Em setembro de 2026, vão ocorrer na Rússia as chamadas “eleições” pra Duma Estatal, a câmara baixa (tipo a dos Deputados) da Assembleia Federal, isto é, do parlamento. Coloquei eleições entre aspas porque pelo menos desde 2012, se não antes, o pleito é completamente fraudado pra dar maioria absoluta ao Rússia Unida, partido de Vladimir Putin liderado por seu ex-premiê, Dmitri Medvedev, e hoje comparado ao Partido Comunista único na extinta URSS e países de regime similar. Exceto por outros partidos-satélites e candidatos inofensivos, possíveis críticos ao poder já têm o registro negado pelo Comitê Eleitoral Central, chefiado pela fiel Ella Pamfilova, ou as urnas são descaradamente violadas por funcionários escolhidos a dedo, quase sempre filmados pelas próprias câmeras de circuito interno.
O exemplo mais notório do primeiro caso foi o do político Boris Nadezhdin, quase candidato à presidência em 2024 e que na época César Tralli chamou até de “Nadesim”. Recentemente, recebeu o estatuto jurídico de “agente estrangeiro” (ou inoagent), o que na prática o torna um “cidadão menos igual que os outros”, e foi processado por exibir “simbologia extremista” numa live, na verdade um retrato de Aleksei Navalny. Tudo isso praticamente acabou com suas pretensões de voltar a ocupar uma cadeira de opositor na Duma, onde já esteve de 2000 a 2003.
As fraudes – sem contar os assassinatos políticos – já eram conhecidas desde as décadas de 1990 e 2000, mas elas tomaram uma escala inaceitável pra maioria da população em 2011 (eleições pro Conselho Municipal de Moscou) e 2012 (eleições pra Duma Estatal). Na virada desses dois anos, ocorreram os maiores protestos de rua por todo o país desde o fim da URSS e que só seriam quase igualados pelos rapidamente abortados protestos contra a invasão da Ucrânia, logo depois que ela começou. O “milagre econômico” putinista dos anos 2000, resultante em grande parte, como no Brasil, do “boom das commodities” mundial, não foi acompanhado de reformas estruturais relevantes e começou a demonstrar desgaste antes mesmo da explosão de nossas “Jornadas de Junho” em 2013. Putin sabia que seu reino estava seriamente ameaçado, e as imagens de ditadores árabes depostos ou “cancelados” durante o ano de 2011, dizem, o teriam atemorizado profundamente.
Num cenário desses, a única forma de se manter no poder era pela força, pelo terror e pela eclosão de guerras que despertassem o brio patriótico das massas: assim foi com o roubo da Crimeia em 2014, com o assassinato de Boris Nemtsov em 2015 bem nos arredores do Kremlin e com o assalto à Ucrânia em 2022, o qual, porém, ficou muito longe de ter o mesmo efeito de oito anos antes. Ao contrário dos noviços viciados em Instagram que ainda acham que a Rússia toda ama Putin (e isso independente de língua, etnia e religião!), o povo de verdade já criticava e fazia piadas desde sempre, de fato, com sua fisionomia insossa e sua estatura minguada caindo na zoeira antes mesmo da generalização da corrupção, precarização dos serviços públicos e autoritarismo. O antológico programa Kúkly, em que políticos eram figurados por bonecões manipuláveis e dublados por atores na virada do século, saiu do ar exatamente quando o trombadinha de Leningrado começou a ser retratado como uma cria infeliz de Ieltsin. Na mídia estatal, o burocrata inexpressivo, malvestido e desajeitado foi todo repaginado pra dar essa imagem do “lutador de judô” e “cavalgador de ursos” até hoje idolatrada por viúvas de ditadores no Ocidente.
Mesmo assim, nos tempos mais distendidos ou mais repressivos, a zombaria nunca cessou, e uma das caricaturas de Putin talvez pouco conhecida na Banânia seja a do “Pýnia” (Пыня), surgida dentro da própria propaganda estatal em 2011 e retomada pela oposição em 2017. Segundo o Wikcionário em russo, baseado em outras fontes, o substantivo comum “pynia” é uma gíria típica da região de Kaluga indicando uma pessoa esnobe, arrogante, exibida, orgulhosa, petulante, cheia de si, e geralmente se refere a mulheres. Já segundo o portal YouSlang, pynia também significaria um golpe dado no estômago, mas seu uso mais amplo era o de uma referência irônica a um liberal ocidental ou pró-Ocidente, que defenderia suas ideias de forma burra ou desconexa, mais ou menos o que entendemos por “liberaloide”.
