sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Tusk e Macron falando romeno (2025)


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Mais um conteúdo inusitado que, traduzido, você só encontra aqui! A celebração pública dos 34 anos da independência da República da Moldova, realizada em 27 de agosto na capital Chișinău (antes chamada à russa de “Kishiniov” ou “Kishinev”) contou com diversos shows musicais em sua primeira metade e com os discursos de Friedrich Merz (chanceler da Alemanha), Donald Tusk (premiê da Polônia), Emmanuel Macron (presidente da França) e Maia Sandu, presidente do país-hóspede. Pra surpresa geral, embora Tusk tenha saudado em inglês e Macron em francês, ambos leram breves discursos inteiros em romeno, que no caso do segundo, apesar da gentileza, beirou o insuportável!

Como “Rambozambo” discursou em inglês e só falou uma ou duas frases em romeno, nem selecionei os trechos. Curiosamente, embora o som da letra “ă” apareça em certas pronúncias do francês, Macron insistiu em quase sempre, exceto quando o transformava num simples “a”, o transformar em nosso “ê”, um som nada a ver. Atualmente, os três países citados foram o núcleo da proteção militar da União Europeia e da oposição à invasão da Ucrânia por Vladimir Putin. Ao mesmo tempo, Moscou considera a Moldova um “quintal natural” seu, por ter sido uma república soviética (a “Moldávia”) de 1945 a 1991, e faz de tudo pra impedir sua integração com o Ocidente. Nem o sequestro da famosa Transnístria, hoje em colapso econômico e que podia ter sido o próximo alvo caso Odesa fosse tomada, está parando o processo.

A transcrição do discurso de Tusk foi publicada pelos portais da TVR da Romênia e da Moldova. Porém, nessas transcrições há frases que não são faladas e que não sei de onde saíram, e ao mesmo tempo, elas não contêm uma frase final de Tusk que, por sua vez, saiu na versão deste portal. O discurso de Macron também foi transcrito pela TVR da Moldova, bem como pelo Digi24:


Boa noite, Moldova! Caros amigos, hoje vocês celebram sua independência – o dia em que escolheram a liberdade e a dignidade em vez do medo e dominação estrangeiros. E eu, enquanto polonês, entendo o que isso significa.

A Polônia também sofreu ocupação e ditadura. Também pagamos um alto preço por nossa liberdade. Mas aprendemos uma verdade: quando um povo é unido e corajoso, nenhum império pode o derrotar.

Vocês, moldovos, já demonstraram que têm esse poder. Há três décadas, vocês se levantaram pela liberdade, pela língua romena. Há três anos, vocês abriram suas casas pros refugiados ucranianos.

No ano passado, por meio do voto, vocês defenderam o caminho europeu. Vocês mostraram ao mundo que a Moldova vive de acordo com nossos valores comuns, os valores europeus: liberdade, democracia, solidariedade.

O futuro da Moldova está na União Europeia. A Europa é um projeto de paz, e a Moldova faz parte desse projeto. Vocês têm um caminho claro pela frente, e nós, poloneses, vamos estar a seu lado. Pra que cada moldovo viva em segurança, prosperidade e com a dignidade que merece.

Hoje, lhes digo enquanto bom amigo da República da Moldova: o que vocês conquistaram é um resultado impressionante de sua coragem e trabalho. Defendam isso com a mesma determinação e apoiando sua líder, que também é a líder de todos os europeus livres.

Parabéns, Moldova!


Bună seara, Moldova! Dragi prieteni, astăzi sărbătoriți independența voastră – ziua în care ați ales libertatea și demnitatea în locul fricii și al dominației străine. Și eu, ca polonez, înțeleg ce înseamnă asta.

Și Polonia a cunoscut ocupația și dictatura. Și noi am plătit un preț greu pentru libertatea noastră. Dar am învățat un adevăr: atunci când un popor este unit și curajos, niciun imperiu nu-l poate înfrânge.

Voi, moldovenii, ați arătat deja că aveți această putere. Trei decenii în urmă, v-ați ridicat pentru libertate, pentru limba română. Trei ani în urmă, ați deschis casele voastre refugiaților ucraineni.

Anul trecut, ați apărat, prin vot, calea europeană. Ați arătat lumii că Moldova trăiește după valorile noastre comune, valorile europene: libertate, democrație, solidaritate.

Viitorul Moldovei este în Uniunea Europeană. Europa este un proiect de pace, iar Moldova este parte din acest proiect. Aveți un drum clar în față, iar noi, polonezii, vă vom fi alături. Pentru ca fiecare moldovean să trăiască în siguranță, în prosperitate și cu demnitatea pe care o merită.

Astăzi vă spun ca un bun prieten al Republicii Moldova: ceea ce ați obținut este un rezultat impresionant al curajului și al muncii voastre. Apărați-l cu aceeași hotărâre și sprijinind-o pe lidera voastră, care este și lidera tuturor europenilor liberi.

La mulți ani, Moldova!


Trechos que não foram falados:

“Știu asta din experiența Poloniei: în doar două decenii în Uniunea Europeană am devenit o țară mai puternică, mai sigură și mai prosperă.” (Sei disso pela experiência da Polônia: em apenas duas décadas na União Europeia, nos tornamos um país mais forte, mais seguro e mais próspero.)

“Și același drum s-a deschis acum și pentru voi.” (E agora o mesmo caminho se abriu pra vocês.)

“Nu lăsați Rusia să se întoarcă aici. Nu risipiți ceea ce ați construit. Nu lăsați viitorul vostru să fie furat.” (Não deixem a Rússia voltar pra cá. Não estraguem o que vocês construíram. Não deixem que seu futuro seja roubado.)


Boa noite, Chișinău! Boa noite, caros amigos moldovos!

Estou muito feliz por estar aqui esta noite, com Friedrich Merz e Donald Tusk, ao lado de Maia Sandu e de todos vocês, juntos, pra celebrar o Dia Nacional da República da Moldova. Graças a vocês, esta noite, o coração da Europa bate mais forte do que nunca, em Chișinău! Vim lhes transmitir a mensagem de amizade do povo francês, que admira sua luta pela democracia e justiça!

A República da Moldova pode se orgulhar do caminho percorrido desde a independência e estar confiante em seu destino e futuro europeus: vocês já fazem parte da família europeia e podem contar com o apoio e respeito da Europa.

A Europa significa unidade na diversidade, respeito por todas as identidades e culturas. É um projeto de paz, uma parceria inédita e de solidariedade entre países iguais, a serviço de todos os cidadãos!

Amanhã, nossa União Europeia vai ser mais forte junto com a Moldova, e também a Moldova vai ser mais forte e próspera na Europa. Juntos, vamos escrever um novo capítulo na história da Moldova e da Europa.

Por essa razão, estamos hoje com vocês e a presidente Maia Sandu, que luta, desde o primeiro dia, com grande coragem, por uma Moldova independente, forte, democrática e ancorada na Europa!

Viva a República da Moldova! Viva a Europa! Viva a Moldova na Europa! Viva a Moldova independente! Viva a Europa unida!


Bună seara, Chișinău! Bună seara, dragi prieteni moldoveni!

Sunt foarte fericit să fiu în această seară, cu Friedrich Merz și Donald Tusk, alături de Maia Sandu și de voi toți, împreună, pentru a sărbători Ziua națională a Republicii Moldova. Datorită vouă, în această seară, inima Europei bate mai puternic ca niciodată, la Chișinău! Am venit să vă transmit mesajul de prietenie din partea poporului francez, care admiră lupta voastră pentru democrație și justiție!

Republica Moldova se poate mândri de drumul parcurs de la independență încoace și poate avea încredere în destinul și viitorul său european: faceți parte deja din familia europeană și puteți conta pe sprijinul și respectul Europei.

Europa înseamnă unitate în diversitate, respectul tuturor identităților și culturilor. Este un proiect de pace, un parteneriat inedit și de solidaritate între țări egale, în slujba tuturor cetățenilor!

Mâine, Uniunea noastră europeană va fi mai puternică împreună cu Moldova, iar Moldova va fi și ea, în Europa, mai puternică și mai prosperă. Împreună, vom scrie un nou capitol din istoria Moldovei și a Europei.

