” não existe em latim, portanto, não daria margem a confusão. E segunda, não só o QU latino evoluiu pra KV em várias línguas eslavas (e o eslavo Zamenhof fez a mesma coisa em várias palavras do esperanto), mas também os falantes de alemão e de línguas nórdicas, mesmo em palavras emprestadas, costumam pronunciar o QU como KV. Exemplos: quattuor (quatro) = кваттуор, loqui (falar) = локви, quæro (procuro, busco por, pergunto, peço etc.) = квайро, Quintus (nome de homem) = Квинтус.

13. Letra S no latim eclesiástico: No latim clássico, talvez não houvesse o som sonoro do S intervocálico como no português “rosa”, por isso ele era pronunciado como em “sapato”, e da mesma forma, mas longo, quando geminado (esse, ser). Em italiano, onde em alguns dialetos, como o toscano, ocorre a mesma coisa, o SS costuma ser pronunciado como um S longo mesmo na língua padrão, mas entre vogais, o som é igual ao do português (ou seja, o Z de “zebra”).

Seguindo a pronúncia romana, podemos transliterar o S inicial ou final, e o SS, como С с (ou SS como СС сс pra evitar possíveis confusões), e o S intervocálico (“z”) como З з: sutor (sapateiro) = сутор, possum (eu posso) = пос(с)ум, fortis (forte) = фортис. Os classicistas poderiam se sentir livres pra usar С с sempre que houvesse um S simples, um СС сс na ocasião de um SS e simplesmente dispensar o З з.

Já antecipando a letra Z, ela igualmente só servia pra transcrever palavras gregas, nas quais soava “dz”, como nessa língua (a pronúncia “z” do zeta moderno é recente), por isso, acho impreciso usar a letra З з. Em prol da exatidão, eu usaria a combinação ДЗ дз, que é pronunciada numa só emissão, como em ucraniano e belarusso (mas não necessariamente em russo).

14. A combinação eclesiástica SC: Naturalmente, numa pronúncia e transliteração “reconstituídas”, poderia ser sempre tornada СК ск, mesmo antes dos sons “e” e “i”. Porém, na pronúncia eclesiástica, assim como em italiano, ela soa como o CH português antes dos mesmos sons, o que permite, nesses casos, a transliteração de SC como Ш ш. Exemplos: scire (conhecer, saber) = шире, scæna (cena, palco, teatro etc.) = шайна (há a versão alternativa scena, шена), scio (eu sei) = шиё (“io” é hiato).

15. O conjunto TI antes de vogais: No latim clássico, a pronúncia do T é inequívoca, mas no eclesiástico, existe uma tendência de pronunciar o conjunto TI como “tsi” (“i” semivocálico) antes de vogal, exceto se esse próprio “i” for tônico (formando um hiato, portanto) e se esse TI vier após S, X ou outro T, quando mantém o som T original. Nesse caso, o conjunto TI pode ser transliterado ЦИ ци: gratia (graça) = грация, patientia (paciência) = пациенция, nuntius (mensagem, enviado, notícia, ordem) = нунциюс. Compare: ostium (porta, entrada) = остиюм.

16. A combinação eclesiástica XC: Antes das vogais que soam como “e” e “i”, sua pronúncia romana é “kch” (K + CH), portanto, correspondente à transliteração КШ кш: excelsus (elevado, sublime, excelente) = экшелсус. Em outros casos, a pronúncia “ksk” equivale à transliteração КСК: exclamare (exclamar, gritar, berrar, anunciar) = экскламаре.

17. Letras inúteis nos dois alfabetos: Na língua latina, apenas a letra W não aparece em nenhum momento antes da Idade Moderna, pois é uma invenção germânica usada pra transcrever as línguas desses povos. No alfabeto cirílico (russo, lembremos), ficamos sem usar o Х х (som gutural inexistente em latim, mas pode transliterar CH; ver abaixo), o Щ щ, o Ъ ъ (salvo no caso excepcional mencionado acima) e o Ы ы. O sinal brando Ь ь tem um uso bastante limitado, como se viu ao longo do texto.

18. Diferenças em relação ao russo: Deve-se lembrar que, apesar do uso ostensivo do cirílico russo, algumas peculiaridades da pronúncia dessa língua, que não se reproduzem em outras línguas eslavas, também não são esperadas em latim: a pronúncia do И и como a vogal gutural Ы ы após certas letras, o enfraquecimento das vogais А а, Е е e О о (que se pronuncia como a primeira) em sílabas átonas e a pronúncia tensa e retroflexa de Ж ж e Ш ш.


