sábado, 19 de setembro de 2026

Memória dos comunistas no Brasil, 1922-60

Este texto em formato de ensaio foi inicialmente destinado à publicação nos anais de um encontro periódico do Centro de Memória da Unicamp (CMU), ocorrido no final de julho de 2026 e no qual eu devia, num dos grupos de trabalho, fazer uma apresentação oral sobre o tema proposto. O título completo é “A memória dos comunistas no Brasil e as operações de lembrança/esquecimento no PCB (1922-1960)”, e meu objetivo era relacionar, de modo meio superficial, as operações de “lembrança” e “esquecimento” voluntários sobre fatos e pessoas nos países e partidos comunistas, em particular no Partido Comunista Brasileiro, a algumas reflexões dos historiadores Aleida Assmann e Pierre Nora. Porém, como não pude comparecer ao evento, o “oral” ficou na vontade e o artigo foi literalmente pros “anais”, ou seja, esta página, rs. Não sei se o CMU vai publicá-lo oficialmente, mas seja como for, ei-lo na íntegra:



Resumo: Inaugurado pela Revolução Socialista de Outubro na Rússia imperial, em novembro de 1917, sob a liderança de Vladimir Ulianov (Lenin), o movimento comunista internacional apresentou uma peculiaridade em relação a outras ideologias, regimes e partidos políticos, a saber, a dependência em modelar as representações sobre si mesmo, a constante mudança nas narrativas oficiais e a cisão radical entre passado e presente. O Partido Comunista do Brasil (PCB), tendo surgido em março de 1922 sob o influxo das notícias a respeito do triunfo dos bolcheviques sobre a monarquia tsarista, moldou-se conforme os mesmos procedimentos e sofreu diversas reviravoltas influenciadas, de acréscimo, pelas próprias lutas internas e pela conjuntura nacional. Muito já se escreveu e se pesquisou sobre a história propriamente programática e organizativa do PCB e, com menor frequência, sobre os detalhes de suas ligações materiais e institucionais com a Internacional Comunista (Comintern) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), mas o mecanismo que levava a viradas discursivas tão bruscas constitui um filão a se explorar. Inspirada em escritos clássicos de Pierre Nora e Aleida Assmann, esta comunicação traz as “operações da memória” como um possível ponto de partida nesse sentido, considerando-se a interação dialética entre a “lembrança” dos momentos de glória e o “esquecimento” das derrotas e dos militantes caídos em desgraça.
Palavras-chave: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas; Partido Comunista do Brasil (PCB); operações da memória.


A instauração do regime bolchevista na Rússia em 1917-18 e a fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 1922 no espaço do antigo império tsarista representou, na mente de seus promotores, um corte brusco com o passado capitalista e plutocrático predominante no resto do mundo e a abertura de novas possibilidades para forjar uma “nova humanidade” no bojo de uma economia socialista. Desde o triunfo de Vladimir Lenin e de seus partidários, a criação de uma narrativa histórica representando a monarquia pretérita como um ambiente retrógrado, opressivo e irracional e a “ditadura do proletariado” em construção como o apogeu da ideologia marxista e o início do domínio das classes trabalhadoras sobre os meios de produção e sobre a organização política deixou uma rica literatura e se tornou o dogma do partido comunista agora único.

Enquanto a dura realidade dos tempos da guerra civil e dos anos de privações legavam um cenário distante do ideal pretendido e a gradual ascensão de Iosif Stalin e seu grupo a partir da morte de Lenin (1924) até 1929 tolhia os “velhos bolcheviques” tanto dos cargos no Estado quanto do registro oficial dos heróis, a conquista do poder transformou-se rapidamente em conquistas de corações e mentes no país e no exterior. Essa verdadeira “operação de lembrança/esquecimento” empreendida pelo Kremlin teve como objetivo principal a formação de um discurso bem articulado sobre a história da construção do Estado soviético e a tentativa de controle absoluto sobre sua representação interna e externa, em um esforço obsessivo que provavelmente não teve precedentes em outros regimes, mas faria escola nos séculos 20 e 21.

Com a criação da Internacional Comunista (Comintern, ou 3.ª Internacional) em 1919, buscou-se coordenar a partir de um único centro a plêiade de grupos e partidos que começavam a abandonar a herança social-democrata ou simplesmente surgiam do zero em apoio à revolução proletária na Rússia e à ideologia leninista. O novo organismo valeu-se de seus congressos mundiais para popularizar as “conquistas” do regime e moldar a organização dos membros conforme a mesma “operação da memória” realizada na URSS, isto é, uma rigorosa supervisão sobre a escrita da história do movimento comunista em cada país e a transmissão, de cima para baixo, do que os partidos comunistas deveriam relatar sobre as realizações de Stalin aos públicos nacionais. Mais do que o procedimento em si, chamam a atenção as viradas bruscas da narrativa dominante e a necessidade de racionalizá-las junto ao povo soviético e, parte mais difícil, junto aos militantes estrangeiros, que, embora pouco soubessem da realidade cotidiana sob o socialismo, possuíam outra vivência com a qual comparar a “Vulgata” padronizada.

Assim, em sequência, inúmeras viradas, algumas de 180 graus, e resoluções em aparente contradição com a doutrina marxista tomaram tempo e energia enormes na criação de representações convincentes: a política de apoio às forças antifascistas no Ocidente após o combate à social-democracia (1935), os “grandes expurgos” de 1936-38, o pacto de não agressão com a Alemanha nazista (1939), a guerra de defesa nacional (1941), a dissolução da Comintern “na canetada” (1943), o grande pacto com as potências capitalistas (1944-45), a transformação da zona soviética de influência na Europa Central e Meridional em satélites autoritários (1948) e a invasão da Coreia do Sul por Kim Il-sung (1950). E a lista se limita ao período anterior à morte de Stalin (1953), pois o tratamento sinuoso da memória não mudou bruscamente sob o comando de Nikita Khruschov (1953-1964): “coexistência pacífica” com o mundo capitalista, denúncia aberta dos crimes do stalinismo (1956), repressão sangrenta da revolta na Hungria (1956), a “crise dos mísseis” que minou a credibilidade de Khruschov no PC soviético (1962) e a ruptura com a China maoista (década de 1960) – tudo envolto pela mística criada em torno das primeiras vitórias diante dos EUA na “corrida espacial”.

Surgido em 1922 em um meio político, cultural e operário sem um sólido movimento marxista prévio, inicialmente animado por intelectuais, profissionais liberais e poucos operários, o Partido Comunista do Brasil (PCB – a partir de 1961, Partido Comunista Brasileiro) reuniria espontaneamente os simpatizantes nacionais da revolução bolchevique e mimetizaria os passos de Lenin e Stalin, começando por sua adesão à Comintern em 1924. Desde o início, expiar o passado, demarcar-se dos inimigos, explicitar as profissões de fé e tratar os debates políticos-ideológicos, basicamente, como uma questão de “sim ou não”, foram escolhas que condicionaram seu combate aos anarquistas, a precoce expulsão do “pró-maçom” Antonio Bernardo Canellas, a cisão de Joaquim Barbosa contra a instrumentalização dos sindicatos (1928), a rejeição das insurreições militares daquela década e, a partir de 1929, a renegação da geração de fundadores (notadamente Astrojildo Pereira e Octavio Brandão) varrida pela “stalinização” incondicional do movimento. A partir de 1930, a despeito das tratativas em curso na cúpula da Comintern, o Capitão Luiz Carlos Prestes e o “prestismo” tornaram-se a encarnação do “radicalismo pequeno-burguês”, e a rejeição ao golpe da Aliança Liberal, conjugada com a intervenção dos enviados de Moscou no Comitê Central, ajudou o PCB a forjar uma identidade própria, contraposta às outras esquerdas, e isolou-o do cenário político nos poucos anos seguintes.

Cada virada tática da Comintern que o PCB procurava seguir, inclusive por intermédio do Secretariado Latino-Americano (SLA/IC) sediado em Moscou e do Secretariado ou Birô Sul-Americano (SSA/IC, BSA/IC), era acompanhada de uma “releitura” da história partidária mais recente e de um requisitório apontando os novos “inimigos” que teriam induzido os comunistas a erro. Assim, as lutas intestinas dilaceraram o partido na primeira metade da década de 1930; a social-democracia (ou o que quer que se achasse de mais semelhante a ela no Brasil) passou a ser o inimigo principal; redimido do “prestismo”, leia-se “stalinizado”, Prestes foi admitido – e imposto – como o mais novo florão do bolchevismo tropical; a tática de “frentes populares” por meio da Aliança Nacional Libertadora (ANL) trouxe o fascismo – no caso, o integralismo – de volta à mira; após o quase desaparecimento do PCB sob o Estado Novo, a 2.ª Guerra Mundial e a aliança entre a URSS e o Ocidente democrático impeliram à “união nacional” em torno do outrora execrado Getúlio Vargas. Ressignificações que culminaram na legalidade e sucesso eleitoral inéditos de 1945 a 1947, quando a “luta de classes” passou a segundo plano, apenas para chegar a nova clandestinidade sob Eurico Dutra com a eclosão da “guerra fria” e o alinhamento brasileiro com os EUA.

A memória sobre os feitos passados e as realizações presentes sempre foi a maior vítima das bruscas oscilações do PCB entre radicalismo e moderação, tão criticadas por observadores internos e externos. A linha ultraesquerdista do “Manifesto de Agosto” (1950) não trouxe mais frutos do que a recepção acrítica dos mais diversos elementos e a baixa da guarda perante as autoridades no quinquênio anterior, e a passagem imediata dos ataques a Vargas enquanto presidente constitucional para a tentativa de capitalizar sua popularidade após o suicídio (1954) expôs o improviso reativo da cúpula partidária. Em 1956, os impulsos sucessivos do degelo político promovido por Juscelino Kubitschek e da recepção e deglutição desastradas do “relatório secreto” de Khruschov escancararam ainda mais a não antecipação das brechas de abertura: Diógenes Arruda, controlador do aparelho do PCB e de sua linha ideológica, tornou-se o “bode expiatório” de todos os males derivados do isolamento que teria imposto a um Prestes ainda na mira da Justiça; vários militantes fiéis subitamente renegaram o comunismo aos quatro ventos e transmutaram-se em “democratas” e “antistalinistas”, deixando as fileiras para buscar um marxismo “renovado” e organizar-se de modo “não burocrático”. Foi apenas o primeiro capítulo de uma disputa interna em que Prestes, privado ante as novas gerações de sua velha aura de “Cavaleiro da Esperança”, perdeu o controle sobre outros dirigentes e em que o gradual declínio do prestígio da URSS e a atração exercida pelos modelos das “guerrilhas” e das lutas anticoloniais impuseram novos desafios ideológicos.

Esta comunicação tem por objetivo analisar parte da história do PCB sob a ótica do que, nos rastros de Pierre Nora (NORA, 1984) e Aleida Assmann (ASSMANN, 1999), poderiam chamar-se “operações da memória” (CHARTIER, 2021) dentro de uma dialética de lembrança dos momentos considerados fortes na trajetória partidária e, sobretudo, de esquecimento – mais semelhante a um apagamento seletivo e sistemático – dos “erros” passados, das figuras caídas em desgraça e de outros aspectos em evidente contradição com um presente expurgado e autojustificado. Tendo sido já muito estudadas a própria história institucional do partido e as mudanças táticas conforme as viradas na Internacional Comunista, na URSS e na conjuntura política brasileira, constituem interessante objeto passível de estudo próprio os mecanismos que visavam legitimar essas mudanças por meio de representações e rótulos, a velocidade com que se processavam as transformações e a abundância simbólica deixada pelos comunistas em forma de textos e imagens. À maneira do regime soviético, cuja legitimação simbólica era tão ou mais importante do que sua aprovação pelas realizações e pelos benefícios sentidos pelo povo, os partidos comunistas mimetizaram, durante e depois da existência da Comintern, as mesmas “operações da memória” para criarem a imagem que queriam ter de si próprios e dividirem o mundo entre “mocinhos” e “bandidos”, categorias facilmente intertransitáveis.

O jurista e revolucionário marxista (social-democrata) russo Vladimir Ulianov (1870-1924), no mais das vezes escrevendo sob o pseudônimo “Nikolai Lenin” e passado à história como Vladimir Lenin, não poupava adjetivos e invectivas quando debatia politicamente com adversários ou mesmo aliados. Na juventude, suas leituras de Nikolai Chernyshevski, notadamente do livro Que fazer?, moldaram seu projeto exclusivista de revolução proletária – ele mesmo jamais tendo trabalhado em uma fábrica – e seu modelo de partido baseado na dedicação integral, consciência inculcada “de cima para baixo” e tomada violenta do poder. Mais do que traçar uma visão ideal de sociedade futura, seus escritos polêmicos visavam dotar a social-democracia russa de uma ideologia robusta, refutar pontos de vista que julgava errôneos e estabelecer as táticas para a ação política e revolucionária mais imediata.