Aqui devo abrir um parêntese. No embate político da Rússia, sobretudo online, “liberal” sempre foi considerado um xingamento, muito mais do que na Terra de Santa Cruz. Aqui, exceto por sua oposição a “conservador” em questões societárias (quando preferimos geralmente usar o termo “progressista”), tendemos a considerar “liberal” alguém que apoia o livre mercado, a democracia política e a redução do papel do Estado na economia ao mínimo necessário. A estigmatização fica mais a cargo de extremos vagamente definidos, como “fascista” e “comunista”. Na Moscóvia, “liberal” se tornou uma ofensa, pelo menos entre os putinistas, exatamente por causa de tudo o que estes defendem: supremacismo russo, fechamento ao mundo exterior, demonização dos EUA e da Europa Ocidental, estatismo econômico, Estado autoritário e centralizado, expansionismo territorial, ortodoxia religiosa, culto à guerra e crença no chefe infalível. É claro que “liberalismo” não tem um sentido unívoco em todas as épocas e lugares, por vezes chegando a combinar um completo laissez-faire com a ditadura militar mais terrorista. Mas fecho o parêntese aqui.
O fórum em língua russa Dvach (também conhecido como “2ch”, em referência à palavra chan) foi a principal plataforma em que surgiram as primeiras manifestações do Pynia, mas também as primeiras tretas entre apoiadores do regime e críticos que começaram a usar o personagem contra o próprio Putin. Conta a lenda que a animação, representando um adolescente “militante de sofá”, sustentado pela mãe e sem vida social, que passava seus dias a atacar o Kremlin por todos os males do país, foi criada por agitadores pagos bem na época desses protestos de 2011-12, mais exatamente contra Aleksei Navalny, então despontando como o maior opositor nacional. Segundo esse estereótipo (curiosamente aplicado no Brasil a esquerdistas, muitos dos quais apoiam Putin), os navalnistas seriam essa figura inútil, descuidada, desocupada e obcecada por fóruns virtuais, como a plataforma de blogs Livejournal, na qual o político angariou fama.
Não sei se a intenção inicial foi fazer uma alusão à fisionomia de “Nalvane” (como o chamou Renata Vasconcellos) – ver o exemplo deste blog abandonado –, mas parece ter sido um dos clássicos casos em que o feitiço se voltou contra o feiticeiro. De fato, se observarmos num dos em que sobreviveu a série de cinco vídeos postados bem no início de 2012 (é impossível retraçar a verdadeira gênese, enquanto o endereço indicado não parece apontar mais a um canal semelhante), o rosto do Pynia tem traços muito mais alusivos aos do ditador, sobretudo antes da primeira presidência e toda vez que ele precisa reaplicar seu botox. Pra piorar, “Pynia” não podia ser mais alusivo sonoramente ao sobrenome “Putin”, de forma que, segundo o mesmo YouSlang e as Wikipédias em inglês e francês, o meme antes referente aos liberais acabou sofrendo reversão e se tornando um sinônimo de Vladimir Vladimirovich.
Antes que as BRICSetes aqui presentes comecem a espernear, aviso que Volodymyr Zelensky também tem seus apelidos, alguns dos quais criados pela própria oposição ucraniana e em referência pejorativa ao fato do ex-ator ter outrora (até 2014) trabalhado muito mais na Rússia e/ou em russo. Escolha o seu: Zélia, Zelúpa, Zielieiób (que joga com a pronúncia russa), Zelebóba... Porém, o “povo” que “venceu os adolfistas” e “lançou o satélite e o homem no espaço” não podia ser menos criativo pra apelidar os próprios governantes. Pynia tem diversos derivados, entre eles “Pynebábve” (“Zimbábue de Putin”), “pyneliúb” (adorador de Putin) e “Pynestán” (“Putinstão”). Meu preferido, porém, é “pynekhódy” (пынеходы, algo como “pyniamóvel”), celebrizado como referência aos supostos calços que o ditador usaria em seus sapatos pra parecer pelo menos 10 cm mais alto do que realmente é.
Vou deixar outras explicações pra dois artigos de época que traduzi abaixo: um escrito pelo ucraniano Ivan Iakovyn, disponível em russo e ucraniano e intitulado “A guerra em torno do Pynia: como os russos garraram ódio de Putin” (15 de novembro de 2018), e outro publicado ainda em 2017 na enciclopédia de memes russos, contando o essencial da história. Coloquei notas explicativas entre colchetes onde achei necessário. Antes deles, os seis vídeos que integravam a série em outro canal e dos quais fiz backup pra qualquer eventualidade, e entre eles, alguns dos principais memes ou montagens do “Pynia” já putinizado que selecionei no Google. Dos vídeos traduzi apenas o título e resumi o conteúdo, pois a transcrição completa daria muito trabalho e não teria tanta graça.