Din acest motiv suntem astăzi alături de voi și alături de președinta Maia Sandu care luptă, din prima zi, cu mult curaj, pentru o Moldovă independentă, puternică, democratică și ancorată în Europa!

Trăiască Republica Moldova! Trăiască Europa! Trăiască Moldova în Europa! Trăiască Moldova independentă! Trăiască Europa unită!



quarta-feira, 27 de agosto de 2025

34 anos da Ucrânia (Rio de Janeiro)


Endereço curto: fishuk.cc/ucrania2025

No último domingo, 24 de agosto, foi feita manifestação no bairro carioca de Copacabana em comemoração aos 34 anos da independência da Ucrânia e a favor da resistência contra a invasão de Putin. Meu amigo Claudio, que vive no interior do Paraná e defendeu em março sua tese de doutorado na UFRJ sobre a identidade dos ucranianos no Brasil, é um grande militante da causa e me enviou as fotos e vídeos abaixo dos arredores do Copacabana Palace. Sim, o braço com a bandeira é dele, rs. Selecionei as melhores versões e evitei algumas fotos com conteúdo repetido ou não muito relevante. Espero que você goste, e SLAVA UKRAINI:





























segunda-feira, 25 de agosto de 2025

A bomba atômica artística de Bush


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Eu estava procurando uma simples cópia do retrato oficial da primeira presidência de Vladimir Putin pra fazer uma correção na página, quando me deparo com este troço. Sim, a vítima retratada é facilmente identificável, mesmo após passar uma temporada num balneário em Chornobyl. Mas o contexto não é tão simples assim, e se pra mim foi uma descoberta interessante, pra você não sei, caso já soubesse dessa curiosa “habilidade”.

George W. Bush, membro do Partido Republicano dos EUA (mas saudavelmente afastado de Trump) e, por dois mandatos (2001-2009), um dos piores presidentes que o país já teve, parece ter começado uma carreira de artista plástico amador, depois de ter se retirado da política. Se julgarmos por suas redes sociais, algumas pinceladas em seu peculiar estilo contemporâneo não parecem tão intragáveis. Porém, após uma pesquisa mais demorada no Google, li alguns internautas comparando as obras a desenhos infantis ou de jovens com pouca habilidade.

Claro que a arte, sobretudo depois que nos aposentamos ou sofremos um grave problema de saúde, pode ser uma ótima terapia, como mostra o trabalho de minha amiga psicóloga Patrícia, de linha vygotskiana e cujo foco, não exclusivo, são as crianças. Mas se você der uma olhada melhor no referido perfil do Flickr (quem ainda usa isso?...) que indiquei, o conhecido vingador do Onze de Setembro e invasor do Afeganistão e do Iraque chegou a dedicar uma exposição inteira a vários chefes de Estado e de governo que ele conheceu pessoalmente, e o pior de tudo: pintados nesse mesmo estilo... na falta de um nome melhor, Cecilia Giménez. Se houve um, como teria ficado o do Lula?



O bizarro é que em meio a prováveis crises diplomáticas em potencial, a foto no Flickr, tirada por Grant Miller, traz a seguinte legenda (Google adaptado): “Trabalhei duro pra ter uma relação pessoal com Vladimir Putin, de modo que, quando discuto coisas com ele, posso encontrar pontos de acordo, mas também tenho uma relação que me permite, sem romper contatos, levantar pontos que preocupam.” (I’ve worked hard to have a personal relationship with Vladimir Putin so that when I discuss things with him, I can find areas of agreement – but I’ve also got a relationship such that I can bring up areas of concern without rupturing relations.)

Exceto pela estética, que ele talvez considerasse “arte degenerada”, poderia ser muito bem assinado pelo Laranjão sem tirar nem pôr uma vírgula, não?





Estranhamente, não é a primeira vez que um criminoso de guerra que levou seu país à crise, em algum momento de sua vida, revela dons artísticos não reconhecidos por todos. No caso do americano, foi bem depois de sua atuação pública e, ao que parece, não esteve entre as motivações de suas ações posteriores...



sábado, 23 de agosto de 2025

O falso anunciante “Allen Marvin”


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Na bela manhã de ontem, acordei com esta tentadora proposta de anúncio ou guestpost pago sugerida pra minha página. Inicialmente não estranhei, porque certa vez também recebi proposta parecida pra lançar conteúdo, mas cujo pagamento sequer achei necessário, por se tratar de assunto corriqueiro:


Após o espanto inicial, alguns poucos detalhes de fizeram desconfiar de que pudesse ser um golpe. Primeiro, as condições de “não dizer que era patrocinado” ou “só poder pagar por Paypal”; bem, sendo internacional, até entendo, mas se nosso Allen Marvin conhece português, por que não poderia ser outro meio de pagamento existente no Brasil?

allenmarvinlife@gmail.com também é um endereço que não levanta tantas suspeitas, pois tem o mesmo nome do remetente, ao contrário de outras fraudes em que o remetente (às vezes uma instituição) é um, mas o endereço é outro ou mesmo, como recebi outro dia pra outro tipo de golpe, uma simples combinação aleatória de letras e/ou números. Mesmo assim, o fato de haver esse “life” no final pode ter a finalidade de não vincular diretamente ao nome “original”, que em todo caso pode ser de outra pessoa, ou de tornar o rastreamento mais difícil; não faço ideia, não sou especialista.

Contudo, vejamos outra coisa que acho importantíssimo pra quem quer reconhecer golpes ou, em todo caso, pra estudiosos da linguagem em geral: o registro linguístico não corresponde exatamente ao de um falante nativo médio de português brasileiro, mesmo que gramaticalmente o texto não contenha erro algum. Isso mostra como a convivência com um idioma não ensina somente sobre fazer-se entender, mas também como formalmente as ideias são expressas (“modos de dizer”). Esse “robotismo” pode ocorrer com falantes não proficientes, mas por que um estrangeiro ia querer publicar aqui?

O brasileiro médio, infelizmente, não reconhece ou não repara em erros óbvios de gramática e/ou digitação quando cai em golpes virtuais, mas reconhecer linguagem incomum, convenhamos, já é outro level. Vamos a mais um item que quase me fez responder ao sujeito: afinal, o que ele queria me fazer publicar? Por que não apresentou parte de seu trabalho, sua profissão, a natureza do conteúdo etc.? A extrema vagueza também levantou suspeita.

Quando simplesmente já estava desanimado o suficiente pra “aceitar” a “proposta”, resolvi fazer o básico do básico: jogar o endereço eletrônico no Google, de preferência entre aspas, e ver o que acontecia. Qual não foi minha surpresa ao me deparar, primeiramente, com uma publicação em alemão falando de crimes virtuais, especificamente do tal Allen Marvin!

Pelo que verifiquei, a fraude tá operando pelo menos desde fins de 2024. Confesso que tô aprendendo alemão, mas ainda não leio tão bem, por isso recorri ao tradutor automático, e parte do resultado é o que você pode ver abaixo. Não me incomodei em ver se a tradução ficou pior que o próprio texto do golpista, mas acredito que o conteúdo manteve o essencial:










O mais surpreendente foi que também encontrei um comentário público num blog holandês sobre recreação, com um conteúdo quase idêntico (faltam alguns detalhes que apareceram no meu). O primeiro reclamante disse que recebeu a mensagem em alemão, enquanto aqui temos diretamente em holandês (que também traduzi com o Google).

Mais abaixo, outra versão neerlandesa apareceu num portal de jogatina, acrescida de uma cópia com outro endereço e nome. Mesmo não sabendo qual é a “verdadeira” nacionalidade de Allen Marvin, desta vez decidi não traduzir, pra que você possa apreciar a beleza do idioma.

