Tendo guardado por alguns anos meus primeiros trabalhos escritos da graduação em História na Unicamp em seu formato impresso original, com as correções, observações e notas dos professores, resolvi um dia digitalizar a maioria deles, quando não tivesse backup dos arquivos Word originais. Nunca tinha pensado em os publicar na página, mas quando percebi que o navegador Chrome estava avançado o suficiente pra detectar textos automaticamente e possibilitar sua cópia pra outros programas, decidi tentar fazer isso com essas relíquias, que de fato só exigiram alguns reparos pontuais, pois o conteúdo saiu quase todo com espantosa exatidão!
Portanto, estou publicando hoje um trabalho da disciplina “HH582A – Teoria da História III” ministrada por Margareth Rago, com quem desenvolvi uma querida relação de amizade, no 1.º semestre de 2008, entregue no dia 6 de maio. O título é “Explorando os princípios básicos da história genealógica de Michel Foucault”, e meu objetivo era fazer uma análise do capítulo “Nietzsche, a genealogia e a história”, publicado por Michel Foucault em sua célebre Microfísica do poder, complementada por textos relacionados. Esse artigo era um de meus preferidos na graduação, e a matéria era basicamente uma introdução à corrente chamada genericamente de “pós-estruturalista”, mais conhecida vulgarmente como “pós-moderna” e centrada em Foucault, mas incluindo também Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Félix Guattari e similares, com quem tive então meu primeiro contato.
Esta primeira publicação foi o que se costumava chamar “projeto de trabalho”, e alguns professores preferiam que fizéssemos primeiro tal projeto em meados do semestre pra que no final produzíssemos um texto mais rigoroso e encorpado, como foi o caso de minha análise sobre a “história genealógica”. O que vou falar aqui pode parecer “comprometedor”, mas nessa época, a Margareth falou em classe que no passado, ela e outros colegas empreenderam “uma luta” pra que fosse então implantada a então chamada “Teoria III”, cujo conteúdo básico já informei. Antes, a seu ver, “os estudantes viam só Thompson, Thompson e ficavam mal preparados pra concursos”, em referência ao marxista não ortodoxo britânico Edward Thompson, a principal referência da História Social, área na qual eu mesmo fiz minha pós. Por sua vez, não sei bem em que contexto, um de nossos professores da “Social” criticou na classe a própria condução da “Teoria III” (pela Margareth, suponho), dizendo que deveria ser “um curso de historiografia pós-moderna”, enquanto ela estava se limitando apenas à teoria em si.
Não quero nem saber: picuinhas tretas à parte, só sei que ela escreveu à caneta “muito bom” na primeira página e “Parabéns! Está indo muito bem” na última, rs. Aguarde o próximo capítulo pra saber como terminou tudo isso. Novamente, apenas atualizei a ortografia e as normas de citação bibliográfica e corrigi pontos que realmente não davam pra engolir ou que ficariam melhores de outra forma, sem alterar, contudo, o estilo redacional geral.

A ascensão do método genealógico, proposto e praticado por Michel Foucault, foi um dos fatos que mais abalou a tradicional “história dos historiadores”, considerada pelo filósofo francês como absoluta, estigmatizante, violenta e purista. O modo tradicional de se escrever a história não passou incólume à onda que exigiu a escavação das antigas interpretações, a desconstrução dos postulados consagrados da verdade, a ênfase na ruptura em detrimento da continuidade e um trabalho que não partisse de objetos previamente dados, mas que os construísse ao longo da análise das práticas. O secular louvor às origens das coisas e a consideração de que elas guardam о verdadeiro, o puro e o original sofreram o escárnio de um homem ridente que mostrou a importância das relações de poder para a emergência das interpretações históricas, que não passam de visões dos vencedores e marcam, sobretudo, o corpo das pessoas. Enfim, o novo panorama vivido pela disciplina histórica conduziu todos os seus profissionais, aprendizes e simpatizantes a abandonar o passado como referência primordial para suas visões de mundo e a ver no presente a razão e o palco de todos os embates de interpretações e práticas relacionadas aos tempos passados.
