domingo, 9 de agosto de 2026

Pynia, uma paródia de Putin (2012)

Em setembro de 2026, vão ocorrer na Rússia as chamadas “eleições” pra Duma Estatal, a câmara baixa (tipo a dos Deputados) da Assembleia Federal, isto é, do parlamento. Coloquei eleições entre aspas porque pelo menos desde 2012, se não antes, o pleito é completamente fraudado pra dar maioria absoluta ao Rússia Unida, partido de Vladimir Putin liderado por seu ex-premiê, Dmitri Medvedev, e hoje comparado ao Partido Comunista único na extinta URSS e países de regime similar. Exceto por outros partidos-satélites e candidatos inofensivos, possíveis críticos ao poder já têm o registro negado pelo Comitê Eleitoral Central, chefiado pela fiel Ella Pamfilova, ou as urnas são descaradamente violadas por funcionários escolhidos a dedo, quase sempre filmados pelas próprias câmeras de circuito interno.

O exemplo mais notório do primeiro caso foi o do político Boris Nadezhdin, quase candidato à presidência em 2024 e que na época César Tralli chamou até de “Nadesim”. Recentemente, recebeu o estatuto jurídico de “agente estrangeiro” (ou inoagent), o que na prática o torna um “cidadão menos igual que os outros”, e foi processado por exibir “simbologia extremista” numa live, na verdade um retrato de Aleksei Navalny. Tudo isso praticamente acabou com suas pretensões de voltar a ocupar uma cadeira de opositor na Duma, onde já esteve de 2000 a 2003.

As fraudes – sem contar os assassinatos políticos – já eram conhecidas desde as décadas de 1990 e 2000, mas elas tomaram uma escala inaceitável pra maioria da população em 2011 (eleições pro Conselho Municipal de Moscou) e 2012 (eleições pra Duma Estatal). Na virada desses dois anos, ocorreram os maiores protestos de rua por todo o país desde o fim da URSS e que só seriam quase igualados pelos rapidamente abortados protestos contra a invasão da Ucrânia, logo depois que ela começou. O “milagre econômico” putinista dos anos 2000, resultante em grande parte, como no Brasil, do “boom das commodities” mundial, não foi acompanhado de reformas estruturais relevantes e começou a demonstrar desgaste antes mesmo da explosão de nossas “Jornadas de Junho” em 2013. Putin sabia que seu reino estava seriamente ameaçado, e as imagens de ditadores árabes depostos ou “cancelados” durante o ano de 2011, dizem, o teriam atemorizado profundamente.

Num cenário desses, a única forma de se manter no poder era pela força, pelo terror e pela eclosão de guerras que despertassem o brio patriótico das massas: assim foi com o roubo da Crimeia em 2014, com o assassinato de Boris Nemtsov em 2015 bem nos arredores do Kremlin e com o assalto à Ucrânia em 2022, o qual, porém, ficou muito longe de ter o mesmo efeito de oito anos antes. Ao contrário dos noviços viciados em Instagram que ainda acham que a Rússia toda ama Putin (e isso independente de língua, etnia e religião!), o povo de verdade já criticava e fazia piadas desde sempre, de fato, com sua fisionomia insossa e sua estatura minguada caindo na zoeira antes mesmo da generalização da corrupção, precarização dos serviços públicos e autoritarismo. O antológico programa Kúkly, em que políticos eram figurados por bonecões manipuláveis e dublados por atores na virada do século, saiu do ar exatamente quando o trombadinha de Leningrado começou a ser retratado como uma cria infeliz de Ieltsin. Na mídia estatal, o burocrata inexpressivo, malvestido e desajeitado foi todo repaginado pra dar essa imagem do “lutador de judô” e “cavalgador de ursos” até hoje idolatrada por viúvas de ditadores no Ocidente.

Mesmo assim, nos tempos mais distendidos ou mais repressivos, a zombaria nunca cessou, e uma das caricaturas de Putin talvez pouco conhecida na Banânia seja a do “Pýnia” (Пыня), surgida dentro da própria propaganda estatal em 2011 e retomada pela oposição em 2017. Segundo o Wikcionário em russo, baseado em outras fontes, o substantivo comum “pynia” é uma gíria típica da região de Kaluga indicando uma pessoa esnobe, arrogante, exibida, orgulhosa, petulante, cheia de si, e geralmente se refere a mulheres. Já segundo o portal YouSlang, pynia também significaria um golpe dado no estômago, mas seu uso mais amplo era o de uma referência irônica a um liberal ocidental ou pró-Ocidente, que defenderia suas ideias de forma burra ou desconexa, mais ou menos o que entendemos por “liberaloide”.

Aqui devo abrir um parêntese. No embate político da Rússia, sobretudo online, “liberal” sempre foi considerado um xingamento, muito mais do que na Terra de Santa Cruz. Aqui, exceto por sua oposição a “conservador” em questões societárias (quando preferimos geralmente usar o termo “progressista”), tendemos a considerar “liberal” alguém que apoia o livre mercado, a democracia política e a redução do papel do Estado na economia ao mínimo necessário. A estigmatização fica mais a cargo de extremos vagamente definidos, como “fascista” e “comunista”. Na Moscóvia, “liberal” se tornou uma ofensa, pelo menos entre os putinistas, exatamente por causa de tudo o que estes defendem: supremacismo russo, fechamento ao mundo exterior, demonização dos EUA e da Europa Ocidental, estatismo econômico, Estado autoritário e centralizado, expansionismo territorial, ortodoxia religiosa, culto à guerra e crença no chefe infalível. É claro que “liberalismo” não tem um sentido unívoco em todas as épocas e lugares, por vezes chegando a combinar um completo laissez-faire com a ditadura militar mais terrorista. Mas fecho o parêntese aqui.

O fórum em língua russa Dvach (também conhecido como “2ch”, em referência à palavra chan) foi a principal plataforma em que surgiram as primeiras manifestações do Pynia, mas também as primeiras tretas entre apoiadores do regime e críticos que começaram a usar o personagem contra o próprio Putin. Conta a lenda que a animação, representando um adolescente “militante de sofá”, sustentado pela mãe e sem vida social, que passava seus dias a atacar o Kremlin por todos os males do país, foi criada por agitadores pagos bem na época desses protestos de 2011-12, mais exatamente contra Aleksei Navalny, então despontando como o maior opositor nacional. Segundo esse estereótipo (curiosamente aplicado no Brasil a esquerdistas, muitos dos quais apoiam Putin), os navalnistas seriam essa figura inútil, descuidada, desocupada e obcecada por fóruns virtuais, como a plataforma de blogs Livejournal, na qual o político angariou fama.

Não sei se a intenção inicial foi fazer uma alusão à fisionomia de “Nalvane” (como o chamou Renata Vasconcellos) – ver o exemplo deste blog abandonado –, mas parece ter sido um dos clássicos casos em que o feitiço se voltou contra o feiticeiro. De fato, se observarmos num dos em que sobreviveu a série de cinco vídeos postados bem no início de 2012 (é impossível retraçar a verdadeira gênese, enquanto o endereço indicado não parece apontar mais a um canal semelhante), o rosto do Pynia tem traços muito mais alusivos aos do ditador, sobretudo antes da primeira presidência e toda vez que ele precisa reaplicar seu botox. Pra piorar, “Pynia” não podia ser mais alusivo sonoramente ao sobrenome “Putin”, de forma que, segundo o mesmo YouSlang e as Wikipédias em inglês e francês, o meme antes referente aos liberais acabou sofrendo reversão e se tornando um sinônimo de Vladimir Vladimirovich.

Antes que as BRICSetes aqui presentes comecem a espernear, aviso que Volodymyr Zelensky também tem seus apelidos, alguns dos quais criados pela própria oposição ucraniana e em referência pejorativa ao fato do ex-ator ter outrora (até 2014) trabalhado muito mais na Rússia e/ou em russo. Escolha o seu: Zélia, Zelúpa, Zielieiób (que joga com a pronúncia russa), Zelebóba... Porém, o “povo” que “venceu os adolfistas” e “lançou o satélite e o homem no espaço” não podia ser menos criativo pra apelidar os próprios governantes. Pynia tem diversos derivados, entre eles “Pynebábve” (“Zimbábue de Putin”), “pyneliúb” (adorador de Putin) e “Pynestán” (“Putinstão”). Meu preferido, porém, é “pynekhódy” (пынеходы, algo como “pyniamóvel”), celebrizado como referência aos supostos calços que o ditador usaria em seus sapatos pra parecer pelo menos 10 cm mais alto do que realmente é.

