sábado, 29 de novembro de 2025

Guerra híbrida à URSS com coxa de frango


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Os delírios da elite política da Rússia em estado de guerra genocida e expansionista, recheados de revisionismo histórico, apelo aos instintos e distorções fatuais – como não podia deixar de ser num embate psicológico –, se tornam cada vez preocupantes quando lembramos do tamanho de seu exército e de seu arsenal nuclear. Porém, como inteligência nem sempre é o forte dessa gente, algumas declarações beiram o cômico, o ridículo ou o constrangedor, não sabemos se visando fazer cortina de fumaça ou se resultando de um clima realmente sufocante e opressivo.

A presidente do Conselho da Federação russo (equivalente a nosso Senado Federal, mas sem voto popular), Valentina Matvienko, aí alojada por Putin, de preferência, pra não sair mais, disse esta semana que a ajuda humanitária concedida pelos EUA à URSS e, depois, à Rússia na sequência do colapso da economia nacional planejada foi uma forma de “sabotar o país”. Embora eu já tenha mostrado aqui, em traduções de textos da Novaya Gazeta Evropa (transliteração deles mesmos), que o modelo soviético foi um dos maiores terraplanismos sociais e econômicos da história recente, a senil burocrata culpou as “coxinhas de Bush” (nozhkí Búsha, literalmente “perninhas de Bush”) de fazerem mal à população por serem insalubres.

Essa é parte de mais um recente movimento do ditador em acusar o Ossidentx Mauvadaum de todos os suplícios vividos por aquele seu mundinho que começou a entrar em colapso logo depois que ele quase foi linchado após uma multidão em Dresden ter tentado invadir a sede local do KGB. As marionetes nos diversos órgãos, obviamente, não só devem repetir o mesmo discurso, como também o vocalizar abertamente, às vezes o temperando com ridículos idiossincráticos indignos de um chefe de guerra que ergueu vários palácios privados com dinheiro de corrupção. É claro que não houve nenhum “plano Marshall”, como após 1945, mas o irônico é que o famigerado Til Çan, vendo a ruína a que o Gosplan tinha levado o antigo império, resolveu acionar o hoje extinto USAID pra dar nem que fosse uma palha, mas nem por isso a máfia do Kremlin tem o escrúpulo de ser grata.

Também é claro que o USAID não era nenhuma casa de beneficência, pois os pacotes de “ajuda humanitária” vinham sempre muito bem rotulados com odes à pátria da liberdade e dos direitos humanos. Porém, cabe destacar que as “coxinhas de Bush” (em referência não ao “Bush filho” que invadiu o Iraque e o Afeganistão, mas a George H. W. Bush, republicano que governou o Zesteite de 1989 a 1993 e conseguiu perder a reeleição pro amigo de Jeffrey Epstein pra Bill Clinton, jovem governador do Arkansas e totalmente ignorante em questões internacionais) ficaram na memória e nas anedotas dos russos até hoje. Alguns dos escritores que as citaram em livros recentes foram Sergei Aleksashenko, economista exilado que escreveu um calhamaço sobre a janela de oportunidade perdida pra construção de boas relações entre Washington e Moscou de 1991 a 1995, e, se eu não me engano, Aleksei Navalny, em suas memórias póstumas. Mas mesmo a imprensa exilada se questionou por que Matvienko teria do nada se lembrado dessa iguaria, em meio a reflexões geopolíticas tão complexas...

Será que ela ainda não tinha almoçado? Será que por azar comeu algum chicken estragado e teve, mais de 30 anos atrás, um inolvidável piriri mais doloroso que a guerra da Chechênia? Ou será que simplesmente o poder ou a vodca lhe subiram à cabeça? Sem mais, seguem dois textos que traduzi diretamente do inglês (pra ir mais rápido e evitar o Google), um do portal oposicionista belarusso Khartya ’97 e outro do site de notícias PolitNavigator, no qual há também o original russo:



Presidente do Conselho da Federação russo fala sobre as “coxinhas de Bush”

Valentina Matvienko disse que os EUA enviaram ajuda humanitária na década de 1990 visando destruir a economia russa.

Os americanos usaram a ajuda humanitária na década de 1990 supostamente como uma ferramenta pra levar a economia russa ao colapso, disse a presidente do Conselho da Federação, Valentina Matvienko, numa entrevista ao jornal Moskóvski komsomólets. Ela citou o exemplo dos carregamentos de coxas de frango, popularmente chamados de “perninhas de Bush” – em alusão ao sobrenome do então presidente dos EUA. “Você acha que eles estavam nos enviando por mera caridade? Eles estavam então solapando nossa agricultura, destruindo nossas granjas ao enviar produtos que eram mais baratos”, disse Matvienko.

Ela acrescentou que os EUA também estavam “prejudicando a saúde” dos russos ao trazer coxas “cheias de antibióticos, hormônios e todo tipo de porcaria”. Porém, ambas as afirmações são falsas. Por exemplo, nos EUA, o uso de hormônios em frangos de granja foi proibido por lei em 1972, enquanto o uso de antibióticos é comparável ao praticado na Rússia. Além disso, os americanos participaram na restauração da agricultura russa, que estava em profunda crise após o colapso da URSS, ao investir milhões de dólares em projetos conjuntos e fornecer equipamento e tecnologia. As atuais granjas domésticas, em ampla medida, copiam as americanas.

Na mesma ocasião, Matvienko argumentou que a Rússia tem sofrido “ao longo da história” tentativas de isolamento externo e restrição a seu desenvolvimento. “Temos todos juntos vivido, ontem e ainda hoje, em condições de guerra híbrida”, afirmou. Porém, na mesma entrevista, ela admitiu que a crise na década de 1990 foi predominantemente interna: tinha “a ver com a sobrevivência de um Estado gravemente doente que não podia mais desempenhar suas funções básicas”, atrasava pensões e salários e cuja sociedade vivia na incerteza e com um sentimento de desesperança.

Recentemente, Vladimir Putin alegou que a ajuda humanitária vinda do Ocidente na década de 1990 supostamente teria causado problemas aos industriais dentro da Rússia. “A coisa boa, a ajuda humanitária, veio, mas nossos produtores internos morreram porque não podiam vender seus produtos. Foi o lado reverso de intenções aparentemente boas”, afirmou.


Matvienko: as “coxinhas de Bush” foram parte de uma guerra híbrida contra a Rússia

O fornecimento de coxas de frango na década de 1990 não foi ajuda humanitária dos EUA, mas parte de uma guerra híbrida contra a Rússia.

Foi o que afirmou Valentina Matvienko, presidente do Conselho da Federação, em entrevista ao Moskóvski komsomólets, conforme relato de um correspondente do PolitNavigator:

Enquanto de fato nos tornávamos uma sociedade tão democrática, aberta e – vamos dar nome aos bois – pró-ocidental, uma guerra híbrida continuava sendo conduzida contra nós, e não somente em termos de separatismo.

Eles começaram nos enviando as “coxinhas de Bush” como uma dita ajuda humanitária, lembram? Eram cheias de antibióticos, hormônios e todo tipo de porcaria.

E você acha que eles estavam nos enviando por mera caridade? Eles estavam então solapando nossa agricultura, destruindo nossas granjas ao enviar produtos que eram mais baratos, mas prejudiciais à saúde de nossos cidadãos.


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