Assim, fosse na Rússia imperial, fosse no exílio centro-europeu ou mesmo no país natal em convulsão social, Lenin não conhecia limites relacionados à proximidade pessoal ou à inventividade em suas representações do interlocutor: assim, o ainda menchevique Leon Trotsky teria sido chamado de “Judas” (*) durante os embates no exílio em 1911 (LENIN, 1973, p. 96), enquanto o então “papa” do movimento marxista internacional, ao criticar o rumo autoritário seguido por Moscou, foi respondido com a nada lisonjeira brochura A revolução proletária e o renegado Kautsky. E indo além, resgatou o termo empregado pelo jovem Marx e renomeou seu próprio movimento como comunista, almejando não mais somente humanizar o capitalismo ou adiar a revolução para as calendas gregas, ao contrário da “carcomida” social-democracia, mas lutar ativamente pela sociedade sem classes, pelo comunismo.

(*) A própria história desse manuscrito revela como as inúmeras reedições das Obras completas de Lenin e de Stalin durante décadas na URSS refletem a imagem que os próprios sucessores queriam deixar dos dois líderes. Datado de 1911, ele permaneceu entre os papéis pessoais de Lenin, que nunca o tinha divulgado, até 1932, quando o jornal Pravda o publicou bem em meio ao processo de eliminação de qualquer dissidência. Denominado “Sobre o enrubescimento do Iudushka Trotsky”, faz uma referência ao personagem Iudushka Golovliov, do romance A família Golovliov, publicado pelo romancista russo Mikhail Saltykov-Schedrin em 1880. Em qualquer polêmica pública na virada do século, associava-se a alcunha “Iudushka” à personalidade hipócrita e traiçoeira do personagem do livro, referência entendida pelos cultos da época, mas provavelmente não pelas bases bolcheviques da década de 1930. Portanto, a matreira publicação – perpetuada nas edições das Obras de Lenin – do manuscrito e a associação velada não a Saltykov-Schedrin, mas diretamente ao Judas bíblico, pode ter sido toda uma fabricação de Stalin. Cf. “pravda1917” (pseud. de Aleksandr Maisurian). O mito sobre o “iudushka”. Materiais. In: MAISURIAN, Aleksandr. Товарищ Троцкий [Camarada Trotsky] (blog em russo). [S. l.], 7 jul. 2014. Disponível nesta página. Acesso em: 9 abr. 2026.


Como toda revolução política, decalcada no modelo da Revolução Francesa (mais especificamente na tomada da Bastilha em 1789), os bolcheviques russos buscaram criar uma completa cisão entre o passado “feudal”, “monárquico” e “reacionário” e o presente/futuro “socialista”, “científico”, “proletário”. Não bastavam o poderio militar tsarista, a robusta industrialização incipiente, as conquistas científicas do século anterior e a relativa autossuficiência das unidades camponesas: importava, sobretudo para a propaganda externa, exorcizar o predomínio do “arado de madeira”, a tirania dos grandes proprietários de terra e o obscurantismo da monarquia ortodoxa. Pouco incomodavam o apoio logístico e financeiro do Kaiser alemão a Lenin, a acefalia que permitiu aos bolcheviques “arrombarem as portas abertas” do Palácio de Inverno, a derrota na Assembleia Constituinte – e sua posterior dissolução, que não encontra nenhuma outra justificativa –, a invasão da Polônia e a repressão cruenta do levante de Kronstadt. O “golpe de outubro” recebeu massivo apoio operário, o “poder soviético” tirou a Rússia da “guerra interimperialista”, a supressão das liberdades políticas e econômicas (o “comunismo de guerra”) justificava-se pelo cerco internacional e pelas tentativas de restauração e a manutenção dos povos eslavos orientais e não eslavos no mesmo território do antigo império foi “voluntária”, apesar da persistente centralidade russa. De episódios cuidadosamente selecionados e articulados, era um discurso voltado especialmente a jogar mais lenha na fogueira revolucionária da Europa destruída pela guerra mundial e tirar a “fortaleza sitiada” do isolamento.

A guerra civil, bem como a má gestão da economia, provocou no início da década de 1920 a primeira grande fome entre os camponeses, e rapidamente campanhas em prol dos “famintos do Volga” comoveram o Ocidente, com destaque para o trabalho de propaganda do empresário e milionário comunista alemão Willi Münzenberg e citada inclusive como moção na ordem do dia da sessão que fundou o PCB. A solidariedade nos meios intelectuais e progressistas foi suficiente para obnubilar as requisições necessárias para alimentar a frente de batalha e as cidades necessitadas – traindo, assim, as promessas de redistribuição da terra feitas aos camponeses – e as execuções sumárias de quem se recusasse pela Cheká, embrião do NKVD e, depois, do KGB.

Com o fim da insurreição europeia e a crescente debilidade física de Lenin, o massivo exílio forçado de pensadores dissidentes e o relativo recuo da “nova política econômica” (NEP) não abalaram a fé dos novos comunistas ao redor do mundo, facilmente propensos a aceitar cegamente a narrativa de Moscou e sem ligações físicas ou pessoais com a Rússia/URSS, de forma que o hoje chamado “viés de confirmação” sobrepunha-se à verificação fatual. A partir daí, uma estratégia que faria escola durante o século 20 trabalhou essa “operação da lembrança” não somente entre militantes, mas também entre os “companheiros de viagem” simpatizantes: as viagens programadas e enquadradas pelas autoridades (TÔRRES, 2013), com total protagonismo das realizações reais ou imaginadas do “poder soviético” e mínimo contato direto com a população comum.

Em meio à ritualização dos funerais de Lenin promovida por Stalin e à transformação dos escritos de ambos em teoria canônica, renegando todos os teóricos pretéritos (exceto, claro, Marx e Engels) e engessando os futuros, a Comintern continuou a auxiliar na fundação de partidos comunistas em outros continentes. Embora os quatro primeiros congressos vivessem um clima de considerável debate, a partir de 1925 a opção pela chamada “bolchevização” representou uma política de decalque da organização soviética, sem a possibilidade antes aventada de adequar o “leninismo” a cada realidade local. Assim, a Internacional tornou-se progressivamente uma mera correia de transmissão da tática staliniana, tratando os partidos como simples “seções”, em contraste com a autonomia desfrutada na Segunda Internacional social-democrata, e facilitando seu uso como arma de influência e propaganda ideológicas, de fato uma verdadeira “diplomacia paralela” concorrente com o próprio Ministério do Exterior soviético.

A prática da autocrítica, que Lenin recomendava a todo comunista, acabou tornando-se um instrumento de poder dos dirigentes partidários sobre suas bases e do PC da URSS sobre todos os outros membros da Comintern: líderes e precursores estavam sempre certos, portanto, eles exigiam dos demais uma verdadeira expiação ritual pública, impondo-lhes de fato as próprias viragens teóricas e “esquecimentos” deliberados. Na década de 1930, quando Stalin já detinha o poder absoluto em Moscou, tomaram uma forma brutal a marginalização de seus opositores políticos, a justificação das políticas de coletivização agrícola forçada e aceleração industrial – ambas com altos custos humanos –, a exigência de alinhamento incondicional e o desmantelamento de avanços societários que haviam imprimido uma fachada de progresso à década anterior.

Assim como Stalin não precisava justificar-se perante seu próprio povo, os comunistas no exterior deviam racionalizar como pudessem as incontáveis mudanças na política exterior soviética, e nesse carrossel a Comintern perdia gradualmente sua importância, pois os “enviados plenipotenciários” já eram expedidos in loco para garantir nos partidos mais importantes a aplicação da política vigente, ou seja, a fidelidade acrítica. Após o 5.º Congresso Mundial em 1924, o sexto só se reuniria em 1928, e o sétimo e último em 1935, quando subitamente a ordem do conclave anterior de aplicar o golpe principal na social-democracia foi substituída pela diretiva de aliar o máximo possível de forças progressistas visando combater o nazismo e o fascismo. É verdade que o isolamento autoimposto pelos comunistas tornou-lhes vulneráveis à repressão de regimes cada vez mais reacionários, mas ainda assim era difícil “desradicalizar” as mentes educadas sob o exclusivismo stalinista.

Enquanto em países com pujantes movimentos antifascistas, como a França e o Brasil, as “frentes populares” conservaram seu apelo mesmo após o chamado “pacto Molotov-Ribbentrop” de não agressão entre a Alemanha e a URSS, a proibição repentina de condenar Adolf Hitler e Benito Mussolini desorientou em definitivo muitos militantes. Ao mesmo tempo, os estrangeiros trabalhando para a Comintern viram-se engolidos pelo turbilhão dos “grandes expurgos” de 1936-38, em que os “velhos bolcheviques” tornaram-se “inimigos a soldo do exterior” e foram condenados pelo mero dissenso ou por crimes inventados. Jamais na história se pôde imaginar tantas mudanças de narrativa em um regime político, passíveis de pôr em risco a vida de cidadãos comuns da noite para o dia e que também concerniam a grupos externos que se arrogaram a missão de “fazer como na Rússia”, mas não tinham tempo de internalizar as mudanças de humor na “pátria do socialismo” sobre o que eram o bem e o mal.

Para quem não engoliu a pílula do retorno ao radicalismo vigente, em tese, de 1928 a 1935, não foi difícil entender a invasão alemã à URSS em 1941 – embora a expansão moscovita na Finlândia, nos Bálticos e na Polônia tenha sido rapidamente “esquecida”, isso quando foi realmente conhecida, omissão que predomina até hoje – e o combate de vida ou morte contra o Eixo. Porém, mais desafiador foi explicar a aliança de Stalin com as grandes potências capitalistas e imperiais, contra as quais ele imprecava desde a Revolução de Outubro e que ele responsabilizava por ambas as guerras mundiais, mas que o ajudariam incondicionalmente a derrotar Hitler em 1945. Embora alguns comunistas, incluindo alguns brasileiros e com o PC dos EUA de Earl Browder à frente, julgassem a própria existência de seus partidos “injustificável” perante a nova conjuntura internacional, a eclosão da “guerra fria” em 1947 frustrou todas as expectativas quanto a uma convivência harmoniosa entre regimes capitalistas e socialistas.

O afastamento dos comunistas da vida política ou mesmo sua criminalização em muitas nações ocidentais, após vitórias eleitorais inéditas que capitalizaram a vitória soviética e inclusive sua entrada em efêmeros “governos de união nacional”, muitas vezes levou novamente a uma radicalização que somente comprovava a dificuldade da extrema-esquerda em criar uma narrativa coerente e duradoura. Mais ziguezagues comprovam como as “operações da memória”, por mais insidiosas que fossem, convenciam cada vez menos os espíritos mais esclarecidos: da nova onda de repressões na década de 1950 – interrompida com a morte de Stalin – à abertura comandada por Georgi Malenkov e Nikita Khruschov, que iniciaram o desmantelamento do GULAG; da denúncia espetacular dos crimes stalinistas – cujos cúmplices, em sua maioria, ainda estavam vivos – à intervenção violenta na Hungria, ambos em 1956; da ruptura com a China de Mao Zedong, que criticava justamente o “revisionismo” quanto à possibilidade de coexistência pacífica entre os dois “blocos”, à cada vez maior concentração de poderes nas mãos do primeiro-secretário.

Tanto a história da URSS e do PC soviético quanto a trajetória do PCB podem ser analisadas entre os anos de 1922 e 1960 como um mesmo período internamente coerente, abarcando a consolidação do “poder soviético” e a crise do modelo estatal e governativo legado por Stalin, sob os quais a ideologia comunista também se espalhou ao redor do mundo na forma de partidos operários e produções intelectuais anticapitalistas. 1922 foi igualmente o ano de criação do PCB, que desde o início retratou-se como um salto qualitativo na organização proletária, contra um anarquismo que já estaria deixando de alcançar vitórias, embora vários de seus fundadores, entre eles Astrojildo Pereira e Octavio Brandão, tivessem começado a militância radical enquanto anarquistas. Pouco espaço na narrativa dos comunistas é dedicado aos primeiros leitores de Karl Marx no Brasil – que remontam ao fim do século 19 –, aos primeiros congressos operários no início do século 20 e aos efêmeros “partidos socialistas” fundados por intelectuais reformistas. Apesar das constantes acusações de atuarem “a soldo de Moscou” – o que o PCB nunca negou categoricamente, até porque o financiamento soviético era crucial –, o partido só foi aceito plenamente na Comintern em 1924, contrariando narrativas tanto sobre sua “implantação” a partir da URSS quanto sobre a real importância que era dada ao Brasil no processo da revolução mundial.