Esses são alguns dos temas a serem tratados nesta primeira etapa do mapeamento dos princípios básicos da história genealógica, cujos elementos, no trabalho final, entrarão mais sintetizados e articulados com o que se verá nas próximas leituras. Ela consiste na apresentação dos principais conceitos que sustentam esse modo de escrever a história, como “opacidade da linguagem”, “recusa da origem”, “emergência”, “proveniência”, “corpo”, entre outros, e tem por base o texto “Nietzsche, a genealogia e a história”, publicado no livro Microfísica do poder, de Foucault. Tais conceitos foram extraídos desse texto, organizados de uma maneira que pudesse mostrar melhor a relação que eles têm entre si e explicados de acordo com as indicações dadas no próprio texto. Outros conceitos, menos desenvolvidos no referido texto, ainda que a ele apareçam referências implícitas, como “história do presente” e “sujeito”, serão retomados em fases posteriores deste mapeamento e desdobrados após a leitura de outros textos. Complementou-se a explicação com dois artigos de Margareth Rago e um de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, que tratam de assuntos diretamente relacionados à história genealógica e, por isso, expõem alguns conceitos básicos importantes para entendê-la.
A primeira coisa que o historiador deve ter em mente é algo que o pós-estruturalismo repetiu até a exaustão e que marca profundamente essa corrente de pensamento: a linguagem não é transparente, ou seja, a palavra não é o reflexo fiel de uma coisa-essência que se esconde atrás dela. O próprio Foucault diz que as palavras não guardam seu sentido ao longo dos tempos, e que atrás das coisas não há uma essência sagrada, secreta e atemporal, mas a falta dessa essência ou uma essência construída, finita e terrena. A própria linguagem é uma coisa a mais que apenas torna a realidade ainda mais opaca, pois há grande separação entre o que é dito e o que é entendido, resultando na total diferença entre o que se diz e o que se deseja dizer. Por isso, toda a pretensão do historiador de que seu texto tenha um significado inequívoco é inválida, o que o obriga a não dirigir a leitura feita pelos outros e a permitir que sua obra produza vários significados de acordo com quem a lê.
Essa primeira afirmação leva o historiador a rever radicalmente seus procedimentos e seus instrumentos de trabalho, pois porquanto as palavras e as práticas não são reflexos, mas coisas em si, elas devem ser o ponto de partida de todas as suas análises. Assim, o historiador é levado a partir não de objetos já prontos, previamente dados, que expliquem as práticas sociais, mas daquilo que está na “superfície”, para que, a partir delas, percorra um caminho que culmine na construção de seu objeto. O corolário desse método, assim sendo, é não considerar o “objeto-realidade” como fundação da unidade dos discursos, mas as práticas discursivas e as não-discursivas como instituidoras de objetos e figuras sociais. Isso levou Foucault, apesar de suas divergências com os Annales, a defender a história-problema e a figura do historiador como aquele que pergunta, não aquele que responde, e que também não crê na existência de fatos históricos dados, regidos por leis e os quais cabia ao historiador decifrar por seus métodos.
Após essa discussão, fica uma pergunta: como surgem os discursos? Um dos conceitos pelo qual Foucault deseja substituir a ideia de origem, que será abordada mais adiante, é o de emergência, o ponto de surgimento, que ocorre em um certo estado de forças que, na história, lutam entre si ou contra circunstâncias diversas ou contra a degenerescência. A emergência é o momento em que essas forças, que não obedecem a um fim determinado, mas ao acaso, entram em cena, e é um lugar de afrontamento, porém não se trata de um campo fechado de luta, mas da distância e da desigualdade entre os adversários. Por isso, ninguém é responsável pela emergência histórica, que sempre ocorre no interstício dessas lutas e conflitos que geram as coisas, as ideias. As regras gerais da história em cada momento histórico, portanto, são a dominação e a violência, o que torna quimeras a reciprocidade e o consenso universais. As regras em si são vazias, mas o jogo da história consiste na dominação das regras, que ora são impostas, ora são obedecidas: em outras palavras, as emergências são substituições, conquistas e inversões, e interpretar não é descobrir um significado oculto na origem, mas apoderar-se e dar uma direção a um sistema de regras.