Vou deixar outras explicações pra dois artigos de época que traduzi abaixo: um escrito pelo ucraniano Ivan Iakovyn, disponível em russo e ucraniano e intitulado “A guerra em torno do Pynia: como os russos garraram ódio de Putin” (15 de novembro de 2018), e outro publicado ainda em 2017 na enciclopédia de memes russos, contando o essencial da história. Coloquei notas explicativas entre colchetes onde achei necessário. Antes deles, os seis vídeos que integravam a série em outro canal e dos quais fiz backup pra qualquer eventualidade, e entre eles, alguns dos principais memes ou montagens do “Pynia” já putinizado que selecionei no Google. Dos vídeos traduzi apenas o título e resumi o conteúdo, pois a transcrição completa daria muito trabalho e não teria tanta graça.

A riqueza linguística do debate na Rússia exige ainda a explicação de outros termos. O primeiro e principal deles é a sigla “PZhiV” (ПЖиВ), que Pynia pronuncia o tempo todo nos primeiros vídeos como “pjif, pjif, pjif...” (daí a ortografia humorística “PZhiFF/ПЖиФФ”) e significa “Pártia zhúlikov i voróv” (Partido de Bandidos e Ladrões). Referência pejorativa ao Rússia Unida de Putin, tem a paternidade reivindicada por vários políticos, mas se popularizou no início da década de 2010 entre Navalny e seus apoiadores durante os protestos de rua e as manifestações online. Num dos vídeos também aparece a gíria “Iá – D’Artanián” (Eu sou D’Artagnan), significando o sentimento ególatra de estar sempre certo e considerar os outros errados. Há ainda a expressão “nashísty”, uma fusão de “Náshi”, movimento de apoio juvenil a Putin de 2005 a 2019, com “nazistas” (natsísty) – por isso também chamado de “Putinjugend”. No sentido inverso, também se referia ao partido “Násha Ukraína”, fundado em 2005 pra apoiar a candidatura do presidente ucraniano Viktor Iushchenko e virtualmente invisível desde 2013.


Este é o verdadeiro primeiro episódio, embora num dos canais ele não apareça e o segundo é que esteja indicado como primeiro. As características básicas do Pynia são apresentadas: adolescente, ele não estuda direito, não socializa e não faz as tarefas de casa, fica o dia inteiro reclamando de Putin na internet. A mãe lhe pede pra comprar coisas, mas ele responde que “a vida está uma porcaria”. Pede-lhe pra estudar visando ser alguém na vida, mas ele responde que está “combatendo a corrupção” e que “nesse país, não adianta nada estudar”. Ela lhe pede até pra ir visitar a avó doente, mas ele critica o governo porque “não cuida dos aposentados e lhes dá uma pensão de nada”.

30 anos depois, Pynia ganha pelos e gordura, mas continua só criticando o governo nos fóruns virtuais. Sua mãe idosa não vive mais lá e se aposentou, mas até a pensão dela ele parasita, porque não faz mais nada na vida. Nem mesmos consertos básicos ele quer fazer na casa dela: só quando Putin cair é que as coisas vão melhorar...


Pynia nasceu na década de 1990, quando a Rússia estava falida e sua mãe precisava trabalhar pra sobreviver. Seus pais são separados e o pai já vive com outra família. Pynia sempre tem que estar “lutando” por alguma coisa porque se sente sozinho, já que não sai pra socializar ou mesmo pra fazer esportes, dos quais não gosta, ou artes, às quais não se adequou. Esteve particularmente ativo online durante os protestos do fim de 2011. Está o tempo todo no computador, mas não vê nem mesmo outros tipos de vídeos mais leves que viralizam – a não ser, claro, que se canse da luta política.

No quadro, a chinchila (que “anda em círculos” o tempo todo) está repetindo a sigla humorística “Pjif, pjif, pjif...” e diz “Meus milhões”, provável referência a acusações de corrupção contra Navalny, jamais comprovadas, envolvendo milhões de rublos.


Aqui é contado como Pynia se tornou popular na internet. Ele tentou ficar popular postando vários vídeos seus no YouTube fazendo coisas engraçadas, mas não teve sucesso e só recebia críticas. Finalmente, ele consegue notoriedade e elogios falando mal de Putin e de Medvedev, ao que recebe muitas visualizações e comentários de apoio.


Pynia não foi aos protestos de 2011 contra a falsificação das eleições em Moscou, mas está assistindo à transmissão online, sentido como se estivesse lá. (É curioso como os próprios governistas não problematizam o termo “falsificação” dos opositores...) Boris Akunin, célebre escritor russo contemporâneo, opositor de Putin e hoje exilado, foi um dos líderes dessas manifestações. Como os protestos eram basicamente coisa de fóruns da internet, segundo os putinistas, foi nesse espaço que Akunin teria dado aos manifestantes a “lição de casa” de derrubar Putin. Pynia pensou longamente como fazer isso, mas basicamente só dizia a si mesmo que se isso ocorresse, tudo na vida e no país seria melhor, como uma “solução mágica”. Até dinheiro, namorada e filhos ele conseguiria!


Neste vídeo, Pynia conversa com um “amigo” virtual seu, provavelmente dos EUA (aliás, meio parecido com Gianni Infantino, rs). O americano usa contas falsas apenas pra zoar com os russos, e ele faz Pynia de trouxa, porque enquanto o elogia “na cara”, demonstra desprezo pela Rússia intimamente. O americano passa a imagem de EUA que funcionam e onde você nem precisa estudar pra ser alguém na vida (aliás, Pynia sequer é bom aluno na escola). Diz que o amigo nasceu no país errado e que a “Rasha” (alusão à pronúncia inglesa de Russia) não serviria pra ele revelar suas “qualidades”. Pynia mimetiza o amigo dizendo “maldita Rasha, maldita Rasha” o tempo todo, até que o americano sai da conversa, mas entra de novo com um perfil diferente. E lá vai ele de novo zoar com Pynia...


Aqui, Pynia participa de um “concurso” virtual pra melhor música contra o “Partido de Corruptos e Ladrões” (o Rússia Unida, lembremos). Ele compõe oito versos bem bobos, que dizem basicamente que Putin não presta e só ele (Pynia) tem razão. Ele publica e obtém novo “sucesso” na internet, mas não dizem se ele ganhou ou não. “Pynia pra presidente”, alguém escreve; afinal, como ele mesmo diz, “Já está comprovado que xingar Putin é o caminho mais curto pra fama”. Em todo caso, o sucesso lhe “sobe à cabeça” e Pynia já planeja todos os detalhes de sua nova “carreira”. No final, lhe vem a indagação sobre se sua mãe já tinha ou não comprado pão...


O último vídeo mostra o que chamam de “Hino a Navalny”, que não deve ser confundido com canções homônimas lançadas por reais apoiadores. Os “Pynias” (ou seja, esses apoiadores “liberaloides de sofá”) são retratados como um exército de zumbis acríticos que seguem e acreditam em tudo o que o oposicionista publicava em seu blog pessoal. Nem preciso dizer que a caricatura cabe muito mais a Putin e aos putinistas, não se podendo descartar a hipótese de uma “sabotagem interna” durante a produção desse clássico...

Segue o que consegui tirar da letra e a tradução, pelo menos as partes mais relevantes, já que em boa parte do tempo a primeira estrofe é repetida várias vezes:

Navalny é tudo pra nós
Somos felizes em servi-lo
Ele semeia bondade, ele traz luz
PZhiV, PZhiV, PZhiv

Somos um pouco jovens e belos
E incrivelmente inteligentes
Escolhemos um caminho importante na vida
Lutar pelo bem do país

Não precisamos trabalhar nem nos esforçar
Assim é nosso método de luta
Devemos urrar o mais alto possível
Contra os bandidos e ladrões

Precisamos grunhir pela internet
Sobre os milhões esbanjados
Não nos importa que tipo de governo é esse
Simplesmente somos oposicionistas

Não precisamos trabalhar nem nos esforçar
Quem foi trouxa, que se esforce
Só precisamos ler o LiveJournal
O LiveJournal é nossa Bíblia

____________________


Навальный – это наше всё
Ему мы рады служить
Он сеет добро, он свет несёт
ПЖиВ, ПЖиВ, ПЖиВ

Молоды и красивы немного
И невероятно умны
Мы выбрали важную в жизни дорогу
Бороться во благо страны

Не надо работать, не надо пахать
Наш метод борьбы таков
Надо как можно громче орать
Про жуликов и воров

Надо в интернетах повизжать
Про списанные миллионы
Что там за власть да нам плевать
Мы просто оппозиционные

Не надо работать, не надо пахать
Глупое было, пусть пашет
Только ЖеЖешечку надо читать
ЖеЖешечка – Библия наша



Há alguns dias, aconteceu na Rússia algo inofensivo, mas, ao que me parece, revelador

Na distante e pacata cidade de Perm, amarraram a um poste Vladimir Putin vestido de presidiário e com a palavra “ladrão” [na foto acima, está “mentiroso”] escrita na testa. É verdade que desta vez não era o próprio presidente que se encontrava no poste, mas um boneco dele. Mesmo assim, até em Moscou tais protestos são raros, e mais ainda no interior. Outro ponto: os passantes não se indignaram com o boneco nem demonstraram qualquer simpatia por Putin. Pior, todos riam e tiravam fotos com ele.