A adesão ao PCB era vista como um “novo nascimento”, e o comunista devia fazer tábula rasa do passado e renegar todas as suas adesões anteriores: anarquismo, catolicismo, sindicalismo, socialismo, positivismo, todos inferiores à “ciência da revolução proletária” que constituía o marxismo. Por isso mesmo, filiar-se era como trocar de família e incorporar uma nova essência, e romper ou ser expulso significaria perder todo o chão ontológico, toda a orientação existencial. Contudo, defecções e excomunhões foram muito mais comuns do que o desejado e chegaram a fazer parte da rotina partidária e dos pavores cotidianos de cada militante. Antonio Bernardo Canellas foi expulso ainda em 1923, quando foi responsabilizado pela não aceitação do PCB na Comintern no ano anterior, acusado de apoiar os comunistas franceses favoráveis à aceitação de maçons no movimento, algo categoricamente rejeitado por Trotsky. Em 1928, Joaquim Barbosa, um dos fundadores do partido, dirigente sindical e crítico do uso instrumental que os comunistas desejavam fazer dos sindicatos, liderou uma cisão conhecida como “Oposição Sindical”, a primeira grande saída em massa da agremiação. Por fim, acusados de não aplicarem plenamente a linha de Stalin, Astrojildo Pereira e Octavio Brandão, dois dos principais teóricos e presenças constantes em Moscou, perderam seus postos de lideranças e tiveram suas ideias oficialmente condenadas pela Comintern em 1929, mesmo período em que Leôncio Basbaum, um dos fundadores da organização juvenil, também enfrentou problemas. Todas essas figuras eram silenciadas nos relatos históricos oficiosos ou as linhas que lhes eram dedicadas justificavam a posteriori a condenação dos “erros” e do atentado à “unidade” e à “disciplina”.

A década de 1930, turbulenta no tocante à política interna brasileira, também marcou a aplicação explícita da uniformização stalinista, já em curso nos partidos da Europa, e a inconstância na formação dos organismos dirigentes. Primeiramente, já vítimas de todo um requisitório elaborado pelo PC soviético, os trotskistas revelaram-se discretamente no Brasil, até entrarem em choque completo com a direção e tentarem formar seu próprio movimento, que jamais obteria a mesma influência no país; o próprio adjetivo “trotskista” – assim como o epíteto “titoísta” a partir de 1948 – passaria a ser uma pecha lançada ao sabor das ocasiões. A seguir, “enviados plenipotenciários” vieram diretamente de Moscou, destacando-se o casal August e Inês Guralski, para reestruturar o PCB por cima dos próprios secretários-gerais, que se sucederiam aos montes no início da década, enquanto a ditadura de Vargas perseguia implacavelmente o movimento operário independente. A rotatividade só terminou quando assumiu Antônio Maciel Bonfim, partidário da coluna militar que havia percorrido o sertão na década anterior sob a liderança do Capitão Luiz Carlos Prestes, ele mesmo se encontrando na URSS para receber uma formação de líder partidário. Em um movimento discursivo típico daqueles tempos, o “prestismo” enquanto “ideologia da pequena burguesia radicalizada” e a adesão do ex-militar ao partido eram rechaçados publicamente, enquanto o “novo” Prestes stalinizado, na verdade em contato com literatura soviética desde o exílio na Bolívia, preparava-se para encarnar outros tempos: sem histórico anarquista ou socialista, com prestígio popular considerável e observando in loco a “edificação socialista”.

A Comintern, na figura do secretário Dmytró Manuilsky, literalmente impôs a filiação do “Cavaleiro da Esperança”, apesar das persistentes resistências no Brasil, a quem se devia convencer do caráter pretérito do “prestismo”, e os documentos oficiais do PCB rapidamente refletiram a mudança de opinião. Por volta de 1935, mais difícil era decidir se o país deveria passar por uma revolução violenta ou por governos radicais de transição antes de instituir o socialismo. Enquanto uma decisão não era tomada nem em Moscou, nem no Rio de Janeiro, o discurso disruptivo passou a conviver com uma prática mais flexível, imposta pelo aumento da repressão varguista, pela ascensão do integralismo e pelo surgimento da ANL (Aliança Nacional Libertadora), uma ampla frente antifascista sem distinção de classe ou ideologia. Vista como a encarnação nacional da linha de “frentes populares” da Comintern, foi animada sumamente pelos comunistas, que sequer precisaram se preocupar com uma “autocrítica” da tática anterior “errônea”. Mas o caráter ambíguo do “governo popular nacional e revolucionário” que no papel substituía a “revolução socialista” também comportou os levantes militares de novembro de 1935, ele mesmo assimilado de modos diversos: um “levante antifascista”, uma “precipitação radical” ou, para o status quo, uma “tentativa de golpe comandada diretamente da URSS”, visões essas em confronto durante todo o século 20.

A prisão de Prestes no início de 1936 proporcionou ao PCB um símbolo para seu combate à ditadura nos anos seguintes, apesar dos constantes desmantelamentos do aparelho e das sucessivas prisões de dirigentes, o que levou o partido à inexistência prática até a conferência de reorganização em 1943. Enquanto militantes como Octavio Brandão, exilado desde 1931, ajudavam a irradiar propaganda e materiais traduzidos, diretamente da “pátria dos trabalhadores”, e sofriam as agruras da invasão alemã, os comunistas brasileiros repartiam-se entre “Comitês Centrais” isolados uns dos outros, espalhados por cidades tão díspares quanto São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Realidades tão distintas quanto a vivência soviética, a prisão e a clandestinidade se chocariam no momento de reconstruir o PCB, no ocaso do Estado Novo, levando a um verdadeiro compromisso: a elevação de Prestes ao supremo posto de secretário-geral (que só assumiria com a anistia em 1945) – que também coroava o afluxo de ex-oficiais dissidentes do “tenentismo” –, a manutenção da fidelidade a Stalin – apesar das tendências “liquidacionistas” em meio à euforia dos avanços aliados – e a marginalização definitiva da “geração fundadora” em prol de dirigentes mais jovens, temperados no combate antifascista e com grande presença de nortistas e nordestinos. Nem na reorganização de 1943, nem na legalização de 1945, novamente nenhum balanço detalhado do período imediatamente anterior ou o devido reconhecimento a cada personalidade em separado.

Para o PCB, pareceu muito fácil mudar seu discurso ou sua linha oficial ao sabor da conjuntura nacional, que com a eclosão da “guerra fria” lhe foi extremamente desfavorável: afluência desordenada de afiliados e “conciliação com o capitalismo” em 1945, condenação do governo “fascista” do presidente Eurico Dutra após a cassação do registro partidário pelo TSE em 1947 e radicalismo antissistema marcado pelo “Manifesto de Agosto” em 1950 – coincidindo com o ápice do controle stalinista sobre a URSS e sobre os novos regimes europeus nela decalcados. Em cinco anos, a “colaboração” tornou-se “insurreição”, mantendo-se inexplicavelmente o arsenal teórico da extinta Comintern sobre o “etapismo” da revolução nos países “coloniais e semicoloniais”, até a vibração causada pelo nacionalismo desenvolvimentista e o clima de relativo arejamento político sob o presidente Juscelino Kubitschek suavizarem gradualmente a combatividade pecebista. Quase ao mesmo tempo (1956), o impacto do “relatório Khruschov” renegando a herança de Stalin causou um racha entre os comunistas brasileiros, mas o equilibrismo de Prestes junto a um grupo “centrista” pragmático conseguiu afugentar os mais críticos, apaziguar os mais aferrados à ortodoxia e simplesmente acompanhar os ventos de Moscou, mantendo o suporte material e a dependência ideológica. O PCB via-se obrigado a repensar-se em meio à transformação do próprio movimento comunista internacional – em que às reformas soviéticas somavam-se a ascensão chinesa e a novidade cubana – e à estabilidade geral dentro do capitalismo vigente na segunda metade da década de 1950.

No período anterior ao golpe de Estado de 1964, o 6.º Congresso do partido (1960) foi o último momento em que ocorreu uma abrangente “operação da memória”, lembrando aquilo que se julgava conveniente e esquecendo aquilo que obscurecia as vitórias. O impacto gerado pelas revoltas e reviravoltas no bloco soviético em 1956 foi absorvido como uma mera “correção de rumos” do governo Khruschov, sem uma análise global do que havia levado vários membros, sobretudos intelectuais, a deixarem o PCB nem uma tentativa de compreender o desfecho violento na Hungria – “conspiração do imperialismo” era a resposta padrão. A acolhida do “nacional-desenvolvimentismo” como linha político-econômica geral e a consequente tática sempre mais próxima do reformismo surgiram como que por inércia, sem um trabalho com as correntes mais à esquerda que persistiam – o que foi determinante no surgimento do PCdoB – nem uma avaliação realista do clima político, julgado bastante tranquilo para uma atuação menos dissimulada. Em 1961, os atos finais do período foram a mudança do nome do partido (“do Brasil” para “Brasileiro”) sem mudança de sigla, visando à legalização e a uma imagem mais “nacional”, e a expulsão dos últimos “stalinistas” e (como se autodenominavam) “antirrevisionistas”, verdadeiro recalque de tensões que Prestes e seu “núcleo dirigente” simplesmente não queriam encarar de frente.

Com esta comunicação, pretendeu-se aplicar parte das reflexões sobre a memória e as operações conscientes e inconscientes de sua manipulação teorizadas por Pierre Nora e Aleida Assmann às transformações ideológicas e ao apontamento de “heróis” e “inimigos” nas histórias da União Soviética – e, por extensão, da Internacional Comunista – e do Partido Comunista do Brasil de 1922 a 1960. Nesse espaço, era constante a tentativa de eternizar certas lembranças sobre fatos e características pessoais úteis na promoção da causa e ocultar, com maior ou menor sucesso, políticas fracassadas e críticos da direção que pudessem descreditar as ideias de Lenin e Stalin perante o público externo ou, o que exigia controle, perante o público interno. As “viradas de página” eram feitas do modo mais suave e imperceptível possível, mas não somente os observadores mais argutos percebiam as intervenções simbólicas “in the making”, como também o passado que se procurava expurgar, apagar ou formatar sempre deixava rastros reaproveitados por futuras dissidências e, sobretudo, pela historiografia acadêmica. No Brasil e na URSS, o esforço discursivo que acompanhou a luta propriamente política pela implantação de uma sociedade sem classes também foi uma forma de luta política, com seus próprios métodos, funcionários, regras e códigos, infelizmente ainda pouco estudada enquanto tal e quase sempre deixada como caudatária da rotina burocrática e das disputas pelo poder dentro dos partidos e entre eles e o mundo circundante.


Bibliografia

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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Meses em ucraniano e em russo antigo

No final de agosto, retomei o curso de ucraniano online que parei no primeiro semestre de 2025, oferecido pelo câmpus da Unicentro em Irati, PR, em colaboração com a Representação Central Ucraniano-Brasileira (RCUB). Tinha começado no nível 2, mas por já estar estudando um livro há alguns meses, voltei no nível 3, ao qual estou me adaptando bem. Em ambas as ocasiões tive como professora a atenciosa Edina Smaha, com quem trabalhamos recentemente os nomes dos meses em ucraniano e sua relação com as estações do ano.

Quem já estudou alguma língua eslava sabe como os nomes dos meses são maçantes: não somente por que em algumas línguas, como o próprio ucraniano, eles são baseados no clima e na natureza de cada tempo, e não no calendário gregoriano (como em russo, búlgaro e sérvio), mas também porque um determinado nome pode designar um mês numa língua e outro mês em outra; às vezes, há meses gregorianos enxertados no meio dos “pagãos”. Mesmo assim, é interessante como os nomes ucranianos são bastante lógicos e descrevem exatamente a meteorologia de cada período. Em relação ao russo, as estações do ano sofrem apenas pequenas alterações. A imagem acima, usada pela Edina, divide os meses conforme essas estações, e não a partir de janeiro, o que pode confundir os brasileiros.

Uma das alunas fez à mão, na folha de um caderno, um esquema com os nomes de todos os meses organizados pelas estações do ano e acompanhados de sua origem etimológica. Decidi fazer uma versão digital, o que agradou à turma e deixou material pra eu publicar na página. Nem todo material aqui está transliterado, portanto, você tem que saber cirílico pra aproveitar completamente. Seguem abaixo a figura feita a partir da tabela Word e o texto digitado, pra quem preferir; cada palavra tem também sua vogal tônica sublinhada:



Atualização: Inspirado em minha tabela, outro colega de curso fez um incremento gráfico por IA que se tornou uma verdadeira obra de arte, dividindo os meses conforme as estações do ano, mas adicionando as transliterações e ampliando os comentários!



