domingo, 30 de agosto de 2026

Irmão de Lenin, líder da “RSS” da Crimeia

Poucos brasileiros, mesmo entre os comunistas, conhecem a vida e a biografia dos parentes mais próximos de Vladímir Ilích Uliánov, o Lenin, exceto, talvez, a de seu irmão mais novo, Aleksandr (1866-1887), que foi executado por enforcamento após participar de uma trama pra assassinar o tsar Alexandre 3.º. Também se sabe que Lenin se uniu maritalmente a Nadézhda Krúpskaia, outra revolucionária marxista, mas que ele não tiveram filhos; há boatos de que o líder teve amantes, sobretudo no período em que se exilou na Europa Ocidental. Um desses desconhecidos é seu irmão Dmítri (1874-1943), citado em matéria de 30 de janeiro de 2021 no obscuro jornal russo Ekspress gazeta. Redigida por Marina Sidorova e intitulada “Engenheiros, químicos, programadores: quantos descendentes Lenin teve e que profissões eles seguiram”, não fala exatamente dos “descendentes” que Lenin não teve, mas da prole de Dmitri, que, como ela informa, foi o único dos três irmãos e três irmãs a ter filhos.

Sidorova menciona seus dois casamentos, mas não nomeia as esposas: Antonina Nescheretova (sem filhos) e Aleksandra Karpova (filha Olga, 1922-2011), enquanto a citada Ievdokia Cherviakova, mãe de Viktor (1917-1984), era na verdade um caso extraconjugal. Outras mortes atualizadas na Wikipédia russa são da neta Maria (1943-2021) e da bisneta Ielena (1978-2026, de sepse, ou infecção generalizada). O site também informa que Dmitri Ulianov foi presidente do Conselho de Comissários do Povo – ou seja, o líder de fato – da chamada República Socialista Soviética (RSS) da Crimeia, que existiu brevemente de 6 de maio a 26 de junho de 1919. Médico de formação, acumulou o cargo de comissário do povo (ministro) da Saúde e da Seguridade Social do próprio gabinete.

Porém, a existência da entidade acabou com a invasão da maior parte do sul da Rússia (hoje sul da Ucrânia, parte do qual está ocupado de novo por Moscou) pelas tropas chamadas “brancas”, notadamente sob a liderança sucessiva de Denikin e Wrangel. Somente em 1921 os bolcheviques retomariam a península e criariam a República Socialista Soviética Autônoma (RSSA) da Crimeia, dentro da composição da Rússia soviética, como informa esta publicação feita por um coletivo de tártaros da Crimeia. Lembremos que, na hierarquia organizativa, uma “RSSA” tinha amplas competências, mas se localizava “abaixo” de uma “RSS”; após a 2.ª Guerra Mundial, em 1945 (a lei só seria publicada em 1946), foi ainda mais rebaixada e se tornou uma simples região (óblast) da Rússia. Em 1954, passaria a ser uma região da Ucrânia, mas aí é outra história que já conhecemos bem.

Eu traduzi o artigo da Ekspress gazeta e a legenda do vídeo no Instagram, cujo texto coloquei ao final e completei com informações contidas na descrição da publicação. As fotos também foram incorporadas a partir do referido jornal. Aliás, alguém também notou como Ievgeni é parecido com o tetravô Iliá Ulianov?...



Foto de família dos Ulianov, 1879. Em pé (da esquerda pra direita): Olga (8 anos), Aleksandr (13), Anna (15). Sentados (da esquerda pra direita): Maria Aleksandrovna (44 anos) segurando sua filha Maria (1), Dmitri (5), Iliá Nikolaievich (48), Vladimir (9).


Dos seis irmãos e irmãs, apenas Dmitri Ilich teve filhos.

Todos que frequentaram uma escola soviética se lembram muito bem de que Vladimir Ilich Lenin tinha cinco irmãos e irmãs e até conseguem nomeá-los: Aleksandr, Dmitri, Anna, Olga e Maria. Cinco dos filhos do casal Ulianov não deixaram descendência. Aleksandr foi executado por suas atividades revolucionárias e não teve tempo de constituir família. Olga morreu de febre tifoide aos 19 anos, e Anna e Maria permaneceram sem filhos por toda a vida. Vladimir Ilich, é claro, não tinha tempo pra alegrias familiares: estava decidindo o destino de um vasto país.

Apenas Dmitri Ulianov teve filhos. Em 1917, Dmitri Ilich, médico hospitalar, e a enfermeira Ievdokia Cherviakova tiveram um filho, Viktor. Depois, em seu segundo casamento, nasceu Olga, em 1922.

Olga Ulianova se formaria no Instituto de Química da Universidade de Moscou e se tornaria, por assim dizer, a representante oficial da família Ulianov e do titio Volódia. Na época soviética, os eventos dedicados a Lenin ficavam incompletos sem ela.

A filha de Olga e sobrinha-neta de Lenin, Nadezhda Maltseva, trabalhou no Museu-Reserva Estatal do Kremlin de Moscou. Portanto, assim como seu tio-avô, ela frequentemente estava no Kremlin. Ela tem uma filha, Ielena, que é bisneta de Dmitri Ilich.

O segundo sobrinho de Lenin, Viktor Dmitrievich Ulianov, formou-se no Instituto Bauman e trabalhou na indústria de defesa. Em 1940, nasceu seu filho Vladimir, batizado em homenagem ao tio-avô, e três anos depois, sua filha Maria.

Vladimir Viktorovich, sobrinho-neto de Lenin, escolheu uma especialidade técnica e se tornou engenheiro. Trabalhou no Instituto de Pesquisa em Mecânica de Precisão e Engenharia da Computação da Academia de Ciências da URSS. Sua filha Nadezhda, sobrinha-bisneta de Lenin, fez pós-graduação [kandidat] em Química.

Maria Viktorovna, sobrinha-neta de Vladimir Ilich, também seguiu carreira na área da química, trabalhando no desenvolvimento de medicamentos. Em particular, fez parte de uma equipe que trabalhava na criação de um medicamento pra diabéticos que pudesse ser consumido por via oral.

Em 1971, Maria Viktorovna deu à luz Aleksandr, sobrinho-bisneto de Lenin. Ele trabalhava no ramo editorial e tem dois filhos: Ievgeni Ulianov, nascido em 1989, e Fiodor Ulianov, 17 anos mais novo que o irmão.

Ievgeni, sobrinho-trisneto de Vladimir Ilich, se formou no Instituto de Eletrônica e Matemática de Moscou e se tornou um programador de sucesso, trabalhando pra grandes e prestigiosas empresas. Sua esposa é Nina, colega de escola com quem se casou assim que completaram 18 anos. Eles têm uma filha, que é sobrinha-tetraneta do líder do proletariado.

Todos os descendentes de Lenin tentam manter seu parentesco em segredo, pois seu ancestral comum é uma figura altamente controversa. Isso até podia ser vantajoso na época soviética, mas agora não faz sentido.

“Durante a perestroika, os Ulianov aparentemente sofreram bullying e assédio e não contam muita coisa. Chegamos a assinar um termo de confidencialidade, nos comprometendo a não divulgar seus contatos: eles pediram muito que não fossem incomodados”, disse Tatiana Bryliaieva, diretora da Casa-Museu de Lenin em Ulianovsk, a um correspondente da Ekspress gazeta.

No entanto, os amigos de Ievgeni Ulianov dizem que, entre os mais próximos que sabem de quem ele é parente, ele se permite fazer piadas sobre isso. Aliás, ele é levemente dislálico, mais um motivo de humor.

Ao contrário dos descendentes de Stalin, Khruschov, Andropov e Gorbachov, que vivem no exterior, todos os parentes de Lenin permaneceram na Rússia.



Ievgeni Ulianov e a esposa Nina (perfil do Facebook de Ievgeni)


Em 18 de outubro de 1921, foi criada a República Socialista Soviética Autônoma (RSSA) da Crimeia, dentro da composição da RSFS da Rússia. O tártaro da Crimeia e o russo se tornaram línguas oficiais. Basicamente, a república era a entidade autônoma dos tártaros da Crimeia, que foram alçados aos postos da liderança local. A organização administrativa era conduzida na língua tártara da Crimeia, a imprensa nessa língua se desenvolveu, e seis dos 20 distritos da Crimeia se tornaram “nacionais” [i.e. com estatuto que permite a proteção de uma etnia específica, ou “nacionalidade”, no vocabulário russo-soviético].

Mas muitas iniciativas dos crimeanos não foram apoiadas pelo poder central, e a política de nativização [korenizátsia] na URSS começou a ser desmantelada no início da década de 1930. Em 1928, foi fuzilado o presidente do Comitê Executivo Central da RSSA da Crimeia, Veli Ibraimov. Na década posterior, as repressões se tornaram massivas e toda a elite intelectual tártara da Crimeia foi aniquilada. Depois das deportações de 1944, a RSSA da Crimeia foi extinta e começou um combate aos topônimos em língua tártara da Crimeia. Em 1946, a região autônoma foi transformada na Região [óblast] da Crimeia.


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Murat Tkhagalegov – Родная (Querida)

Um amigo meu do condomínio tem vários irmãos, alguns morando em cidades diferentes. Um deles está estudando russo no Clube Eslavo de São Paulo (que recomendo muito!) e já fala bastante bem, enquanto meu amigo mesmo só sabe algumas frases, mas gosta muito da cultura russa. Quando jogamos sinuca perto de casa, também temos a ocasião de conversar sobre a guerra imperialista de Putin contra a Ucrânia, mas às vezes colocamos pra tocar canções da Rússia e de outras regiões geográficas vizinhas – outro dia, por exemplo, lhe indiquei a rádio regional em que quase todas as músicas tocadas são em ossetiano. Uma das músicas que ele me indicou está em russo, mas é típica da Cabárdia-Balcária (Kabardíno-Balkária em russo), república do centro-norte do Cáucaso, e outro dia decidi a traduzir diretamente. Cleber, se você estiver lendo, esta publicação é pra você!