A riqueza linguística do debate na Rússia exige ainda a explicação de outros termos. O primeiro e principal deles é a sigla “PZhiV” (ПЖиВ), que Pynia pronuncia o tempo todo nos primeiros vídeos como “pjif, pjif, pjif...” (daí a ortografia humorística “PZhiFF/ПЖиФФ”) e significa “Pártia zhúlikov i voróv” (Partido de Bandidos e Ladrões). Referência pejorativa ao Rússia Unida de Putin, tem a paternidade reivindicada por vários políticos, mas se popularizou no início da década de 2010 entre Navalny e seus apoiadores durante os protestos de rua e as manifestações online. Num dos vídeos também aparece a gíria “Iá – D’Artanián” (Eu sou D’Artagnan), significando o sentimento ególatra de estar sempre certo e considerar os outros errados. Há ainda a expressão “nashísty”, uma fusão de “Náshi”, movimento de apoio juvenil a Putin de 2005 a 2019, com “nazistas” (natsísty) – por isso também chamado de “Putinjugend”. No sentido inverso, também se referia ao partido “Násha Ukraína”, fundado em 2005 pra apoiar a candidatura do presidente ucraniano Viktor Iushchenko e virtualmente invisível desde 2013.
Este é o verdadeiro primeiro episódio, embora num dos canais ele não apareça e o segundo é que esteja indicado como primeiro. As características básicas do Pynia são apresentadas: adolescente, ele não estuda direito, não socializa e não faz as tarefas de casa, fica o dia inteiro reclamando de Putin na internet. A mãe lhe pede pra comprar coisas, mas ele responde que “a vida está uma porcaria”. Pede-lhe pra estudar visando ser alguém na vida, mas ele responde que está “combatendo a corrupção” e que “nesse país, não adianta nada estudar”. Ela lhe pede até pra ir visitar a avó doente, mas ele critica o governo porque “não cuida dos aposentados e lhes dá uma pensão de nada”.
30 anos depois, Pynia ganha pelos e gordura, mas continua só criticando o governo nos fóruns virtuais. Sua mãe idosa não vive mais lá e se aposentou, mas até a pensão dela ele parasita, porque não faz mais nada na vida. Nem mesmos consertos básicos ele quer fazer na casa dela: só quando Putin cair é que as coisas vão melhorar...
Pynia nasceu na década de 1990, quando a Rússia estava falida e sua mãe precisava trabalhar pra sobreviver. Seus pais são separados e o pai já vive com outra família. Pynia sempre tem que estar “lutando” por alguma coisa porque se sente sozinho, já que não sai pra socializar ou mesmo pra fazer esportes, dos quais não gosta, ou artes, às quais não se adequou. Esteve particularmente ativo online durante os protestos do fim de 2011. Está o tempo todo no computador, mas não vê nem mesmo outros tipos de vídeos mais leves que viralizam – a não ser, claro, que se canse da luta política.
No quadro, a chinchila (que “anda em círculos” o tempo todo) está repetindo a sigla humorística “Pjif, pjif, pjif...” e diz “Meus milhões”, provável referência a acusações de corrupção contra Navalny, jamais comprovadas, envolvendo milhões de rublos.
Aqui é contado como Pynia se tornou popular na internet. Ele tentou ficar popular postando vários vídeos seus no YouTube fazendo coisas engraçadas, mas não teve sucesso e só recebia críticas. Finalmente, ele consegue notoriedade e elogios falando mal de Putin e de Medvedev, ao que recebe muitas visualizações e comentários de apoio.
Pynia não foi aos protestos de 2011 contra a falsificação das eleições em Moscou, mas está assistindo à transmissão online, sentido como se estivesse lá. (É curioso como os próprios governistas não problematizam o termo “falsificação” dos opositores...) Boris Akunin, célebre escritor russo contemporâneo, opositor de Putin e hoje exilado, foi um dos líderes dessas manifestações. Como os protestos eram basicamente coisa de fóruns da internet, segundo os putinistas, foi nesse espaço que Akunin teria dado aos manifestantes a “lição de casa” de derrubar Putin. Pynia pensou longamente como fazer isso, mas basicamente só dizia a si mesmo que se isso ocorresse, tudo na vida e no país seria melhor, como uma “solução mágica”. Até dinheiro, namorada e filhos ele conseguiria!