зима = invernoгрудень = dezembro
• грудка снігу = bola de neve

січень = janeiro
• сніг січе = a neve corta/está caindo

лютий = fevereiro
• лютий сніг = neve feroz
весна = primaveraберезень = março
• береза = bétula: árvore comum na Ucrânia

квітень = abril
• квіти = flores

травень = maio
• трава = grama, relva
літо = verãoчервень = junho
• червоні ягоди = frutas/bagas vermelhas

липень = julho
• липа = tília

серпень = agosto
• серп = foice: usada no mês de colheita
осінь = outonoвересень = setembro
• верес = urze: floresce em setembro

жовтень = outubro
• жовте листя = folhas amarelas

листопад = novembro
• листя падає = as folhas caem


Na Wikipédia, achei a curiosa informação sobre nomes dos meses em russo baseados no mesmo princípio! Eles são chamados de “arcaicos” ou “protoeslavos” (i.e. baseados em raízes reconstituídas), mas suas formas variam muito de acordo com a fonte. A primeira tabela (Wikcionário em inglês) é a mais próxima do ucraniano, exceto por berezozól, cognata de bérezen, e stúden, que alude ao frio, e não a uma bola de neve. Na segunda tabela (Wikipédia em russo), ao lado das formas modernas (direita), apresentam-se o que seria “russo antigo” (esquerda).

O site de literatura em que achei a terceira tabela apresenta o que chama de “nomes dos meses no calendário eslavo antigo”. Porém, acrescenta que “Os eslavos não tinham uma representação única da ordem e nome dos meses. Existe uma ligação entre os nomes e os fenômenos da natureza característicos de cada ciclo do ano.” Da esquerda pra direita, os títulos “Russo moderno”, “Russo antigo”, “Nomes populares russos” e “Língua eslava” (talvez reconstituída):







terça-feira, 1 de setembro de 2026

Octavio Brandão ataca PC do B (1963)

Em 28 de maio de 2015, segundo consta nos metadados dos dois arquivos de imagem que eu tinha guardados em meus backups, fotografei com a autorização do Arquivo Edgard Leuenroth da Unicamp (AEL/IFCH) o artigo datilografado “Dissidentes do PCB”, escrito por Octavio Brandão em 1.º de janeiro de 1963 e depositado no fundo que leva seu nome. Aquele ano era o segundo de meu mestrado e, assim como no doutorado, os papéis do comunista histórico brasileiro foram essenciais pra eu escrever minhas teses nos dois níveis, que tratavam das relações entre o Partido Comunista do Brasil (nome do PCB até 1961) e a Terceira Internacional (ou Comintern). Porém, por alguma razão, copiei o texto aparentemente inédito, mesmo sendo mais relacionado ao tema do TCC que defendi em fevereiro de 2012, ou seja, o impacto do “relatório Khruschov” de 1956 e da “desestalinização” soviética sobre o PCB de 1956 a 1961. Sobre este tema, já escrevi vários textos e já publiquei várias traduções aqui na página, portanto, vamos direto ao assunto.

Sem entrar no mérito teórico de sua interpretação do marxismo, mais precisamente do leninismo e da vulgata staliniana, Brandão teve uma vida venturosa antes e depois de seu ingresso no PCB. Farmacêutico de formação, o sertanejo alagoano fez vários estudos amadores sobre a geologia de seu estado e é considerado um dos pioneiros (esquecidos) na consideração da possibilidade de existir petróleo no subsolo brasileiro. Envolvido na militância anarquista após se mudar pro Rio de Janeiro, simpatizou com a revolução bolchevique e entrou no PCB meses após sua fundação. Foi o principal teórico do partido na década de 1920, quando tentou conciliar a revolução proletária com o envolvimento das classes médias radicalizadas, mas em 1929 caiu no ostracismo quando a Comintern impôs o exclusivismo classista e as insurreições imediatas.

Mesmo assim, Brandão conseguiu diversos postos técnicos voltados ao público latino-americano na Internacional, tendo fugido das precoces repressões de Getúlio Vargas e se exilado na URSS de 1931 a 1946. Lá, durante a invasão alemã, conheceu a evacuação pra distante cidade de Ufá, onde faleceu doente sua esposa, a poetisa Laura Brandão. De volta ao Brasil, sem jamais ter deixado ou sido expulso do PCB, Octavio nunca retomou postos de direção, e os diversos núcleos dirigentes que se sucederam parecem nunca ter reabilitado a importância de sua atuação. Porém, se analisarmos a abundante documentação deixada por ele, percebemos que sua colaboração política continuou frutífera e que talvez ele exagerasse a condição de pobreza e esquecimento da qual frequentemente se queixava em artigos na imprensa comunista. Seja como for, sofreu igual a todos os outros os golpes da repressão estatal, qualquer que fosse o regime, e faleceu em 1980, sempre fiel à linha pró-Moscou do “Partidão”.

Recentemente, sua biografia e sua obra teórica têm sido cada vez mais estudadas, embora o segundo volume de suas memórias, Combates e batalhas, que cobre o período posterior a 1945 e cujo manuscrito permanece no AEL, jamais tenha sido publicado. “Dissidentes do PCB”, cujas fotos também aparecem abaixo, é exemplar em vários aspectos, a começar pela menção nominal aos principais fundadores do futuro PC do B, que os exalta até hoje, em especial pela pena de historiadores como Osvaldo Bertolino e Augusto Buonicore. Também é notável que a cisão tenha começado pela tomada de um dos órgãos do partido, algo comum na história das esquerdas no século 20 e já tendo o precedente da discussão sobre o “relatório Khruschov”, iniciada sem a autorização “de cima” pela própria redação da Voz Operária.

É igualmente curioso como Brandão engole naturalmente as viradas moscovitas, como é o caso da relação com Stalin, falecido em 1953, que os “dissidentes” ainda veem como o único líder ainda certo, mas que o alagoano até tinha vergonha de citar, depois de cantar loas a sua pessoa por décadas. Outro destaque são as cisões antissoviéticas que começavam a ganhar força no mundo socialista: a China não é citada, mas a Albânia de Hoxha está aí (aliás, é o único caso em que vi Brandão o nomeando). E como cereja do bolo, as “contribuições” nos mostram a importância dos “fundões” quando não temos o almoço pago pela URSS... Atualizei a ortografia e parte da redação e adicionei umas poucas notas explicativas:





Os dissidentes do Partido Comunista do Brasil – Maurício Grabois, Pedro Pomar, João Amazonas e outros – foram expulsos como traidores e passaram a fazer uma série de manobras: realizaram uma “Conferência Nacional Extraordinária” em São Paulo, em fevereiro de 1962, adotaram o título de “Partido Comunista do Brasil”, lançaram um “manifesto-programa” e apropriaram-se d’A Classe Operária, órgão do PCB, jornal de tradições gloriosas desde 1925.

Esses dissidentes e traidores passaram a fazer uma obra de confusão. Atacaram, no papel, o revisionismo, o dogmatismo e o sectarismo, transcreveram opiniões de Lenin, fingiram defender o internacionalismo proletário, a União Soviética e a revolução cubana, lançaram frases contra o imperialismo norte-americano e a miséria dos operários e camponeses do Brasil.

Mas os dissidentes arrancaram a máscara, meses depois. Publicaram o retrato de Enver Hoxha na primeira página d’A Classe Operária de 1-15 de dezembro de 1962, com elogios a esse “talentoso e valente líder” e ao seu Partido do Trabalho da Albânia, “cuja fidelidade aos princípios do marxismo-leninismo não pode deixar de ser reconhecida por todos os que almejam o triunfo do socialismo no mundo inteiro”. Tais as palavras textuais.

A Classe Operária dissidente ignora o 20.º Congresso do PC da União Soviética. Em seu número de 16-31 de dezembro de 1962, canta um hino exaltado à personalidade de Stalin e transcreve um trecho do livro dele Sobre os Fundamentos do Leninismo. No mesmo número, os dissidentes hostilizam o compromisso da União Soviética e dos Estados Unidos, que evitou a invasão de Cuba e a guerra mundial termonuclear. Igualmente, no mesmo número d’A Classe Operária, aparece um artigo do antigo fascista-integralista Otto Alcides Olwheiler [sic pra Ohlweiler (1914-1991); deputado estadual pelo PCB do RS de 1947 a 1951, era químico e publicou também sobre filosofia política, sendo expurgado da UFRGS em 1968], segundo o qual, por ocasião do bloqueio de Cuba, “a paz momentânea foi paga à sanha dos imperialistas norte-americanos com o atendimento de seus caprichos”.

Na política brasileira, A Classe Operária dissidente ataca violentamente o governo João Goulart e prega a abstenção no plebiscito de 6 de janeiro de 1963 [que restaurou o presidencialismo em detrimento do parlamentarismo ad hoc imposto antes da posse de Goulart, em 1961]. Lança palavras de ordem “esquerdistas” e frases pomposas e vazias. Faz propaganda de “guerrilhas” prematuras e da “ação armada como meio de sobrevivência”. Não abre nenhuma perspectiva para o povo brasileiro, exceto uma “revolução” caída do céu. Afirma, em seu número de 1-15 de dezembro de 1962: “Única saída: a revolução do povo”. Sustenta no “manifesto-programa”: “Só a luta revolucionária dará ao povo um novo poder”.

Os dissidentes e traidores têm uma base financeira de origem duvidosa, publicam n’A Classe Operária listas de “contribuições” monetárias importantes, mas vagas e suspeitas...

1.º de janeiro de 1963



domingo, 30 de agosto de 2026

Irmão de Lenin, líder da “RSS” da Crimeia

Poucos brasileiros, mesmo entre os comunistas, conhecem a vida e a biografia dos parentes mais próximos de Vladímir Ilích Uliánov, o Lenin, exceto, talvez, a de seu irmão mais novo, Aleksandr (1866-1887), que foi executado por enforcamento após participar de uma trama pra assassinar o tsar Alexandre 3.º. Também se sabe que Lenin se uniu maritalmente a Nadézhda Krúpskaia, outra revolucionária marxista, mas que ele não tiveram filhos; há boatos de que o líder teve amantes, sobretudo no período em que se exilou na Europa Ocidental. Um desses desconhecidos é seu irmão Dmítri (1874-1943), citado em matéria de 30 de janeiro de 2021 no obscuro jornal russo Ekspress gazeta. Redigida por Marina Sidorova e intitulada “Engenheiros, químicos, programadores: quantos descendentes Lenin teve e que profissões eles seguiram”, não fala exatamente dos “descendentes” que Lenin não teve, mas da prole de Dmitri, que, como ela informa, foi o único dos três irmãos e três irmãs a ter filhos.

Sidorova menciona seus dois casamentos, mas não nomeia as esposas: Antonina Nescheretova (sem filhos) e Aleksandra Karpova (filha Olga, 1922-2011), enquanto a citada Ievdokia Cherviakova, mãe de Viktor (1917-1984), era na verdade um caso extraconjugal. Outras mortes atualizadas na Wikipédia russa são da neta Maria (1943-2021) e da bisneta Ielena (1978-2026, de sepse, ou infecção generalizada). O site também informa que Dmitri Ulianov foi presidente do Conselho de Comissários do Povo – ou seja, o líder de fato – da chamada República Socialista Soviética (RSS) da Crimeia, que existiu brevemente de 6 de maio a 26 de junho de 1919. Médico de formação, acumulou o cargo de comissário do povo (ministro) da Saúde e da Seguridade Social do próprio gabinete.

Porém, a existência da entidade acabou com a invasão da maior parte do sul da Rússia (hoje sul da Ucrânia, parte do qual está ocupado de novo por Moscou) pelas tropas chamadas “brancas”, notadamente sob a liderança sucessiva de Denikin e Wrangel. Somente em 1921 os bolcheviques retomariam a península e criariam a República Socialista Soviética Autônoma (RSSA) da Crimeia, dentro da composição da Rússia soviética, como informa esta publicação feita por um coletivo de tártaros da Crimeia. Lembremos que, na hierarquia organizativa, uma “RSSA” tinha amplas competências, mas se localizava “abaixo” de uma “RSS”; após a 2.ª Guerra Mundial, em 1945 (a lei só seria publicada em 1946), foi ainda mais rebaixada e se tornou uma simples região (óblast) da Rússia. Em 1954, passaria a ser uma região da Ucrânia, mas aí é outra história que já conhecemos bem.