Disso tudo se concluem várias coisas. Primeira, se interpretar é dar direção a regras, o historiador tradicional, ao dizer que efetua uma descrição, não faz mais do que estigmatizar, rotular, baseado em absolutos. Segunda, se a história é resultado de constantes lutas, as interpretações sobre ela que predominarão, emersas nos interstícios, serão as interpretações dos vencedores dessas lutas, ou, de modo mais simples, a história é a história dos vencedores. Terceira, se a violência e a dominação são as regras gerais e se são os vencedores que as dominam, o ato de descrever e o consequente ato de estigmatizar são violentos, logo o historiador tradicional também é violento. Quarta, se as lutas obedecem ao acaso, logo a história também é fruto dele, e não formada por um ou vários sujeitos determinados que comandariam a política e a sociedade. E quinta, se a história, assim como qualquer visão de mundo, é um resultado do acaso, nada é verdadeiro, porque tanto a consciência histórica quanto a científica possuem, no fundo, instinto, paixão, do que se conclui que tudo é construção, portanto parcial, não eterno. O genealogista, destarte, diferencia-se do historiador tradicional ao assumir sua parcialidade.
Tais ideias terão um impacto avassalador no modo como se escreve a história e como se lê, ou melhor, se constrói o passado. O intelectual e as verdades sobre as quais ele baseava sua posição serão abalados de uma hora para outra, e ele passará a não ser mais o detentor da verdade, o baluarte das classes oprimidas, em especial do proletariado, que seria libertado por essa verdade. De sua parte, Foucault, em um ambiente dominado pela centralização dos estudos na classe operária, na “base” econômica e nas maneiras de se fazer a “revolução”, deslocará seu foco para as “minorias” e os relegados da história: de maneira inédita, o filósofo lançar-se-á de cabeça na chamada “superestrutura”, que tradicionalmente não era vista como portadora de campos que podiam ser historicizados. Consagrar-se-á, então, o desafio iniciado pelos Annales de fugir de uma história das guerras, dos triunfos e das batalhas ao se perscrutar o mundo dos maltratados, dos excluídos e dos segregados e, a partir daí, contestar-se o poder burguês, moral, masculino, eclesiástico e ocidental exercido sobre essas pessoas. A questão torna-se mais instigante quando se nota que opressões e desigualdades como a social e a de gênero continuaram nos meios revolucionários sob o pretexto de que a “revolução” social e econômica acabaria automaticamente com elas: assim o homem, vencedor da história, impunha suas regras às mulheres e lhes atribuía um papel social de um modo que acomodasse a si mesmo em sua posição tradicional. Minadas as bases nas quais se baseavam os discursos ditos “verdadeiros”, Foucault ainda lembrará que о historiador, cujo modelo tradicional era baseado no demagogo, não precisaria mais se esconder “sob a máscara do universal”, invocar a objetividade dos fatos e aniquilar sua individualidade em busca da revelação da “lei inevitável de uma vontade superior”. Contribuirá para isso o fato de a história não ser considerada como mais do que um discurso, o passado não ser mais visto como algo pronto e natural a ser desvelado e apreendido e os sujeitos e objetos não serem mais dados prontos com os quais o historiador iniciaria seu trabalho, devendo o historiador, portanto, tecer a trama que constitui o acontecimento. Por isso mesmo, não existe “a” verdade, mas “verdades”, que comandam, cada uma a seu tempo, um respectivo regime de verdade, diferente segundo o lugar e segundo a época, e sendo cada uma criada por determinado profissional da história ou alguém, ou alguns, que, em uma sociedade, é (são) disso encarregado(s).