Moral da história: não acredite em nada recebido de ou escrito por Allen Marvin. É, Allen, dessa vez não deu pra você, rs.




quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Ильин, любимый фашист Путина


Короткая ссылка: fishuk.cc/ivanilin


Я ознакомился с каналом «Маленькая страна», принадлежащим молдованину Дмитрию Горкалюку, когда я смотрел его длинное видео о российском вмешательствии на парламентские выборы Молдовы. Скачав субтитры от его видео о фашистских чертах режима Путина и увлечении диктатора к фашистскому мыслителю Ивану Ильину и создав от них этот текст, моя цель была перевести содержане на португальский язык. Свой перевод я опубликовал 15 августа, однако я тоже считал важным поделиться оригиналом с теми, кого он может интересовать:


Вы наверняка замечали, что Путин регулярно говорит о недопустимости фашизма и называет борьбу с ним одним из главных исторических подвигов Советского Союза, а теперь и современной России:

“Нельзя позволить идеологии фашизма, нацизма и милитаризма вновь поднять голову.”

“Но на особом месте победа над фашизмом, возмездие нацистам за все их бесчинства.”

“Значит, сбрасывают там основателя Украины Ленин, сбрасывают с педесталов. Ну ладно, это их дело. Но а на это место Бандеру ставят. Он же фашист.”

“Бьют без разбора, по площадям, с фанатизмом и остернением обречённых. Так как фашисты, которые в последние дни третьего рейха пытались утащить с собой в могилу как можно больше невинных жертв.”

В официальной риторике Кремля фашистами и нацистами всё чаще называют тех, кто просто не согласен с линией партии, будь то украинцы, оппозиционные политики и лидеры других стран. И неважно, что взгляды этих людей не имеют ничего общего с крайне правой идеологией. Но если попытаться разобраться, что такое фашизм на самом деле, становится очевидно. Настоящий фашизм сегодня – это и есть путинская Россия.

Фашизм – явление, с одной стороны хорошо изученное, но с другой не имеющее чёткого универсального определения, из-за чего его часто трактуют по-разному. Как правило, исследователи обращаются к эссе итальянского философа Умберта Эка, “Вечный фашизм”. В нём он выделил 14 признаков, по которым можно распознать фашистское мышление и фашистскую систему. Эко подчёркивал, необязательно присутствие всех четырнадцати критериев сразу. Достаточно даже одного, чтобы вокруг него начал формироваться фашизм. Если начать разбирать путинский режим по этим критериям, окажется, что он в той или иной степени соответствует практически всем четырнадцати.

Неприязнь к инакомыслию, культ традиции, ксенофобия, национализм. Практически по каждому пункту можно поставить галочку. Да даже навояз, который у Эка стоит последнем в списке:

“Мною принято решение о проведении специальной военной операции. И для этого мы будем стремиться к демилитаризации и денацификации Украины.”

О том, что режим Путина всё больше соответствует признакам фашистского, говорят и современные исследователи. После начала полномасштабного вторжения России в Украину, историки и профессор Йельского университета Тимоти Снейдер выпустил статью под заголовком: “Мы должны сказать это: Россия – фашистское государство” [читайте здесь]. Вот как он описывает суть путинского фашизма:

“Фашисты, называющие других людей фашистами – это фашизм, доведённый до своего нелогичного предела, превращённый в культ неразума. Это финальная стадия, в которой язык вражды переворачивает реальность, а пропаганда становится чистым настаиванием. Это апогей воли над мыслью. Обвинять других в фашизме, будучи фашистом, суть путинской практики.”

Действительно, в разное время фашистами, нацистами и их сторонниками с лёгкой руки Кремля становились Евросоюз, Джо Байден, уехавшие из России и, разумеется, власти Украины. В России даже есть уголовная статья о реабилитации нацизма. Стоит ли говорить, что судят по ней совсем не нацистов? Не обошлось и без нападок на Майю Санду. В этом, правда, больше всех преуспели не российские власти, а их самые преданные молдавские поклонники, в их числе Илан Шор:

“Сегодня центральная власть, фашистка Майя Санду и весь её аппарат сплотился против нашей победы на выборах Гагаузии.”

И Игорь Додон:

“Каждый фюрер начинал с нарушения конституции, подрыв легальных норм и узурпации власти. То, что сейчас происходит в Молдове, в точности повторяет историю прошлого века.”.

В целом молдовские власти регулярно становятся мишенью кремлёвской пропаганды. То их называют недобитыми фашистами, то обвиняют в издании учебника истории, оправдывающего нацистов, чувствование Гитлера и румынских фашистов.

Кстати, о чествовании фашистов. Был в Российской империи такой философ Иван Ильин. В 1922 году покинул Советскую Россию на “философском пароходе”. Уехал в Германию. В 1933 году приветствовал приход Адольфа Гитлера к власти. Работал профессором в Русском научном институте в Берлине, который финансировался Министерством народного просвещения и пропаганды под руководством Гебельса.

В 1933 году он написал статью под названием “Национал-социализм, новый дух”. Вот пара цитат из неё:

“Что сделал Гитлер? Он остановил процесс большевизации в Германии и оказал этим величайшую услугу всей Европе. Пока Муссолини ведёт Италию, а Гитлер ведёт Германию, европейской культуре даётся отсрочка.”

В общем, Иван Ильин симпатизировал фашистам.

А ещё Иван Ильин – это любимый философ Владимира Путина. Вот как он ответил на вопрос о самом близком ему российском мыслителе:

“Вы знаете, я не хотел бы говорить, что это там Иван Ильин только, но я читаю Ильина, да, читаю до сих пор. У меня книжка лежит там на полочке и время от времени снимаю, читаю.”

А вот Путин завершает словами Ильина так называемую церемонию подписания договоров о присоединении к России Донецкой, Луганской, Херсонской и Запорожской областей Украины:

“Если я считаю моей родиной Россию, то это значит, что я по-русски люблю.”

Этим летом в Москве на Арбате открылась выставка о российских мыслителях, где Ильину посвятили целый стенд. В сети разразился скандал, но Кремль не стал вмешиваться в дискуссию, поэтому фотографии и цитаты поклонника Гитлера и Муссолини спокойно продолжили висеть в центре города.

Вернёмся к Молдове и определению фашизма. Седьмой признак фашистского режима в списке Умберта Эка – культивирование осадного менталитета. Это когда власти твердят, что повсюду враги и надеяться можно только на себя. В России сеть по насаждению паранои работает как часы. Но, как мы знаем, интересы Путина никогда не ограничиваются Россией. Эту же риторику Кремль продвигает и за пределами страны, особенно активно в соседних государствах, где у него ещё остались сторонники.

В Молдове Путин реализует эту тактику в Приднестровье и Гагаузии и на протяжении многих лет последовательно формирует у местных жителей нужную картину мира: Запад – враг, Кишинёв – предатель, а Москва – единственный защитник и источник правды. Как правило, пропаганда ведётся через посредников, например, через башкана Гагаузи Евгению Гуцул, большую фанатку Путина. В прошлом году она наконец-то встретилась со своим кумиром в Сочи, сделала совместную фотографию на память и пожаловалась ему на беззаконные действия власти в Молдовии, которая мстит нам за нашу гражданскую позицию и верность национальным интересам.

Такие союзы, кстати, отлично вписываются в логику, по которой возникает фашизм. Вот как это происходит по версии российского социолога Григория Юдина: “Надо помнить, что фашизм всегда начинается с небольшой группы, которая захватывает государство и начинает через государство продвигать мощное движение.”

Впрочем, уже понятно, что Гуцул не добьётся большого успеха. 5 августа её приговорили к семи годам лишения свободы по делу о нелегальном финансировании Партии Шора и фальсификации документов. Она надеялась на помощь Путина, но в Кремле тогда лишь назвали приговор “политически мотивированным”. Как будто и не было той встречи в Сочи и совместной фотографии.

Искать признаки фашизма в путинском режиме можно ещё долго, но важно не забывать главное. Ни один из таких режимов в прошлом не выстоял, потому что невозможно вечно управлять людьми через страх, насилие и ложь. История не раз это доказывала. Гитлер захватил власть в Германии на волне национализма, реваншизма и культа силы, но закончил жизнь самоубийством в бункере, проиграв войну, которую сам же и развязал. Муссолини носил титул “дуче”, что значит вождь. Обещал очистить Италию от коммунистов, возглавлял “марш на Рим”. Но в конце концов соотечественники повесили его вверх ногами на городской площади в Милане.