A canção se chama “Родная” (Rodnáia) e pode ser traduzida como Querida; em russo, rodnói indica uma pessoa muito próxima, estimada, seja ou não aparentada. Ela é cantada por Murát Tkhagalégov, que a gravou em 2015 no álbum Iá tebiá zabyváiu (Estou te esquecendo), embora o vídeo abaixo, indicado pelo Cleber, date de 2013. A letra é da cantora e compositora Amirina (nome artístico de Irina Ievgenievna Amirokova), e a melodia tem como autoria indicada “A. Berdukov”, provavelmente Akhmed Berdukov, também compor e compositor. Na internet há menção a um Azamat Berdukov, que provavelmente é aparentado e morreu durante a invasão à Ucrânia, ainda em 2022.

Tkhagalegov nasceu em 1984 na cidade de Nalchik, capital da Cabárdia-Balcária, e canta em russo, cabardino e adigue; estas duas línguas pertencem à família caucasiana do noroeste, ou abecásio-adigue (ou ainda “pôntica”), à qual também pertence o abecásio, falado na região georgiana da Abecásia (ou “Abkhazia”). Elas não têm qualquer relação com o georgiano (e seus irmãos laz, svan e mingrélio), o armênio, o checheno ou o inguche, muito menos com as línguas eslavas. De etnia adigue (ou circassiana), Tkhagalegov é joalheiro de formação e trabalhou numa fábrica de cimento, mas se dedica à música pelo menos desde 2009, atingindo um pico de popularidade em 2011 e 2012. Lançou apenas três álbuns, todos pela gravadora Zvuk-M, em 2013, 2014 e 2015.

Também é no site da Zvuk-M que se podem achar algumas das raras informações sobre Amirina. Com formação superior, ela começou a atuar em 2006 e mais tarde se tornou Artista Emérita da Carachai-Circássia, outra república do Cáucaso russo. Pelo menos ela tem Instagram, onde também indica outra conta, profissional, e publica suas apresentações, sobretudo em casamentos tradicionais. Eu tirei desta página a letra original da canção, que também pode ser lida e ouvida no Spotify, e seguem o vídeo de 2013 e a tradução:


1. Esta noite, uma noite quente,
Você esperou como que uma eternidade.
Dizia palavras carinhosas sobre ele.
Hoje você passou direto
E foi amada por ele.
E ele vive em teu coração choroso.

Refrão:
Querida, não acredite nas mentiras dele,
Não acredite nos olhos e nas palavras dele.
Querida, o cara mata a alma como um bêbado
E você não consegue esquecer os olhos mentirosos.

2. Você afugenta a imagem e voz dele do coração,
Mas não consegue esquecer e sonha de novo.
Você chora aos prantos e esconde com as mãos,
Se recorda de seu amor desonesto.

(Refrão)

3. Você não vai ser noiva dele,
Não há lugar no coração dele
Pro amor que você tanto deseja.
Pois bem, o rapaz bonito
Todos na região o conhecem,
E acredite, ele está do lado errado!

(Refrão 2x)



segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Dilma “esqueceu” o que tava falando?

Ha messo la prima ed è partita. E come fermarla? È impossibile!” Hahaha!


Há muito tempo queria abordar esta viagem de Dilma Rousseff à Itália, que foi outro exemplo em que ela se pôs em maus lençóis na relação com os idiomas. Eu achava que ainda tinha sido sob seu mandato, porém, descobri que o referido discurso foi feito em 27 de janeiro de 2017, ou seja, durante o que foi apelidado de “turnê do gópi” pela Europa. Uma dessas paradas incluiu a Espanha, onde junto a militantes socialistas ela proferiu alguns dos discursos em ibero-dilmês (ou “dilmunhol”, como outros batizaram), um portunhol particular cuja exibição foi realmente vexatória e desnecessária.

Mesmo que na Universidade de Salento, na cidade de Lecce, bem no sul da Itália, Dilma não estivesse tentando balbuciar a língua de Dante, mantive o padrão das outras vezes em que ela realmente desembestou seus talentos, usando o endereço curto “dilmait” (it = italiano, óbvio), como fiz por ocasião do francês (“dilmafr”, mesma turnê) e do búlgaro (2011). Foi uma questão de organização mesmo. Mas a razão desta publicação não foi lançar mais um meme da família do “saudar a mandioca” e do “estocar vento”, mas tentar desmentir uma injustiça e desfazer um mal-entendido.

Quem me conhece há anos e quem acompanha meu trabalho desde o início, conhece mais ou menos minhas opções político-ideológicas e como escolho candidatos na latrina eleitoral urna. Votei em Dilma duas vezes, na primeira porque apostei que podia fazer melhor o que eu achava que Lula (com cuja pessoa nunca simpatizei) tinha feito de bom, e na segunda porque simplesmente Aécio Neves não me desce. A retórica dela era péssima, mas jamais foi comprovado um único caso de corrupção contra ela; pelo contrário, a faxina que ela tentou promover mesmo no próprio governo acelerou sua queda (a qual, aceitemos, teve base legal). Ainda prefiro ter apoiado uma vítima da tortura do regime terrorista imposto em 1964 do que justamente um de seus bajuladores, saudosistas e defensores: o boca de esgoto Jair Messias, toda a família Bolsonaro e seus apoiadores fanáticos e agressivos.

Outra coisa: nunca poupei um político, partido, regime ou ideologia, meu pensamento sempre foi estilo Casseta & Planeta, isto é, não perdoar ninguém, ainda que a zoeira seja relativamente leve. Não é por menos que publiquei todas as outras “poliglotices” de Dilma e volta e meia chamo nosso futuro presidente “tetracampeão” de Jararaca e Molusco. Porém, se tem uma coisa que abomino é injustiça, calúnia e manipulação, algo recorrente na mídia tradicional antes que as redes sociais as engolissem e regra geral entre as milícias digitais em tempos de conteúdo completamente artificial. E mesmo mídias reputadamente “sabão-em-pó” como UOL e Veja se deixaram embarcar na mentira rancorosa.

Um desses exemplos é o de um tal Reinaldo Polito, que no UOL se apresentava como especialista em oratória e propagou a distorção de que Dilma tinha “esquecido o que estava falando” na Itália. Porém, ninguém aproveitou mais a ocasião pra destilar sua misoginia reacionária quanto Augusto “Covarde” Nunes quando ainda trabalhava pra Abril, em seu compilado que (pra nossa alegria, convenhamos) traz também a transcrição das alocuções em “dilmunhol”. Pra todos os efeitos, ele foi minha fonte principal, mas vamos pôr “Os Pingos nos Is”. (Se duvidam da grave acusação de misoginia, reparem que ele e um comparsa mantiveram por anos no portal a etiqueta “dilmês” não tanto pra atacar os delírios da “nova matriz econômica”, mas sobretudo, como todo crácico do gênero, pra chamar a primeira mulher eleita chefe de Estado de burra, louca e petulante.)

Nunes jamais usou esse tom e linguagem com seu ex-milico de estimação que dispensa nomeação, apesar dos ataques contra mulheres jornalistas, do negacionismo científico, do baixíssimo calão nas mais diversas ocasiões (mesmo que o Véio do Chapéu volta e meia recaia no mesmo vício) e do ódio que propaga contra diversos grupos vulneráveis ou meramente discordantes. Ao modo de Alexandre Garcia, ele “se chutou” de todos os veículos que ainda dependiam da mamata foderal e encontrou seu nicho entre a escumalha bolsonarista que se reagrupou na “revista” Oeste. O duplo padrão é asqueroso, mas há nove anos ele ainda propalava que Dilma “esquecia” seus discursos, quando na verdade não foi bem assim.



Não pude localizar a íntegra, e infelizmente a publicação de Nunes é um dos poucos registros daquele dia do qual me lembro mais ou menos bem. Não vamos julgar Dilma politicamente nem mesmo a utilidade de sua “euroturnê”, mas nos ater ao óbvio: ela estava sendo interpretada por uma profissional, isto é, não incorreu em fazer o imbróglio que abriu tanto flanco a seus detratores naqueles dias. Qual foi o problema? Ela simplesmente “desembestou” a falar e literalmente esqueceu que precisava dar pausas porque a interpretação era consecutiva.

Claro que numa hora dessas, em que os próprios nervos não ajudam muito, a gente nem sempre expressa limpidamente nossos pensamentos, e “Esqueci que tava falando” (e não “o que tava falando”, o que faz toda a diferença!) deve ser interpretado como esquecer que estava sendo interpretada e, portanto, continuar discursando como se a audiência a estivesse entendendo. Sim, dois lapsos típicos do “dilmaware”: ignorar a intérprete e não achar as palavras certas pra se fazer entender. Mas a oposição babante lhe atribuiu um terceiro lapso, inexistente, e seguiu divulgando “esqueci o que tava” no lugar de “esqueci que tava” sem o menor escrúpulo.

Porém, nunca compro passagem pra uma viagem perdida. Portanto, quem vai ganhar nosso Troféu Joinha de hoje é a intérprete, cuja identidade e destino não localizei, rs. Ela pelo menos, depois de uma gargalhada muito mais engraçada que qualquer verborreia de político, aproveita pra tirar uma da cara da ex-presidentA quando esta se lembra (mas não se esquece!) de sua existência, dizendo “Esqueci” (que havia uma intérprete, claro), e responde “Mas eu tento” (isto é, “Vou tentar retomar tudo e traduzir do dilmês pro toscano”...). Quando Dilma profere um “Engrenei uma primeira e fui”, ela traduz, curiosamente na terceira pessoa, “Ha messo la prima ed è partita” e acrescenta da própria lavra “E come fermarla? È impossibile! Allora ci provo” (E como a parar? É impossível? Então vou tentar [traduzir]).



“Modus bolsonarandi”!


Não sei se foi exigido atestado ideológico pra moça atuar como intérprete, se ela já integrava a trupe, se simplesmente foi contratada como autônoma ou se fazia mesmo parte dos membros da universidade. Porém, tenha sido ou não a tirada interpretada “na boa”, foi muito melhor que o fechamento da matéria da Veja com um “Já foi tarde” pelo “Covarde”. Afinal, o Mito dele foi tarde até demais, e como diria Cid Gomes, também “está preso, babaca!”.