Ao saber que por trás das coisas não existe uma essência portadora de uma pureza original e, consequentemente, que não existe uma verdade histórica pronta para ser desvelada por instrumentos eficazes, sendo ambas construções dos “vencedores” da história, o historiador negar-se-á, pois, a pesquisar a origem das coisas, algo que seria um começo unitário, indubitável e indissolúvel. Segundo Foucault, um dos usos que Friedrich Nietzsche, como um genealogista, faz do termo “origem” (em alemão, Ursprung) é depreciativo, referindo-se a uma origem mágica da moral, suposta por Platão, e da religião, deduzida por Schopenhauer. Há três motivos pelo qual o filósofo alemão se recusa à pesquisa dessa origem. O primeiro é a suposição da ausência de uma “identidade primeira” das coisas, revelada após a retirada de todas as máscaras, que seriam acidentais. Porém, não só não existe um “segredo essencial” atrás das coisas, como já foi dito, mas também seu começo histórico não possui identidade, mas a discórdia, o disparate. O segundo motivo é a negação da lei metafísica de que as coisas, na origem, antes da “queda”, encontravam-se em estado de perfeição, pois o começo histórico é baixo, no sentido de derrisório e irônico, não de modesto ou discreto: assim o esclarece Foucault, que exemplifica com a teoria darwinista de que o homem teria vindo, ou mais corretamente, teria o mesmo antepassado, do macaco. O terceiro, por fim, é a recusa de ver na origem o lugar da verdade, que possibilitaria um saber que ao mesmo tempo a recobriria, porquanto, como também já se disse acima, a verdade é uma invenção, um “erro” que foi cozido pela história e que tem nela sua própria história.
Por todos esses motivos, Foucault afirma que fazer uma genealogia dos valores ou da moral, por exemplo, não é buscar sua “origem”, mas dissecar as meticulosidades e os acasos dos começos, e é então que entra o conceito de proveniência. Esta não é a busca de características gerais que assimilem um indivíduo a outros, mas das marcas que o tornam diferente, marcas que nele se entrecruzam e formam uma rede impossível de se desembaraçar, é a busca dos inumeráveis começos, da dissociação do Eu e o encontro em sua “síntese vazia” de “mil acontecimentos agora perdidos”. A proveniência recupera os acontecimentos que ajudam a formar um caráter ou conceito e não ajuda a genealogia a mostrar uma continuidade ou influência do passado sobre о presente, mas os erros, desvios e acidentes desse percurso, do que se conclui que a origem da moral não é venerável, mas crítica. A herança da proveniência é “perigosa”, pois não é sólida, mas frágil, e sua pesquisa agita o imóvel, fragmenta o unido e mostra que tudo o que se pensava “em conformidade consigo mesmo” é, na realidade, heterogêneo. Um dos exemplos de ruptura das descontinuidades é a história da prisão elaborada por Foucault, segundo a qual ela não mostra que a humanização das pessoas progrediu, mas que o exercício da violência e as formas de dominação aperfeiçoaram-se.
Considerar a “multiplicidade dos começos” ajuda o historiador a considerar que todo acontecimento é singular, e deve ser espreitado onde se supõe não haver história. O acontecimento, que é uma relação de forças em constante luta, não deve ser dissolvido em uma “continuidade ideal” obedecendo a uma “necessidade interna dos fatos históricos”, mas deve ter revelado o que “pode ter de único e agudo”. Já que essas forças obedecem ao acaso, como foi visto, o mundo, portanto, não é uniforme e estável, mas matizado e caótico, no qual vivemos uma vida grotesca, barroca e cheia de contrastes. Assim, em lugar de se proceder ao modo dos historiadores tradicionais, cuja história é unitária, identitária e absoluta, Nietzsche propõe um “sentido histórico” que serve à genealogia ao não se apoiar em absolutos, ao distinguir, dissociar as coisas e a unidade do ser humano, privilegiando, assim, a mistura, o deslocamento e a “convivência dos contrários”. É baseado nisso que Foucault afirmará que o saber não é feito para compreender, mas para cortar, pois nada é eterno e tudo tem história, como os sentimentos, os instintos e o corpo, que será abordado mais adiante. É de tal pressuposto que parte a chamada “história efetiva”, que não deve apoiar-se em constâncias (que não existem), nem em reconhecimentos, continuidades ou obstinação a fins milenares, em outras palavras, é proposta aqui uma história baseada na ruptura. Somado a isso, se a história é uma sucessão de vitórias nas quais várias interpretações vão se sobrepondo ao longo do tempo, eis o que dá o nome e a função da genealogia: ela busca esmiuçar essas verdades acumuladas, os já citados acasos е meticulosidades dos começos, busca não efetuar sínteses ou totalidades, mas a “descrição da dispersão”. Por isso, a história, para o genealogista, com seus acasos, vitórias e derrotas, é “o próprio corpo do devir”, é “uma série de interpretações” que a prática genealógica faz aparecer, o que leva o profissional, cujo trabalho é regido por uma atitude irônica com relação aos relatos e ao que se chama de documentos, a conjurar a fantasia da origem. É uma atitude irônica, pois o humor ajuda a encarar a incerteza e a finitude e faz nascer o riso a partir de nossa descoberta de que se encontra um enorme abismo entre aquilo que somos e aquilo que julgamos ser.