Румынский диктатор Николай Чаушеску тоже казался несокрушимым, пока не довёл людей до крайности. Они выбрали сопротивление и не сошли с этой дороги, даже когда Чаушеску приказал открыть по ним огонь. И все мы прекрасно знаем, чем всё это закончилось. 10 дней революции, наспех созванный военный трибунал и расстрел у стены солдатской уборной.

У путинского фашизма та же природа: страх, пропаганда и агрессия. И судьба у него будет такая же. В мире, где фашизм умеют распознавать и не боятся называть своим именем, он не сможет долго продержаться. Однако важно помнить, что фашизм не уходит сам, и приложить руку к его уничтожению может каждый. Это в наших же с вами интересах.



terça-feira, 19 de agosto de 2025

Mais um dia comum em Quiévi... ops, Kyiv


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Esses dias, Vitório Sorotiuk, ex-presidente da Representação Central Ucraniano-Brasileira (RCUB) e de quem já publiquei vários textos aqui na página, esteve na capital ucraniana e registrou pra posteridade (e pros idiotas que ainda não acreditam) uma cena que tem se tornado cotidiana: as sirenes que tocam a qualquer momento do dia e da noite, indicando a possível iminência de um bombardeio ruSSo e a necessidade de se abrigar numa das muitas estações de metrô feitas igualmente à maneira de um bunker. É curioso como ele registra a aparentemente tranquilidade dos passantes e dos motoristas e, ao final, fala que finalmente ele não pode adiar a busca por um abrigo antiaéreo.

Por prosaica que possa parecer, a cena é triste, na medida em que meu amigo Claudio, que me repassou o vídeo, ressaltou que eles acabaram se “habituando” a essa situação. Pra mim, também é indignante, pois sabemos como os zumbis de Putler não só atacam deliberadamente alvos civis não usados pra fins militares, mas também aprenderam a sobrevoar o espaço aéreo ucraniano de forma a apenas “despertar” as sirenes e gerar um falso alerta de bombardeio!

Ah, e se você quer uma dica de pronúncia aproximada, basta mandar um Quíiv ou Quêiv mesmo...


Embora na sexta-feira passada tenha havido o vergonhoso encontro entre Trump e o ditador do Kremlin no Alasca, e na segunda-feira o encontro da Galinha Ruiva com Zelensky e outros governantes europeus, não fiz nenhum conteúdo especial a respeito. Porém, não pude deixar de trazer algumas coisas, como a animação humorística de André Guedes ainda relativa ao primeiro encontro fracassado em fevereiro (repassada por uma amiga) e duas montagens referentes ao fato de Sergei Lavrov ter ido aos EUA com um moletom com as iniciais da URSS em russo (o apelido oficial do Claudio ao diplomata é justamente “cara de cavalo”, rs):






Outro babado forte foi a justa verbal em inglês que os ministros do Exterior da Hungria, Péter Szijjartó, e da Ucrânia, Andrii Sybiha, tiveram no Équis na segunda-feira após um ataque ucraniano ter atingido um oleoduto que leva petróleo da Rússia até o país de Viktor Orbán e à Eslováquia. As duas nações se recusaram a condenações mais firmes à invasão moscovita e à redução de seus intercâmbios com o agressor.

Não é citado o local, mas acredito que embora ele passe pela Ucrânia, tenha sido avariado na Rússia, interrompendo temporariamente o fornecimento no domingo anterior. Após a típica passada de pano no genocida, o que em qualquer hipótese o faz perder toda a razão, o cabelo de Pica-Pau levou uma fantástica invertida do ucraniano, apesar da tréplica chorosa:






domingo, 17 de agosto de 2025

Ligações entre o sânscrito e o russo


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Este artigo foi um dos mais interessantes cuja tradução eu já tinha publicado em meados dos anos 2000, mas que, devido à falta de acesso ao “verdadeiro original”, receei por muitos anos em republicar nesta página. Trata-se do artigo “Links Between Russian and Sanskrit” (Ligações entre o russo e o sânscrito), escrito pelo professor Durga Prasad Shastri e publicado pela primeira vez em fevereiro de 1964. Ele também circula pelas redes com o título em russo “Связь между русским языком и санскритом”, mas a primeira versão que li foi em esperanto (“Ligoj inter rusa lingvo kaj sanskrito”), traduzida por D. Brechalov, num site russo sobre a pouco conhecida filosofia “homaranista” esboçada por L. L. Zamenhof, iniciador do esperanto.

Meu interesse pelo artigo e por minha própria tradução (feita na adolescência!) ressurgiu quando recentemente retomei o contato com Thiago Gastaldello, que fez na década de 2000 uma graduação em linguística, se debruçou longamente sobre o sânscrito e também fala esperanto. Na época, ele mantinha um blog bilíngue chamado “Se oriente, rapaz!”, hoje não mais atualizado, mais ainda acessável, e talvez nos tenhamos conhecido devido a meu extinto “Sites Sobre Idiomas” (ou SSI), que mantive de 2002 a 2009 e não era mais do que uma coleção de links pra outras páginas com recursos de aprendizado. (Lembrando que as ferramentas modernas, especialmente os apps, inexistiam, e YouTube já havia, mas quase ninguém usava.)

Revendo o blog do Thiago, me deparei com uma reprodução de minha tradução, ela mesma também disponível de forma arquivada, a partir de outro site desativado meu, mas integralmente dedicado ao esperanto. Usando essa última cópia, decidi enfim trazer hoje uma “reciclagem” de minha tradução, embora não a tivesse confrontado com uma reprodução do inglês que terminei achando (reitero que traduzi do esperanto, portanto, me abstive de publicar justamente por ser uma tradução indireta).

Após uma nova rodada de pesquisas, inclusive em fóruns de falantes de russo, descobri que Durga Prasad Shastri (às vezes transcrito Durgaprasad Shastri, ou ainda Durgaprasad Khatri) foi um famoso romancista indiano que escrevia em hindi, nasceu em 1895 em Varanasi – filho de outro célebre romancista – e morreu em 1974. Na Wikipédia em hindi não há nenhuma referência nesse sentido, mas várias fontes o descrevem como professor de sânscrito ou mesmo “sanscritólogo”, que teria viajado à Rússia em 1963 e se espantado com a semelhança dessa língua com o russo, cujo intérprete, portanto, ele teria dispensado. Muito da narração beira a lenda, e mesmo sendo verdade que, enquanto escritor, Shastri pudesse ter algum conhecimento de sânscrito (a fonte de neologismos cultos em hindi, como o grego e o latim pra Europa Ocidental), certamente ele não era acadêmico nem pesquisador: o artigo foi publicado na sequência de uma conferência a uma sociedade cultural indo-soviética e só apareceu em russo em 1996.

Pra quem é linguista de profissão, suas comparações limitadas a um vocabulário superficial chegam a parecer pueris, atitude semelhante à de listas comparando palavras em sânscrito e russo que às vezes aparecem junto com versões do artigo na internet. Além disso, eu mesmo, tendo aprendido em anos mais recentes o básico da escrita devanágari e um pouco de hindi e estando, portanto, mais ou menos habilitado pra fazer pesquisas comprovando suas comparações, nem sempre consegui reconstituir os exemplos que ele cita. Nesta nova edição, que também revê problemas da transcrição do russo que eu tinha deixado de lado, trouxe as versões em cirílico e, sempre que pude, também em devanágari pro sânscrito.

Desta forma, à guisa de notas minhas, coloquei as versões nas escritas originais e as traduções entre colchetes, podendo dispensar a maior parte das notas do tradutor pro esperanto, que em grande parte não fez justamente senão trazer as frases em russo, mas escritas na ortografia esperantista. Por isso, embora conservasse o conteúdo e a posição dessas notas no texto principal, mantive o número original com que elas apareciam (e, assim, a numeração parece “banguela”). Não fiz mudanças em minha própria tradução, mas apenas a atualização ortográfica (o texto é anterior a 2009) e algumas correções de estilo. Sugestões são sempre bem-vindas!