Ao verem a instalação, os policiais ficaram horrorizados e começaram a deter quem tirava fotos com o falso Putin amarrado ao poste. Depois até foram liberados, pois não se conseguiu acusá-los de nada.

Mesmo assim um processo ainda foi aberto. Aleksandr Shabarchin, um dos colaboradores da sede local de Navalny, chegou a ser preso. Como formalmente ele não tinha cometido nenhum crime, as autoridades decidiram o enviar ao exército: agora ele está no comissariado de alistamento militar. Ele próprio diz que não está bem de saúde, mas acho que lá vai se recuperar prontamente.

Seja como for, o protesto teve um momento divertido: outra inscrição sobre o boneco de Putin dizia: “V. V. Pynia, criminoso de guerra”. Esse meme não é muito conhecido na Ucrânia, onde Putin é mais frequentemente chamado de “la-la-la” [provável referência ao lema “Putin Cabeça de Rola”, originalmente seguido do canto]. Porém, na internet russa, travou-se uma verdadeira guerra entre os apoiadores e opositores de Putin.

A mando do Kremlin, blogueiros putinistas elaboraram uma imagem genérica de seu inimigo: um intelectual nulo, patético e mimado, dependente dos pais, sem namorada nem trabalho. Chamaram-no “Pynia” e investiram uma fortuna pra promover essa imagem de quem apoia a oposição. Mas algo deu errado. Os criadores do meme lhe deram um rosto muito parecido com o do presidente. Além disso, “Pynia” soa parecido com o sobrenome “Putin”. Resultou que a imagem do parasita vil, repugnante e inútil na qual o Kremlin investiu terminou colada a seu mandatário.

Oposicionistas começaram a chamar Putin de “Pynia”, o que despertou uma fúria selvagem e insana entre os blogueiros e estrategistas políticos do Kremlin. Eles foram privados da imagem que cultivaram meticulosamente durante vários anos.

Nas vastidões da internet foi travada uma longa guerra em torno do Pynia. Os adoradores de Putin sonhavam em restaurar seu significado original e até acusaram a Ucrânia de roubar o Pynia. Mas o protesto em Perm finalmente colou esse apelido no presidente da Rússia. Agora, para todos os russos, ele vai ser V. V. Pynia, um ladrão e criminoso de guerra.

Esta notícia ficaria incompleta sem as últimas informações sobre as chamadas eleições na Rússia. Na distante República da Cacássia [Khakásia, vai, sejamos justos...], onde a Mongólia é mais próxima que Moscou, esse mesmo Pynia sofreu mais uma grande derrota. Todos os esforços das autoridades pra impedir a vitória do candidato comunista fracassaram.

Já perderam eficácia a propaganda, a dinheirama, as falsificações em massa e os estrategistas políticos da capital. No interior, o povo está cada vez mais odiando o poder. E eu acho isso muito bom.









Pynia é um meme que inicialmente representava uma imagem genérica de um apoiador passivo da oposição, mas que após alguns anos passou a ser associado a Vladimir Putin.

Origem: Tudo começou com uma série de vídeos online sobre o Pynia. O primeiro apareceu no YouTube em 29 de dezembro de 2011. Nele, um típico liberal de sofá [ou “militante de sofá”, como diríamos no Brasil] passava dias inteiros criticando o governo na internet.

Em janeiro de 2017, alguém resolveu reviver o meme e apresentou no Dvach um novo Pynia – “ou, resumindo, uma imagem genérica do gado liberal-ucraniano, permitam lhes apresentar”.

Os usuários do fórum consideraram que o meme estava sendo deliberadamente promovido pelos chamados “olgintsy” ou “savushkintsy” (pessoas pagas pra escrever comentários pró-governo e alimentar disputas políticas online).

Os membros anônimos do Dvach não quiseram suportar isso e decidiram virar o meme contra os próprios trolls:

Os Pynias receberam de seu mestre a tarefa de espalhar o máximo possível de memes com o Pynia. Na verdade, os olgintsy não sabem pra quem estão trabalhando, já que as ordens são encaminhadas usando centenas de pequenas empresas de fachada e podem sinceramente estar “lutando” contra os olgintsy.

Significado: Graças aos esforços dos usuários do Dvach, apareceram inúmeras imagens engraçadas de Putin retratado como o Pynia, e a busca do Google a respeito do assunto começou a indicar artigos sobre o presidente.

Muitos chamam esse confronto de “Guerras Pýnicas”. A vitória foi dos membros anônimos. Agora, ao buscar por “Pynia” na internet, é possível encontrar principalmente fotos de Vladimir Putin, e nas redes sociais, qualquer notícia sobre o presidente é comentada com uma menção ao Pynia.



Uma das versões associando Pynia a Navalny.

sábado, 1 de agosto de 2026

General russo contra invasão à Ucrânia


erickfishuk.blogspot.com/ivashov-ua
Hoje a página completa 12 anos sem sair do ar!

É incrível como mesmo entre brasileiros comuns, persiste a lenda de que a expansão da OTAN rumo ao leste da Europa ou uma suposta ameaça que a aliança teria feito à Rússia teria sido a razão pra agressão de Vladimir Putin à Ucrânia. A invasão não foi uma mera tentativa de anexação ou de derrubada do governo pró-UE, mas uma verdadeira vingança em que se tentou aniquilar o vizinho enquanto Estado e, se não quisesse se assimilar aos russos, enquanto povo. E mais do que por qualquer “ameaça” externa real ou, mais provavelmente, imaginada, parte da elite dirigente russa (política, econômica, intelectual e militar) foi movida por ganância, xenofobia e expansionismo. Essa é apenas uma sumarização de como pode ser classificada uma predação não muito diferente daquelas realizadas por Bush filho em seu tempo e por Donald Trump na atualidade.

Porém, muito mais poderia ser dito, embora eu duvide que os fazedores de opinião “antiamericanos”, mesmo dentro do governo Lula, dessem qualquer ouvido ao lado agredido. Já durante a acumulação de tropas russas na fronteira com a Ucrânia, ao longo de janeiro e fevereiro de 2022 (quando eu mesmo estive entre os que duvidavam da hoje chamada “invasão em larga escala”, tendo a guerra começado já em 2014, com o roubo da Crimeia e a desestabilização do Donbás), os serviços de informação ocidentais não foram os únicos a alertarem pro pesadelo que estava por vir. Dentro da própria Rússia, como sabemos, já havia um sentimento antiguerra e de relativa amizade com os ucranianos comuns, numa troca corriqueira de turistas, trabalhadores, estudantes e mercadorias.

O mais revelador é saber que mesmo conservadores geopolíticos entre os militares (pelo menos entre aqueles a quem se permitia alguma expressão) não somente recusavam as razões pra uma possível invasão, mas também foram muito mais incisivos na crítica ao regime, a que chamavam de incapaz e falido. Os próprios “insiders” há muito já viam coisas completamente ocultas pela rede de propaganda espalhada ao redor do mundo e materializada em pretensos portais de “notícias” como RT, Sputinik, RBTH (Russia Beyond, hoje também Gateway to Russia) e similares. Hoje trago minha tradução de uma carta aberta assinada pelo coronel-general (patente hoje inexistente no Brasil) reformado Leoníd Grigórievich Ivashóv (n. 1943), na qualidade de presidente da Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia, grupo de tendência nacionalista e pró-soviética.

Intitulada “Kanún voiný” (lit. “A véspera da guerra”, mas que também pode ser traduzido como “Às vésperas da guerra”), foi lançada em 31 de janeiro de 2022, quando ainda se considerava haver uma “crise” entre Rússia e Ucrânia e quando Putin começava a reunir soldados na fronteira sul. Listando uma série de consequências negativas de uma invasão total, Ivashov alerta que tal erro poderia, na pior das hipóteses, levar à extinção da própria Rússia enquanto Estado, além de a isolar do resto do mundo e afastar a Ucrânia definitivamente. Descontemos seu passado como auxiliar dos genocidas de Slobodan Milošević no Kosovo e sua reprodução acrítica da mentira sobre o “genocídio de russos” no leste da Ucrânia.