Procedendo dessa maneira, o historiador dará sequência a uma contínua desconstrução das coisas e das verdades, as quais, mapeadas toda a sua estrutura e a luta que está por trás de sua emergência, serão desnaturalizadas, isto é, não serão vistas como algo eterno, nem como coisas que sempre tiveram a mesma forma que apresentam hoje. Por isso mesmo, Foucault pede que não se atribua à emergência os termos do presente. É o mesmo autor que se utilizava constantemente da ironia para desconstruir, desnaturalizar e problematizar relações ditas inabaláveis e “metáforas biológicas”, ou seja, legitimações que tinham como sustentáculo estarem fundadas na originalidade da natureza e supostamente podiam ser descritas com instrumentos fornecidos pela biologia. Para proceder à desconstrução e à desnaturalização, o historiador deve levar a cabo três usos da história, chamados pelo filósofo de “antiplatônicos”, já que Platão foi o fundador da oposição aparência/essência, a qual Foucault tanto combate e que baseia a metafísica de hoje. О primeiro uso é o paródico e destruidor da realidade: deve-se reconhecer que as identidades que o historiador oferece ao europeu confuso são apenas máscaras, mas o genealogista não deve rechaçar esse oferecimento de máscaras, apenas se devem recusar as “identidades marcadamente reais” e usar outras, irreais, o que torna a história uma “palhaçada”. Por isso, a genealogia faz algo como uma paródia da paródia para mostrar que a história não passa de uma paródia. O segundo uso é o dissociativo e destruidor da identidade, uma identidade frágil, pois ela é um “sistema complexo de elementos múltiplos, distintos”, não sintetizáveis: esse é o motivo pelo qual a história baseada na genealogia não encontra as raízes da identidade, mas dissipa-a, não demarca territórios, mas aflora descontinuidades, permite a criação de e “clarifica os sistemas heterogêneos” que proíbem a identidade. E o terceiro uso é o sacrificial e destruidor da verdade, segundo o qual se as consciências histórica e científica não são neutras, portanto, o conhecimento é repousado na injustiça, visto que não há uma verdade universal. O querer-saber evocado por Foucault, destarte, é “mau”, pois desfaz a unidade do sujeito de conhecimento, dissociando-o e destruindo-o, fato que não limita a vontade de verdade, mas tira dela seu limite e intenção de verdade. É então que o sujeito de conhecimento, que julga saber tudo, dá lugar ao intelectual específico, que sabe de suas limitações e de sua posição.