Antes que eu é quem me esqueça, descobri por acaso, pesquisando material pra esta humilde publicação, que o Verdevaldo recentemente deu uma entrevista pra seu ex-agressor no vlogueco em que este atua, na ocasião do que seria uma “reconciliação”. Título constrangedor demais... Tanto mais quando sabemos que agora é o ex-Intercept quem passou pro lado do conspiracionismo e se uniu ao antigo desafeto pra ambos centrarem fogo no Xandão. Igual o Picolé de Chuchu, que em 2006 disse que “ele quer voltar à cena do crime”, mas em 2022 o chamou de “maior líder popular da história desse país”: é politicalha que chama???


sábado, 22 de agosto de 2026

15 anos sem Gaddafi: a Líbia destruída

Hoje vamos de algo mais “leve”, se é que de leve a reportagem tem só o tamanho mesmo. Há 15 anos assistíamos aos bombardeios de países da OTAN contra a infraestrutura da Líbia e as tropas do ditador Moammar Gaddafi, mais conhecido como “o rei africano dos looks”. Seu legado ainda é contraditório: se opôs à ingerência ocidental no país riquíssimo em petróleo e redistribuiu essa riqueza pra alcançar o maior IDH do continente; porém, foi extremamente brutal contra os críticos, financiou o terrorismo ao redor do mundo e surrupiou a maior parte dos royalties do ouro negro, enquanto a população ficava só com o mínimo necessário.

Minha geração (nasci em 1988) se acostumou, ou se resignou, a ver os EUA e seus aliados europeus intervirem militarmente em países africanos e asiáticos sob pretextos humanitários, pra fazer gato e sapato dos governos e instituições locais. Claro que a grande maioria era tiranias sanguinárias, mas a derrubada delas devia ser obra do próprio povo. O levante armado contra Gaddafi eclodiu na esteira das “revoltas árabes” de 2011, quando ele acabou massacrando a oposição – como Bashar al-Asad, que só cairia após 13 anos de guerra civil –, mas foi enfraquecido pela intervenção da OTAN, que o acusou de promover um “banho de sangue”, embora os próprios ocidentais tivessem feito a mesma coisa.

Gaddafi terminou assassinado em circunstâncias misteriosas em 20 de outubro de 2011, em Sirte – cidade natal aonde tinha fugido –, mas seu regime já tinha praticamente terminado em 23 de agosto, quando os rebeldes tomaram o controle das instalações do governo na capital Trípoli. A guerra civil em si terminou antes do fim do ano, mas pelo menos dois governos paralelos, apoiados por grupos diferentes de países, até hoje disputam o monopólio do reconhecimento internacional. Nesta edição de 21 de agosto de 2026 do Jornal da África (Rádio França Internacional), da qual separei o trecho, os âncoras introduzem o relato da jornalista Houda Ibrahim, feito nos dois últimos parágrafos.

Após usar esta ferramenta online pra transcrever o áudio por IA e corrigir os poucos erros ainda cometidos, traduzi sem usar o Google e adaptei a transliteração do árabe dos nomes líbios a minha própria prática, mais baseada na fonologia. Deixei a transcrição pra ajudar quem esteja aprendendo francês.



15 anos após a queda de Moammar Gaddafi, a Líbia continua dividida. Fraturado entre dois governos rivais que buscam se eternizar, o país mergulha numa profunda crise institucional e securitária. Porém, em 20 de agosto de 2011, enquanto caía o regime de Gaddafi, esperava-se um vento de liberdade e prosperidade. Mas hoje os líbios estão presos num verdadeiro inferno econômico, reféns de um impasse político cujo fim eles não conseguem enxergar. Reportagem de Houda Ibrahim.

Curiosamente, os 15 anos da queda de Gaddafi foram acompanhados por uma onda de violência que castigou o leste e o oeste do país, começando pelo assassinato em Benghazi do General [Fawzi] Al-Mansori, chefe do serviço de inteligência do Marechal Khalifa Haftar, passando pelo lançamento de drones contra instalações energéticas essenciais em Zawiya, no oeste. Os dois poderes são responsáveis em medida igual pela crise que se transforma numa realidade à qual as partes envolvidas, dentro e fora da Líbia, se adaptam e pra qual deixam de buscar uma verdadeira solução.

No final, as eleições gerais aguardadas pro fim de 2023 não ocorreram. O Estado desmoronou, assim como a transição política. As forças que emergiram de suas ruínas conseguiram construir interesses que tornam vantajoso pra eles manter o status quo. Ano após ano, as administrações, as redes econômicas, os aparelhos de segurança e as elites locais vão se enraizando nessa realidade, tornando cada vez mais difícil a unificação do Estado. A unidade implica necessariamente uma redistribuição do poder, das riquezas e da influência.



15 ans après la chute de Muammar Kadhafi, la Libye reste toujours divisée. Fracturée par deux gouvernements rivaux qui cherchent à se pérenniser, le pays, s’enfonce lui dans une crise institutionnelle et sécuritaire profonde. Pourtant, le 20 août 2011, le régime de Muammar Kadhafi tombait, à l’espoir d’un vent de liberté et de prospérité. Mais les Libyens sont pris aujourd’hui dans un véritable enfer économique, otages d’une impasse politique dont ils ne voient pas la fin. [Reportage de] Houda Ibrahim.

Curieusement, le 15e anniversaire de la chute de Kadhafi s’est accompagné d’une série de violences qui ont touché l’Est et l’Ouest du pays, à commencer par l’assassinat à Benghazi du général al-Mansouri, chef du service de renseignement du maréchal Khalifa Haftar, en passant par les frappes de drones ayant visé des installations énergétiques vitales à Zawiya à l’Ouest, renvoyant dos à dos les deux pouvoirs responsables de la crise qui se transforme en une réalité à laquelle les parties prenantes, internes et externes, s’adaptent, en cessant de chercher une vraie solution.

Les élections générales espérées pour fin 2023 n’ont finalement pas eu lieu. L’État a échoué, tout comme la transition politique. Les forces qui ont émergé de cet échec ont réussi à construire des intérêts qui rendent le statu quo avantageux pour elles. Année après année, les administrations, les réseaux économiques, les appareils sécuritaires et les élites locales sont racinées dans cette réalité, rendant l’unification de l’État de plus en plus difficile. L’unité implique nécessairement une redistribution du pouvoir, des richesses et de l’influence.


domingo, 16 de agosto de 2026

Mahi Binebine, o Bob Esponja marroquino

O escritor (sobretudo romancista), pintor e escultor marroquino Mahi Binebine, nascido em Marrakesh em 1959, é daquelas figuras pouco conhecidas no Brasil devido à barreira linguística, mas que certamente seria muito divertido encontrar. De origem pobre, a história de sua família foi usada no enredo de alguns romances, notadamente Le fou du roi (O bobo da corte) e La nuit nous emportera (A madrugada vai nos levar embora), ainda não traduzidos pro português. Ele justamente chama a trajetória dela de “shakespeariana”, pois seu pai foi exatamente bobo da corte do autoritário rei Hassan 2.º do Marrocos (pai do atual, Mohammad 6.º), a quem basicamente deveria contar histórias pra o entreter antes de dormir, e seu irmão participou de um golpe de Estado que fracassou em derrubar o monarca, obtendo com isso 20 anos na prisão.

Em 1980 Binebine se mudou pra Paris, onde estudou matemática e lecionou a disciplina por oito anos. Depois, passando a se ocupar como escritor e pintor, morou em Nova York de 1994 a 1999, onde seus quadros obtiveram grande sucesso. Em 2002 se instalou definitivamente em Marrakesh, mas partilha seu tempo entre o Marrocos, a França (cuja língua é a usada em sua obra) e os EUA. Em parceria com amigos, também trabalha na inserção psicossocial e econômica, por meio da arte e da cultura, de jovens marroquinos desfavorecidos. Autor de 13 romances (até agora), teve sua produção plástica e literária amplamente reconhecida e premiada nos dois lados do Atlântico e do Mediterrâneo.

Isso é o que a Wikipédia em francês diz sobre Mahi Binebine. O que fica pra conferência do próprio internauta, porém, é a posse de uma das risadas asmáticas mais engraçadas que alguém pode ter visto e a fina voz idêntica, ou quase, à do personagem de desenho Bob Esponja! Posso parecer maldoso, mas hoje trago uma seleção das melhores gargalhadas desse figura, a partir das seguintes fontes: uma conversa no antigo programa INA Arditube, uma entrevista ao jornalista Patrick Simonin no programa L’Invité da TV5MONDE, uma entrevista a Fatimata Wane, sua parceira de iniciativas, ao Journal de l’Afrique da France 24 e, a melhor de todas, uma entrevista com o apresentador marroquino Oussama B (de “Benjelloun”). Esta última deve ter se dado na língua oral marroquina (de forte extração amazigue), na qual, como podemos ver, abundam as palavras e frases inteiras em francês.

A fruição dessa pérola dispensa conhecer as línguas envolvidas, pois sua alegria contagia tanto quanto a do comediante espanhol Juan “El Risitas” Joya Borja, um dos maiores memes da história. Sua risada banguela num programa de entretenimento em 2002 foi publicada no YouTube pela primeira vez em 2007, e a Irmandade Muçulmana egípcia fez a primeira “falsa legenda” com ele pra zombar do ditador militar presidente As-Sissi em 2014. A partir daí, várias outras versões foram sendo feitas em diversas línguas sobre diversos assuntos, com o pico de popularidade atingido em 2015. Como eu mesmo não entendo árabe marroquino, o vídeo com Oussama B, em que Binebine ainda por cima parece muito mais à vontade, serve ainda mais a propósito parecido. Se você conhece francês, alguns fragmentos ainda podem ficar engraçados dentro do contexto.