Mesmo que ele já estivesse rompido com Putin praticamente desde o início da década de 2000 e fosse um crítico de longa data, pode-se pensar por que um ex-oficial de alto escalão tinha certeza de que o ataque aconteceria, mesmo com o Kremlin gritando aos quatro ventos que isso era “espantalho ocidental”. Eu respondo: a decisão já tinha sido tomada junto com Sergei Shoigú no fim de 2021, e aquela bizarra reunião em Moscou com o chefe do FSB gaguejando foi mero teatro de bajulação. As críticas abertas seguiram ao longo de fevereiro de 2022, e muito do que Ivashov conjeturou pode ser considerado uma previsão, embora eu deixe a você a tarefa de julgar o quanto ele acertou ou errou.

Também se fica a pensar por que este senhor ainda não “caiu de uma janela” nem “passou mal depois do chá”, tanto mais que em 2026 vários militares graduados e membros da “oligarquia” econômica têm sido presos sob acusações de corrupção muito mal explicadas. Ivashov talvez não represente um perigo imediato e pode ser visto como parte dos “milicos de pijama” apegados ao passado e sem poder de influência ou decisão. Ainda em maio de 2022, renunciou à presidência da referida Assembleia “por razões de idade e saúde”, e fora das Wikipédias as referências mais recentes que achei foram uma entrevista de 2023 a um portal russo hoje fora do ar e um vídeo gravado em 2025 e noticiado na Alemanha. Em ambas as ocasiões, Ivashov afirma que não só acertou em suas previsões, mas também que a realidade se revelou “ainda pior”.

Vou me abster de descrever melhor a vida e o pensamento do militar, deixando parte da tarefa a duas publicações, também traduzidas por mim, lançadas na época pela VOA em russo, antes de Trump a fechar em seu segundo mandato: o artigo “Para especialistas, a carta aberta do General Ivashov é um sinal e um desafio ao Kremlin”, assinada por Viktor Vladimirov, e conversas com politólogos reunidas em “O ‘nacional-patriota’ General Ivashov se manifestou contra uma guerra com a Ucrânia”. Notas explicativas minhas estão entre colchetes:


Manifesto da Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia
ao Presidente e aos cidadãos da Federação Russa

A humanidade vive hoje a expectativa de uma guerra. E a guerra significa inevitáveis sacrifícios humanos, destruição, sofrimento de um grande número de pessoas, a liquidação de seu modo costumeiro de vida e a quebra dos sistemas de suporte à vida dos Estados e povos. Uma grande guerra é uma enorme tragédia, um crime grave cometido por alguém. Acontece que a Rússia se encontra no centro dessa catástrofe iminente. E, talvez, pela primeira vez em sua história.

Anteriormente, a Rússia (URSS) travava guerras (justas) forçadas, geralmente quando não restava outra saída, quando os interesses vitais do Estado e da sociedade se encontravam ameaçados.

Mas o que ameaça a própria existência da Rússia hoje? Existem ameaças desse tipo? Pode-se argumentar que as ameaças são de fato evidentes – o país está à beira do fim de sua história. Todas as áreas vitais, incluindo a demografia, estão se deteriorando constantemente, e o ritmo de declínio populacional está batendo recordes mundiais. Essa degradação é sistêmica e, em qualquer sistema complexo, a destruição de um dos elemento pode levar ao colapso do sistema inteiro.

E essa, em nossa visão, é a principal ameaça perante a Federação Russa. Mas essa ameaça é de natureza interna, emanando do modelo de Estado, da qualidade do poder, da condição da sociedade. E as causas de sua emanação são internas: a inviabilidade do modelo de Estado, a completa ineficácia e falta de profissionalismo do sistema de poder e administração e a passividade e desorganização da sociedade. Em tais condições, nenhum país sobrevive por muito tempo.

Quanto às ameaças externas, elas sem dúvida existem. Mas, em nossa avaliação especializada, elas não são atualmente críticas nem ameaçam diretamente a existência da Rússia enquanto Estado ou seus interesses vitais. A estabilidade estratégica como um todo está conservada, as armas nucleares estão sob controle confiável e os contingentes da OTAN não estão se reforçando nem demonstrando atividades ameaçadoras.

Portanto, a escalada da situação em torno da Ucrânia é principalmente artificial e egoísta, beneficiando certas forças internas, inclusive a Federação Russa. Com a desintegração da URSS, no qual a Rússia (Ieltsin) desempenhou um papel decisivo, a Ucrânia se tornou um Estado independente, membro da ONU e, de acordo com o artigo 51 da Carta da ONU, tem o direito à defesa individual e coletiva.

Os dirigentes da Federação Russa ainda não reconheceram os resultados do referendo pela independência da DNR (República Popular de Donetsk) e da LNR (República Popular de Luhansk), além de terem enfatizado repetidamente em nível oficial, inclusive durante o processo de negociação de Minsk, que seus territórios e população pertencem à Ucrânia.

O esforço por manter relações normais com Kyiv, sem destacar relações especiais com a DNR e a LNR, também foi expresso repetidamente no alto escalão.

A questão do genocídio perpetrado por Kyiv nas regiões do sudeste não foi levantada nem na ONU nem na OSCE. Naturalmente, para que a Ucrânia continuasse sendo uma vizinha amigável com a Rússia, era preciso que ela demonstrasse a atratividade de seu modelo de Estado e de seu sistema de poder.

Mas a Rússia não se tornou esse país. Seu modelo de desenvolvimento e seu mecanismo de política externa de cooperação internacional afugentam praticamente todos os seus vizinhos, e não apenas eles.

A anexação da Crimeia e de Sebastopol pela Rússia e o não reconhecimento desses territórios como dela pela comunidade internacional (o que significa que a esmagadora maioria dos Estados do mundo continua os considerando parte da Ucrânia) demonstram de forma convincente o fracasso da política externa da Rússia e a falta de atratividade de sua política interna.

As tentativas de forçar a “paixão” pela Rússia e sua liderança por meio de ultimatos e ameaças de uso da força são insensatas e extremamente perigosas.

O emprego da força militar contra a Ucrânia, em primeiro lugar, colocará em questão a existência da própria Rússia enquanto Estado; em segundo lugar, transformará para sempre russos e ucranianos em inimigos mortais. Em terceiro lugar, milhares (dezenas de milhares) de jovens saudáveis morreriam em ambos os lados, o que sem dúvida impactaria na futura situação demográfica em nossos declinantes países. No campo de batalha, se isso acontecer, as tropas russas entrarão em confronto não somente com as tropas ucranianas, entre as quais estarão muitos jovens russos, mas também com tropas e equipamentos de muitos países da OTAN, e os Estados-membros da aliança serão obrigados a declarar guerra à Rússia.

O presidente da República da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, deixou claro de que lado a Turquia lutará. E pode-se presumir que os dois exércitos de campo e a marinha da Turquia receberão ordens para “libertar” a Crimeia e Sebastopol e possivelmente invadir o Cáucaso.

Além disso, a Rússia será inequivocamente classificada como um país que ameaça a paz e a segurança internacional, sujeita a severas sanções, transformada em um pária na comunidade internacional e provavelmente destituída de seu estatuto de Estado independente.

O Presidente o governo e o Ministério da Defesa não podem deixar de entender essas consequências, eles não são tão estúpidos.

Surge a questão: quais são os verdadeiros objetivos de provocar tensões beirando à guerra e de lançar uma possível ação militar em larga escala? E percebe-se que esse é o caso pelo número e pela composição bélica dos grupos de tropas que estão se formando em ambas as partes – pelo menos 100 mil soldados de cada lado. A Rússia, expondo suas fronteiras orientais, está transferindo unidades rumo às fronteiras com a Ucrânia.

Em nossa opinião, a liderança do país, percebendo que é incapaz de retirar o país de uma crise sistêmica – mesmo ao custo de possivelmente provocar uma revolta popular e uma mudança de poder no país –, com o apoio da oligarquia, da burocracia corrupta, da mídia subornada e das forças de segurança, decidiu intensificar uma linha política voltada à destruição final da Rússia enquanto Estado e ao extermínio da população nativa do país.

E a guerra é o meio para atingir esse objetivo, visando manter temporariamente seu poder antinacional e preservar as riquezas saqueadas do povo. Não conseguimos avançar outra explicação.

Nós, oficiais da Rússia, exigimos que o Presidente da Federação Russa abandone sua política criminosa de provocar uma guerra na qual a Federação Russa se encontrará sozinha contra as forças combinadas do Ocidente, crie condições para a implementação prática do artigo 3 da Constituição da Federação Russa [que aponta o povo como fonte de todo o poder e proíbe a usurpação unipessoal desse poder] e renuncie ao cargo.

Apelamos a todos os militares da reserva e reformados, bem como aos cidadãos da Rússia, para que demonstrem vigilância e organização, apoiem as reivindicações do Conselho da Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia, oponham-se ativamente à propaganda e provocação de uma guerra e impeçam um conflito civil interno que envolva o uso da força militar.

Coronel-General L. G. Ivashov
Presidente da Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia


Na opinião de Ivashov, “Anteriormente, a Rússia (URSS) travava guerras (justas) forçadas, geralmente quando não restava outra saída, quando os interesses vitais do Estado e da sociedade se encontravam ameaçados”.