Neste vídeo, Pynia conversa com um “amigo” virtual seu, provavelmente dos EUA (aliás, meio parecido com Gianni Infantino, rs). O americano usa contas falsas apenas pra zoar com os russos, e ele faz Pynia de trouxa, porque enquanto o elogia “na cara”, demonstra desprezo pela Rússia intimamente. O americano passa a imagem de EUA que funcionam e onde você nem precisa estudar pra ser alguém na vida (aliás, Pynia sequer é bom aluno na escola). Diz que o amigo nasceu no país errado e que a “Rasha” (alusão à pronúncia inglesa de Russia) não serviria pra ele revelar suas “qualidades”. Pynia mimetiza o amigo dizendo “maldita Rasha, maldita Rasha” o tempo todo, até que o americano sai da conversa, mas entra de novo com um perfil diferente. E lá vai ele de novo zoar com Pynia...
Aqui, Pynia participa de um “concurso” virtual pra melhor música contra o “Partido de Corruptos e Ladrões” (o Rússia Unida, lembremos). Ele compõe oito versos bem bobos, que dizem basicamente que Putin não presta e só ele (Pynia) tem razão. Ele publica e obtém novo “sucesso” na internet, mas não dizem se ele ganhou ou não. “Pynia pra presidente”, alguém escreve; afinal, como ele mesmo diz, “Já está comprovado que xingar Putin é o caminho mais curto pra fama”. Em todo caso, o sucesso lhe “sobe à cabeça” e Pynia já planeja todos os detalhes de sua nova “carreira”. No final, lhe vem a indagação sobre se sua mãe já tinha ou não comprado pão...
O último vídeo mostra o que chamam de “Hino a Navalny”, que não deve ser confundido com canções homônimas lançadas por reais apoiadores. Os “Pynias” (ou seja, esses apoiadores “liberaloides de sofá”) são retratados como um exército de zumbis acríticos que seguem e acreditam em tudo o que o oposicionista publicava em seu blog pessoal. Nem preciso dizer que a caricatura cabe muito mais a Putin e aos putinistas, não se podendo descartar a hipótese de uma “sabotagem interna” durante a produção desse clássico...
Segue o que consegui tirar da letra e a tradução, pelo menos as partes mais relevantes, já que em boa parte do tempo a primeira estrofe é repetida várias vezes:
Navalny é tudo pra nós
Somos um pouco jovens e belos
Não precisamos trabalhar nem nos esforçar
Precisamos grunhir pela internet
Não precisamos trabalhar nem nos esforçar
____________________
Молоды и красивы немного
Не надо работать, не надо пахать
Надо в интернетах повизжать
Не надо работать, не надо пахать
|

Há alguns dias, aconteceu na Rússia algo inofensivo, mas, ao que me parece, revelador
Na distante e pacata cidade de Perm, amarraram a um poste Vladimir Putin vestido de presidiário e com a palavra “ladrão” [na foto acima, está “mentiroso”] escrita na testa. É verdade que desta vez não era o próprio presidente que se encontrava no poste, mas um boneco dele. Mesmo assim, até em Moscou tais protestos são raros, e mais ainda no interior. Outro ponto: os passantes não se indignaram com o boneco nem demonstraram qualquer simpatia por Putin. Pior, todos riam e tiravam fotos com ele.
Ao verem a instalação, os policiais ficaram horrorizados e começaram a deter quem tirava fotos com o falso Putin amarrado ao poste. Depois até foram liberados, pois não se conseguiu acusá-los de nada.
Mesmo assim um processo ainda foi aberto. Aleksandr Shabarchin, um dos colaboradores da sede local de Navalny, chegou a ser preso. Como formalmente ele não tinha cometido nenhum crime, as autoridades decidiram o enviar ao exército: agora ele está no comissariado de alistamento militar. Ele próprio diz que não está bem de saúde, mas acho que lá vai se recuperar prontamente.
Seja como for, o protesto teve um momento divertido: outra inscrição sobre o boneco de Putin dizia: “V. V. Pynia, criminoso de guerra”. Esse meme não é muito conhecido na Ucrânia, onde Putin é mais frequentemente chamado de “la-la-la” [provável referência ao lema “Putin Cabeça de Rola”, originalmente seguido do canto]. Porém, na internet russa, travou-se uma verdadeira guerra entre os apoiadores e opositores de Putin.