Se me perguntassem sobre duas línguas no mundo parecidas uma com a outra, eu responderia sem qualquer hesitação: “russo e sânscrito”. Isso não é porque algumas palavras de ambas as línguas se parecem, como também é o caso de muitas línguas que pertencem à mesma família. Por exemplo, palavras comuns são encontradas no latim, no alemão, no sânscrito, no persa e no russo, que são originados do grupo indo-europeu de línguas. É admirável que se pareçam a estrutura das palavras, o estilo e a sintaxe, também havendo relações mais próximas entre as regras gramaticais de nossas duas línguas – isso causa a séria atenção de todo o conhecedor de linguística que deseje saber muito mais sobre as ligações próximas que apareceram já em um passado remoto entre os povos da URSS e da Índia.

Palavra universal – Pegue, por exemplo, a mais famosa palavra russa deste século: “sputnik” [спутник]. Ela consiste de três partes: (a) o prefixo “s” [с], (b) o radical substantivo “put” [путь; caminho] e (c) o sufixo “nik” [ник]. A palavra russa “put” [путь] é comum a muitas outras línguas da família indo-europeia, nomeadamente a palavra inglesa “path” e a palavra sanscrítica “path” [पथ्]. E totalmente! A similaridade entre o russo e o sânscrito continua, até o último grau. A palavra sanscrítica “pathik” [पथिक्] significa “pessoa que vem seguindo um caminho”, isto é, “viajante”. A língua russa pode formar também as palavras “putik” [путик] (2) e “putnik” [путник]. E a parte espantosa da história da palavra “sputnik” é que “sa” ou “s” deve ser adicionado como prefixo em sânscrito e em russo para formar as palavras “sapathik” [सपथिक्] em sânscrito e “sputnik” em russo. Ambas as línguas têm o mesmo significado lógico para suas palavras: “pessoa que vem pelo mesmo caminho”. (3) Tenho que agradecer ao povo soviético pela escolha de palavra tão internacional e universal.

Quando vim para Moscou, a empregada de meu hotel deu-me a chave do quarto n.º 234 e disse: “Dvesti tridtsat chetyre” [Двести тридцать четыре]. Naquele momento não pude decidir se eu estava de pé diante de uma senhorita bonita em Moscou, ou na Benares ou na Ujjain de nosso período clássico mais de 2000 anos atrás. Em sânscrito, 234 é “Dvishat tridasha chatvari” [não se sabe ao certo de onde ele tirou essa forma; segundo pesquisa, uma das formas alternativas mais próximas para expressar o número seria “dviśatcatustriṃśat”]. Pode, em algum lugar, existir relação mais próxima? É duvidoso que ainda existam duas línguas diversas que conservaram uma antiga herança e se assemelhem tanto na pronúncia até os dias de hoje. Tive a oportunidade de visitar a vila de Kachalov, a cerca de 25 quilômetros de Moscou, e fui convidado para almoçar junto a uma família russa de agrônomos. A velha senhora apresentou-me um jovem casal, dizendo em russo: “On moi syn i oná moiá snokhá” [Он мой сын и она моя сноха; Ele é meu filho e ela é minha nora].

Quão fortemente eu desejei que Panini, o grande gramático hindu que viveu cerca de 2 600 anos atrás, pudesse estar junto de mim e ouvisse a língua de seu próprio tempo, tão admiravelmente conservada com todas as suas nuanças possíveis nessa parte do mundo. A palavra russa “syn” [filho] é “son” em inglês e “sūnu” [सूनु] em sânscrito. Também a palavra “madīy” [मदीय्] do sânscrito pode ser comparada a “moi” [meu] do russo e a “my” da língua inglesa. Mas somente em russo e em sânscrito o pronome possessivo “moy” e “madīy” deve transformar-se em “moiá” e “madīyā” [मदीया], pois trata-se da palavra “snokhá”, que é feminina. A palavra russa “snokhá” é “snukha” em sânscrito [na pesquisa só apareceu स्नुषा, snuṣā] e pode ser pronunciada da mesma forma. As relações entre o filho e a esposa do filho definem-se por palavras similares em ambas as línguas.

Perfeitamente correto – Eis outra frase russa: “Tot vash dom, etot nash dom” [Тот ваш дом, этот наш дом; Aquela é vossa casa/a casa de vocês, esta é nossa casa]. Em sânscrito ela fica: “Tat vas dham, etat nas dham” [não consegui confirmar nada parecido]. “Tot” e “tat” [तत्] são pronomes demonstrativos, singulares em ambas as línguas e que mostram o objeto da distância. É sempre o mesmo princípio em russo e em sânscrito. “Dhām” [धाम्] em sânscrito é “dom” em russo, possivelmente porque o “h” aspirado não existe em russo.

As línguas modernas do grupo indo-europeu, como o inglês, o francês, o alemão e até mesmo o hindi, que provém diretamente do sânscrito, devem usar a palavra “ser” na referida frase, sem a qual ela não pode existir como proposição correta em todas essas línguas. Somente a língua russa e o sânscrito estão perfeitamente corretos gramaticalmente e também idiomaticamente sem “ser” na referida frase. A própria palavra “ser” (9) se parece muito à russa “iest” [есть] e à sanscrítica “asti” [अस्ति], ou ainda “iestestvó” [естество] em russo e “astitva” [अस्तित्व] em sânscrito, ambas significando “existência” (10). Isso deixa claro que não somente a sintaxe e a ordem das palavras são semelhantes, mas a própria plenitude de expressão e o espírito foram conservados em ambas as línguas em uma forma original sem modificações.

Permitam-me dar, no fim do artigo, uma regra simples e muito útil da gramática de Panini para mostrar o quão profundamente ela é aplicável para a formação de palavras no russo. Panini mostrou de que maneira seis pronomes transformam-se em advérbios de tempo pela simples adição de “-da”. Atualmente, a língua russa tem apenas três das seis palavras do sânscrito de Panini, mas elas seguem a mesma regra de 2 600 anos para receberem seus advérbios de tempo. Ei-las:

PronomesSignificados
kim [किम्]quem
tatesse
sarva [सर्व]todo


Advérbios:

SânscritoRussoSignificado
kadā [कदा]kogdá [когда]quando
tadā [तदा]togdá [тогда]então
sadā [सदा]vsegdá [всегда]sempre


A letra “g”, nas palavras russas, usualmente é usada para mostrar a união, em um todo, de coisas que existem separadamente. Nenhuma língua indiana ou europeia mostra essa capacidade de conservar o antigo sistema de nossas línguas, apenas o russo o faz. Já é tempo de fortalecer a investigação de ambos os ramos, importantíssimos, da família indo-europeia, e alguns capítulos fechados da história antiga do mundo devem ser abertos para o bem de todos os povos.


Notas do tradutor esperantista

(2) Conforme a gramática russa, esta palavra significa “pequeno caminho”, “caminhozinho”, mas ela nunca é usada.

(3) Em esperanto, “samvojano”. [Esta palavra, em português, não tem uma tradução exata, podendo ser toscamente transliterada por “companheiro de jornada”.]

(9) No original inglês, “is”.

(10) A palavra russa “iestestvó” significa “essência”, “natureza”.



sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Ivan Ilin, fascista favorito de Putin


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Não, não é Lenin...


Há alguns dias, por meio de um documentário sobre a interferência de Moscou nas eleições parlamentares, conheci o canal moldovo Málenkaia straná (Pequeno país), criado por Dmitri Gorkaliuk, apoiador aberto da presidente Maia Sandu e falado em russo. “Aqui, descobrimos como funciona a vida na Moldova e o que, em última análise, queremos. O pequeno país tem grandes planos e já desempenha um papel importante no mundo moderno.” Seu vídeo mais recente disseca genialmente como Vladimir Putin, embora se diga um lutador contra o fascismo ao redor do mundo, construiu um regime muito próximo do fascismo histórico e é ele mesmo admirador de um intelectual russo que elogiava Hitler e Mussolini.