Não era minha pretensão inicial fazer uma tabela resumindo minhas escolhas, mas como o texto ficou bastante longo, seguem as orientações pra que possam ser aplicadas imediatamente, sem a adição de possíveis soluções alternativas:

A, O, U = А, О, УJA, JE, JO, JU (ou IA, IE, IO e IU no início de palavra ou após vogal) = Я, Е, Ё, Ю
AE/Æ e OE/Œ = АЙ e ОЙ; AË e OË separados como hiato = АЭ e ОЭK, L, M, N, P = К, Л, М, Н, П
E = Е (após consoante), Э (no início de palavra ou após vogal)QU = КВ
B = БR = Р
C = Ч (antes de E, I, Y, Æ e Œ), К (antes de outras vogais e em outras posições)S = С (no início ou fim de palavra, antes ou depois de consoantes ou como SS), З (entre vogais)
CH = КT = Т; TI antes de vogal, não antecedido de S, T ou X e com “i” átono = ЦИ (A, O e U seguintes se transliteram Я, Ё, Ю)
D, F = Д, ФV = В
G = ДЖ (antes de E, I, Y, Æ e Œ), Г (antes de outras vogais e em outras posições)X = КС
GN = geralmente ГН, mas é possível também: GNA, GNE, GNI, GNO, GNU = НЯ, НЬЕ, НЬИ, НЁ, НЮ; GNIA, GNIO, GNIU = НЬЯ, НЬЁ, НЬЮXC = КШ (antes de E, I, Y, Æ e Œ), КСК (em outros casos)
H = não se transcreve, mesmo com TH, RH (Т, Р); exceto CH = sempre К, PH = Ф e em mihi, nihil = мики, никилZ = ДЗ
I, Y = И (vocálico i.e. entre consoantes e no início ou fim de palavra); IA, IE, IO, IU (após consoante) = ИЯ, ИЕ, ИЁ, ИЮ 


O essencial acaba aqui. Admitida a possibilidade de usar caracteres do alfabeto cirílico adaptados pra outros idiomas eslavos e não eslavos, podemos usar as seguintes soluções, de modo emergencial ou muito alternativo. Só em última hipótese, caso se queira realmente manter a equivalência “um som, uma letra cirílica” ou “um símbolo latino, uma letra cirílica”. Não gosto de misturar caracteres de línguas diferentes, pois não somente obrigaria à constante troca de teclado, mas também é algo esteticamente desagradável e linguisticamente errado. Seguem os itens, caso seja do interesse de alguém!

1. Os ditongos Æ e Œ: Obviamente, a opção apresentada é muito mais adequada pra quem segue a pronúncia “reconstituída”, mas pra quem insiste num grafismo diferente pra pronúncia eclesiástica, sugiro respectivamente as letras tártaras Ә ә e Ө ө. Em algumas línguas europeias modernas, bem como no Alfabeto Fonético Internacional (IPA), as ligaturas foram exatamente associadas aos sons que aquelas letras têm no tártaro: como o “a” do inglês hat e o “eu” do francês jeu (no IPA, na verdade, é aberto como no francês jeune).

Em todo caso, pra representar o latim, esse grafismo deve ser “convencionado”, ou seja, como as citadas vogais nunca existiram em latim (pelo menos como fonemas distintivos), deve-se ter em mente que Ә ә é a representação do Æ e Ө ө é a representação do Œ, ambos com o som “ê” ou “é”, e não como em tártaro.

2. O dígrafo CH: Como vimos, ele serve basicamente pra transliterar o K aspirado grego, cuja letra idêntica em forma a nosso X moderno atualmente soa como nosso RR gutural, mas mais escarrado, praticamente como o J espanhol padrão. Nas línguas ocidentais, o CH passou a soar como um K normal, mas em algumas línguas, sobretudo as eslavas, evoluiu pro mesmo som (ou semelhante) ao grego, como é o caso do russo, que pra representar esse som usa a letra Х х.

Também aqui temos uma convenção gráfica pra quem deseja realmente diferenciar na escrita o C/K do CH, já que essencialmente ambos têm o mesmo som no latim “eclesiástico”, e já que na pronúncia “reconstituída” ele não soa nem como o “qui” grego, nem como o Х х cirílico.