Porém, cabe traduzir duas falas do Leandro Karnal gaulês, que deixei mais ou menos na íntegra e traduzem bem o sentimento despertado por um espírito como Mahi Binebine: “O riso é uma forma de sobrevivência, uma forma de resistência” (Ele responde: “Na África, quanto mais alguém afunda, mais dá risadakkkkkk”!); “Os que gostam de Mahi Binebine, o artista que tenho diante de mim, sabem que essa risada que escutamos testemunha uma força, mas também uma profunda humanidade dentro de você” (Resposta: “Foi a natureza que fez isso, oras”).

Nesta publicação deixo uma lembrança (e não tanto uma homenagem) aos pobres jovens marroquinos e de outros países africanos, sem perspectiva de emprego em sua terra natal e que, enganados por gente inescrupulosa nas redes sociais, acha que mais um “rolezão na praia” em Ceuta como o tencionado pra hoje pode resolver seus problemas. É o Magrebe pra além dos destinos paradisíacos ao estilo O Clone, esquecido pelos influenciadores nômades...



Opinião de dois jornalistas da Sky News sobre esta publicação:




domingo, 9 de agosto de 2026

Pynia, uma paródia de Putin (2012)

Em setembro de 2026, vão ocorrer na Rússia as chamadas “eleições” pra Duma Estatal, a câmara baixa (tipo a dos Deputados) da Assembleia Federal, isto é, do parlamento. Coloquei eleições entre aspas porque pelo menos desde 2012, se não antes, o pleito é completamente fraudado pra dar maioria absoluta ao Rússia Unida, partido de Vladimir Putin liderado por seu ex-premiê, Dmitri Medvedev, e hoje comparado ao Partido Comunista único na extinta URSS e países de regime similar. Exceto por outros partidos-satélites e candidatos inofensivos, possíveis críticos ao poder já têm o registro negado pelo Comitê Eleitoral Central, chefiado pela fiel Ella Pamfilova, ou as urnas são descaradamente violadas por funcionários escolhidos a dedo, quase sempre filmados pelas próprias câmeras de circuito interno.

O exemplo mais notório do primeiro caso foi o do político Boris Nadezhdin, quase candidato à presidência em 2024 e que na época César Tralli chamou até de “Nadesim”. Recentemente, recebeu o estatuto jurídico de “agente estrangeiro” (ou inoagent), o que na prática o torna um “cidadão menos igual que os outros”, e foi processado por exibir “simbologia extremista” numa live, na verdade um retrato de Aleksei Navalny. Tudo isso praticamente acabou com suas pretensões de voltar a ocupar uma cadeira de opositor na Duma, onde já esteve de 2000 a 2003.

As fraudes – sem contar os assassinatos políticos – já eram conhecidas desde as décadas de 1990 e 2000, mas elas tomaram uma escala inaceitável pra maioria da população em 2011 (eleições pro Conselho Municipal de Moscou) e 2012 (eleições pra Duma Estatal). Na virada desses dois anos, ocorreram os maiores protestos de rua por todo o país desde o fim da URSS e que só seriam quase igualados pelos rapidamente abortados protestos contra a invasão da Ucrânia, logo depois que ela começou. O “milagre econômico” putinista dos anos 2000, resultante em grande parte, como no Brasil, do “boom das commodities” mundial, não foi acompanhado de reformas estruturais relevantes e começou a demonstrar desgaste antes mesmo da explosão de nossas “Jornadas de Junho” em 2013. Putin sabia que seu reino estava seriamente ameaçado, e as imagens de ditadores árabes depostos ou “cancelados” durante o ano de 2011, dizem, o teriam atemorizado profundamente.

Num cenário desses, a única forma de se manter no poder era pela força, pelo terror e pela eclosão de guerras que despertassem o brio patriótico das massas: assim foi com o roubo da Crimeia em 2014, com o assassinato de Boris Nemtsov em 2015 bem nos arredores do Kremlin e com o assalto à Ucrânia em 2022, o qual, porém, ficou muito longe de ter o mesmo efeito de oito anos antes. Ao contrário dos noviços viciados em Instagram que ainda acham que a Rússia toda ama Putin (e isso independente de língua, etnia e religião!), o povo de verdade já criticava e fazia piadas desde sempre, de fato, com sua fisionomia insossa e sua estatura minguada caindo na zoeira antes mesmo da generalização da corrupção, precarização dos serviços públicos e autoritarismo. O antológico programa Kúkly, em que políticos eram figurados por bonecões manipuláveis e dublados por atores na virada do século, saiu do ar exatamente quando o trombadinha de Leningrado começou a ser retratado como uma cria infeliz de Ieltsin. Na mídia estatal, o burocrata inexpressivo, malvestido e desajeitado foi todo repaginado pra dar essa imagem do “lutador de judô” e “cavalgador de ursos” até hoje idolatrada por viúvas de ditadores no Ocidente.

Mesmo assim, nos tempos mais distendidos ou mais repressivos, a zombaria nunca cessou, e uma das caricaturas de Putin talvez pouco conhecida na Banânia seja a do “Pýnia” (Пыня), surgida dentro da própria propaganda estatal em 2011 e retomada pela oposição em 2017. Segundo o Wikcionário em russo, baseado em outras fontes, o substantivo comum “pynia” é uma gíria típica da região de Kaluga indicando uma pessoa esnobe, arrogante, exibida, orgulhosa, petulante, cheia de si, e geralmente se refere a mulheres. Já segundo o portal YouSlang, pynia também significaria um golpe dado no estômago, mas seu uso mais amplo era o de uma referência irônica a um liberal ocidental ou pró-Ocidente, que defenderia suas ideias de forma burra ou desconexa, mais ou menos o que entendemos por “liberaloide”.

Aqui devo abrir um parêntese. No embate político da Rússia, sobretudo online, “liberal” sempre foi considerado um xingamento, muito mais do que na Terra de Santa Cruz. Aqui, exceto por sua oposição a “conservador” em questões societárias (quando preferimos geralmente usar o termo “progressista”), tendemos a considerar “liberal” alguém que apoia o livre mercado, a democracia política e a redução do papel do Estado na economia ao mínimo necessário. A estigmatização fica mais a cargo de extremos vagamente definidos, como “fascista” e “comunista”. Na Moscóvia, “liberal” se tornou uma ofensa, pelo menos entre os putinistas, exatamente por causa de tudo o que estes defendem: supremacismo russo, fechamento ao mundo exterior, demonização dos EUA e da Europa Ocidental, estatismo econômico, Estado autoritário e centralizado, expansionismo territorial, ortodoxia religiosa, culto à guerra e crença no chefe infalível. É claro que “liberalismo” não tem um sentido unívoco em todas as épocas e lugares, por vezes chegando a combinar um completo laissez-faire com a ditadura militar mais terrorista. Mas fecho o parêntese aqui.

O fórum em língua russa Dvach (também conhecido como “2ch”, em referência à palavra chan) foi a principal plataforma em que surgiram as primeiras manifestações do Pynia, mas também as primeiras tretas entre apoiadores do regime e críticos que começaram a usar o personagem contra o próprio Putin. Conta a lenda que a animação, representando um adolescente “militante de sofá”, sustentado pela mãe e sem vida social, que passava seus dias a atacar o Kremlin por todos os males do país, foi criada por agitadores pagos bem na época desses protestos de 2011-12, mais exatamente contra Aleksei Navalny, então despontando como o maior opositor nacional. Segundo esse estereótipo (curiosamente aplicado no Brasil a esquerdistas, muitos dos quais apoiam Putin), os navalnistas seriam essa figura inútil, descuidada, desocupada e obcecada por fóruns virtuais, como a plataforma de blogs Livejournal, na qual o político angariou fama.

Não sei se a intenção inicial foi fazer uma alusão à fisionomia de “Nalvane” (como o chamou Renata Vasconcellos) – ver o exemplo deste blog abandonado –, mas parece ter sido um dos clássicos casos em que o feitiço se voltou contra o feiticeiro. De fato, se observarmos num dos em que sobreviveu a série de cinco vídeos postados bem no início de 2012 (é impossível retraçar a verdadeira gênese, enquanto o endereço indicado não parece apontar mais a um canal semelhante), o rosto do Pynia tem traços muito mais alusivos aos do ditador, sobretudo antes da primeira presidência e toda vez que ele precisa reaplicar seu botox. Pra piorar, “Pynia” não podia ser mais alusivo sonoramente ao sobrenome “Putin”, de forma que, segundo o mesmo YouSlang e as Wikipédias em inglês e francês, o meme antes referente aos liberais acabou sofrendo reversão e se tornando um sinônimo de Vladimir Vladimirovich.

Antes que as BRICSetes aqui presentes comecem a espernear, aviso que Volodymyr Zelensky também tem seus apelidos, alguns dos quais criados pela própria oposição ucraniana e em referência pejorativa ao fato do ex-ator ter outrora (até 2014) trabalhado muito mais na Rússia e/ou em russo. Escolha o seu: Zélia, Zelúpa, Zielieiób (que joga com a pronúncia russa), Zelebóba... Porém, o “povo” que “venceu os adolfistas” e “lançou o satélite e o homem no espaço” não podia ser menos criativo pra apelidar os próprios governantes. Pynia tem diversos derivados, entre eles “Pynebábve” (“Zimbábue de Putin”), “pyneliúb” (adorador de Putin) e “Pynestán” (“Putinstão”). Meu preferido, porém, é “pynekhódy” (пынеходы, algo como “pyniamóvel”), celebrizado como referência aos supostos calços que o ditador usaria em seus sapatos pra parecer pelo menos 10 cm mais alto do que realmente é.

Vou deixar outras explicações pra dois artigos de época que traduzi abaixo: um escrito pelo ucraniano Ivan Iakovyn, disponível em russo e ucraniano e intitulado “A guerra em torno do Pynia: como os russos garraram ódio de Putin” (15 de novembro de 2018), e outro publicado ainda em 2017 na enciclopédia de memes russos, contando o essencial da história. Coloquei notas explicativas entre colchetes onde achei necessário. Antes deles, os seis vídeos que integravam a série em outro canal e dos quais fiz backup pra qualquer eventualidade, e entre eles, alguns dos principais memes ou montagens do “Pynia” já putinizado que selecionei no Google. Dos vídeos traduzi apenas o título e resumi o conteúdo, pois a transcrição completa daria muito trabalho e não teria tanta graça.