O coronel-general reformado Leonid Ivashov, conhecido por suas visões pró-soviéticas e nacional-patrióticas, lançou um apelo em sua qualidade de presidente da “Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia” contra uma guerra da Rússia com a Ucrânia. Ele acusou de prepararem tal guerra a liderança da Rússia e o presidente Vladimir Putin, cuja renúncia ele pediu.

A declaração é datada de 31 de janeiro. No dia anterior, o cientista político Ivan Preobrazhenski chamou a atenção para ela, seguido por outros comentaristas online.

Segundo Ivashov, “Anteriormente, a Rússia (URSS) travava guerras (justas) forçadas, geralmente quando não restava outra saída, quando os interesses vitais do Estado e da sociedade se encontravam ameaçados”. No entanto, escreve o general, a única ameaça existencial à Rússia agora é a deterioração de sua vida interna. Já as ameaças externas “não são atualmente críticas”. “A estabilidade estratégica como um todo está conservada, as armas nucleares estão sob controle confiável e os contingentes da OTAN não estão se reforçando nem demonstrando atividades ameaçadoras”, escreve Ivashov.

Conforme o apelo, a Ucrânia tem o direito à defesa individual e coletiva Estado independente. “Naturalmente, para que a Ucrânia continuasse sendo uma vizinha amigável com a Rússia, era preciso que ela demonstrasse a atratividade de seu modelo de Estado e de seu sistema de poder”, escreve Ivashov. Ele também observa que a esmagadora maioria dos países do mundo não reconhece a Crimeia e Sebastopol como territórios anexados à Rússia, o que demonstra “de forma convincente o fracasso da política externa da Rússia e a falta de atratividade de sua política interna”.

Na opinião do general, o uso da força militar contra a Ucrânia “em primeiro lugar, colocará em questão a existência da própria Rússia enquanto Estado; em segundo lugar, transformará para sempre russos e ucranianos em inimigos mortais”. Ivashov também teme a entrada de países da OTAN no conflito, particularmente a Turquia. “Além disso, a Rússia será inequivocamente classificada como um país que ameaça a paz e a segurança internacional, sujeita a severas sanções, transformada em um pária na comunidade internacional e provavelmente destituída de seu estatuto de Estado independente”, afirma o general. Ele acredita que a Rússia está a “provocar tensões beirando à guerra” para distrair a população dos problemas internos. O apelo exige que o presidente “abandone sua política criminosa de provocar uma guerra”.

De 1996 a 2001, Ivashov chefiou a Diretoria Principal de Cooperação Militar Internacional do Ministério da Defesa da Rússia e ocupou outros altos cargos no Ministério da Defesa. Ele ganhou notoriedade, em particular, por suas avaliações extremamente negativas da operação da OTAN contra a Sérvia [que ainda integrava o que tinha restado da Iugoslávia] em 1999. Após ser reformado, escreveu para o jornal Zavtra e outros veículos, criticando as políticas do governo da Rússia sob uma perspectiva “nacional-soberanista”. Também criticou a OTAN e o Ocidente.

A “Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia” é uma organização social que reúne oficiais da reserva com visões pró-soviéticas e nacional-patrióticas. Sua direção inclui, por exemplo, o Coronel Vladimir Kvachkov e outras figuras proeminentes.

Nas últimas semanas, a Rússia concentrou uma grande força armada na fronteira com a Ucrânia, e unidades e equipamentos adicionais estão chegando para exercícios em Belarus. Os países ocidentais temem que a Rússia possa lançar uma invasão em larga escala ao território da Ucrânia, o que Moscou nega estar planejando.


O coronel-general reformado Leonid Ivashov, presidente da “Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia”, manifestou-se contra a política de Putin e os preparativos para uma guerra com a Ucrânia.

A política do Kremlin de se preparar para uma guerra com a Ucrânia é criminosa em sua essência. Assim escreveu o coronel-general russo reformado Leonid Ivashov em uma carta aberta intitulada “A véspera da guerra”, na qualidade de presidente da “Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia”. Ele também pediu ao presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, que renunciasse ao cargo.

“A carta atesta mudanças muito sérias no humor das mais diversas camadas da população” – O político e ex-deputado da Duma Estatal da Rússia, Gennadi Gudkov, comentou ao serviço russo da VOA que conhece pessoalmente Leonid Ivashov. Ele acredita não ser surpresa que Ivashov desfrute de grande respeito entre os oficiais. “É claro que suas opiniões sobre a política do Kremlin foram bastante controversas em vários momentos”, acrescentou. “Mas o fato de ter agora se manifestado de forma tão dura e contundente contra o envolvimento da Rússia em uma guerra com a Ucrânia, pedido a renúncia de Putin e apontado que o sistema de poder criado pelo presidente está se deteriorando e representa o principal perigo para o país – tudo isso diz muito. Sua carta atesta mudanças muito sérias no humor das mais diversas camadas da população.”

Está ficando absolutamente claro que a sociedade russa como um todo não quer uma guerra com a Ucrânia, constatou Gennadi Gudkov. A seu ver, a ideia de lutar em solo estrangeiro, ainda mais enquanto agressor, é completamente inaceitável para a maioria da população do país. “Parece-me que esse é um ponto de virada muitíssimo importante”, continuou. “As pessoas percebem que a guerra será excepcionalmente injusta e se recusam resolutamente a aceitá-la. Portanto, para o Kremlin é um sinal sério que deveria ser levado em conta.”

O ex-deputado também concorda que as tensões em torno da Ucrânia estão se intensificando em grande parte para distrair os cidadãos de questões internas urgentes. “Nos canais de TV federais, ouve-se de tudo, menos o que realmente preocupa as pessoas. Diariamente, instiga-se o ódio contra o mundo exterior. Enquanto isso, o próprio Putin entende perfeitamente que não há nem se espera qualquer pré-condição para um ataque da OTAN à Rússia. Todas essas ameaças que o Kremlin propaga por meio de suas mídias são míticas e não representam nenhum perigo real para o país. Portanto, Ivashov está absolutamente certo”, sumarizou Gennadi Gudkov.

“Putin simplesmente se sente desconfortável sem um inimigo” – Essa é uma mensagem significativa, afirma o cientista político Abbás Galliamov ao serviço russo da VOA. Ele acredita que Putin e a sociedade em geral já se acostumaram com as críticas liberais à política externa expansionista do Kremlin. “E aqui temos uma verdadeira sensação”, diz. “Inesperadamente, Ivashov expressou essencialmente os mesmos argumentos dos liberais, embora já combatesse a expansão da OTAN rumo ao leste quando ninguém realmente conhecia Putin. É um homem cujos méritos, aos olhos dos ‘patriotas nacionais’, geralmente não precisam de confirmação adicional. Ele é conhecido por suas visões nacionalistas e, em certos círculos, carrega a aura de patriarca.”

Portanto, é claro que isso foi um choque, forçando todos a reavaliar a situação, argumenta Abbás Galliamov. Em sua visão, tal conversão de patriotas em liberais, sobretudo quando realizada por uma figura conhecida, demonstra claramente qual lado, da perspectiva da influência sobre a opinião pública, está atualmente mais forte.

“É evidente que os argumentos do Kremlin não estão conseguindo causar o devido impacto no público em geral nem convencer não apenas seus oponentes, mas até mesmo potenciais aliados – pessoas que supostamente vestem o mesmo ‘casaco de Budiónny’ [referência ao traje histórico do Exército Vermelho]”, explicou. “Surpreendentemente e com razão, Ivashov observou que a causa primeira do que está acontecendo em torno da Ucrânia é amplamente determinada pelo desejo do Kremlin de desviar a atenção pública de questões internas para questões externas.”

Putin simplesmente se sente desconfortável sem um inimigo, considera o cientista político. “Não é coincidência que, desde seus primeiros dias no poder, ele tenha constantemente se ocupado em congregar a sociedade ‘contra alguém’. Nem é por acaso que ele retrate seus próprios críticos internos como agentes de algum inimigo externo. Hoje, a maioria eleitoral que ele outrora obtinha está se desfazendo. Você confirmará isso em qualquer estudo sociológico. Há muito tempo o índice de aprovação do presidente está abaixo de 50%, sem falar no índice de aprovação de seu partido Rússia Unida. E nessa situação, Putin não tem outra escolha senão tentar restaurar o paradigma que um dia o levou ao sucesso”, concluiu Abbás Galliamov.



segunda-feira, 20 de julho de 2026

ACABOU, COPA: vai ter memes sim!