3. ДЖ дж e ГН гн/НЬ нь cirílicos: Equivalem respectivamente ao G antes dos sons “e” e “i” (portanto, pronunciado “dj”) e ao GN com som de “nh”. Pra ambos, podemos usar as respectivas letras sérvias e macedônias Џ џ e Њ њ, permitindo-se ainda o uso, depois da segunda, de Я я, Ё ё e Ю ю pra representar os respectivos grafemas, IA, IO e IU.

4. Pronúncia aspirada do H: Caso você queira uma letra separada pro H, pronunciando-o ou não de forma aspirada como em inglês, sugiro o uso da letra Һ һ do tártaro (a minúscula é idêntica à nossa) ou do Ҳ ҳ do tajique, que é o mesmo sinal do CH, mas com um “rabinho” ou “perninha” (como queira!) à direita. Pros classicistas mais fanáticos, não recomendo seu uso diante de consoantes aspiradas, sobretudo por razões estéticas, mas não há nada que objetivamente possa o impedir.

5. A vogal Y de origem grega: Se você quiser pronunciar o Y como em grego clássico, ou seja, como o Ü alemão ou o U francês com “biquinho”, sugiro a letra Ү ү, também do tártaro (como língua túrquica, ela tem os mesmos sons Ö e Ü do turco, além de um Ä, como visto acima, que na Anatólia despareceu como fonema distintivo). Você não enxergou errado: na forma minúscula, a “perna” inferior também é vertical, e não inclinada, como no У у (U) russo, que também a inclina na maiúscula. Se for usar, preste atenção nesse traço minucioso! Atenção: não use Ы ы à guisa do Y latino, pois o som da letra russa nada tem a ver com a pronúncia grega ou latina.

6. A semivogal “i”: Se você quiser usar uma letra separada pro som do “i” semivocálico, e não uma letra combinada, como ocorre com IA, IO e IU, use o Ј ј do sérvio e do macedônio, e não o Й й de outras línguas eslavas, quase sempre reservado pro fim de sílaba, salvo em casos raríssimos. Ele permite manter o som “e” da letra Е е em qualquer ocasião e dispensa o uso do Э э após vogais ou no começo de palavra, e permite também que você possa escrever sempre ИА, ИО, ИУ no lugar de ИЯ, ИЁ, ИЮ.

Se quiser ir ainda mais longe, use o Ў ў belarusso pra representar o U da combinação QU, que é sempre semivocálico. Eu não recomendo, pois essa letra quase só se restringe ao belarusso e só se usa em fim de sílaba, geralmente como equivalente etimológico de um L ou V final, e não como uma abertura “crescente” de sílaba.

7. A letra Z com som “dz”: Por ser raro, o Z soa “dz” tanto na pronúncia “reconstituída” quanto na “eclesiástica”, e embora possa ser representado por duas letras em cirílico (D + Z), existe também a letra macedônia Ѕ ѕ (apesar da equivalência com a forma de nosso S, não as confunda na digitação, pois têm sentidos diferentes!), cuja pronúncia une estritamente os dois sons. Essa letra foi exumada do cirílico antigo, usado pra escrever o eslavônio (eclesiástico), e hoje só se usa na língua macedônia. Portanto, meu objetivo ao sugeri-la foi apenas manter a equivalência letra-letra ou letra-som, e seu emprego não é lá muito prático.

8 (last but not least). Não confunda as bolas! A adoção das sete opções sugeridas acima, que não recomendo numa hipotética aplicação sistemática do alfabeto cirílico a textos latinos, deve ser uniforme, feita em conjunto e no lugar das respectivas alternativas da lista principal. Isso porque é muito mais fácil você manter um só teclado (o russo, nesse caso) e ir digitando fluentemente do que ficar trocando toda hora, mesmo que isso seja possível no celular, e em grau menor no computador.

Portanto, se decidiu escrever o H, escolha o Һ һ tártaro ou o Ҳ ҳ tajique, não misture os dois no mesmo texto! Se optou uma vez por transliterar o Z como ДЗ дз, não use o Ѕ ѕ macedônio no resto! E se decidiu transformar o GN em ГН гн, mesmo que a pronúncia seja “nh”, não meta um НЬ нь em parte alguma! Parece uma recomendação chata pra uma atividade que só teria valor, no máximo, numa fanfic, mas acredite, cirílicos de várias línguas misturados no mesmo texto são tão incompreensíveis e feios que não são aceitos sequer em projetos de idiomas auxiliares intereslavos. Ofendem tanto a falantes nativos, eslavo ou não, quanto a especialistas.