A riqueza linguística do debate na Rússia exige ainda a explicação de outros termos. O primeiro e principal deles é a sigla “PZhiV” (ПЖиВ), que Pynia pronuncia o tempo todo nos primeiros vídeos como “pjif, pjif, pjif...” (daí a ortografia humorística “PZhiFF/ПЖиФФ”) e significa “Pártia zhúlikov i voróv” (Partido de Bandidos e Ladrões). Referência pejorativa ao Rússia Unida de Putin, tem a paternidade reivindicada por vários políticos, mas se popularizou no início da década de 2010 entre Navalny e seus apoiadores durante os protestos de rua e as manifestações online. Num dos vídeos também aparece a gíria “Iá – D’Artanián” (Eu sou D’Artagnan), significando o sentimento ególatra de estar sempre certo e considerar os outros errados. Há ainda a expressão “nashísty”, uma fusão de “Náshi”, movimento de apoio juvenil a Putin de 2005 a 2019, com “nazistas” (natsísty) – por isso também chamado de “Putinjugend”. No sentido inverso, também se referia ao partido “Násha Ukraína”, fundado em 2005 pra apoiar a candidatura do presidente ucraniano Viktor Iushchenko e virtualmente invisível desde 2013.


Este é o verdadeiro primeiro episódio, embora num dos canais ele não apareça e o segundo é que esteja indicado como primeiro. As características básicas do Pynia são apresentadas: adolescente, ele não estuda direito, não socializa e não faz as tarefas de casa, fica o dia inteiro reclamando de Putin na internet. A mãe lhe pede pra comprar coisas, mas ele responde que “a vida está uma porcaria”. Pede-lhe pra estudar visando ser alguém na vida, mas ele responde que está “combatendo a corrupção” e que “nesse país, não adianta nada estudar”. Ela lhe pede até pra ir visitar a avó doente, mas ele critica o governo porque “não cuida dos aposentados e lhes dá uma pensão de nada”.

30 anos depois, Pynia ganha pelos e gordura, mas continua só criticando o governo nos fóruns virtuais. Sua mãe idosa não vive mais lá e se aposentou, mas até a pensão dela ele parasita, porque não faz mais nada na vida. Nem mesmos consertos básicos ele quer fazer na casa dela: só quando Putin cair é que as coisas vão melhorar...


Pynia nasceu na década de 1990, quando a Rússia estava falida e sua mãe precisava trabalhar pra sobreviver. Seus pais são separados e o pai já vive com outra família. Pynia sempre tem que estar “lutando” por alguma coisa porque se sente sozinho, já que não sai pra socializar ou mesmo pra fazer esportes, dos quais não gosta, ou artes, às quais não se adequou. Esteve particularmente ativo online durante os protestos do fim de 2011. Está o tempo todo no computador, mas não vê nem mesmo outros tipos de vídeos mais leves que viralizam – a não ser, claro, que se canse da luta política.

No quadro, a chinchila (que “anda em círculos” o tempo todo) está repetindo a sigla humorística “Pjif, pjif, pjif...” e diz “Meus milhões”, provável referência a acusações de corrupção contra Navalny, jamais comprovadas, envolvendo milhões de rublos.


Aqui é contado como Pynia se tornou popular na internet. Ele tentou ficar popular postando vários vídeos seus no YouTube fazendo coisas engraçadas, mas não teve sucesso e só recebia críticas. Finalmente, ele consegue notoriedade e elogios falando mal de Putin e de Medvedev, ao que recebe muitas visualizações e comentários de apoio.


Pynia não foi aos protestos de 2011 contra a falsificação das eleições em Moscou, mas está assistindo à transmissão online, sentido como se estivesse lá. (É curioso como os próprios governistas não problematizam o termo “falsificação” dos opositores...) Boris Akunin, célebre escritor russo contemporâneo, opositor de Putin e hoje exilado, foi um dos líderes dessas manifestações. Como os protestos eram basicamente coisa de fóruns da internet, segundo os putinistas, foi nesse espaço que Akunin teria dado aos manifestantes a “lição de casa” de derrubar Putin. Pynia pensou longamente como fazer isso, mas basicamente só dizia a si mesmo que se isso ocorresse, tudo na vida e no país seria melhor, como uma “solução mágica”. Até dinheiro, namorada e filhos ele conseguiria!


Neste vídeo, Pynia conversa com um “amigo” virtual seu, provavelmente dos EUA (aliás, meio parecido com Gianni Infantino, rs). O americano usa contas falsas apenas pra zoar com os russos, e ele faz Pynia de trouxa, porque enquanto o elogia “na cara”, demonstra desprezo pela Rússia intimamente. O americano passa a imagem de EUA que funcionam e onde você nem precisa estudar pra ser alguém na vida (aliás, Pynia sequer é bom aluno na escola). Diz que o amigo nasceu no país errado e que a “Rasha” (alusão à pronúncia inglesa de Russia) não serviria pra ele revelar suas “qualidades”. Pynia mimetiza o amigo dizendo “maldita Rasha, maldita Rasha” o tempo todo, até que o americano sai da conversa, mas entra de novo com um perfil diferente. E lá vai ele de novo zoar com Pynia...


Aqui, Pynia participa de um “concurso” virtual pra melhor música contra o “Partido de Corruptos e Ladrões” (o Rússia Unida, lembremos). Ele compõe oito versos bem bobos, que dizem basicamente que Putin não presta e só ele (Pynia) tem razão. Ele publica e obtém novo “sucesso” na internet, mas não dizem se ele ganhou ou não. “Pynia pra presidente”, alguém escreve; afinal, como ele mesmo diz, “Já está comprovado que xingar Putin é o caminho mais curto pra fama”. Em todo caso, o sucesso lhe “sobe à cabeça” e Pynia já planeja todos os detalhes de sua nova “carreira”. No final, lhe vem a indagação sobre se sua mãe já tinha ou não comprado pão...


O último vídeo mostra o que chamam de “Hino a Navalny”, que não deve ser confundido com canções homônimas lançadas por reais apoiadores. Os “Pynias” (ou seja, esses apoiadores “liberaloides de sofá”) são retratados como um exército de zumbis acríticos que seguem e acreditam em tudo o que o oposicionista publicava em seu blog pessoal. Nem preciso dizer que a caricatura cabe muito mais a Putin e aos putinistas, não se podendo descartar a hipótese de uma “sabotagem interna” durante a produção desse clássico...

Segue o que consegui tirar da letra e a tradução, pelo menos as partes mais relevantes, já que em boa parte do tempo a primeira estrofe é repetida várias vezes:

Navalny é tudo pra nós
Somos felizes em servi-lo
Ele semeia bondade, ele traz luz
PZhiV, PZhiV, PZhiv

Somos um pouco jovens e belos
E incrivelmente inteligentes
Escolhemos um caminho importante na vida
Lutar pelo bem do país

Não precisamos trabalhar nem nos esforçar
Assim é nosso método de luta
Devemos urrar o mais alto possível
Contra os bandidos e ladrões

Precisamos grunhir pela internet
Sobre os milhões esbanjados
Não nos importa que tipo de governo é esse
Simplesmente somos oposicionistas

Não precisamos trabalhar nem nos esforçar
Quem foi trouxa, que se esforce
Só precisamos ler o LiveJournal
O LiveJournal é nossa Bíblia

____________________


Навальный – это наше всё
Ему мы рады служить
Он сеет добро, он свет несёт
ПЖиВ, ПЖиВ, ПЖиВ

Молоды и красивы немного
И невероятно умны
Мы выбрали важную в жизни дорогу
Бороться во благо страны

Не надо работать, не надо пахать
Наш метод борьбы таков
Надо как можно громче орать
Про жуликов и воров

Надо в интернетах повизжать
Про списанные миллионы
Что там за власть да нам плевать
Мы просто оппозиционные

Не надо работать, не надо пахать
Глупое было, пусть пашет
Только ЖеЖешечку надо читать
ЖеЖешечка – Библия наша



Há alguns dias, aconteceu na Rússia algo inofensivo, mas, ao que me parece, revelador

Na distante e pacata cidade de Perm, amarraram a um poste Vladimir Putin vestido de presidiário e com a palavra “ladrão” [na foto acima, está “mentiroso”] escrita na testa. É verdade que desta vez não era o próprio presidente que se encontrava no poste, mas um boneco dele. Mesmo assim, até em Moscou tais protestos são raros, e mais ainda no interior. Outro ponto: os passantes não se indignaram com o boneco nem demonstraram qualquer simpatia por Putin. Pior, todos riam e tiravam fotos com ele.

Ao verem a instalação, os policiais ficaram horrorizados e começaram a deter quem tirava fotos com o falso Putin amarrado ao poste. Depois até foram liberados, pois não se conseguiu acusá-los de nada.

Mesmo assim um processo ainda foi aberto. Aleksandr Shabarchin, um dos colaboradores da sede local de Navalny, chegou a ser preso. Como formalmente ele não tinha cometido nenhum crime, as autoridades decidiram o enviar ao exército: agora ele está no comissariado de alistamento militar. Ele próprio diz que não está bem de saúde, mas acho que lá vai se recuperar prontamente.

Seja como for, o protesto teve um momento divertido: outra inscrição sobre o boneco de Putin dizia: “V. V. Pynia, criminoso de guerra”. Esse meme não é muito conhecido na Ucrânia, onde Putin é mais frequentemente chamado de “la-la-la” [provável referência ao lema “Putin Cabeça de Rola”, originalmente seguido do canto]. Porém, na internet russa, travou-se uma verdadeira guerra entre os apoiadores e opositores de Putin.

A mando do Kremlin, blogueiros putinistas elaboraram uma imagem genérica de seu inimigo: um intelectual nulo, patético e mimado, dependente dos pais, sem namorada nem trabalho. Chamaram-no “Pynia” e investiram uma fortuna pra promover essa imagem de quem apoia a oposição. Mas algo deu errado. Os criadores do meme lhe deram um rosto muito parecido com o do presidente. Além disso, “Pynia” soa parecido com o sobrenome “Putin”. Resultou que a imagem do parasita vil, repugnante e inútil na qual o Kremlin investiu terminou colada a seu mandatário.