Achei urgente a imediata tradução do vídeo pro português, não só pra contribuir no combate à desinformação que o Kremlin ainda dissemina no Brasil, sobretudo entre os fãs de Lula e as esquerdas em geral, mas também pra alertar sobre a gradual aparição do referido filósofo, Ivan Ilin (1883-1954), nas redes sociais brasileiras. As menções são invariavelmente positivas (porque comunistas são burros demais pra conhecer o que não se refira diretamente ao partido bolchevique) e provêm de jovens estudiosos ou simpatizantes da história e literatura russas. Assim, o perigo da legitimação da invasão da Ucrânia na opinião pública é dobrado por uma certa “esquerda” pra quem, inexplicavelmente, a EU e a OTAN são os males maiores (justificando os crimes do outro lado) e por fascistas enrustidos que passam incólumes a olhos não estudados.

Vamos ser sinceros: Putin não liga pra ideologia e se vale de quaisquer extremistas pra difundir sua propaganda no exterior, e na Rússia têm sido empregados de forma extraoficial cada vez mais grupos de extrema-direita e até abertamente nazistas pra perseguir imigrantes da Ásia Central. Nesta pequena contribuição que fiz pra desmentir as manipulações tanto comunistas (há exceções, mas exíguas) quanto fascistas, adicionei notas entre colchetes quando necessário e links pra materiais que esclarecessem os referidos conceitos. Minha escolha vocabular foi clara: Moldova, moldovo, moldova, e não a forma russificada Moldávia, moldávio, moldávia (moldavo, moldava). Há várias referências à conjuntura do país que estou cada vez mais acompanhando, mas que infelizmente não vou poder explicar uma por uma.

Breve correção: Alguns dias depois, me dei conta de que o autor que vi sendo citado por alguns “russistas” bananeiros não era Ilin, mas Eduard Limonov (1943-2020), como se fosse um popstar esquecido. Não consta que ele tivesse influência das obras de Ilin, mas minha indignação não muda em nada, pois pra ser direto: ele fundou junto com Aleksandr Dugin o lixo chamado “Partido Nacional-Bolchevista”, que alguns idiotas aqui adotaram com o nome “nazbol”. Já escrevi algumas vezes o que penso dos “nazbols”, mas o essencial é que Limonov apoiou todo tipo de agressão contra a Ucrânia: “independência” do Donbás, roubo da Crimeia, investidas contra o exército ucraniano... Seus sucessores, inclusive, militam pela libertação do terrorista internacional Igor Girkin (Strelkov). O fato de ter sido preso durante os anos 2000, quando Putin ainda “não era” abertamente fascista, não muda em nada seu caráter fecal.


Você provavelmente já notou que Putin fala regularmente sobre a inadmissibilidade do fascismo e considera a luta contra ele um dos principais feitos históricos da União Soviética, e agora da Rússia moderna:

“Não podemos permitir que a ideologia do fascismo, do nazismo e do militarismo levante novamente a cabeça.”

“Mas a vitória sobre o fascismo e a retribuição contra os nazistas por todas as suas atrocidades ocupam um lugar especial.”

“Então, eles derrubam o fundador da Ucrânia, Lênin, o derrubam dos pedestais. Tudo bem, isso é problema deles. Mas eles colocam Bandera em seu lugar. E ele é um fascista.”

“Eles atacam indiscriminadamente, por saturação, com o fanatismo e amargura dos condenados. Assim como os fascistas, que nos últimos dias do Terceiro Reich tentaram arrastar consigo o maior número possível de vítimas inocentes para a sepultura.”

Na retórica oficial do Kremlin, fascistas e nazistas são cada vez mais usados pra descrever aqueles que simplesmente discordam da linha do partido, sejam ucranianos, políticos da oposição ou líderes de outros países. E não importa que as opiniões dessas pessoas não tenham nada a ver com a ideologia de extrema-direita. Mas se você tentar descobrir o que é realmente o fascismo, isso se torna óbvio. O verdadeiro fascismo hoje é a Rússia de Putin.

O fascismo é um fenômeno que, por um lado, tem sido bem estudado, mas, por outro, não possui uma definição universal clara, razão pela qual é frequentemente interpretado de maneiras diferentes. Via de regra, os pesquisadores recorrem ao ensaio do filósofo italiano Umberto Eco, O fascismo eterno. Nele, ele identificou 14 sinais pelos quais se pode reconhecer o pensamento fascista e um sistema fascista. Eco enfatizou que não é necessário que todos os 14 critérios estejam simultaneamente presentes. Basta um deles pro fascismo começar a se formar em torno dele. Se começarmos a analisar o regime de Putin por esses critérios, verificamos que ele corresponde em maior ou menor grau a praticamente todos os 14.

Aversão à divergência de pensamento, culto à tradição, xenofobia, nacionalismo. Podemos marcar quase todos os pontos. Sim, até mesmo a Novilíngua, que Eco coloca por último em sua lista:

“Tomei a decisão de conduzir uma operação militar especial. E para isso, lutaremos pela desmilitarização e desnazificação da Ucrânia.”

Pesquisadores contemporâneos também afirmam que o regime de Putin corresponde cada vez mais aos sinais de um regime fascista. Após o início da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, o historiador e professor da Universidade de Yale, Timothy Snyder, publicou um artigo intitulado “Devemos dizer: a Rússia é um Estado fascista” [leia aqui]. Assim ele descreve a essência do fascismo de Putin:

“Fascistas chamando outras pessoas de fascistas é o fascismo levado a seu extremo ilógico, transformado em culto ao irracional. É o estágio final em que o discurso de ódio inverte a realidade e a propaganda se torna pura insistência. É o apogeu da vontade sobre o pensamento. Acusar os outros de fascismo sendo um fascista é a essência da prática de Putin”.

De fato, em momentos diferentes, o Kremlin transformou habilmente a União Europeia, Joe Biden, a emigração russa e, claro, as autoridades ucranianas em fascistas, nazistas e apoiadores destes. Na Rússia, existe até um artigo criminal sobre a reabilitação do nazismo. Preciso dizer que não são os nazistas que estão sendo julgados por isso? Nem Maia Sandu escapou dos ataques. No entanto, não foram as autoridades russas que mais obtiveram sucesso nisso, mas seus mais devotados fãs moldovos, incluindo Ilan Șor:

“Hoje, o governo central, a fascista Maia Sandu e todo o seu aparato se uniram contra nossa vitória nas eleições da Gagaúzia.”

E Igor Dodon:

“Todo Führer começou violando a Constituição, minando as normas legais e usurpando o poder. O que está acontecendo na Moldova agora é exatamente o mesmo que a história do século passado”.

Em geral, as autoridades moldovas regularmente se tornam alvo da propaganda do Kremlin. Ora são chamadas de fascistas inacabados, ora são acusadas de publicar um manual de história justificando os nazistas, os sentimentos de Hitler e os fascistas romenos.

A propósito, sobre homenagear fascistas. Havia no Império Russo um filósofo chamado Ivan Ilin. Em 1922, ele deixou a Rússia Soviética no “navio dos filósofos”. Partiu pra Alemanha. Em 1933 saudou a chegada de Adolf Hitler ao poder. Trabalhou como professor no Instituto Científico Russo em Berlim, financiado pelo Ministério da Educação Pública e Propaganda sob a direção de Goebbels.

Em 1933, escreveu um artigo intitulado “Nacional-Socialismo, o Novo Espírito”. Aqui estão algumas citações:

“O que Hitler fez? Ele interrompeu o processo de bolchevização na Alemanha e, assim, prestou um enorme serviço a toda a Europa. Enquanto Mussolini liderar a Itália e Hitler liderar a Alemanha, a cultura europeia terá um alívio.”

Resumindo, Ivan Ilin simpatizava com os fascistas.

Além disso, Ivan Ilin é o filósofo favorito de Vladimir Putin. Assim ele respondeu a uma pergunta sobre o pensador russo mais próximo dele:

“Sabe, eu não gostaria de dizer que é apenas Ivan Ilin, mas eu leio Ilin, sim, leio até agora. Tenho um livro na estante e, de vez em quando, o pego e leio.”

E aqui Putin conclui a chamada cerimônia de assinatura dos tratados de anexação das regiões ucranianas de Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhia à Rússia com as palavras de Ilin:

“Se considero a Rússia minha pátria, significa que amo em russo.”