Eu traduzi o artigo da Ekspress gazeta e a legenda do vídeo no Instagram, cujo texto coloquei ao final e completei com informações contidas na descrição da publicação. As fotos também foram incorporadas a partir do referido jornal. Aliás, alguém também notou como Ievgeni é parecido com o tetravô Iliá Ulianov?...



Foto de família dos Ulianov, 1879. Em pé (da esquerda pra direita): Olga (8 anos), Aleksandr (13), Anna (15). Sentados (da esquerda pra direita): Maria Aleksandrovna (44 anos) segurando sua filha Maria (1), Dmitri (5), Iliá Nikolaievich (48), Vladimir (9).


Dos seis irmãos e irmãs, apenas Dmitri Ilich teve filhos.

Todos que frequentaram uma escola soviética se lembram muito bem de que Vladimir Ilich Lenin tinha cinco irmãos e irmãs e até conseguem nomeá-los: Aleksandr, Dmitri, Anna, Olga e Maria. Cinco dos filhos do casal Ulianov não deixaram descendência. Aleksandr foi executado por suas atividades revolucionárias e não teve tempo de constituir família. Olga morreu de febre tifoide aos 19 anos, e Anna e Maria permaneceram sem filhos por toda a vida. Vladimir Ilich, é claro, não tinha tempo pra alegrias familiares: estava decidindo o destino de um vasto país.

Apenas Dmitri Ulianov teve filhos. Em 1917, Dmitri Ilich, médico hospitalar, e a enfermeira Ievdokia Cherviakova tiveram um filho, Viktor. Depois, em seu segundo casamento, nasceu Olga, em 1922.

Olga Ulianova se formaria no Instituto de Química da Universidade de Moscou e se tornaria, por assim dizer, a representante oficial da família Ulianov e do titio Volódia. Na época soviética, os eventos dedicados a Lenin ficavam incompletos sem ela.

A filha de Olga e sobrinha-neta de Lenin, Nadezhda Maltseva, trabalhou no Museu-Reserva Estatal do Kremlin de Moscou. Portanto, assim como seu tio-avô, ela frequentemente estava no Kremlin. Ela tem uma filha, Ielena, que é bisneta de Dmitri Ilich.

O segundo sobrinho de Lenin, Viktor Dmitrievich Ulianov, formou-se no Instituto Bauman e trabalhou na indústria de defesa. Em 1940, nasceu seu filho Vladimir, batizado em homenagem ao tio-avô, e três anos depois, sua filha Maria.

Vladimir Viktorovich, sobrinho-neto de Lenin, escolheu uma especialidade técnica e se tornou engenheiro. Trabalhou no Instituto de Pesquisa em Mecânica de Precisão e Engenharia da Computação da Academia de Ciências da URSS. Sua filha Nadezhda, sobrinha-bisneta de Lenin, fez pós-graduação [kandidat] em Química.

Maria Viktorovna, sobrinha-neta de Vladimir Ilich, também seguiu carreira na área da química, trabalhando no desenvolvimento de medicamentos. Em particular, fez parte de uma equipe que trabalhava na criação de um medicamento pra diabéticos que pudesse ser consumido por via oral.

Em 1971, Maria Viktorovna deu à luz Aleksandr, sobrinho-bisneto de Lenin. Ele trabalhava no ramo editorial e tem dois filhos: Ievgeni Ulianov, nascido em 1989, e Fiodor Ulianov, 17 anos mais novo que o irmão.

Ievgeni, sobrinho-trisneto de Vladimir Ilich, se formou no Instituto de Eletrônica e Matemática de Moscou e se tornou um programador de sucesso, trabalhando pra grandes e prestigiosas empresas. Sua esposa é Nina, colega de escola com quem se casou assim que completaram 18 anos. Eles têm uma filha, que é sobrinha-tetraneta do líder do proletariado.

Todos os descendentes de Lenin tentam manter seu parentesco em segredo, pois seu ancestral comum é uma figura altamente controversa. Isso até podia ser vantajoso na época soviética, mas agora não faz sentido.

“Durante a perestroika, os Ulianov aparentemente sofreram bullying e assédio e não contam muita coisa. Chegamos a assinar um termo de confidencialidade, nos comprometendo a não divulgar seus contatos: eles pediram muito que não fossem incomodados”, disse Tatiana Bryliaieva, diretora da Casa-Museu de Lenin em Ulianovsk, a um correspondente da Ekspress gazeta.

No entanto, os amigos de Ievgeni Ulianov dizem que, entre os mais próximos que sabem de quem ele é parente, ele se permite fazer piadas sobre isso. Aliás, ele é levemente dislálico, mais um motivo de humor.

Ao contrário dos descendentes de Stalin, Khruschov, Andropov e Gorbachov, que vivem no exterior, todos os parentes de Lenin permaneceram na Rússia.



Ievgeni Ulianov e a esposa Nina (perfil do Facebook de Ievgeni)


Em 18 de outubro de 1921, foi criada a República Socialista Soviética Autônoma (RSSA) da Crimeia, dentro da composição da RSFS da Rússia. O tártaro da Crimeia e o russo se tornaram línguas oficiais. Basicamente, a república era a entidade autônoma dos tártaros da Crimeia, que foram alçados aos postos da liderança local. A organização administrativa era conduzida na língua tártara da Crimeia, a imprensa nessa língua se desenvolveu, e seis dos 20 distritos da Crimeia se tornaram “nacionais” [i.e. com estatuto que permite a proteção de uma etnia específica, ou “nacionalidade”, no vocabulário russo-soviético].

Mas muitas iniciativas dos crimeanos não foram apoiadas pelo poder central, e a política de nativização [korenizátsia] na URSS começou a ser desmantelada no início da década de 1930. Em 1928, foi fuzilado o presidente do Comitê Executivo Central da RSSA da Crimeia, Veli Ibraimov. Na década posterior, as repressões se tornaram massivas e toda a elite intelectual tártara da Crimeia foi aniquilada. Depois das deportações de 1944, a RSSA da Crimeia foi extinta e começou um combate aos topônimos em língua tártara da Crimeia. Em 1946, a região autônoma foi transformada na Região [óblast] da Crimeia.


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Murat Tkhagalegov – Родная (Querida)

Um amigo meu do condomínio tem vários irmãos, alguns morando em cidades diferentes. Um deles está estudando russo no Clube Eslavo de São Paulo (que recomendo muito!) e já fala bastante bem, enquanto meu amigo mesmo só sabe algumas frases, mas gosta muito da cultura russa. Quando jogamos sinuca perto de casa, também temos a ocasião de conversar sobre a guerra imperialista de Putin contra a Ucrânia, mas às vezes colocamos pra tocar canções da Rússia e de outras regiões geográficas vizinhas – outro dia, por exemplo, lhe indiquei a rádio regional em que quase todas as músicas tocadas são em ossetiano. Uma das músicas que ele me indicou está em russo, mas é típica da Cabárdia-Balcária (Kabardíno-Balkária em russo), república do centro-norte do Cáucaso, e outro dia decidi a traduzir diretamente. Cleber, se você estiver lendo, esta publicação é pra você!

A canção se chama “Родная” (Rodnáia) e pode ser traduzida como Querida; em russo, rodnói indica uma pessoa muito próxima, estimada, seja ou não aparentada. Ela é cantada por Murát Tkhagalégov, que a gravou em 2015 no álbum Iá tebiá zabyváiu (Estou te esquecendo), embora o vídeo abaixo, indicado pelo Cleber, date de 2013. A letra é da cantora e compositora Amirina (nome artístico de Irina Ievgenievna Amirokova), e a melodia tem como autoria indicada “A. Berdukov”, provavelmente Akhmed Berdukov, também compor e compositor. Na internet há menção a um Azamat Berdukov, que provavelmente é aparentado e morreu durante a invasão à Ucrânia, ainda em 2022.

Tkhagalegov nasceu em 1984 na cidade de Nalchik, capital da Cabárdia-Balcária, e canta em russo, cabardino e adigue; estas duas línguas pertencem à família caucasiana do noroeste, ou abecásio-adigue (ou ainda “pôntica”), à qual também pertence o abecásio, falado na região georgiana da Abecásia (ou “Abkhazia”). Elas não têm qualquer relação com o georgiano (e seus irmãos laz, svan e mingrélio), o armênio, o checheno ou o inguche, muito menos com as línguas eslavas. De etnia adigue (ou circassiana), Tkhagalegov é joalheiro de formação e trabalhou numa fábrica de cimento, mas se dedica à música pelo menos desde 2009, atingindo um pico de popularidade em 2011 e 2012. Lançou apenas três álbuns, todos pela gravadora Zvuk-M, em 2013, 2014 e 2015.

Também é no site da Zvuk-M que se podem achar algumas das raras informações sobre Amirina. Com formação superior, ela começou a atuar em 2006 e mais tarde se tornou Artista Emérita da Carachai-Circássia, outra república do Cáucaso russo. Pelo menos ela tem Instagram, onde também indica outra conta, profissional, e publica suas apresentações, sobretudo em casamentos tradicionais. Eu tirei desta página a letra original da canção, que também pode ser lida e ouvida no Spotify, e seguem o vídeo de 2013 e a tradução:


1. Esta noite, uma noite quente,
Você esperou como que uma eternidade.
Dizia palavras carinhosas sobre ele.
Hoje você passou direto
E foi amada por ele.
E ele vive em teu coração choroso.

Refrão:
Querida, não acredite nas mentiras dele,
Não acredite nos olhos e nas palavras dele.
Querida, o cara mata a alma como um bêbado
E você não consegue esquecer os olhos mentirosos.

2. Você afugenta a imagem e voz dele do coração,
Mas não consegue esquecer e sonha de novo.
Você chora aos prantos e esconde com as mãos,
Se recorda de seu amor desonesto.

(Refrão)

3. Você não vai ser noiva dele,
Não há lugar no coração dele
Pro amor que você tanto deseja.
Pois bem, o rapaz bonito
Todos na região o conhecem,
E acredite, ele está do lado errado!

(Refrão 2x)



segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Dilma “esqueceu” o que tava falando?

Ha messo la prima ed è partita. E come fermarla? È impossibile!” Hahaha!


Há muito tempo queria abordar esta viagem de Dilma Rousseff à Itália, que foi outro exemplo em que ela se pôs em maus lençóis na relação com os idiomas. Eu achava que ainda tinha sido sob seu mandato, porém, descobri que o referido discurso foi feito em 27 de janeiro de 2017, ou seja, durante o que foi apelidado de “turnê do gópi” pela Europa. Uma dessas paradas incluiu a Espanha, onde junto a militantes socialistas ela proferiu alguns dos discursos em ibero-dilmês (ou “dilmunhol”, como outros batizaram), um portunhol particular cuja exibição foi realmente vexatória e desnecessária.

Mesmo que na Universidade de Salento, na cidade de Lecce, bem no sul da Itália, Dilma não estivesse tentando balbuciar a língua de Dante, mantive o padrão das outras vezes em que ela realmente desembestou seus talentos, usando o endereço curto “dilmait” (it = italiano, óbvio), como fiz por ocasião do francês (“dilmafr”, mesma turnê) e do búlgaro (2011). Foi uma questão de organização mesmo. Mas a razão desta publicação não foi lançar mais um meme da família do “saudar a mandioca” e do “estocar vento”, mas tentar desmentir uma injustiça e desfazer um mal-entendido.

Quem me conhece há anos e quem acompanha meu trabalho desde o início, conhece mais ou menos minhas opções político-ideológicas e como escolho candidatos na latrina eleitoral urna. Votei em Dilma duas vezes, na primeira porque apostei que podia fazer melhor o que eu achava que Lula (com cuja pessoa nunca simpatizei) tinha feito de bom, e na segunda porque simplesmente Aécio Neves não me desce. A retórica dela era péssima, mas jamais foi comprovado um único caso de corrupção contra ela; pelo contrário, a faxina que ela tentou promover mesmo no próprio governo acelerou sua queda (a qual, aceitemos, teve base legal). Ainda prefiro ter apoiado uma vítima da tortura do regime terrorista imposto em 1964 do que justamente um de seus bajuladores, saudosistas e defensores: o boca de esgoto Jair Messias, toda a família Bolsonaro e seus apoiadores fanáticos e agressivos.