Oposicionistas começaram a chamar Putin de “Pynia”, o que despertou uma fúria selvagem e insana entre os blogueiros e estrategistas políticos do Kremlin. Eles foram privados da imagem que cultivaram meticulosamente durante vários anos.

Nas vastidões da internet foi travada uma longa guerra em torno do Pynia. Os adoradores de Putin sonhavam em restaurar seu significado original e até acusaram a Ucrânia de roubar o Pynia. Mas o protesto em Perm finalmente colou esse apelido no presidente da Rússia. Agora, para todos os russos, ele vai ser V. V. Pynia, um ladrão e criminoso de guerra.

Esta notícia ficaria incompleta sem as últimas informações sobre as chamadas eleições na Rússia. Na distante República da Cacássia [Khakásia, vai, sejamos justos...], onde a Mongólia é mais próxima que Moscou, esse mesmo Pynia sofreu mais uma grande derrota. Todos os esforços das autoridades pra impedir a vitória do candidato comunista fracassaram.

Já perderam eficácia a propaganda, a dinheirama, as falsificações em massa e os estrategistas políticos da capital. No interior, o povo está cada vez mais odiando o poder. E eu acho isso muito bom.









Pynia é um meme que inicialmente representava uma imagem genérica de um apoiador passivo da oposição, mas que após alguns anos passou a ser associado a Vladimir Putin.

Origem: Tudo começou com uma série de vídeos online sobre o Pynia. O primeiro apareceu no YouTube em 29 de dezembro de 2011. Nele, um típico liberal de sofá [ou “militante de sofá”, como diríamos no Brasil] passava dias inteiros criticando o governo na internet.

Em janeiro de 2017, alguém resolveu reviver o meme e apresentou no Dvach um novo Pynia – “ou, resumindo, uma imagem genérica do gado liberal-ucraniano, permitam lhes apresentar”.

Os usuários do fórum consideraram que o meme estava sendo deliberadamente promovido pelos chamados “olgintsy” ou “savushkintsy” (pessoas pagas pra escrever comentários pró-governo e alimentar disputas políticas online).

Os membros anônimos do Dvach não quiseram suportar isso e decidiram virar o meme contra os próprios trolls:

Os Pynias receberam de seu mestre a tarefa de espalhar o máximo possível de memes com o Pynia. Na verdade, os olgintsy não sabem pra quem estão trabalhando, já que as ordens são encaminhadas usando centenas de pequenas empresas de fachada e podem sinceramente estar “lutando” contra os olgintsy.

Significado: Graças aos esforços dos usuários do Dvach, apareceram inúmeras imagens engraçadas de Putin retratado como o Pynia, e a busca do Google a respeito do assunto começou a indicar artigos sobre o presidente.

Muitos chamam esse confronto de “Guerras Pýnicas”. A vitória foi dos membros anônimos. Agora, ao buscar por “Pynia” na internet, é possível encontrar principalmente fotos de Vladimir Putin, e nas redes sociais, qualquer notícia sobre o presidente é comentada com uma menção ao Pynia.



Uma das versões associando Pynia a Navalny.

sábado, 1 de agosto de 2026

General russo contra invasão à Ucrânia


erickfishuk.blogspot.com/ivashov-ua
Hoje a página completa 12 anos sem sair do ar!

É incrível como mesmo entre brasileiros comuns, persiste a lenda de que a expansão da OTAN rumo ao leste da Europa ou uma suposta ameaça que a aliança teria feito à Rússia teria sido a razão pra agressão de Vladimir Putin à Ucrânia. A invasão não foi uma mera tentativa de anexação ou de derrubada do governo pró-UE, mas uma verdadeira vingança em que se tentou aniquilar o vizinho enquanto Estado e, se não quisesse se assimilar aos russos, enquanto povo. E mais do que por qualquer “ameaça” externa real ou, mais provavelmente, imaginada, parte da elite dirigente russa (política, econômica, intelectual e militar) foi movida por ganância, xenofobia e expansionismo. Essa é apenas uma sumarização de como pode ser classificada uma predação não muito diferente daquelas realizadas por Bush filho em seu tempo e por Donald Trump na atualidade.

Porém, muito mais poderia ser dito, embora eu duvide que os fazedores de opinião “antiamericanos”, mesmo dentro do governo Lula, dessem qualquer ouvido ao lado agredido. Já durante a acumulação de tropas russas na fronteira com a Ucrânia, ao longo de janeiro e fevereiro de 2022 (quando eu mesmo estive entre os que duvidavam da hoje chamada “invasão em larga escala”, tendo a guerra começado já em 2014, com o roubo da Crimeia e a desestabilização do Donbás), os serviços de informação ocidentais não foram os únicos a alertarem pro pesadelo que estava por vir. Dentro da própria Rússia, como sabemos, já havia um sentimento antiguerra e de relativa amizade com os ucranianos comuns, numa troca corriqueira de turistas, trabalhadores, estudantes e mercadorias.

O mais revelador é saber que mesmo conservadores geopolíticos entre os militares (pelo menos entre aqueles a quem se permitia alguma expressão) não somente recusavam as razões pra uma possível invasão, mas também foram muito mais incisivos na crítica ao regime, a que chamavam de incapaz e falido. Os próprios “insiders” há muito já viam coisas completamente ocultas pela rede de propaganda espalhada ao redor do mundo e materializada em pretensos portais de “notícias” como RT, Sputinik, RBTH (Russia Beyond, hoje também Gateway to Russia) e similares. Hoje trago minha tradução de uma carta aberta assinada pelo coronel-general (patente hoje inexistente no Brasil) reformado Leoníd Grigórievich Ivashóv (n. 1943), na qualidade de presidente da Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia, grupo de tendência nacionalista e pró-soviética.

Intitulada “Kanún voiný” (lit. “A véspera da guerra”, mas que também pode ser traduzido como “Às vésperas da guerra”), foi lançada em 31 de janeiro de 2022, quando ainda se considerava haver uma “crise” entre Rússia e Ucrânia e quando Putin começava a reunir soldados na fronteira sul. Listando uma série de consequências negativas de uma invasão total, Ivashov alerta que tal erro poderia, na pior das hipóteses, levar à extinção da própria Rússia enquanto Estado, além de a isolar do resto do mundo e afastar a Ucrânia definitivamente. Descontemos seu passado como auxiliar dos genocidas de Slobodan Milošević no Kosovo e sua reprodução acrítica da mentira sobre o “genocídio de russos” no leste da Ucrânia.

Mesmo que ele já estivesse rompido com Putin praticamente desde o início da década de 2000 e fosse um crítico de longa data, pode-se pensar por que um ex-oficial de alto escalão tinha certeza de que o ataque aconteceria, mesmo com o Kremlin gritando aos quatro ventos que isso era “espantalho ocidental”. Eu respondo: a decisão já tinha sido tomada junto com Sergei Shoigú no fim de 2021, e aquela bizarra reunião em Moscou com o chefe do FSB gaguejando foi mero teatro de bajulação. As críticas abertas seguiram ao longo de fevereiro de 2022, e muito do que Ivashov conjeturou pode ser considerado uma previsão, embora eu deixe a você a tarefa de julgar o quanto ele acertou ou errou.

Também se fica a pensar por que este senhor ainda não “caiu de uma janela” nem “passou mal depois do chá”, tanto mais que em 2026 vários militares graduados e membros da “oligarquia” econômica têm sido presos sob acusações de corrupção muito mal explicadas. Ivashov talvez não represente um perigo imediato e pode ser visto como parte dos “milicos de pijama” apegados ao passado e sem poder de influência ou decisão. Ainda em maio de 2022, renunciou à presidência da referida Assembleia “por razões de idade e saúde”, e fora das Wikipédias as referências mais recentes que achei foram uma entrevista de 2023 a um portal russo hoje fora do ar e um vídeo gravado em 2025 e noticiado na Alemanha. Em ambas as ocasiões, Ivashov afirma que não só acertou em suas previsões, mas também que a realidade se revelou “ainda pior”.

Vou me abster de descrever melhor a vida e o pensamento do militar, deixando parte da tarefa a duas publicações, também traduzidas por mim, lançadas na época pela VOA em russo, antes de Trump a fechar em seu segundo mandato: o artigo “Para especialistas, a carta aberta do General Ivashov é um sinal e um desafio ao Kremlin”, assinada por Viktor Vladimirov, e conversas com politólogos reunidas em “O ‘nacional-patriota’ General Ivashov se manifestou contra uma guerra com a Ucrânia”. Notas explicativas minhas estão entre colchetes:


Manifesto da Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia
ao Presidente e aos cidadãos da Federação Russa

A humanidade vive hoje a expectativa de uma guerra. E a guerra significa inevitáveis sacrifícios humanos, destruição, sofrimento de um grande número de pessoas, a liquidação de seu modo costumeiro de vida e a quebra dos sistemas de suporte à vida dos Estados e povos. Uma grande guerra é uma enorme tragédia, um crime grave cometido por alguém. Acontece que a Rússia se encontra no centro dessa catástrofe iminente. E, talvez, pela primeira vez em sua história.

Anteriormente, a Rússia (URSS) travava guerras (justas) forçadas, geralmente quando não restava outra saída, quando os interesses vitais do Estado e da sociedade se encontravam ameaçados.

Mas o que ameaça a própria existência da Rússia hoje? Existem ameaças desse tipo? Pode-se argumentar que as ameaças são de fato evidentes – o país está à beira do fim de sua história. Todas as áreas vitais, incluindo a demografia, estão se deteriorando constantemente, e o ritmo de declínio populacional está batendo recordes mundiais. Essa degradação é sistêmica e, em qualquer sistema complexo, a destruição de um dos elemento pode levar ao colapso do sistema inteiro.

E essa, em nossa visão, é a principal ameaça perante a Federação Russa. Mas essa ameaça é de natureza interna, emanando do modelo de Estado, da qualidade do poder, da condição da sociedade. E as causas de sua emanação são internas: a inviabilidade do modelo de Estado, a completa ineficácia e falta de profissionalismo do sistema de poder e administração e a passividade e desorganização da sociedade. Em tais condições, nenhum país sobrevive por muito tempo.