No último dia da Copa do Mundo do Catar, em 2022, também fiz uma coletânea dos melhores memes deixados pela competição, então coletados no Équis (que ainda se chamava Twitter) e em algumas outras fontes. Com minha conta secreta feita no “esgotão da internet” só pra acessar determinados conteúdos (já que hoje a maioria das redes antissociais limita a visibilidade sem fazer login), nem precisei realizar buscas por determinados termos ou clicar num trending topic pra saber “O que está acontecendo” (eterno slogan da empresa): o algarismo do Ilomasque é tão poderoso que a página inicial já jorrava conteúdos sobre a histórica final entre o Califado de Córdoba, que saiu vencedor, e as Províncias Unidas do Rio da Prata.

Porém, ao contrário daquele inusitado dezembro em que ocorria tal evento, meu foco hoje foi exatamente na final, com dois assuntos principais: as incontáveis remontagens da foto de 2007, em que Lionel Messi jovem dá banho em Lamine Yamal bebê pra uma campanha da UNICEF (o ibérico é filho de imigrantes, um marroquino e uma equato-guineense), e a raiva dos platinos pelas falhas no ataque e pela consequente derrota, com direito a ódio descontado no presidente “libertino” Javier Milei. Muito mais que os bananeiros, nossos vizinhos do sul resolveram ligar o desempenho do time com o contexto político e, nessa onde de fúria, aprendi a palavra “mufa” (que significa “azar” no lunfardo portenho, ou a tão tropical “zica”) e descobri que o locatário da Quinta de Olivos tem entre seus inimigos o apelido “La Gorda”, rs!

A própria análise das publicações já mostra um salto tecnológico enorme em relação a três anos e meio atrás. O primeiro aspecto evidente é a quantidade, isto é, ao contrário do que rezavam os mal-amados do Esquerdistão acadêmico, o Équis não faliu com sua aquisição pelo Quico dos Foguetes, mas cresceu bem mais do que antes, e a toxina não parou de aumentar, apesar do controle imposto por certos Estados devido a situações que já estavam degringolando. Outras gerações foram chegando, e lá estavam elas na “rede de microblogues”, e não apenas no Teco-Teco chinês; em todo caso, não posso comparar com outras redes, porque não as explorei. O segundo aspecto é a qualidade das montagens, visível pra quem vir minha publicação de 2022: antes podia se falar propriamente de “montagem” porque basicamente eram sobrepostos recursos gráficos já existentes, sobretudo bandeiras nacionais em cima de pessoas. Com o advento e popularização da inteligência artificial (IA) a partir de 2023, as próprias situações passaram a ser criadas (som, áudio e vídeo), graficamente não se distinguindo de algo realmente acontecido. Pra manipular notícias é péssimo, mas pra diversão e humor é maravilhoso!

Dado que a maior parte da polêmica se concentrou em torno do quase aposentado “Piponel” (desempenho, atitudes e suposto conluio com a FIFA), não pude deixar de repetir o “Pessi” no endereço curto pra esta publicação. Apesar da campanha heroica dos “hermanos”, essa degringolada diante da “Roja” não deixou de suscitar dúvidas sobre a probidade dos jogos anteriores, como bem levantei anteontem. Mas basicamente, meu objetivo ontem foi procurar “inversões” da citada foto de 2007, que inevitavelmente eu sabia que iam fazer, me poupando trabalho de tentar algo nessa direção. E como eu disse, o salto tecnológico não só multiplicou o número dessas iniciativas, mas também permitiu que até vídeos fossem inspirados na cena!

E a briga não para! Hoje mesmo no Équis, entre os perdedores há o sentimento de frustração com o chefe de Estado, pois muitos jogadores não teriam retornado por causa de suas declarações contra o uso do bordão “Las Malvinas son argentinas” no jogo contra os donos das Falklands. Segundo “La Gorda”, não seria com palavras de ordem “adolescentes” como essa que o arquipélago seria recuperado; confessemos, essa é a última das prioridades do admirador assumido de Margaret Thatcher. No mesmo esgotão, têm circulado imagens de policiais agredindo torcedores albicelestes no Rio de Janeiro, com comentários de conterrâneos criticando a “animalidade” de nossas forças da ordem. De fato, são tomadas tiradas de contexto, omitindo quem começava realmente as confusões...

Bem, mas vamos ao que interessa. Em primeiro lugar, a razão de ser desta publicação, que é a inusitada situação histórica de ver um bebê sendo banhando por um adulto ganhar uma final de Copa contra esse mesmo adulto anos depois, rs. A conta da qual tirei esta montagem que rodou o mundo é brasileira, mas as variações se multiplicaram:







Taí a Ousadia e Alegria que o Neymar NUNCA vai ter:


Qual desses é o verdadeiro “Méçi Careca” tratorado? Rs:

      


Aos 50 segundos, a cambalhota do nada, kkkkk:


Originalmente eu tinha baixado desta publicação, mas ela foi apagada por razões de direitos autorais e outra conta também publicou. Se alguém ainda subestimava a grosseria e violência do time e torcida da AFA, a afirmação viva está na cena deplorável após o apito final, num nível que nem a CBF, fosse ou não numa final, jamais desceu:


Alguns, infelizmente, tiveram muito o que perder com esta Cópula (eu jurava que, assim como nos bombardeios do Laranjão, ele tinha conseguido um “insider”, rs):


Agora, uma exploração mais detida do lado derrotado. Este print do canal Todo Noticias me lembra uma piada antiga que se fosse contada usando o jogo de ontem, ficaria da seguinte maneira: “E termina a final da Copa do Mundo, com vitória da Espanha por um gol e zero GOLAAAÇOS da Argentina!”


Eis a coleção de imprecações que misturaram decepção com o Pessi, ódio ao Javier Gerardo (por ideologia ou pela ausência supersticiosa do estádio – “é a cabala”...) e ironia porque o presidente já teria desejado “evitar o vexame”, rs:




“Hambrientina”: trocadilho entre “hambriento” (faminto) e “Argentina”.











Bardear al plantel” significa “ofender uma equipe esportiva”.



sábado, 18 de julho de 2026

Sorria: a Argentina pode estar roubando


erickfishuk.blogspot.com/pessi



Este meme resume a publicação. Pesquise a respeito.


Se já não disse aqui, escrevo agora: não gosto nem de jogar nem de assistir a futebol e só me interesso por ele na medida em que se relaciona a temas de minha predileção, como história, política, geopolítica, culturas e idiomas. E humor também, claro. E pra minha alegria, cada Copa do Mundo tem se tornado sempre mais geopolítica, sendo a deste ano o ápice do processo. A começar por se realizar em três países ao mesmo tempo, sendo que um deles, o Zesteite, se situa “de sanduíche” entre os outros dois, os quais, pra piorar, estão com as relações diplomáticas azedadas com o primeiro. E sempre pode ficar ainda pior: os três logo caíram fora do torneio, e o Canadá está literalmente “esfumaçando” a final que vai se realizar no vizinho do sul.

A coisa fica ainda mais divertida com a popularização das redes sociais, hoje facilmente portáveis nos smartphones a um bolso de distância. Mesmo quem não as usa acaba recebendo respingos das intermináveis discussões, com seus memes, polêmicas e virais de todo tipo, um novo modo de expressão a ser estudado pela história cultural. Por essas razões, mesmo em se tratando da campanha abominável da çelessão Canalhinha, ela se torna assunto entre todos os jornalistas e figuras públicas e condiciona a relação do gado trouxa público com o resto da competição. E o que pode mais eriçar um tupiniquim senão um sucesso da eterna rival Argentina, pior, sua segunda chegada consecutiva ao final do certame? Por alguns instantes a crônica bananeira se precipitou em comparar o que “nós” erramos com o que “eles” acertaram, mas mesmo do exterior podemos perceber que a coisa não é direta assim.

Quero testemunhar a impressão positiva que me têm despertado os textos de Milly Lacombe no UOL, a besta-fera da Machosfera horrorizada com sua intromissão “woke” num âmbito outrora monopolizado por bovinos de barrigão Pilsen e pinto murcho. Reconheço que também sou “uouquista” (não “oquista”, atenção!), mas não sou radical, e também julgo que a Milly não é. Concomitantes ao avanço da horda do Méçi Careca de fase em fase, começaram a aparecer vídeos de youtubers lixo tentando dissertar “Por que a Argentina é um país tão racista?”, sugeridos até junto a programas estrangeiros nada a ver com o assunto e que sigo regularmente. Pra meu alívio e agrado, a Milly fez um ótimo contraponto a esse antirracismo freestyle, dizendo que nossa história teve um racismo muito mais violento materializado na escravidão e que ele continua até hoje estruturando nossas relações sociais. Eu acrescentaria que justamente o fato de nossa equipe, ao contrário da argentina, contar com muitos jogadores de cor (até porque técnico negro nunca vi; feliz foi Pelé que não enveredou pela mesma cilada do Marabola!), assistidos por um público majoritariamente descorado, só mostra que esse foi um dos poucos espaços em que lhes foi permitido alcançar destaque, em detrimento da política, da economia e da ciência.