Outra coisa: nunca poupei um político, partido, regime ou ideologia, meu pensamento sempre foi estilo Casseta & Planeta, isto é, não perdoar ninguém, ainda que a zoeira seja relativamente leve. Não é por menos que publiquei todas as outras “poliglotices” de Dilma e volta e meia chamo nosso futuro presidente “tetracampeão” de Jararaca e Molusco. Porém, se tem uma coisa que abomino é injustiça, calúnia e manipulação, algo recorrente na mídia tradicional antes que as redes sociais as engolissem e regra geral entre as milícias digitais em tempos de conteúdo completamente artificial. E mesmo mídias reputadamente “sabão-em-pó” como UOL e Veja se deixaram embarcar na mentira rancorosa.

Um desses exemplos é o de um tal Reinaldo Polito, que no UOL se apresentava como especialista em oratória e propagou a distorção de que Dilma tinha “esquecido o que estava falando” na Itália. Porém, ninguém aproveitou mais a ocasião pra destilar sua misoginia reacionária quanto Augusto “Covarde” Nunes quando ainda trabalhava pra Abril, em seu compilado que (pra nossa alegria, convenhamos) traz também a transcrição das alocuções em “dilmunhol”. Pra todos os efeitos, ele foi minha fonte principal, mas vamos pôr “Os Pingos nos Is”. (Se duvidam da grave acusação de misoginia, reparem que ele e um comparsa mantiveram por anos no portal a etiqueta “dilmês” não tanto pra atacar os delírios da “nova matriz econômica”, mas sobretudo, como todo crácico do gênero, pra chamar a primeira mulher eleita chefe de Estado de burra, louca e petulante.)

Nunes jamais usou esse tom e linguagem com seu ex-milico de estimação que dispensa nomeação, apesar dos ataques contra mulheres jornalistas, do negacionismo científico, do baixíssimo calão nas mais diversas ocasiões (mesmo que o Véio do Chapéu volta e meia recaia no mesmo vício) e do ódio que propaga contra diversos grupos vulneráveis ou meramente discordantes. Ao modo de Alexandre Garcia, ele “se chutou” de todos os veículos que ainda dependiam da mamata foderal e encontrou seu nicho entre a escumalha bolsonarista que se reagrupou na “revista” Oeste. O duplo padrão é asqueroso, mas há nove anos ele ainda propalava que Dilma “esquecia” seus discursos, quando na verdade não foi bem assim.



Não pude localizar a íntegra, e infelizmente a publicação de Nunes é um dos poucos registros daquele dia do qual me lembro mais ou menos bem. Não vamos julgar Dilma politicamente nem mesmo a utilidade de sua “euroturnê”, mas nos ater ao óbvio: ela estava sendo interpretada por uma profissional, isto é, não incorreu em fazer o imbróglio que abriu tanto flanco a seus detratores naqueles dias. Qual foi o problema? Ela simplesmente “desembestou” a falar e literalmente esqueceu que precisava dar pausas porque a interpretação era consecutiva.

Claro que numa hora dessas, em que os próprios nervos não ajudam muito, a gente nem sempre expressa limpidamente nossos pensamentos, e “Esqueci que tava falando” (e não “o que tava falando”, o que faz toda a diferença!) deve ser interpretado como esquecer que estava sendo interpretada e, portanto, continuar discursando como se a audiência a estivesse entendendo. Sim, dois lapsos típicos do “dilmaware”: ignorar a intérprete e não achar as palavras certas pra se fazer entender. Mas a oposição babante lhe atribuiu um terceiro lapso, inexistente, e seguiu divulgando “esqueci o que tava” no lugar de “esqueci que tava” sem o menor escrúpulo.

Porém, nunca compro passagem pra uma viagem perdida. Portanto, quem vai ganhar nosso Troféu Joinha de hoje é a intérprete, cuja identidade e destino não localizei, rs. Ela pelo menos, depois de uma gargalhada muito mais engraçada que qualquer verborreia de político, aproveita pra tirar uma da cara da ex-presidentA quando esta se lembra (mas não se esquece!) de sua existência, dizendo “Esqueci” (que havia uma intérprete, claro), e responde “Mas eu tento” (isto é, “Vou tentar retomar tudo e traduzir do dilmês pro toscano”...). Quando Dilma profere um “Engrenei uma primeira e fui”, ela traduz, curiosamente na terceira pessoa, “Ha messo la prima ed è partita” e acrescenta da própria lavra “E come fermarla? È impossibile! Allora ci provo” (E como a parar? É impossível? Então vou tentar [traduzir]).



“Modus bolsonarandi”!


Não sei se foi exigido atestado ideológico pra moça atuar como intérprete, se ela já integrava a trupe, se simplesmente foi contratada como autônoma ou se fazia mesmo parte dos membros da universidade. Porém, tenha sido ou não a tirada interpretada “na boa”, foi muito melhor que o fechamento da matéria da Veja com um “Já foi tarde” pelo “Covarde”. Afinal, o Mito dele foi tarde até demais, e como diria Cid Gomes, também “está preso, babaca!”.

Antes que eu é quem me esqueça, descobri por acaso, pesquisando material pra esta humilde publicação, que o Verdevaldo recentemente deu uma entrevista pra seu ex-agressor no vlogueco em que este atua, na ocasião do que seria uma “reconciliação”. Título constrangedor demais... Tanto mais quando sabemos que agora é o ex-Intercept quem passou pro lado do conspiracionismo e se uniu ao antigo desafeto pra ambos centrarem fogo no Xandão. Igual o Picolé de Chuchu, que em 2006 disse que “ele quer voltar à cena do crime”, mas em 2022 o chamou de “maior líder popular da história desse país”: é politicalha que chama???


sábado, 22 de agosto de 2026

15 anos sem Gaddafi: a Líbia destruída

Hoje vamos de algo mais “leve”, se é que de leve a reportagem tem só o tamanho mesmo. Há 15 anos assistíamos aos bombardeios de países da OTAN contra a infraestrutura da Líbia e as tropas do ditador Moammar Gaddafi, mais conhecido como “o rei africano dos looks”. Seu legado ainda é contraditório: se opôs à ingerência ocidental no país riquíssimo em petróleo e redistribuiu essa riqueza pra alcançar o maior IDH do continente; porém, foi extremamente brutal contra os críticos, financiou o terrorismo ao redor do mundo e surrupiou a maior parte dos royalties do ouro negro, enquanto a população ficava só com o mínimo necessário.

Minha geração (nasci em 1988) se acostumou, ou se resignou, a ver os EUA e seus aliados europeus intervirem militarmente em países africanos e asiáticos sob pretextos humanitários, pra fazer gato e sapato dos governos e instituições locais. Claro que a grande maioria era tiranias sanguinárias, mas a derrubada delas devia ser obra do próprio povo. O levante armado contra Gaddafi eclodiu na esteira das “revoltas árabes” de 2011, quando ele acabou massacrando a oposição – como Bashar al-Asad, que só cairia após 13 anos de guerra civil –, mas foi enfraquecido pela intervenção da OTAN, que o acusou de promover um “banho de sangue”, embora os próprios ocidentais tivessem feito a mesma coisa.

Gaddafi terminou assassinado em circunstâncias misteriosas em 20 de outubro de 2011, em Sirte – cidade natal aonde tinha fugido –, mas seu regime já tinha praticamente terminado em 23 de agosto, quando os rebeldes tomaram o controle das instalações do governo na capital Trípoli. A guerra civil em si terminou antes do fim do ano, mas pelo menos dois governos paralelos, apoiados por grupos diferentes de países, até hoje disputam o monopólio do reconhecimento internacional. Nesta edição de 21 de agosto de 2026 do Jornal da África (Rádio França Internacional), da qual separei o trecho, os âncoras introduzem o relato da jornalista Houda Ibrahim, feito nos dois últimos parágrafos.

Após usar esta ferramenta online pra transcrever o áudio por IA e corrigir os poucos erros ainda cometidos, traduzi sem usar o Google e adaptei a transliteração do árabe dos nomes líbios a minha própria prática, mais baseada na fonologia. Deixei a transcrição pra ajudar quem esteja aprendendo francês.



15 anos após a queda de Moammar Gaddafi, a Líbia continua dividida. Fraturado entre dois governos rivais que buscam se eternizar, o país mergulha numa profunda crise institucional e securitária. Porém, em 20 de agosto de 2011, enquanto caía o regime de Gaddafi, esperava-se um vento de liberdade e prosperidade. Mas hoje os líbios estão presos num verdadeiro inferno econômico, reféns de um impasse político cujo fim eles não conseguem enxergar. Reportagem de Houda Ibrahim.

Curiosamente, os 15 anos da queda de Gaddafi foram acompanhados por uma onda de violência que castigou o leste e o oeste do país, começando pelo assassinato em Benghazi do General [Fawzi] Al-Mansori, chefe do serviço de inteligência do Marechal Khalifa Haftar, passando pelo lançamento de drones contra instalações energéticas essenciais em Zawiya, no oeste. Os dois poderes são responsáveis em medida igual pela crise que se transforma numa realidade à qual as partes envolvidas, dentro e fora da Líbia, se adaptam e pra qual deixam de buscar uma verdadeira solução.

No final, as eleições gerais aguardadas pro fim de 2023 não ocorreram. O Estado desmoronou, assim como a transição política. As forças que emergiram de suas ruínas conseguiram construir interesses que tornam vantajoso pra eles manter o status quo. Ano após ano, as administrações, as redes econômicas, os aparelhos de segurança e as elites locais vão se enraizando nessa realidade, tornando cada vez mais difícil a unificação do Estado. A unidade implica necessariamente uma redistribuição do poder, das riquezas e da influência.



15 ans après la chute de Muammar Kadhafi, la Libye reste toujours divisée. Fracturée par deux gouvernements rivaux qui cherchent à se pérenniser, le pays, s’enfonce lui dans une crise institutionnelle et sécuritaire profonde. Pourtant, le 20 août 2011, le régime de Muammar Kadhafi tombait, à l’espoir d’un vent de liberté et de prospérité. Mais les Libyens sont pris aujourd’hui dans un véritable enfer économique, otages d’une impasse politique dont ils ne voient pas la fin. [Reportage de] Houda Ibrahim.

Curieusement, le 15e anniversaire de la chute de Kadhafi s’est accompagné d’une série de violences qui ont touché l’Est et l’Ouest du pays, à commencer par l’assassinat à Benghazi du général al-Mansouri, chef du service de renseignement du maréchal Khalifa Haftar, en passant par les frappes de drones ayant visé des installations énergétiques vitales à Zawiya à l’Ouest, renvoyant dos à dos les deux pouvoirs responsables de la crise qui se transforme en une réalité à laquelle les parties prenantes, internes et externes, s’adaptent, en cessant de chercher une vraie solution.

Les élections générales espérées pour fin 2023 n’ont finalement pas eu lieu. L’État a échoué, tout comme la transition politique. Les forces qui ont émergé de cet échec ont réussi à construire des intérêts qui rendent le statu quo avantageux pour elles. Année après année, les administrations, les réseaux économiques, les appareils sécuritaires et les élites locales sont racinées dans cette réalité, rendant l’unification de l’État de plus en plus difficile. L’unité implique nécessairement une redistribution du pouvoir, des richesses et de l’influence.


domingo, 16 de agosto de 2026

Mahi Binebine, o Bob Esponja marroquino

O escritor (sobretudo romancista), pintor e escultor marroquino Mahi Binebine, nascido em Marrakesh em 1959, é daquelas figuras pouco conhecidas no Brasil devido à barreira linguística, mas que certamente seria muito divertido encontrar. De origem pobre, a história de sua família foi usada no enredo de alguns romances, notadamente Le fou du roi (O bobo da corte) e La nuit nous emportera (A madrugada vai nos levar embora), ainda não traduzidos pro português. Ele justamente chama a trajetória dela de “shakespeariana”, pois seu pai foi exatamente bobo da corte do autoritário rei Hassan 2.º do Marrocos (pai do atual, Mohammad 6.º), a quem basicamente deveria contar histórias pra o entreter antes de dormir, e seu irmão participou de um golpe de Estado que fracassou em derrubar o monarca, obtendo com isso 20 anos na prisão.

Em 1980 Binebine se mudou pra Paris, onde estudou matemática e lecionou a disciplina por oito anos. Depois, passando a se ocupar como escritor e pintor, morou em Nova York de 1994 a 1999, onde seus quadros obtiveram grande sucesso. Em 2002 se instalou definitivamente em Marrakesh, mas partilha seu tempo entre o Marrocos, a França (cuja língua é a usada em sua obra) e os EUA. Em parceria com amigos, também trabalha na inserção psicossocial e econômica, por meio da arte e da cultura, de jovens marroquinos desfavorecidos. Autor de 13 romances (até agora), teve sua produção plástica e literária amplamente reconhecida e premiada nos dois lados do Atlântico e do Mediterrâneo.