Neste verão, uma exposição sobre pensadores russos foi inaugurada na rua Arbat, em Moscou, onde um estande inteiro foi dedicado a Ilin. Um escândalo estourou na internet, mas o Kremlin não quis interferir na discussão. Por isso, as fotografias e citações do admirador de Hitler e Mussolini continuaram tranquilamente penduradas no centro da cidade.

Voltemos à Moldova e à definição de fascismo. O sétimo sinal de um regime fascista na lista de Umberto Eco é cultivar uma mentalidade de cerco. É quando as autoridades insistem que os inimigos estão por toda parte e que você só pode confiar em si mesmo. Na Rússia, a rede de disseminação da paranoia funciona como um relógio. Mas, como sabemos, os interesses de Putin nunca se limitam à Rússia. O Kremlin promove a mesma retórica fora do país, com particular ativismo nos Estados vizinhos, onde ainda conta com apoiadores.

Na Moldova, Putin está implementando essa tática na Transnístria e na Gagaúzia e, há muitos anos, vem moldando consistentemente a necessária visão de mundo entre a população local: o Ocidente é um inimigo, Chișinău é um traidor e Moscou é o único protetor e fonte da verdade. Via de regra, a propaganda é feita usando intermediários, por exemplo, a başkan [governadora] da Gagaúzia, Evghenia Guțul, uma grande fã de Putin. No ano passado [2024], ela finalmente se encontrou com seu ídolo em Sochi, tirou uma foto conjunta pra lembrança e reclamou com ele sobre as ações ilegais das autoridades moldovas, que estão se vingando de nós por nossa posição cívica e lealdade aos interesses nacionais.

Aliás, tais uniões se encaixam perfeitamente na lógica pela qual o fascismo surge. Eis como isso acontece, segundo a versão do sociólogo russo Grigori Iudin: “Devemos lembrar que o fascismo sempre começa com um pequeno grupo que toma o Estado e começa a promover um movimento poderoso por meio dele.”

No entanto, já está claro que Guțul não vai ter muito sucesso. Em 5 de agosto, ela foi condenada a sete anos de prisão por financiar ilegalmente o Partido Șor e falsificar documentos. Ela esperava a ajuda de Putin, mas o Kremlin se limitou então a chamar a sentença de “politicamente motivada”. Como se aquele encontro em Sochi e a foto conjunta nunca tivessem acontecido.

Podemos ainda longamente procurar sinais de fascismo no regime de Putin, mas é importante não esquecer o principal. No passado, nenhum desses regimes sobreviveu, porque é impossível governar eternamente as pessoas por meio do medo, da violência e da mentira. A história provou isso várias vezes. Hitler tomou o poder na Alemanha numa onda de nacionalismo, revanchismo e culto à força, mas cometeu suicídio num bunker, perdendo a guerra que ele próprio desencadeou. Mussolini ostentava o título de “duce”, que significa líder. Ele prometeu limpar a Itália dos comunistas e liderou a “marcha sobre Roma”. Mas, no final, seus compatriotas o penduraram de cabeça pra baixo numa praça em Milão.

O ditador romeno Nicolae Ceaușescu também parecia indestrutível até levar o povo ao limite. Eles escolheram a resistência e não mudaram de rumo, mesmo quando Ceaușescu ordenou que atirassem sobre eles. E todos sabemos bem como tudo terminou. Dez dias de revolução, um tribunal militar convocado às pressas e uma execução na parede de um banheiro de quartel.

O fascismo de Putin tem a mesma natureza: medo, propaganda e agressão. E seu destino será o mesmo. Num mundo onde o fascismo é bem reconhecível e ninguém teme o chamar pelo nome, ele não vai poder resistir por muito tempo. Porém, é importante lembrar que o fascismo não desaparece sozinho e que qualquer um pode contribuir pra sua destruição. Isso é do nosso interesse e do seu.



terça-feira, 12 de agosto de 2025

Alguém achou uma boceta por aí?


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Não conhecia este professor, mas como gerencio o Instagram da União Brasileira Pró-Interlíngua, naturalmente vai aparecer no feed muita coisa relacionada a gramática e idiomas. Não que eu fique o tempo todo rolando a tela, mas apenas por acaso bati o olho na seção de sugestões e me apareceu isso... A título de curiosidade, e como gosto de fazer um “humor culto” por aqui de vez em quando, segue sua publicação “Por que o nome abaixo passou a designar também o órgão genital feminino?”, reproduzida em imagem e texto:



O anúncio antigo da imagem traz a expressão “Boceta perdida” e refere-se, no corpo do texto, a uma “boceta d’ouro para tabaco”. No português de época, “boceta” não possuía a conotação sexual que hoje lhe é associada no uso coloquial. Tratava-se de um substantivo feminino empregado para designar uma pequena caixa, cofre ou bolsa portátil, geralmente de uso pessoal, na qual se guardavam objetos de valor, como joias, tabaco ou moedas. Essa acepção é registrada em dicionários antigos e deriva do francês “bocette”, diminutivo de “boce” (caixa), que por sua vez tem origem no latim “buxida”, ligada a “buxis” (caixa de buxo, madeira nobre utilizada para pequenos recipientes). Portanto, no contexto do anúncio, “boceta” significava apenas um pequeno recipiente valioso e não possuía carga erótica.

A passagem de “pequena bolsa” ou “estojo” para a designação de parte da anatomia feminina foi motivada por metáfora baseada em forma e função. O mesmo se observa no caso da palavra “vagina”, que hoje designa um órgão do sistema reprodutor feminino, mas cuja origem latina “vagina” significava “estojo” ou “bainha”, usada para guardar espadas ou facas. Essa origem, por sua vez, conecta-se à ideia de invólucro protetor, conceito também presente na palavra “vagem”, que se refere à estrutura vegetal que contém e protege sementes. A associação metafórica entre recipiente e órgão feminino decorre do fato de ambos funcionarem como espaço que abriga e protege algo, seja um objeto, uma lâmina, sementes ou, no caso anatômico, um pênis durante o ato sexual e o feto durante a gestação.

Assim, tanto “boceta” (que na oralidade é dita com inicial “bu”) quanto “vagina” e “vagem” têm, em suas origens, a ideia de “estojo” ou “recipiente protetor”.



domingo, 10 de agosto de 2025

História da canção do “Trololó”


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Este texto publicado na imprensa russa online em 12 de janeiro de 2021 se chama em português “A história da canção Estou muito feliz, pois finalmente estou voltando pra casa (Vokalíz)”, faixa que ficou conhecida no Ocidente pelo meme apresentando o cantor soviético-russo Eduard Anatolievich Khil (1934-2012) num clipe cantarolado sem letras. Infelizmente, este artigo guardado em meus backups não tinha indicação de autoria nem o endereço original. Porém, consegui achar usando o Yandex (mas não o Google) uma cópia, ainda sem assinatura, nesta publicação aberta da rede social VK.

Os fanáticos pela cultura russa e pela história soviética devem estar cheios de ouvir falar do grande barítono que terminou seus dias (satisfeito, ao que parece!) conhecido como “Trololó” mundo afora. Mas o texto que acabo de traduzir traz alguns detalhes engraçados e comoventes, como a briga entre o autor da melodia e o ex-futuro letrista e a brincadeira que Khil fazia com a canção em shows no exterior, dizendo que ia cantar na língua local, rs. Além disso, ao longo dos anos já publiquei vários materiais relacionados a Khil e a produções derivadas do Vokaliz, mas nenhuma história completa, ao contrário do que fiz, por exemplo, com o “Dmitri descobre” e o “9999 Gold”. Divirta-se!



Eduard Khil cantou essa vocalização (vokalíz) pela primeira vez ainda em 1965 e então passou frequentemente a inclui-la nos repertórios dos shows que fazia na URSS e no exterior. O público sempre a recebia calorosamente, mas a composição só “estourou” de verdade em 2009, quando um vídeo musical com a faixa caiu no gosto dos internautas.

O interessante é que a thumb vocal do célebre cantor soviético e russo foi tornada um meme superpopular pela audiência anglófona que apelidou Khil de “Mr. Trololo”.