O destino me pegou de surpresa: e não é que jornalistas de outros países começaram justamente a apontar a dimensão inaudita do racismo na torcida platina, sem contar outros trambiques que estariam favorecendo os tricampeões? De fato, exceto casos isolados que ocorrem em nossos próprios campeonatos nacionais, nunca vi os fanáticos amarelentos imitarem símios, jogarem bananas ou gritarem ofensas contra a melanina alheia. Isso não limpa a ignomínia de como o tecido social do Gigante Adormecido (e jamais despertado) foi construído, mas talvez eu (e a Milly?) tenha subestimado a vergonha alheia que os hermanos despertam em quem compartilha com eles a mesma arquibancada. E dois artigos da mídia estrangeira me despertaram justamente pra essa reflexão, além de trazer elementos interessantíssimos pra deixarem as neymarzetes com a pulga atrás da orelha.

O primeiro é uma reportagem de Adèle Léron publicada na RFI francesa e intitulada “Copa do Mundo de 2026: por que a Argentina é alvo de suspeitas de favoritismo?”, e o segundo é uma entrevista dada pelo escritor Adam Elder ao jornalista George Louis Martínez, da americana NPR e intitulada “Por que muitos fãs de futebol podem torcer contra a Argentina na final da Copa?”. De família equatoriana, George usa o apelido “A Martínez” (assim mesmo, sem ponto, lê-se “ei Martínez”), mas aqui me referi a ele como “George Martínez” por praticidade. Também não mantive os links do original francês nem adicionei notas explicativas pra certas pessoas e coisas. Sugiro uma pesquisa à parte, especialmente o caso de IShowSpeed.

Da série “traduzi sem autorização, phodasse”, no caso da entrevista, como ela não veio com uma transcrição, obtive-a usando esta ferramenta online quase perfeita, devendo ter o resultado cotejado com o áudio, sobretudo quando as pessoas falam meio rápido, o que ocorreu na conversa. Pra fins de pesquisa e registro histórico de raridades, mantive a transcrição do áudio da NPR, após revisar a redação, em especial a divisão de parágrafos, que o site faz de modo totalmente aleatório. Se alguém mais entendido que eu em termos técnicos do ludopédio quiser sugerir alguma escolha melhor pra tradução, sobretudo se souber um pouco de inglês e francês, comente à vontade. Boa leitura e, pra quem for assistir, boa final:



Após se classificar pras semifinais da Copa do Mundo de 2026 com uma campanha considerada fácil e marcada por diversas decisões controversas da arbitragem, a Argentina se tornou alvo de acusações de favorecimento. No centro das críticas está Lionel Messi, pra quem esta Copa, apresentada como a última, alimenta fantasmas, teorias e desconfiança com relação à FIFA.

“Lionel Messi consegue seu juiz favorito pra semifinal Inglaterra-Argentina.” A manchete do Daily Mail dá o tom. Na véspera do confronto entre as duas seleções, o tabloide britânico reacende as acusações de favoritismo contra o time argentino.

Apresentado como “o juiz favorito” do capitão argentino , a nomeação do americano Ismail Elfath reforça em muitos a crença de que Lionel Messi estaria obtendo um tratamento preferencial nesta Copa do Mundo.

Essas teorias surgiram antes mesmo do início da Copa. Em 5 de dezembro de 2025, durante o sorteio, internautas já expressavam surpresa com os adversários oferecidos à Argentina. Um passeio, segundo alguns. A Albiceleste enfrentaria Argélia, a Jordânia e, enfim, a Áustria. Depois, Cabo Verde nos 16 avos de final [sim, esse é o nome oficial em português da bizarrice inventada por Infantino...], o Egito nas oitavas e, finalmente, a Suíça nas quartas. Esse trajeto alimentou suspeitas: até as semifinais, Lionel Messi e seus companheiros não teriam enfrentado nenhuma seleção entre as dez melhores da classificação da FIFA. Isso seria, aliás, inédito na história das Copas.

De forma inversa, os outros semifinalistas tiveram um torneio mais difícil. A França enfrentou o Senegal (3x1) e o Marrocos (2x0), ambos finalistas da última Copa Africana de Nações, além da Noruega, que eliminou o Brasil. A Espanha se livrou de Portugal e depois da Bélgica, enquanto a Inglaterra precisou derrotar o México antes de eliminar a Noruega de Erling Haaland.

No papel, portanto, o caminho da Argentina parece bem mais suportável que o de seus principais concorrentes.

Arbitragem polêmica – Um sorteio favorável, mas também decisões da arbitragem que estão sendo criticadas.

Logo na primeira partida contra a Argélia, Messi escapou de qualquer punição após esmagar o tornozelo de Aïssa Mandi na primeira meia-hora de jogo. No entanto, o ex-árbitro internacional Bruno Derrien considera que o camisa 10 “podia ter sido expulso”. Amplamente dominada, a Argélia acabou perdendo por 3x0, e seu técnico anunciou que iria exigir explicações da FIFA.

As partidas seguintes reforçaram ainda mais essa impressão entre alguns torcedores. A partir das fases eliminatórias, a Argentina teve dificuldades pra vencer. Em três ocasiões, os campeões do mundo foram atropelados, chegando a ficar atrás no placar. E em todas elas, as decisões da arbitragem inverteram o rumo dos jogos.

Primeiro, contra Cabo Verde. Incapaz de superar a 64.ª colocada na classificação mundial, a Albiceleste se beneficiou de várias intervenções controversas: uma falta na entrada da área em Hélio Varela que não foi punida, um toque de mão de Cristian Medina que também passou imune e uma falta cobrada às pressas por Lionel Messi enquanto o goleiro Vozinha ainda tomava posição na trave. A Argentina acabou vencendo por 3x2 nos acréscimos.

Os técnicos tomam partido – No jogo contra o Egito, o cenário se repetiu. Perdendo por 2x0 até os 79 minutos, a Albiceleste conseguiu virar (3x2). Após o jogo, o técnico egípcio exigiu a demissão do juiz francês François Letexier. Ele citou especificamente um pênalti não marcado após um puxão na camisa de Hamdy Fathy, um contato entre Mohamed Salah e Julián Álvarez na área e a anulação de um gol egípcio após revisão do VAR.

Finalmente, contra a Suíça. Dominada durante grande parte do jogo, a Argentina se aproveitou de um inesperado empurrão do destino. Aos 71 minutos, após revisão do VAR, o juiz português João Pinheiro anulou o cartão amarelo do argentino Paredes e o deu a Breel Embolo por simulação.

Já com esse cartão, o atacante suíço foi expulso e deixou o campo, deixando seu time com dez jogadores. Após o jogo, o técnico suíço denunciaria “cotoveladas, cabeçadas e soladas” que ficaram impunes.

À medida que a Argentina avança na Copa, apanhados de decisões controversas se multiplicam no TikTok e no X. Uma delas, intitulada “Uma compilação de nove minutos de faltas cometidas pela Argentina contra a Suíça sem consequências”, já soma centenas de milhares de visualizações.

Outros internautas também se surpreenderam com os meros três minutos de acréscimo concedidos contra Cabo Verde, enquanto outros jogos da Copa obtiveram seis ou até dez minutos, devido às pausas pra hidratação.

Messi no centro das teorias – Essas suspeitas não são novas. Ainda durante a vitória da Argentina no Catar em 2022, diversas decisões da arbitragem alimentaram o debate. A Albiceleste, em particular, foi beneficiada com cinco pênaltis, mais que qualquer outra seleção naquela Copa.

É principalmente a figura de Lionel Messi que alimenta essas teorias. Em 2017, Gianni Infantino declarou ao La Nación que “seria injusto Messi se aposentar sem ter conquistado uma Copa do Mundo”, acrescentando que o argentino precisava “marcar sua época”, tal como Diego Maradona tinha feito.

Aos 39 anos, esta edição é apresentada como a última Copa do camisa 10. A conquista do título selaria definitivamente seu espaço entre os maiores jogadores da história. Com ou sem a ajuda dos juízes...



George Martínez – Não é difícil adivinhar que os torcedores da seleção espanhola de futebol vão torcer contra a Argentina este fim de semana, quando os dois times se enfrentarem na final da Copa do Mundo, mas há muito mais gente ao redor do mundo torcendo pra que a Argentina perca. Adam Elder é um escritor especializado em esportes e cultura. Adam, o que há no estilo de jogo da Argentina que, historicamente, gera tanta rejeição?