Isso é o que a Wikipédia em francês diz sobre Mahi Binebine. O que fica pra conferência do próprio internauta, porém, é a posse de uma das risadas asmáticas mais engraçadas que alguém pode ter visto e a fina voz idêntica, ou quase, à do personagem de desenho Bob Esponja! Posso parecer maldoso, mas hoje trago uma seleção das melhores gargalhadas desse figura, a partir das seguintes fontes: uma conversa no antigo programa INA Arditube, uma entrevista ao jornalista Patrick Simonin no programa L’Invité da TV5MONDE, uma entrevista a Fatimata Wane, sua parceira de iniciativas, ao Journal de l’Afrique da France 24 e, a melhor de todas, uma entrevista com o apresentador marroquino Oussama B (de “Benjelloun”). Esta última deve ter se dado na língua oral marroquina (de forte extração amazigue), na qual, como podemos ver, abundam as palavras e frases inteiras em francês.

A fruição dessa pérola dispensa conhecer as línguas envolvidas, pois sua alegria contagia tanto quanto a do comediante espanhol Juan “El Risitas” Joya Borja, um dos maiores memes da história. Sua risada banguela num programa de entretenimento em 2002 foi publicada no YouTube pela primeira vez em 2007, e a Irmandade Muçulmana egípcia fez a primeira “falsa legenda” com ele pra zombar do ditador militar presidente As-Sissi em 2014. A partir daí, várias outras versões foram sendo feitas em diversas línguas sobre diversos assuntos, com o pico de popularidade atingido em 2015. Como eu mesmo não entendo árabe marroquino, o vídeo com Oussama B, em que Binebine ainda por cima parece muito mais à vontade, serve ainda mais a propósito parecido. Se você conhece francês, alguns fragmentos ainda podem ficar engraçados dentro do contexto.

Porém, cabe traduzir duas falas do Leandro Karnal gaulês, que deixei mais ou menos na íntegra e traduzem bem o sentimento despertado por um espírito como Mahi Binebine: “O riso é uma forma de sobrevivência, uma forma de resistência” (Ele responde: “Na África, quanto mais alguém afunda, mais dá risadakkkkkk”!); “Os que gostam de Mahi Binebine, o artista que tenho diante de mim, sabem que essa risada que escutamos testemunha uma força, mas também uma profunda humanidade dentro de você” (Resposta: “Foi a natureza que fez isso, oras”).

Nesta publicação deixo uma lembrança (e não tanto uma homenagem) aos pobres jovens marroquinos e de outros países africanos, sem perspectiva de emprego em sua terra natal e que, enganados por gente inescrupulosa nas redes sociais, acha que mais um “rolezão na praia” em Ceuta como o tencionado pra hoje pode resolver seus problemas. É o Magrebe pra além dos destinos paradisíacos ao estilo O Clone, esquecido pelos influenciadores nômades...



Opinião de dois jornalistas da Sky News sobre esta publicação:




domingo, 9 de agosto de 2026

Pynia, uma paródia de Putin (2012)

Em setembro de 2026, vão ocorrer na Rússia as chamadas “eleições” pra Duma Estatal, a câmara baixa (tipo a dos Deputados) da Assembleia Federal, isto é, do parlamento. Coloquei eleições entre aspas porque pelo menos desde 2012, se não antes, o pleito é completamente fraudado pra dar maioria absoluta ao Rússia Unida, partido de Vladimir Putin liderado por seu ex-premiê, Dmitri Medvedev, e hoje comparado ao Partido Comunista único na extinta URSS e países de regime similar. Exceto por outros partidos-satélites e candidatos inofensivos, possíveis críticos ao poder já têm o registro negado pelo Comitê Eleitoral Central, chefiado pela fiel Ella Pamfilova, ou as urnas são descaradamente violadas por funcionários escolhidos a dedo, quase sempre filmados pelas próprias câmeras de circuito interno.

O exemplo mais notório do primeiro caso foi o do político Boris Nadezhdin, quase candidato à presidência em 2024 e que na época César Tralli chamou até de “Nadesim”. Recentemente, recebeu o estatuto jurídico de “agente estrangeiro” (ou inoagent), o que na prática o torna um “cidadão menos igual que os outros”, e foi processado por exibir “simbologia extremista” numa live, na verdade um retrato de Aleksei Navalny. Tudo isso praticamente acabou com suas pretensões de voltar a ocupar uma cadeira de opositor na Duma, onde já esteve de 2000 a 2003.

As fraudes – sem contar os assassinatos políticos – já eram conhecidas desde as décadas de 1990 e 2000, mas elas tomaram uma escala inaceitável pra maioria da população em 2011 (eleições pro Conselho Municipal de Moscou) e 2012 (eleições pra Duma Estatal). Na virada desses dois anos, ocorreram os maiores protestos de rua por todo o país desde o fim da URSS e que só seriam quase igualados pelos rapidamente abortados protestos contra a invasão da Ucrânia, logo depois que ela começou. O “milagre econômico” putinista dos anos 2000, resultante em grande parte, como no Brasil, do “boom das commodities” mundial, não foi acompanhado de reformas estruturais relevantes e começou a demonstrar desgaste antes mesmo da explosão de nossas “Jornadas de Junho” em 2013. Putin sabia que seu reino estava seriamente ameaçado, e as imagens de ditadores árabes depostos ou “cancelados” durante o ano de 2011, dizem, o teriam atemorizado profundamente.

Num cenário desses, a única forma de se manter no poder era pela força, pelo terror e pela eclosão de guerras que despertassem o brio patriótico das massas: assim foi com o roubo da Crimeia em 2014, com o assassinato de Boris Nemtsov em 2015 bem nos arredores do Kremlin e com o assalto à Ucrânia em 2022, o qual, porém, ficou muito longe de ter o mesmo efeito de oito anos antes. Ao contrário dos noviços viciados em Instagram que ainda acham que a Rússia toda ama Putin (e isso independente de língua, etnia e religião!), o povo de verdade já criticava e fazia piadas desde sempre, de fato, com sua fisionomia insossa e sua estatura minguada caindo na zoeira antes mesmo da generalização da corrupção, precarização dos serviços públicos e autoritarismo. O antológico programa Kúkly, em que políticos eram figurados por bonecões manipuláveis e dublados por atores na virada do século, saiu do ar exatamente quando o trombadinha de Leningrado começou a ser retratado como uma cria infeliz de Ieltsin. Na mídia estatal, o burocrata inexpressivo, malvestido e desajeitado foi todo repaginado pra dar essa imagem do “lutador de judô” e “cavalgador de ursos” até hoje idolatrada por viúvas de ditadores no Ocidente.

Mesmo assim, nos tempos mais distendidos ou mais repressivos, a zombaria nunca cessou, e uma das caricaturas de Putin talvez pouco conhecida na Banânia seja a do “Pýnia” (Пыня), surgida dentro da própria propaganda estatal em 2011 e retomada pela oposição em 2017. Segundo o Wikcionário em russo, baseado em outras fontes, o substantivo comum “pynia” é uma gíria típica da região de Kaluga indicando uma pessoa esnobe, arrogante, exibida, orgulhosa, petulante, cheia de si, e geralmente se refere a mulheres. Já segundo o portal YouSlang, pynia também significaria um golpe dado no estômago, mas seu uso mais amplo era o de uma referência irônica a um liberal ocidental ou pró-Ocidente, que defenderia suas ideias de forma burra ou desconexa, mais ou menos o que entendemos por “liberaloide”.

Aqui devo abrir um parêntese. No embate político da Rússia, sobretudo online, “liberal” sempre foi considerado um xingamento, muito mais do que na Terra de Santa Cruz. Aqui, exceto por sua oposição a “conservador” em questões societárias (quando preferimos geralmente usar o termo “progressista”), tendemos a considerar “liberal” alguém que apoia o livre mercado, a democracia política e a redução do papel do Estado na economia ao mínimo necessário. A estigmatização fica mais a cargo de extremos vagamente definidos, como “fascista” e “comunista”. Na Moscóvia, “liberal” se tornou uma ofensa, pelo menos entre os putinistas, exatamente por causa de tudo o que estes defendem: supremacismo russo, fechamento ao mundo exterior, demonização dos EUA e da Europa Ocidental, estatismo econômico, Estado autoritário e centralizado, expansionismo territorial, ortodoxia religiosa, culto à guerra e crença no chefe infalível. É claro que “liberalismo” não tem um sentido unívoco em todas as épocas e lugares, por vezes chegando a combinar um completo laissez-faire com a ditadura militar mais terrorista. Mas fecho o parêntese aqui.

O fórum em língua russa Dvach (também conhecido como “2ch”, em referência à palavra chan) foi a principal plataforma em que surgiram as primeiras manifestações do Pynia, mas também as primeiras tretas entre apoiadores do regime e críticos que começaram a usar o personagem contra o próprio Putin. Conta a lenda que a animação, representando um adolescente “militante de sofá”, sustentado pela mãe e sem vida social, que passava seus dias a atacar o Kremlin por todos os males do país, foi criada por agitadores pagos bem na época desses protestos de 2011-12, mais exatamente contra Aleksei Navalny, então despontando como o maior opositor nacional. Segundo esse estereótipo (curiosamente aplicado no Brasil a esquerdistas, muitos dos quais apoiam Putin), os navalnistas seriam essa figura inútil, descuidada, desocupada e obcecada por fóruns virtuais, como a plataforma de blogs Livejournal, na qual o político angariou fama.

Não sei se a intenção inicial foi fazer uma alusão à fisionomia de “Nalvane” (como o chamou Renata Vasconcellos) – ver o exemplo deste blog abandonado –, mas parece ter sido um dos clássicos casos em que o feitiço se voltou contra o feiticeiro. De fato, se observarmos num dos em que sobreviveu a série de cinco vídeos postados bem no início de 2012 (é impossível retraçar a verdadeira gênese, enquanto o endereço indicado não parece apontar mais a um canal semelhante), o rosto do Pynia tem traços muito mais alusivos aos do ditador, sobretudo antes da primeira presidência e toda vez que ele precisa reaplicar seu botox. Pra piorar, “Pynia” não podia ser mais alusivo sonoramente ao sobrenome “Putin”, de forma que, segundo o mesmo YouSlang e as Wikipédias em inglês e francês, o meme antes referente aos liberais acabou sofrendo reversão e se tornando um sinônimo de Vladimir Vladimirovich.

Antes que as BRICSetes aqui presentes comecem a espernear, aviso que Volodymyr Zelensky também tem seus apelidos, alguns dos quais criados pela própria oposição ucraniana e em referência pejorativa ao fato do ex-ator ter outrora (até 2014) trabalhado muito mais na Rússia e/ou em russo. Escolha o seu: Zélia, Zelúpa, Zielieiób (que joga com a pronúncia russa), Zelebóba... Porém, o “povo” que “venceu os adolfistas” e “lançou o satélite e o homem no espaço” não podia ser menos criativo pra apelidar os próprios governantes. Pynia tem diversos derivados, entre eles “Pynebábve” (“Zimbábue de Putin”), “pyneliúb” (adorador de Putin) e “Pynestán” (“Putinstão”). Meu preferido, porém, é “pynekhódy” (пынеходы, algo como “pyniamóvel”), celebrizado como referência aos supostos calços que o ditador usaria em seus sapatos pra parecer pelo menos 10 cm mais alto do que realmente é.

Vou deixar outras explicações pra dois artigos de época que traduzi abaixo: um escrito pelo ucraniano Ivan Iakovyn, disponível em russo e ucraniano e intitulado “A guerra em torno do Pynia: como os russos garraram ódio de Putin” (15 de novembro de 2018), e outro publicado ainda em 2017 na enciclopédia de memes russos, contando o essencial da história. Coloquei notas explicativas entre colchetes onde achei necessário. Antes deles, os seis vídeos que integravam a série em outro canal e dos quais fiz backup pra qualquer eventualidade, e entre eles, alguns dos principais memes ou montagens do “Pynia” já putinizado que selecionei no Google. Dos vídeos traduzi apenas o título e resumi o conteúdo, pois a transcrição completa daria muito trabalho e não teria tanta graça.

