Nestes trechos que tirei de um telejornal exibido no útlimo 28 de setembro, já aprecem alguns primeiros rastros de destruição militar, dos dois lados, após começarem novos conflitos armados entre a Armênia e o Azerbaijão, dois pequenos países do sul do Cáucaso, antigas repúblicas da URSS. Esta variante dialetal da língua armênia, especificamente, é a chamada “ocidental”, a língua da diáspora, ao contrário da “oriental”, oficial na Armênia moderna, com ortografia reformada e cheia de empréstimos do russo.
O conflito tem como foco a região chamada pelos armênios de Artsakh, também conhecida pelo nome russo Nagorno-Karabakh, um enclave no meio do Azerbaijão que tem maioria étnica armênia e praticamente se autogoverna com a ajuda do irmão vizinho. Esse traçado geopolítico não resolvido culminou numa guerra no início dos anos 90 que deixou mais de 30 mil mortos e desalojou mais de um milhão de pessoas. Por vários anos têm sido conduzidas conversas e mantido um cessar-fogo, mas desde 2016 os separatistas têm ficado mais reativos, e o governo azerbaijano mais repressivo.
A Armênia, de religião cristã e conduzida pelo primeiro-ministro Nikol Pashinyan, e o Azerbaijão, de credo muçulmano e dirigido pelo presidente Ilham Aliyev, estão praticamente em confronto aberto, revivendo feridas ardentes desde a década de 1920, quando a Turquia tentou exterminar o povo armênio e provocou sua diáspora pelo mundo. Os azerbaijanos (que não gostam do nome “azeri”) são incondicionalmente apoiados pela Turquia, cuja língua é quase igual à sua, e acusados pela Armênia de receber jihadistas islâmicos que estavam lutando no norte da Síria e lançá-los contra o Artsakh.
A guerra iniciada no último domingo já fez dezenas de mortos civis e militares, mas está só começando e não sabemos quando/se vai acabar. A Armênia decretou estado de guerra e convocou seus reservistas homens. A Europa acusou esses dias o presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, de conduzir uma diplomacia excessivamente agressiva. O líder conservador islâmico, além de tornar novamente o museu de Santa Sofia uma mesquita e ocupar o norte da Síria pra perseguir os separatistas curdos, também está envolvido em disputas por campos marítimos de petróleo e gás com o Chipre e a Grécia, esta quase atraindo sua ira militar. A Rússia historicamente apoia os armênios cristãos desde as guerras do tsarismo contra o Império Otomano, mas Vladimir Putin também nunca teve problemas com o autoritário Aliyev. E isso, infelizmente, no meio da pandemia de covid-19. A palavra que aparece na tela, goyamart (գոյամարտ), notavelmente significa “luta pela vida” ou “luta pela sobrevivência”:
Momento em que um correspondente do canal independente Dozhd (ou TV Rain), que ainda funcionava na Rússia antes de exilar seu estúdio durante a invasão da Ucrânia, quase foi atingido por um bombardeio na cidade de Martuni, enquanto cobria o conflito no Artsakh, em 1.º de outubro de 2020.
Atualização: Este link contém o vídeo completo da parada militar realizada pelo ditador do Azerbaijão, Ilham Aliyev, na companhia de seu aliado e convidado de honra, o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, no dia 10 de dezembro de 2020 na capital azerbaijana, Baku. Os dois países comemoravam o que consideravam ser a vitória na guerra contra a Armênia pelo controle da região do Artsakh (ou Nagorno-Karabakh), enclave de maioria armênia dentro do Azerbaijão com governo e exército próprios. Aliyev acusou o primeiro-ministro armênio Nikol Pashinyan de iniciar uma provocação militar pra tentar controlar a região, mas o Ocidente considera a ofensiva azerbaijana uma guerra por procuração instigada por Erdoğan com fins de autopromoção regional. Foi o maior desfile do país banhado pelo mar Cáspio desde sua independência da antiga União Soviética, em 1991.
A Armênia entrou com tropas no Artsakh pra supostamente defender os compatriotas, mas o Azerbaijão respondeu ao ataque, com a ajuda da Turquia, o parceiro poderoso de Baku (ambos os países são muçulmanos e de cultura túrquica). Não se sabe ao certo por que Pashinyan aceitou a aventura, sendo que seu poderio bélico era muito inferior, mas diz-se que ele esperava o apoio da Rússia, historicamente ligada aos armênios cristãos. Porém, esse apoio não chegou (nem mesmo da vizinha Geórgia), e Yerevan se viu sozinha enfrentando a Turquia, Azerbaijão e militantes islâmicos saídos da Síria pra combater no Artsakh. Pashinyan e Aliyev terminaram assinando um cessar-fogo intermediado pela Rússia, que mandou seu exército patrulhar na região o cumprimento do acordo e evitar, por exemplo, matanças étnicas em massa. Boa parte da população armênia do Artsakh tinha justamente fugido dos combates e do perigo de extermínio, lembrando-se do genocídio cometido pelo Império Otomano durante a 1.ª Guerra Mundial.
Recep Erdoğan, em seu braço-de-ferro geopolítico com a União Europeia, os colegas da OTAN e os EUA, acabou por enquanto ganhando esta etapa. Washington não deu um pio sequer, Moscou se viu impotente diante do fato consumado (mesmo que tenha tomado a dianteira nas negociações) e os europeus estavam retidos pela crise da pandemia. Enquanto o Azerbaijão comemora, a Armênia está vivendo uma crise política, chorando seus mortos e com exigências de renúncia do premiê Pashinyan. Estas são as melhores imagens que selecionei da parada inteira, até porque boa parte é repetição, e os discursos dos presidentes (cujas línguas são mutuamente inteligíveis) ocupam metade do vídeo. Notemos que o ar é de grandiloquência, embora um quarto do território do Artsakh ainda esteja sob controle armênio, e que o estilo do desfile ainda é muito calcado nos antigos soviéticos. Militares turcos também participaram.