Quanto às ameaças externas, elas sem dúvida existem. Mas, em nossa avaliação especializada, elas não são atualmente críticas nem ameaçam diretamente a existência da Rússia enquanto Estado ou seus interesses vitais. A estabilidade estratégica como um todo está conservada, as armas nucleares estão sob controle confiável e os contingentes da OTAN não estão se reforçando nem demonstrando atividades ameaçadoras.

Portanto, a escalada da situação em torno da Ucrânia é principalmente artificial e egoísta, beneficiando certas forças internas, inclusive a Federação Russa. Com a desintegração da URSS, no qual a Rússia (Ieltsin) desempenhou um papel decisivo, a Ucrânia se tornou um Estado independente, membro da ONU e, de acordo com o artigo 51 da Carta da ONU, tem o direito à defesa individual e coletiva.

Os dirigentes da Federação Russa ainda não reconheceram os resultados do referendo pela independência da DNR (República Popular de Donetsk) e da LNR (República Popular de Luhansk), além de terem enfatizado repetidamente em nível oficial, inclusive durante o processo de negociação de Minsk, que seus territórios e população pertencem à Ucrânia.

O esforço por manter relações normais com Kyiv, sem destacar relações especiais com a DNR e a LNR, também foi expresso repetidamente no alto escalão.

A questão do genocídio perpetrado por Kyiv nas regiões do sudeste não foi levantada nem na ONU nem na OSCE. Naturalmente, para que a Ucrânia continuasse sendo uma vizinha amigável com a Rússia, era preciso que ela demonstrasse a atratividade de seu modelo de Estado e de seu sistema de poder.

Mas a Rússia não se tornou esse país. Seu modelo de desenvolvimento e seu mecanismo de política externa de cooperação internacional afugentam praticamente todos os seus vizinhos, e não apenas eles.

A anexação da Crimeia e de Sebastopol pela Rússia e o não reconhecimento desses territórios como dela pela comunidade internacional (o que significa que a esmagadora maioria dos Estados do mundo continua os considerando parte da Ucrânia) demonstram de forma convincente o fracasso da política externa da Rússia e a falta de atratividade de sua política interna.

As tentativas de forçar a “paixão” pela Rússia e sua liderança por meio de ultimatos e ameaças de uso da força são insensatas e extremamente perigosas.

O emprego da força militar contra a Ucrânia, em primeiro lugar, colocará em questão a existência da própria Rússia enquanto Estado; em segundo lugar, transformará para sempre russos e ucranianos em inimigos mortais. Em terceiro lugar, milhares (dezenas de milhares) de jovens saudáveis morreriam em ambos os lados, o que sem dúvida impactaria na futura situação demográfica em nossos declinantes países. No campo de batalha, se isso acontecer, as tropas russas entrarão em confronto não somente com as tropas ucranianas, entre as quais estarão muitos jovens russos, mas também com tropas e equipamentos de muitos países da OTAN, e os Estados-membros da aliança serão obrigados a declarar guerra à Rússia.

O presidente da República da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, deixou claro de que lado a Turquia lutará. E pode-se presumir que os dois exércitos de campo e a marinha da Turquia receberão ordens para “libertar” a Crimeia e Sebastopol e possivelmente invadir o Cáucaso.

Além disso, a Rússia será inequivocamente classificada como um país que ameaça a paz e a segurança internacional, sujeita a severas sanções, transformada em um pária na comunidade internacional e provavelmente destituída de seu estatuto de Estado independente.

O Presidente o governo e o Ministério da Defesa não podem deixar de entender essas consequências, eles não são tão estúpidos.

Surge a questão: quais são os verdadeiros objetivos de provocar tensões beirando à guerra e de lançar uma possível ação militar em larga escala? E percebe-se que esse é o caso pelo número e pela composição bélica dos grupos de tropas que estão se formando em ambas as partes – pelo menos 100 mil soldados de cada lado. A Rússia, expondo suas fronteiras orientais, está transferindo unidades rumo às fronteiras com a Ucrânia.

Em nossa opinião, a liderança do país, percebendo que é incapaz de retirar o país de uma crise sistêmica – mesmo ao custo de possivelmente provocar uma revolta popular e uma mudança de poder no país –, com o apoio da oligarquia, da burocracia corrupta, da mídia subornada e das forças de segurança, decidiu intensificar uma linha política voltada à destruição final da Rússia enquanto Estado e ao extermínio da população nativa do país.

E a guerra é o meio para atingir esse objetivo, visando manter temporariamente seu poder antinacional e preservar as riquezas saqueadas do povo. Não conseguimos avançar outra explicação.

Nós, oficiais da Rússia, exigimos que o Presidente da Federação Russa abandone sua política criminosa de provocar uma guerra na qual a Federação Russa se encontrará sozinha contra as forças combinadas do Ocidente, crie condições para a implementação prática do artigo 3 da Constituição da Federação Russa [que aponta o povo como fonte de todo o poder e proíbe a usurpação unipessoal desse poder] e renuncie ao cargo.

Apelamos a todos os militares da reserva e reformados, bem como aos cidadãos da Rússia, para que demonstrem vigilância e organização, apoiem as reivindicações do Conselho da Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia, oponham-se ativamente à propaganda e provocação de uma guerra e impeçam um conflito civil interno que envolva o uso da força militar.

Coronel-General L. G. Ivashov
Presidente da Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia


Na opinião de Ivashov, “Anteriormente, a Rússia (URSS) travava guerras (justas) forçadas, geralmente quando não restava outra saída, quando os interesses vitais do Estado e da sociedade se encontravam ameaçados”.

O coronel-general reformado Leonid Ivashov, conhecido por suas visões pró-soviéticas e nacional-patrióticas, lançou um apelo em sua qualidade de presidente da “Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia” contra uma guerra da Rússia com a Ucrânia. Ele acusou de prepararem tal guerra a liderança da Rússia e o presidente Vladimir Putin, cuja renúncia ele pediu.

A declaração é datada de 31 de janeiro. No dia anterior, o cientista político Ivan Preobrazhenski chamou a atenção para ela, seguido por outros comentaristas online.

Segundo Ivashov, “Anteriormente, a Rússia (URSS) travava guerras (justas) forçadas, geralmente quando não restava outra saída, quando os interesses vitais do Estado e da sociedade se encontravam ameaçados”. No entanto, escreve o general, a única ameaça existencial à Rússia agora é a deterioração de sua vida interna. Já as ameaças externas “não são atualmente críticas”. “A estabilidade estratégica como um todo está conservada, as armas nucleares estão sob controle confiável e os contingentes da OTAN não estão se reforçando nem demonstrando atividades ameaçadoras”, escreve Ivashov.

Conforme o apelo, a Ucrânia tem o direito à defesa individual e coletiva Estado independente. “Naturalmente, para que a Ucrânia continuasse sendo uma vizinha amigável com a Rússia, era preciso que ela demonstrasse a atratividade de seu modelo de Estado e de seu sistema de poder”, escreve Ivashov. Ele também observa que a esmagadora maioria dos países do mundo não reconhece a Crimeia e Sebastopol como territórios anexados à Rússia, o que demonstra “de forma convincente o fracasso da política externa da Rússia e a falta de atratividade de sua política interna”.

Na opinião do general, o uso da força militar contra a Ucrânia “em primeiro lugar, colocará em questão a existência da própria Rússia enquanto Estado; em segundo lugar, transformará para sempre russos e ucranianos em inimigos mortais”. Ivashov também teme a entrada de países da OTAN no conflito, particularmente a Turquia. “Além disso, a Rússia será inequivocamente classificada como um país que ameaça a paz e a segurança internacional, sujeita a severas sanções, transformada em um pária na comunidade internacional e provavelmente destituída de seu estatuto de Estado independente”, afirma o general. Ele acredita que a Rússia está a “provocar tensões beirando à guerra” para distrair a população dos problemas internos. O apelo exige que o presidente “abandone sua política criminosa de provocar uma guerra”.

De 1996 a 2001, Ivashov chefiou a Diretoria Principal de Cooperação Militar Internacional do Ministério da Defesa da Rússia e ocupou outros altos cargos no Ministério da Defesa. Ele ganhou notoriedade, em particular, por suas avaliações extremamente negativas da operação da OTAN contra a Sérvia [que ainda integrava o que tinha restado da Iugoslávia] em 1999. Após ser reformado, escreveu para o jornal Zavtra e outros veículos, criticando as políticas do governo da Rússia sob uma perspectiva “nacional-soberanista”. Também criticou a OTAN e o Ocidente.

A “Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia” é uma organização social que reúne oficiais da reserva com visões pró-soviéticas e nacional-patrióticas. Sua direção inclui, por exemplo, o Coronel Vladimir Kvachkov e outras figuras proeminentes.

Nas últimas semanas, a Rússia concentrou uma grande força armada na fronteira com a Ucrânia, e unidades e equipamentos adicionais estão chegando para exercícios em Belarus. Os países ocidentais temem que a Rússia possa lançar uma invasão em larga escala ao território da Ucrânia, o que Moscou nega estar planejando.


O coronel-general reformado Leonid Ivashov, presidente da “Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia”, manifestou-se contra a política de Putin e os preparativos para uma guerra com a Ucrânia.

A política do Kremlin de se preparar para uma guerra com a Ucrânia é criminosa em sua essência. Assim escreveu o coronel-general russo reformado Leonid Ivashov em uma carta aberta intitulada “A véspera da guerra”, na qualidade de presidente da “Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia”. Ele também pediu ao presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, que renunciasse ao cargo.