A história do Vokaliz de Eduard Khil – A melodia da obra foi composta por Arkadi Ostrovski. Pressupunha-se que seria uma canção com letra de Vadim Semernin, mas depois o compositor decidiu se virar sem o texto.

Eduard Khil compartilhou recordações sobre a história da composição da canção Estou muito feliz, pois finalmente estou voltando pra casa (Rossiiskaia gazeta, 2010):

A canção era bastante fácil de cantar. Ainda mais que não tinha letra... Embora de início uma letra tivesse sido planejada. Depois que Arkadi Ostrovski compôs a melodia dessa canção, por um longo tempo não conseguimos escolher os versos adequados. Alguns poetas tentaram escrever uma letra, mas todas as variantes propostas foram rejeitadas. A que mais nos agradou foi uma letra cômica sobre um caubói:

“John em seu alazão [mustang], pelas vastidões da pradaria, corre para ver sua amada Mary, que vive no estado do Kentucky e está o esperando, tricotando meias de lã para ele...”

Mas na época soviética, não me permitiram cantar uma música com uma letra assim. No final, Ostrovski disse: “Nesse caso, que seja então uma vocalização!” E, de fato, foi o que fizemos. A única coisa que restou do texto inicial da canção foi o título Estou muito feliz, pois finalmente estou voltando pra casa.

Segue abaixo um vídeo da canção num velho registro de show.



Mikhail, filho do compositor Arkadi Ostrovski, afirmou que a censura não proibiu a letra da canção (Rossiiskaia gazeta, 2010):

Só que a história com o Vokaliz contada pelo Ed Khil não é toda verdade: ninguém proibiu a letra, meu pai simplesmente compôs a melodia num tempo em que estava brigado com o poeta Lev Oshanin. Este lhe disse que o principal numa canção era a letra e que sem o poeta, o compositor não era nada. E então meu pai lhe disse no calor da briga: “Então não preciso da tua letra pra nada, eu me viro”. Não sei pra quê Khil contou de outro jeito. Ou sua memória o traiu, ou a lenda assim o exige”.

Mais um trecho da entrevista de Mikhail Ostrovski:

O Vokaliz foi composto durante uma discussão com Lev Oshanin. Trabalhando, eles frequentemente brigavam, faziam as pazes e brigavam de novo. E eis que um belo dia, do fundo do peito, meu pai berrou: “E eu não preciso da tua letra pra canção, vou compor uma canção sem letra”. E assim nasceu o Vokaliz.

Decida você mesmo qual das duas versões da história da composição parece ser a mais verossímil.

A gravação e o lançamento do Vokaliz O compositor não pensou muito até escolher um intérprete. Conta Mikhail Ostrovski (Rossiiskaia gazeta):

Mais do que tudo, a melodia animada combinava com Eduard Khil. Então ele a entregou a Khil. Inspirados, eles a ensaiaram longamente em casa. E quando foram gravar a canção com arranjos, nosso notabilíssimo maestro Iuri Silantiev, como contou o próprio Khil, se indignou: “Como que isso não tem letra???” Chamaram o poeta V. Semernin, com quem meu pai antes disso tinha composto Aist (A cegonha).

Eduard Khil frequentemente interpretava o Vokaliz em shows e não raro o cantava em turnês internacionais. Vamos ler as recordações do artista (Rossiiskaia gazeta, 2010):

Todas as canções de Ostrovski resultavam alegres… O Vokaliz contém em si o mesmo humor. Depois que o interpretei pela primeira vez na década de 1960, ele começou a se popularizar com bastante rapidez. Mesmo 40 anos atrás, invariavelmente o público reagia bem a essa canção na Rússia, na Suécia, na Alemanha... Por exemplo, me lembro que quando chegamos pra uma turnê na Holanda, eu entrei no palco e brinquei, falando à plateia: “Agora vou cantar pra vocês esta canção em holandês sem sotaque”, e comecei: “Lá, lá, lá...”.

Eduard Khil contou sobre o Vokaliz em apresentações no exterior (Life.ru):

Graças à ausência de letra na canção, podia interpretá-la em todas as línguas. Chegando à Alemanha, disse ao público que cantaria uma canção em alemão. As pessoas pensavam que seria realmente isso. Esperavam a hora de terminar esses inacabáveis “lá, lá, lá” na primeira estrofe, depois na segunda, e na terceira estrofe começavam a rir. Na Holanda eu dizia que ia cantar uma canção em holandês e assim por diante. E por coincidência, esse mesmo clipe que caiu na internet foi filmado na Suécia. E esse mesmo terno com o qual interpreto o hit eu comprei na Suécia.


O clipe Estou muito feliz, pois finalmente estou voltando pra casa Fãs reuniram num único vídeo musical as famosas gravações do Vokaliz a partir de diversos shows de Eduard Khil. Assista ao clipe:


A história do “Trololó” – Por volta do fim de 2009, um clipe com o Vokaliz foi publicado na internet. Em literalmente poucos meses, o vídeo filmado pro especial de TV Canções de Arkadi Ostrovski. Canta Eduard Khil (1976) alcançou alguns milhões de visualizações.

Os internautas estrangeiros se apaixonaram pelo artista russo, que foi apelidado no Ocidente desenvolvido de “Mr. Trololo”. Eduard Khil ficou sabendo da popularidade inesperada graças ao neto:

Ele se aproximou da escola de começou a cantarolar: “Lalá, lalá, lalá! Urra-rá-rá”. Me lembro que então ainda estava espantado sobre por que foi que de repente ele se lembrou dessa canção. E ele correu até mim e disse: “Vovô, sua música se tornou um hit de novo! Eu vi na internet”. Disse que estavam até vendendo online camisetas e bótons com meus retratos.

Reconheço que no começo fiquei confuso, mas depois liguei o computador e vi que era realmente isso. Por toda parte, vídeos feitos com essa canção: estudantes, donas de casa e empregados de escritório me imitavam e lançavam os vídeos na rede mundial.

Khil afirma que as paródias filmadas pelos fãs não o ofendem nem um pouquinho. Ele também contou de qual clipe mais gostou (Rossiiskaia gazeta, 2010):

É claro que foi do vídeo do ator Christoph Waltz! Não é todo dia que você vê um ganhador do Oscar te imitando. Ele encarnou bem o papel: parodiou não somente meu jeito de interpretar a canção, mas também tentou recriar a decoração do clipe.

Vamos assistir à paródia musical de Vokaliz, nomeada Der Humpink e gravada por Christoph Waltz:



Covers de Estou muito feliz... A obra também foi interpretada por outros artistas. Eis Muslim Magomaiev cantando o Vokaliz:


O Vokaliz na versão de Valeri Obodzinski:


E agora o Vokaliz de János Koós, que cantou com uma letra em húngaro [veja minha tradução em português]:


Curiosidades:

  • Iegor Letov utilizou o Vokaliz na faixa Liotchik Li (O piloto Li) do álbum Rodina slyshit (A pátria escuta) da banda Kommunizm.
  • O Vokaliz na versão de Obodzinski é tocado na animação Ia vstretil vas (Encontrei vocês) e no longa-metragem Dom (A casa).
  • O Vokaliz de Khil foi tocado em muitos programas populares da TV americana, na série 12 Monkeys, no filme Pacific Rim: Uprising e na dublagem russa do filme Cell.

Citações sobre a canção:

Já faz uns 40 anos que tenho amizade com o Ed. Meu pai o estimava muito. E se ele ainda estivesse vivo, teria ficado doido de felicidade com o sucesso mundial do Vokaliz. Pra ele, o principal prêmio sempre era não o dinheiro, mas a popularidade de suas canções. Vocês precisavam ver o que se passava com ele quando encontrava na rua um grupo de amigos entoando alto um hit seu. (Mikhail Ostrovski, Rossiiskaia gazeta, 2010)
Fico feliz que o humor contido no Vokaliz não se apagou, mas vive até hoje. (Eduard Khil, Rossiiskaia gazeta, 2010)
Tudo isso é muito bom. Agora posso me apresentar usando não o nome Eduard Khil, mas o pseudônimo “Trololoman”. Pelo menos, estou considerando essa hipótese. (Eduard Khil, RIA Novosti)