Dois elementos dos quais o historiador genealógico não pode prescindir e que estão profundamente ligados são a noção de micropoder e a importância do corpo na reconstituição genealógica. Ao citar o anarquismo, Foucault o faz como um ideário que, entre outras coisas, se caracteriza por uma crítica acerba do modo como se exerce o poder, principalmente na Modernidade, e por denunciar não só a dominação estatal, mas também os micropoderes. Difusos por toda a sociedade, eles ultrapassam em importância o poder jurídico, na sua forma visível e repressiva, mas são um poder invisível e molecular, caracterizado pela positividade, que atua em todos os cantos do social e que constitui redes de relações que abarcam tudo e todos. E o corpo, agora também historicizado, é precisamente a unidade mínima, mas central, sobre a qual recai a ação desses micropoderes, e por isso Foucault o julga fundamental para entender as formas de dominação dos últimos séculos. Para o pensador, a proveniência, ou seja, os múltiplos começos, dizem respeito ao corpo, que reflete os erros do passado e é o lugar no qual ficam as marcas da história e onde nascem, se atam, se exprimem, se desatam e batalham “os desejos, os desfalecimentos e os erros”. Assim, a genealogia está “no ponto de articulação do corpo com a história” e tem por obrigação mostrar esse corpo todo “marcado de história” e revelar como a história “arruína” o corpo.
Torna-se mais fácil entender esse papel do corpo ao se exporem as várias situações nas quais ele está presente, sendo a mais importante para os historiadores, no trabalho de Foucault, a história da prisão, que, além da descontinuidade da história, esclarece sobre o poder disciplinar, por sua vez útil na reflexão dos modos de dominação no dia-a-dia da vida social. Ainda que Foucault não tenha desenvolvido muitos estudos completos sobre as questões de gênero, seu pensamento foi importante também para entender que as mulheres, cuja identidade era considerada como biologicamente fundada, sofrem diretamente a dominação em seu corpo. As identidades do homem e da mulher, que na verdade são social e culturalmente construídas, e não fundadas na biologia, legitimaram a sujeição feminina perpetrada pela sociedade patriarcal, que impôs à mulher os papéis obrigatórios de reprodutora, mãe e doméstica. Há muito tempo as feministas desconstroem os referidos papéis e abrem a possibilidade de construir uma própria definição de si mesmas e de lutar contra a opressão sexual por meio da maior participação no espaço público, incentivada, sobretudo, nos meios libertários que efervesciam nas primeiras décadas do século 20. Os objetivos principais da iniciativa, e que as mulheres ainda lutam para fazer valer integralmente, eram abolir as hierarquias sexuais, tirar do amor livre e do aborto o status de tabus e conquistar o pleno direito à maternidade consciente, à educação, à cultura e ao trabalho. O mesmo pode ser dito sobre os homossexuais, cuja vivência é uma ironia devido à distância entre o que eles dizem sobre si e o que realmente são, e que são pessoas que baseiam sua identidade em uma opção que diz respeito diretamente ao corpo. É um corpo esse oprimido por uma sociedade homófoba que não aceita a convivência amorosa entre pessoas consideradas do mesmo sexo e que admite como natural apenas a relação entre homem e mulher, sem desconstruí-la e desnaturalizá-la, como faria o genealogista. Não se deve esquecer também que Foucault, em vários textos, muitos deles publicados em Microfísica do poder, denuncia como os médicos, a partir do século 19, adquiriram grande poder na sociedade e como o hospital, lugar por excelência da cura do corpo malsão, tornou-se uma fortaleza na qual se abrigam vários saberes que proporcionam enorme poder a quem os detém.
Afora esses princípios básicos, há muitas outras questões para entender a constituição e o emprego da história genealógica e que nesta parte do trabalho serão apenas esboçadas, mas posteriormente serão melhor desenvolvidas por meio da leitura de textos que as abordem com mais vagar. Entre esses temas, é interessante ver como Foucault lida com um sujeito que, em sua opinião, não está separado, mas dentro do poder, um sujeito que, como já foi mencionado, seria, na visão dos historiadores tradicionais, o principal responsável pelo andamento da história e já estaria pronto, esperando apenas para ser abordado pelo historiador em seu trabalho. A intenção de Foucault ao estudar os saberes, as disciplinas, a produção da verdade e o poder foi justamente poder explicar como o sujeito se constituiu enquanto objeto e enquanto sujeito na cultura ocidental. Em outras palavras, esse sujeito não mais era o fundamento constituinte privilegiado no Ocidente, mas algo passível de ser problematizado “como objeto a ser constituído”, o que explica o sacrifício do sujeito de conhecimento, promovido pela história genealógica, visto no parágrafo anterior.