“A carta atesta mudanças muito sérias no humor das mais diversas camadas da população” – O político e ex-deputado da Duma Estatal da Rússia, Gennadi Gudkov, comentou ao serviço russo da VOA que conhece pessoalmente Leonid Ivashov. Ele acredita não ser surpresa que Ivashov desfrute de grande respeito entre os oficiais. “É claro que suas opiniões sobre a política do Kremlin foram bastante controversas em vários momentos”, acrescentou. “Mas o fato de ter agora se manifestado de forma tão dura e contundente contra o envolvimento da Rússia em uma guerra com a Ucrânia, pedido a renúncia de Putin e apontado que o sistema de poder criado pelo presidente está se deteriorando e representa o principal perigo para o país – tudo isso diz muito. Sua carta atesta mudanças muito sérias no humor das mais diversas camadas da população.”

Está ficando absolutamente claro que a sociedade russa como um todo não quer uma guerra com a Ucrânia, constatou Gennadi Gudkov. A seu ver, a ideia de lutar em solo estrangeiro, ainda mais enquanto agressor, é completamente inaceitável para a maioria da população do país. “Parece-me que esse é um ponto de virada muitíssimo importante”, continuou. “As pessoas percebem que a guerra será excepcionalmente injusta e se recusam resolutamente a aceitá-la. Portanto, para o Kremlin é um sinal sério que deveria ser levado em conta.”

O ex-deputado também concorda que as tensões em torno da Ucrânia estão se intensificando em grande parte para distrair os cidadãos de questões internas urgentes. “Nos canais de TV federais, ouve-se de tudo, menos o que realmente preocupa as pessoas. Diariamente, instiga-se o ódio contra o mundo exterior. Enquanto isso, o próprio Putin entende perfeitamente que não há nem se espera qualquer pré-condição para um ataque da OTAN à Rússia. Todas essas ameaças que o Kremlin propaga por meio de suas mídias são míticas e não representam nenhum perigo real para o país. Portanto, Ivashov está absolutamente certo”, sumarizou Gennadi Gudkov.

“Putin simplesmente se sente desconfortável sem um inimigo” – Essa é uma mensagem significativa, afirma o cientista político Abbás Galliamov ao serviço russo da VOA. Ele acredita que Putin e a sociedade em geral já se acostumaram com as críticas liberais à política externa expansionista do Kremlin. “E aqui temos uma verdadeira sensação”, diz. “Inesperadamente, Ivashov expressou essencialmente os mesmos argumentos dos liberais, embora já combatesse a expansão da OTAN rumo ao leste quando ninguém realmente conhecia Putin. É um homem cujos méritos, aos olhos dos ‘patriotas nacionais’, geralmente não precisam de confirmação adicional. Ele é conhecido por suas visões nacionalistas e, em certos círculos, carrega a aura de patriarca.”

Portanto, é claro que isso foi um choque, forçando todos a reavaliar a situação, argumenta Abbás Galliamov. Em sua visão, tal conversão de patriotas em liberais, sobretudo quando realizada por uma figura conhecida, demonstra claramente qual lado, da perspectiva da influência sobre a opinião pública, está atualmente mais forte.

“É evidente que os argumentos do Kremlin não estão conseguindo causar o devido impacto no público em geral nem convencer não apenas seus oponentes, mas até mesmo potenciais aliados – pessoas que supostamente vestem o mesmo ‘casaco de Budiónny’ [referência ao traje histórico do Exército Vermelho]”, explicou. “Surpreendentemente e com razão, Ivashov observou que a causa primeira do que está acontecendo em torno da Ucrânia é amplamente determinada pelo desejo do Kremlin de desviar a atenção pública de questões internas para questões externas.”

Putin simplesmente se sente desconfortável sem um inimigo, considera o cientista político. “Não é coincidência que, desde seus primeiros dias no poder, ele tenha constantemente se ocupado em congregar a sociedade ‘contra alguém’. Nem é por acaso que ele retrate seus próprios críticos internos como agentes de algum inimigo externo. Hoje, a maioria eleitoral que ele outrora obtinha está se desfazendo. Você confirmará isso em qualquer estudo sociológico. Há muito tempo o índice de aprovação do presidente está abaixo de 50%, sem falar no índice de aprovação de seu partido Rússia Unida. E nessa situação, Putin não tem outra escolha senão tentar restaurar o paradigma que um dia o levou ao sucesso”, concluiu Abbás Galliamov.



segunda-feira, 20 de julho de 2026

ACABOU, COPA: vai ter memes sim!

No último dia da Copa do Mundo do Catar, em 2022, também fiz uma coletânea dos melhores memes deixados pela competição, então coletados no Équis (que ainda se chamava Twitter) e em algumas outras fontes. Com minha conta secreta feita no “esgotão da internet” só pra acessar determinados conteúdos (já que hoje a maioria das redes antissociais limita a visibilidade sem fazer login), nem precisei realizar buscas por determinados termos ou clicar num trending topic pra saber “O que está acontecendo” (eterno slogan da empresa): o algarismo do Ilomasque é tão poderoso que a página inicial já jorrava conteúdos sobre a histórica final entre o Califado de Córdoba, que saiu vencedor, e as Províncias Unidas do Rio da Prata.

Porém, ao contrário daquele inusitado dezembro em que ocorria tal evento, meu foco hoje foi exatamente na final, com dois assuntos principais: as incontáveis remontagens da foto de 2007, em que Lionel Messi jovem dá banho em Lamine Yamal bebê pra uma campanha da UNICEF (o ibérico é filho de imigrantes, um marroquino e uma equato-guineense), e a raiva dos platinos pelas falhas no ataque e pela consequente derrota, com direito a ódio descontado no presidente “libertino” Javier Milei. Muito mais que os bananeiros, nossos vizinhos do sul resolveram ligar o desempenho do time com o contexto político e, nessa onde de fúria, aprendi a palavra “mufa” (que significa “azar” no lunfardo portenho, ou a tão tropical “zica”) e descobri que o locatário da Quinta de Olivos tem entre seus inimigos o apelido “La Gorda”, rs!

A própria análise das publicações já mostra um salto tecnológico enorme em relação a três anos e meio atrás. O primeiro aspecto evidente é a quantidade, isto é, ao contrário do que rezavam os mal-amados do Esquerdistão acadêmico, o Équis não faliu com sua aquisição pelo Quico dos Foguetes, mas cresceu bem mais do que antes, e a toxina não parou de aumentar, apesar do controle imposto por certos Estados devido a situações que já estavam degringolando. Outras gerações foram chegando, e lá estavam elas na “rede de microblogues”, e não apenas no Teco-Teco chinês; em todo caso, não posso comparar com outras redes, porque não as explorei. O segundo aspecto é a qualidade das montagens, visível pra quem vir minha publicação de 2022: antes podia se falar propriamente de “montagem” porque basicamente eram sobrepostos recursos gráficos já existentes, sobretudo bandeiras nacionais em cima de pessoas. Com o advento e popularização da inteligência artificial (IA) a partir de 2023, as próprias situações passaram a ser criadas (som, áudio e vídeo), graficamente não se distinguindo de algo realmente acontecido. Pra manipular notícias é péssimo, mas pra diversão e humor é maravilhoso!

Dado que a maior parte da polêmica se concentrou em torno do quase aposentado “Piponel” (desempenho, atitudes e suposto conluio com a FIFA), não pude deixar de repetir o “Pessi” no endereço curto pra esta publicação. Apesar da campanha heroica dos “hermanos”, essa degringolada diante da “Roja” não deixou de suscitar dúvidas sobre a probidade dos jogos anteriores, como bem levantei anteontem. Mas basicamente, meu objetivo ontem foi procurar “inversões” da citada foto de 2007, que inevitavelmente eu sabia que iam fazer, me poupando trabalho de tentar algo nessa direção. E como eu disse, o salto tecnológico não só multiplicou o número dessas iniciativas, mas também permitiu que até vídeos fossem inspirados na cena!

E a briga não para! Hoje mesmo no Équis, entre os perdedores há o sentimento de frustração com o chefe de Estado, pois muitos jogadores não teriam retornado por causa de suas declarações contra o uso do bordão “Las Malvinas son argentinas” no jogo contra os donos das Falklands. Segundo “La Gorda”, não seria com palavras de ordem “adolescentes” como essa que o arquipélago seria recuperado; confessemos, essa é a última das prioridades do admirador assumido de Margaret Thatcher. No mesmo esgotão, têm circulado imagens de policiais agredindo torcedores albicelestes no Rio de Janeiro, com comentários de conterrâneos criticando a “animalidade” de nossas forças da ordem. De fato, são tomadas tiradas de contexto, omitindo quem começava realmente as confusões...

Bem, mas vamos ao que interessa. Em primeiro lugar, a razão de ser desta publicação, que é a inusitada situação histórica de ver um bebê sendo banhando por um adulto ganhar uma final de Copa contra esse mesmo adulto anos depois, rs. A conta da qual tirei esta montagem que rodou o mundo é brasileira, mas as variações se multiplicaram:







Taí a Ousadia e Alegria que o Neymar NUNCA vai ter:


Qual desses é o verdadeiro “Méçi Careca” tratorado? Rs:

      


Aos 50 segundos, a cambalhota do nada, kkkkk:


Originalmente eu tinha baixado desta publicação, mas ela foi apagada por razões de direitos autorais e outra conta também publicou. Se alguém ainda subestimava a grosseria e violência do time e torcida da AFA, a afirmação viva está na cena deplorável após o apito final, num nível que nem a CBF, fosse ou não numa final, jamais desceu:


Alguns, infelizmente, tiveram muito o que perder com esta Cópula (eu jurava que, assim como nos bombardeios do Laranjão, ele tinha conseguido um “insider”, rs):


Agora, uma exploração mais detida do lado derrotado. Este print do canal Todo Noticias me lembra uma piada antiga que se fosse contada usando o jogo de ontem, ficaria da seguinte maneira: “E termina a final da Copa do Mundo, com vitória da Espanha por um gol e zero GOLAAAÇOS da Argentina!”


Eis a coleção de imprecações que misturaram decepção com o Pessi, ódio ao Javier Gerardo (por ideologia ou pela ausência supersticiosa do estádio – “é a cabala”...) e ironia porque o presidente já teria desejado “evitar o vexame”, rs:




“Hambrientina”: trocadilho entre “hambriento” (faminto) e “Argentina”.











Bardear al plantel” significa “ofender uma equipe esportiva”.