E como não podia deixar de ser, seguem alguns exemplos de texto, escolhidos aleatoriamente, os quais optei por transliterar pelas sugestões da tabela resumida, restrita apenas ao cirílico russo, pronúncia “eclesiástica”. O que não foi aleatório foram os períodos: um texto “clássico”, um texto eclesiástico medieval e um texto sobre um tema recente, supostamente escrito por um cidadão da atualidade. Vou apenas dar os nomes e as fontes dos textos, mas deixo a você o “agradável” exercício de transliterar e, se desejar, ler em voz alta sem usar o original em latim, rs:

Caio Júlio César, De Bello Gallico [Де Белло Галлико] (Comentários sobre a Guerra da Gália):
Галлия эст омнис дивиза ин партес трес, кварум унам инколунт Белджай, алиям Аквитани, терциям кви ипсорум лингва Челтай, ностра Галли аппеллантур. И омнес лингва, институтис, леджибус интер се дифферунт. Галлос аб Аквитанис Гарунна флумен, а Белджис Матрона эт Секвана дивидит. Орум омниюм фортиссими сунт Белджай, проптереа квод а култу аткве уманитате провинчиай лонгиссиме абсунт минимекве ад эос меркаторес сайпе коммеант аткве эа, квай ад эффеминандос анимос пертинент, импортант проксимикве сунт Джерманис, кви транс Ренум инколунт, квибускум континентер беллум джерунт. Ква де кауза Элвеции квокве реликвос Галлос виртуте прайчедунт, квод фере котидианис пройлиис кум Джерманис контендунт, кум аут суис финибус эос проибент аут ипси ин эорум финибус беллум джерунт. Эорум уна парс, квам Галлос обтинере диктум эст, инициюм капит а флумине Родано, континетур Гарунна флумине, Очеано, финибус Белгарум, аттингит эциям аб Секванис эт Элвециис флумен Ренум, верджит аб септентриёнес.

O Credo de Niceia, ou Symbolum Nicænum (Constantinopolitanum) [Симболум Ничайнум (Константинополитанум)]:
Кредо ин унум Деум, Патрем омнипотентем, факторем чайли эт террай, визибилиюм омниюм эт инвизибилиюм. Эт ин унум Доминум, Езум Кристум, Филиюм Деи унидженитум, эт экс Патре натум анте омния сайкула. Деум де Део, лумен де лумине, Деум верум де Део веро, дженитум, нон фактум, консубстанциялем Патри: пер квем омния факта сунт. Кви проптер нос оминес эт проптер нострам салутем дешендит де чайлис. Эт инкарнатус эст де Спириту Санкто экс Мария вирджине, эт омо фактус эст. Кручификсус эциям про нобис суб Понциё Пилато; пассус эт сепултус эст, эт ресуррексит терция дие, секундум Скриптурас, эт ашендит ин чайлум, седет ад декстерам Патрис. Эт итерум вентурус эст кум глория, юдикаре вивос эт мортуос, куюс регни нон эрит финис. Эт ин Спиритум Санктум, Доминум эт вивификантем: кви экс Патре Филиёкве прочедит. Кви кум Патре эт Филиё симул адоратур эт конглорификатур: кви локутус эст пер профетас. Эт унам, санктам, католикам эт апостоликам Экклезиям. Конфитеор унум баптисма ин ремиссиёнем пеккаторум. Эт эксспекто ресуррекциёнем мортуорум, эт витам вентури сайкули. Амен.

“Antisemitismus” [Антисемитисмус] (início do verbete “Antissemitismo” na Wikipédia em latim):
Антисемитисмус рациё эт коджитанди эт адженди эорум эст, кви популо Юдайорум эт релиджиёни Мозаичай тоти сине улла дистинкциёне оминум сингулорум инфенси сунт. Антисемитисми черта индичия сунт: а) сиквис Юдайос вулту, спечие, морибус интер се симилес ессе аффирмат, б) сиквис Юдайос омнес дивитес авароскве эксистимат, в) сиквис Юдайос ин доминациёнем тотиюс [totíus] мунди конспирассе опинатур. Юдайос одиё кводам инветерато мулти персекути сунт оминес, кво коммоверентур, ут контумелиис эос аффичерент, инсидияс эис парарент, эос оппримерент эт ин тумулту эциям окчидерент. Квас иниюрияс Юдайи темпорибус антиквис, кум ин Палайстина седес аберент, эт медиё квод дичитур айво пер Еуропам дисперси перпесси сунт.



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