Como último ponto importante a ser esboçado nesta etapa, é importante lembrar que o historiador genealógico está sempre consciente, por saber que ele não revela um passado exato e que não existe uma continuidade ideal entre o presente e o passado, de que toda história é história do presente, feita nos termos da contemporaneidade de quem a escreve e baseada em indagações atuais. Antes, a “história dos historiadores” tentava compreender o passado e recontava ordenadamente os fatos para que assim se compreendesse o presente e se visualizassem futuros possíveis. Mas no moderno carnaval paródico da história, o procedimento é o inverso: desfila-se usando máscaras criadas pela atualidade, celebra-se o esquecimento em detrimento da lembrança e predomina a descrença no passado como portador e transmissor aos seus descendentes da justiça, da beleza e da verdade, coisas que de fato são criações humanas. A interpretação feita de cada texto não busca adequar-se a uma suposta realidade localizada no passado, mas produzir certos efeitos no presente, ao permitir múltiplas interpretações regidas não por uma leitura direcionada, mas por sentidos imaginados, pela ausência de qualquer regra ou norma e por uma linguagem vertiginosa.
Expostas as principais bases da história genealógica que nortearão o trabalho em andamento, vale a pena traçar uma conclusão prévia da presente discussão. Mostrar que a verdade é mera construção e que a imposição de uma só verdade ao heterogêneo conjunto da sociedade é um ato de violência deve servir de base de reflexão ao historiador que não deseja tornar-se um facínora no meio que o circunda. Pode parecer mentira, mas os discursos possuem uma força enorme e muitos historiadores, talvez não se dando conta disso, ou não querendo o reconhecer, passam-se por agentes do poder ou mesmo procuram tornar-se seus detentores. Contudo, não só se esquecem de que o poder não é algo que se detém nas mãos, mas também não recordam que nada é eterno, e que seus castelos (de cartas) não durarão para sempre. A desconstrução e a desnaturalização são as armas pacíficas que Foucault legou ao historiador genealógico para que ele abra caminhos livres do autoritarismo, do sexismo e de todas as formas de dominação social.
Referências
ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. Michel Foucault e a Mona Lisa ou como escrever a história com um sorriso nos lábios. In: A arte de inventar o passado: Ensaios de Teoria da História. Bauru: EDUSC, 2007.
FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a genealogia e a história. In: Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. 23. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2007, p. 15-37.
RAGO, Margareth. Foucault e as artes de viver do anarco-feminismo. In: RAGO, Margareth; VEIGA NETO, Alfredo. Figuras de Foucault. Belo Horizonte: Autêntica, 2006, p. 165-175.
______. O Efeito Foucault na Historiografia Brasileira. Tempo Social – Revista de Sociologia da USP, São Paulo, n. 7, p. 67-82, out. 1995. Disponível nesta página (versão arquivada). Acesso em: 16. abr. 2008.






É fato: no último verão europeu, Putin não conseguiu avançar grande coisa com sua invasão criminosa e injustificada à Ucrânia. Óbvio que foi mais território que nos outros anos, mas uma área extremamente irrisória pra seu objetivo último de capturar Zelensky e sem ruptura maior na frente de batalha nem captura de grandes cidades estratégicas (fora um ou outro ponto logístico). Pior, nunca morreram ou se feriram tantos militares russos quanto no ano de 2025, em comparação com os três anteriores; e estima-se que só as baixas invasoras já são muito maiores que as ucranianas. O império da mentira é tão descarado que, enquanto o Estado-maior do agressor anuncia com fanfarra a tomada de uma cidadezinha lá no fim do mundo, os próprios blogueiros pró-guerra (chamados de “Z-voienkory”), cobrindo no local, negam as informações dos mestres! (Não duvido que esses sabujos um dia vão se lascar quando o Kremlin resolver estabelecer o monopólio da propaganda...)

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