A mando do Kremlin, blogueiros putinistas elaboraram uma imagem genérica de seu inimigo: um intelectual nulo, patético e mimado, dependente dos pais, sem namorada nem trabalho. Chamaram-no “Pynia” e investiram uma fortuna pra promover essa imagem de quem apoia a oposição. Mas algo deu errado. Os criadores do meme lhe deram um rosto muito parecido com o do presidente. Além disso, “Pynia” soa parecido com o sobrenome “Putin”. Resultou que a imagem do parasita vil, repugnante e inútil na qual o Kremlin investiu terminou colada a seu mandatário.
Oposicionistas começaram a chamar Putin de “Pynia”, o que despertou uma fúria selvagem e insana entre os blogueiros e estrategistas políticos do Kremlin. Eles foram privados da imagem que cultivaram meticulosamente durante vários anos.
Nas vastidões da internet foi travada uma longa guerra em torno do Pynia. Os adoradores de Putin sonhavam em restaurar seu significado original e até acusaram a Ucrânia de roubar o Pynia. Mas o protesto em Perm finalmente colou esse apelido no presidente da Rússia. Agora, para todos os russos, ele vai ser V. V. Pynia, um ladrão e criminoso de guerra.
Esta notícia ficaria incompleta sem as últimas informações sobre as chamadas eleições na Rússia. Na distante República da Cacássia [Khakásia, vai, sejamos justos...], onde a Mongólia é mais próxima que Moscou, esse mesmo Pynia sofreu mais uma grande derrota. Todos os esforços das autoridades pra impedir a vitória do candidato comunista fracassaram.
Já perderam eficácia a propaganda, a dinheirama, as falsificações em massa e os estrategistas políticos da capital. No interior, o povo está cada vez mais odiando o poder. E eu acho isso muito bom.


Pynia é um meme que inicialmente representava uma imagem genérica de um apoiador passivo da oposição, mas que após alguns anos passou a ser associado a Vladimir Putin.
Origem: Tudo começou com uma série de vídeos online sobre o Pynia. O primeiro apareceu no YouTube em 29 de dezembro de 2011. Nele, um típico liberal de sofá [ou “militante de sofá”, como diríamos no Brasil] passava dias inteiros criticando o governo na internet.
Em janeiro de 2017, alguém resolveu reviver o meme e apresentou no Dvach um novo Pynia – “ou, resumindo, uma imagem genérica do gado liberal-ucraniano, permitam lhes apresentar”.
Os usuários do fórum consideraram que o meme estava sendo deliberadamente promovido pelos chamados “olgintsy” ou “savushkintsy” (pessoas pagas pra escrever comentários pró-governo e alimentar disputas políticas online).
Os membros anônimos do Dvach não quiseram suportar isso e decidiram virar o meme contra os próprios trolls:
Os Pynias receberam de seu mestre a tarefa de espalhar o máximo possível de memes com o Pynia. Na verdade, os olgintsy não sabem pra quem estão trabalhando, já que as ordens são encaminhadas usando centenas de pequenas empresas de fachada e podem sinceramente estar “lutando” contra os olgintsy.
Significado: Graças aos esforços dos usuários do Dvach, apareceram inúmeras imagens engraçadas de Putin retratado como o Pynia, e a busca do Google a respeito do assunto começou a indicar artigos sobre o presidente.
Muitos chamam esse confronto de “Guerras Pýnicas”. A vitória foi dos membros anônimos. Agora, ao buscar por “Pynia” na internet, é possível encontrar principalmente fotos de Vladimir Putin, e nas redes sociais, qualquer notícia sobre o presidente é comentada com uma menção ao Pynia.

Uma das versões associando Pynia a Navalny.
É incrível como mesmo entre brasileiros comuns, persiste a lenda de que a expansão da OTAN rumo ao leste da Europa ou uma suposta ameaça que a aliança teria feito à Rússia teria sido a razão pra agressão de Vladimir Putin à Ucrânia. A invasão não foi uma mera tentativa de anexação ou de derrubada do governo pró-UE, mas uma verdadeira vingança em que se tentou aniquilar o vizinho enquanto Estado e, se não quisesse se assimilar aos russos, enquanto povo. E mais do que por qualquer “ameaça” externa real ou, mais provavelmente, imaginada, parte da elite dirigente russa (política, econômica, intelectual e militar) foi movida por ganância, xenofobia e expansionismo. Essa é apenas uma sumarização de como pode ser classificada uma predação não muito diferente daquelas realizadas por Bush filho em seu tempo e por Donald Trump na atualidade.
Na opinião de Ivashov, “Anteriormente, a Rússia (URSS) travava guerras (justas) forçadas, geralmente quando não restava outra saída, quando os interesses vitais do Estado e da sociedade se encontravam ameaçados”.


