A riqueza linguística do debate na Rússia exige ainda a explicação de outros termos. O primeiro e principal deles é a sigla “PZhiV” (ПЖиВ), que Pynia pronuncia o tempo todo nos primeiros vídeos como “pjif, pjif, pjif...” (daí a ortografia humorística “PZhiFF/ПЖиФФ”) e significa “Pártia zhúlikov i voróv” (Partido de Bandidos e Ladrões). Referência pejorativa ao Rússia Unida de Putin, tem a paternidade reivindicada por vários políticos, mas se popularizou no início da década de 2010 entre Navalny e seus apoiadores durante os protestos de rua e as manifestações online. Num dos vídeos também aparece a gíria “Iá – D’Artanián” (Eu sou D’Artagnan), significando o sentimento ególatra de estar sempre certo e considerar os outros errados. Há ainda a expressão “nashísty”, uma fusão de “Náshi”, movimento de apoio juvenil a Putin de 2005 a 2019, com “nazistas” (natsísty) – por isso também chamado de “Putinjugend”. No sentido inverso, também se referia ao partido “Násha Ukraína”, fundado em 2005 pra apoiar a candidatura do presidente ucraniano Viktor Iushchenko e virtualmente invisível desde 2013.


Este é o verdadeiro primeiro episódio, embora num dos canais ele não apareça e o segundo é que esteja indicado como primeiro. As características básicas do Pynia são apresentadas: adolescente, ele não estuda direito, não socializa e não faz as tarefas de casa, fica o dia inteiro reclamando de Putin na internet. A mãe lhe pede pra comprar coisas, mas ele responde que “a vida está uma porcaria”. Pede-lhe pra estudar visando ser alguém na vida, mas ele responde que está “combatendo a corrupção” e que “nesse país, não adianta nada estudar”. Ela lhe pede até pra ir visitar a avó doente, mas ele critica o governo porque “não cuida dos aposentados e lhes dá uma pensão de nada”.

30 anos depois, Pynia ganha pelos e gordura, mas continua só criticando o governo nos fóruns virtuais. Sua mãe idosa não vive mais lá e se aposentou, mas até a pensão dela ele parasita, porque não faz mais nada na vida. Nem mesmos consertos básicos ele quer fazer na casa dela: só quando Putin cair é que as coisas vão melhorar...


Pynia nasceu na década de 1990, quando a Rússia estava falida e sua mãe precisava trabalhar pra sobreviver. Seus pais são separados e o pai já vive com outra família. Pynia sempre tem que estar “lutando” por alguma coisa porque se sente sozinho, já que não sai pra socializar ou mesmo pra fazer esportes, dos quais não gosta, ou artes, às quais não se adequou. Esteve particularmente ativo online durante os protestos do fim de 2011. Está o tempo todo no computador, mas não vê nem mesmo outros tipos de vídeos mais leves que viralizam – a não ser, claro, que se canse da luta política.

No quadro, a chinchila (que “anda em círculos” o tempo todo) está repetindo a sigla humorística “Pjif, pjif, pjif...” e diz “Meus milhões”, provável referência a acusações de corrupção contra Navalny, jamais comprovadas, envolvendo milhões de rublos.


Aqui é contado como Pynia se tornou popular na internet. Ele tentou ficar popular postando vários vídeos seus no YouTube fazendo coisas engraçadas, mas não teve sucesso e só recebia críticas. Finalmente, ele consegue notoriedade e elogios falando mal de Putin e de Medvedev, ao que recebe muitas visualizações e comentários de apoio.


Pynia não foi aos protestos de 2011 contra a falsificação das eleições em Moscou, mas está assistindo à transmissão online, sentido como se estivesse lá. (É curioso como os próprios governistas não problematizam o termo “falsificação” dos opositores...) Boris Akunin, célebre escritor russo contemporâneo, opositor de Putin e hoje exilado, foi um dos líderes dessas manifestações. Como os protestos eram basicamente coisa de fóruns da internet, segundo os putinistas, foi nesse espaço que Akunin teria dado aos manifestantes a “lição de casa” de derrubar Putin. Pynia pensou longamente como fazer isso, mas basicamente só dizia a si mesmo que se isso ocorresse, tudo na vida e no país seria melhor, como uma “solução mágica”. Até dinheiro, namorada e filhos ele conseguiria!


Neste vídeo, Pynia conversa com um “amigo” virtual seu, provavelmente dos EUA (aliás, meio parecido com Gianni Infantino, rs). O americano usa contas falsas apenas pra zoar com os russos, e ele faz Pynia de trouxa, porque enquanto o elogia “na cara”, demonstra desprezo pela Rússia intimamente. O americano passa a imagem de EUA que funcionam e onde você nem precisa estudar pra ser alguém na vida (aliás, Pynia sequer é bom aluno na escola). Diz que o amigo nasceu no país errado e que a “Rasha” (alusão à pronúncia inglesa de Russia) não serviria pra ele revelar suas “qualidades”. Pynia mimetiza o amigo dizendo “maldita Rasha, maldita Rasha” o tempo todo, até que o americano sai da conversa, mas entra de novo com um perfil diferente. E lá vai ele de novo zoar com Pynia...


Aqui, Pynia participa de um “concurso” virtual pra melhor música contra o “Partido de Corruptos e Ladrões” (o Rússia Unida, lembremos). Ele compõe oito versos bem bobos, que dizem basicamente que Putin não presta e só ele (Pynia) tem razão. Ele publica e obtém novo “sucesso” na internet, mas não dizem se ele ganhou ou não. “Pynia pra presidente”, alguém escreve; afinal, como ele mesmo diz, “Já está comprovado que xingar Putin é o caminho mais curto pra fama”. Em todo caso, o sucesso lhe “sobe à cabeça” e Pynia já planeja todos os detalhes de sua nova “carreira”. No final, lhe vem a indagação sobre se sua mãe já tinha ou não comprado pão...


O último vídeo mostra o que chamam de “Hino a Navalny”, que não deve ser confundido com canções homônimas lançadas por reais apoiadores. Os “Pynias” (ou seja, esses apoiadores “liberaloides de sofá”) são retratados como um exército de zumbis acríticos que seguem e acreditam em tudo o que o oposicionista publicava em seu blog pessoal. Nem preciso dizer que a caricatura cabe muito mais a Putin e aos putinistas, não se podendo descartar a hipótese de uma “sabotagem interna” durante a produção desse clássico...

Segue o que consegui tirar da letra e a tradução, pelo menos as partes mais relevantes, já que em boa parte do tempo a primeira estrofe é repetida várias vezes:

Navalny é tudo pra nós
Somos felizes em servi-lo
Ele semeia bondade, ele traz luz
PZhiV, PZhiV, PZhiv

Somos um pouco jovens e belos
E incrivelmente inteligentes
Escolhemos um caminho importante na vida
Lutar pelo bem do país

Não precisamos trabalhar nem nos esforçar
Assim é nosso método de luta
Devemos urrar o mais alto possível
Contra os bandidos e ladrões

Precisamos grunhir pela internet
Sobre os milhões esbanjados
Não nos importa que tipo de governo é esse
Simplesmente somos oposicionistas

Não precisamos trabalhar nem nos esforçar
Quem foi trouxa, que se esforce
Só precisamos ler o LiveJournal
O LiveJournal é nossa Bíblia

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Навальный – это наше всё
Ему мы рады служить
Он сеет добро, он свет несёт
ПЖиВ, ПЖиВ, ПЖиВ

Молоды и красивы немного
И невероятно умны
Мы выбрали важную в жизни дорогу
Бороться во благо страны

Не надо работать, не надо пахать
Наш метод борьбы таков
Надо как можно громче орать
Про жуликов и воров

Надо в интернетах повизжать
Про списанные миллионы
Что там за власть да нам плевать
Мы просто оппозиционные

Не надо работать, не надо пахать
Глупое было, пусть пашет
Только ЖеЖешечку надо читать
ЖеЖешечка – Библия наша



Há alguns dias, aconteceu na Rússia algo inofensivo, mas, ao que me parece, revelador

Na distante e pacata cidade de Perm, amarraram a um poste Vladimir Putin vestido de presidiário e com a palavra “ladrão” [na foto acima, está “mentiroso”] escrita na testa. É verdade que desta vez não era o próprio presidente que se encontrava no poste, mas um boneco dele. Mesmo assim, até em Moscou tais protestos são raros, e mais ainda no interior. Outro ponto: os passantes não se indignaram com o boneco nem demonstraram qualquer simpatia por Putin. Pior, todos riam e tiravam fotos com ele.

Ao verem a instalação, os policiais ficaram horrorizados e começaram a deter quem tirava fotos com o falso Putin amarrado ao poste. Depois até foram liberados, pois não se conseguiu acusá-los de nada.

Mesmo assim um processo ainda foi aberto. Aleksandr Shabarchin, um dos colaboradores da sede local de Navalny, chegou a ser preso. Como formalmente ele não tinha cometido nenhum crime, as autoridades decidiram o enviar ao exército: agora ele está no comissariado de alistamento militar. Ele próprio diz que não está bem de saúde, mas acho que lá vai se recuperar prontamente.

Seja como for, o protesto teve um momento divertido: outra inscrição sobre o boneco de Putin dizia: “V. V. Pynia, criminoso de guerra”. Esse meme não é muito conhecido na Ucrânia, onde Putin é mais frequentemente chamado de “la-la-la” [provável referência ao lema “Putin Cabeça de Rola”, originalmente seguido do canto]. Porém, na internet russa, travou-se uma verdadeira guerra entre os apoiadores e opositores de Putin.

A mando do Kremlin, blogueiros putinistas elaboraram uma imagem genérica de seu inimigo: um intelectual nulo, patético e mimado, dependente dos pais, sem namorada nem trabalho. Chamaram-no “Pynia” e investiram uma fortuna pra promover essa imagem de quem apoia a oposição. Mas algo deu errado. Os criadores do meme lhe deram um rosto muito parecido com o do presidente. Além disso, “Pynia” soa parecido com o sobrenome “Putin”. Resultou que a imagem do parasita vil, repugnante e inútil na qual o Kremlin investiu terminou colada a seu mandatário.

Oposicionistas começaram a chamar Putin de “Pynia”, o que despertou uma fúria selvagem e insana entre os blogueiros e estrategistas políticos do Kremlin. Eles foram privados da imagem que cultivaram meticulosamente durante vários anos.

Nas vastidões da internet foi travada uma longa guerra em torno do Pynia. Os adoradores de Putin sonhavam em restaurar seu significado original e até acusaram a Ucrânia de roubar o Pynia. Mas o protesto em Perm finalmente colou esse apelido no presidente da Rússia. Agora, para todos os russos, ele vai ser V. V. Pynia, um ladrão e criminoso de guerra.

Esta notícia ficaria incompleta sem as últimas informações sobre as chamadas eleições na Rússia. Na distante República da Cacássia [Khakásia, vai, sejamos justos...], onde a Mongólia é mais próxima que Moscou, esse mesmo Pynia sofreu mais uma grande derrota. Todos os esforços das autoridades pra impedir a vitória do candidato comunista fracassaram.

Já perderam eficácia a propaganda, a dinheirama, as falsificações em massa e os estrategistas políticos da capital. No interior, o povo está cada vez mais odiando o poder. E eu acho isso muito bom.









Pynia é um meme que inicialmente representava uma imagem genérica de um apoiador passivo da oposição, mas que após alguns anos passou a ser associado a Vladimir Putin.

Origem: Tudo começou com uma série de vídeos online sobre o Pynia. O primeiro apareceu no YouTube em 29 de dezembro de 2011. Nele, um típico liberal de sofá [ou “militante de sofá”, como diríamos no Brasil] passava dias inteiros criticando o governo na internet.

Em janeiro de 2017, alguém resolveu reviver o meme e apresentou no Dvach um novo Pynia – “ou, resumindo, uma imagem genérica do gado liberal-ucraniano, permitam lhes apresentar”.

Os usuários do fórum consideraram que o meme estava sendo deliberadamente promovido pelos chamados “olgintsy” ou “savushkintsy” (pessoas pagas pra escrever comentários pró-governo e alimentar disputas políticas online).

Os membros anônimos do Dvach não quiseram suportar isso e decidiram virar o meme contra os próprios trolls:

Os Pynias receberam de seu mestre a tarefa de espalhar o máximo possível de memes com o Pynia. Na verdade, os olgintsy não sabem pra quem estão trabalhando, já que as ordens são encaminhadas usando centenas de pequenas empresas de fachada e podem sinceramente estar “lutando” contra os olgintsy.

Significado: Graças aos esforços dos usuários do Dvach, apareceram inúmeras imagens engraçadas de Putin retratado como o Pynia, e a busca do Google a respeito do assunto começou a indicar artigos sobre o presidente.

Muitos chamam esse confronto de “Guerras Pýnicas”. A vitória foi dos membros anônimos. Agora, ao buscar por “Pynia” na internet, é possível encontrar principalmente fotos de Vladimir Putin, e nas redes sociais, qualquer notícia sobre o presidente é comentada com uma menção ao Pynia.



Uma das versões associando Pynia a Navalny.