Adam Elder – Pois é, há muita coisa envolvida aí. A Argentina ganhou três Copas, mas sempre teve um estilo que divide opiniões. Eles conseguem jogar com talento e, claro, têm Lionel Messi, mas também sabem jogar com brutalidade, digamos, chutando o adversário, subindo nas costas, derrubando com força, pressionando o juiz. Tudo isso é comum na América Latina. Tanto é que escrevi sobre isso num livro meu, mas a questão é que ninguém faz isso melhor que a Argentina.

Eles basicamente conseguem jogar tanto em alto nível quanto de forma muito baixa, e com frequência os vemos fazendo as duas coisas. Além disso, há episódios bem documentados de racismo da parte de torcedores e jogadores, com músicas e outras manifestações, especialmente contra pessoas negras; seja contra a seleção francesa, composta em grande parte por jogadores negros, ou espectadores famosos, como o streamer IShowSpeed na Copa deste ano.

GM – É, houve muito disso, o que anda prejudicando a imagem da Argentina, mas quatro anos atrás a situação parecia diferente. Parecia que as pessoas queriam ver Lionel Messi ganhar uma Copa. Então, o que realmente mudou de lá para cá?

AE – Muita coisa mudou durante esta edição. Eles chegaram como os atuais campeões, e a trajetória tem sido incrível. Lionel Messi, aos 39 anos, liderando o time na reta final de sua carreira. Ele marcou seis gols, se não me engano, nos três primeiros jogos, e as partidas têm parecido eventos quase religiosos. A emoção é avassaladora: a paixão, o barulho. É uma grande história.

O problema é que muitos têm a impressão de que a FIFA, entidade vilã que comanda o futebol, também gosta muito dessa narrativa, se você olhar de um certo ângulo. É quase como se as coisas tivessem tomado outro rumo após a fase de grupos – depois que a Argentina por pouco superou Cabo Verde, a indiscutível zebra da Copa –, pois, nos três jogos seguintes, muitos torcedores diriam que a Argentina foi beneficiada por decisões generosas da arbitragem, pelo uso muito generoso do VAR [o que inclusive fez os brasileiros criarem o apelido “VARgentina”!] e também pela falta de uso dele quando talvez fosse necessário.

Então, como acabei de dizer, a FIFA já aparece por si só como vilã; junte a isso o estilo de jogo peculiar da Argentina, as viradas incríveis que a seleção protagonizou e, talvez, uma arbitragem favorável, e chegamos ao cenário atual.

GM – Há décadas existe o sentimento, entre muitos latino-americanos, de que os argentinos se consideram superiores de alguma forma, o que faz com que sempre torçam contra eles. Mas o que você acha da ironia de que, neste caso, os latino-americanos prefiram torcer pra Espanha, nação que por séculos colonizou a América Latina?

AE – Pois é, esse é só um dos aspectos. Parece que sob vários pontos de vista vai ser um grande confronto. Obviamente há implicações ligadas à colonização e, veja bem, se a Argentina jogar como tem jogado em toda esta Copa – algo que, como discutimos, tem se desenvolvido mais ou menos por cinco semanas –, vai ser um jogo realmente interessante. Não vejo a hora de assistir e, pra ser claro, acho que tudo isso faz dos esportes algo bem melhor. Adoro ter um vilão. Claro, sou escritor, mas pessoalmente adoro isso.



George Martínez – It’s an easy assumption that fans of Spain’s national soccer team will be rooting against Argentina this weekend when the two teams face off in the World Cup final, but there are a lot more people around the world hoping Argentina loses. Adam Elder is a sports and culture writer. Adam, so what’s about the way Argentina plays that’s historically been unpopular?

Adam Elder – Oh boy, there’s so much going on here. Well, Argentina’s won three World Cups, but they’ve always had a style that’s very polarizing. You know, they can play with flair, and of course they have Lionel Messi, but they can also play with brutality, let’s say, kicking you, climbing on you, chopping you down, working the ref. This stuff is common throughout Latin America. In fact, I wrote about it in a book of mine, but the thing is, no one does this stuff better than Argentina.

They can essentially play at the highest levels or the lowest, and often you’ll see them doing both. Now, there’s also been some well-documented racism by fans and players and songs and whatnot, particularly towards black people; whether it’s about the French national team made up largely of black players or famous spectators like the streamer IShowSpeed at this year’s World Cup.

GM – Yeah, so there’s been a lot of that which hasn’t helped Argentina lately, but it seemed like four years ago things were different. It seemed like people wanted to see Lionel Messi win a World Cup. So what really has changed between then and now?

AE – A lot’s changed within this tournament. They came in as the defending champions, and it’s been this great story. Lionel Messi, aged 39, leading the team, twilight of his career. He scored six goals, I believe, in the first three games, and their matches have resembled these quasi-religious events. It’s emotionally overwhelming, the passion, the noise. It’s a great story.

The problem is, it appears to many that FIFA, soccer’s villainous governing body, likes that storyline a lot as well, if you look at it from a certain angle. It’s almost as if things took a turn after group play, after Argentina barely got past Cape Verde, the tournament’s undisputed Cinderella team, because in their next three matches, a lot of fans watching would contend that Argentina benefited from some generous calls, some very generous use of VAR, the video assistant referee, and also the non-use of it when perhaps it was needed.

So FIFA is, as I just said, such this great villainous organization on their own, and you combine now with Argentina’s occasional style of play and these incredible comebacks they’ve staged and, you know, perhaps generous refereeing, and this is where we are right now.

GM – You know, there’s been a decades-long feeling by many Latin Americans that Argentines believe themselves to be superior somehow, so that means they’ll always root against them. But what do you think of the irony that in this case, Latin Americans would rather root for Spain, the nation that colonized Latin America for hundreds of years?

AE – Yeah, I mean, that’s just one layer of it. It’s looking like a great matchup in so many ways. There’s obviously some colonial implications and, you know, if Argentina show up the way they’ve been playing throughout this tournament, which, as we talked about, has changed in the past five weeks or so, it’s going to be a really interesting game. I’m looking forward to it, and to be clear, I think all this stuff makes sports much better. I love having a villain. Of course, I’m a writer, but I personally love this stuff.


terça-feira, 14 de julho de 2026

Prevenção da demência 2: os supercaminhantes

Minha primeira tradução de um artigo no site da National Public Radio (NPR) dos Estados Unidos sobre a prevenção da demência foi um sucesso, o que me deixou muito alegre. Felizmente, em 6 de julho passado, Alisson Aubrey veio novamente com uma reportagem, que pode ser ouvida em formato podcast na própria página, sobre a relação entre exercício físico e fortalecimento cerebral. Em tradução livre pro português, seu título poderia ser “Um estudo descobriu que pessoas com mais de 80 anos que caminham em ritmo acelerado reduzem pela metade o risco de declínio cognitivo” e fala de novos estudos relacionando a manutenção da acuidade cerebral em pessoas com mais de 80 anos que mantêm o hábito da caminhada rápida.

Não são aqueles anúncios “pegadinha” miraculosos que pululam no Google, mas estudos sérios que achei por bem partilhar aqui, mesmo sem autorização da NPR, rs. A maior contribuição do artigo é o conceito de “super mover”, que o tradutor inicialmente transformou em “supermoventes”, mas deu inúmeras soluções díspares ao longo do texto. Assim, joguei na busca tanto “supermoventes” pra ver se era um termo corrente quanto “super mover em português” pra achar alguma relação com estudos existentes. O termo era realmente novo e o Gemini, IA do Google, acabou sugerindo “supercaminhantes” a partir de diversas fontes, uma delas um recente artigo da revista Veja que por coincidência abordou o mesmo tema. Porém, o texto trata quase exclusivamente do trabalho de só um dos cientistas envolvidos, enquanto aqui você pode conhecer o esforço completo!

Tendo usado o Google Tradutor pra obter a base do texto, fiz o que se tornou ainda mais imprescindível depois da multiplicidade de traduções pra “super movers”: revisar manualmente, sobretudo termos médicos, pra não ficar algo antinatural ou simplesmente passado “na máquina”... Além disso, imprimi ao conjunto meu próprio estilo de redação e simplifiquei o que fosse possível, mesmo que o resultado “robótico” permanecesse aceitável. Desta vez, com uma única exceção, não mantive os links originais pra outros artigos, trabalhos e sites. Finalmente, como fiz outras vezes, sugiro a leitura do artigo (entrevista) da pesquisadora Gislene Nogueira sobre o conceito de public radio na legislação americana, no qual se encaixa a NPR, uma empresa privada sem fins lucrativos que sobrevive de doações de indivíduos, empresas e organizações e de repasses do Estado (estes cortados por Trump em 2025).



Palavras cruzadas e quebra-cabeças são há muito tempo considerados maneiras de manter a mente afiada. Mas um novo estudo aponta pra outra estratégia que pode ser igualmente importante: manter a rapidez nos pés.

Pesquisadores descobriram que pessoas na faixa dos 80 anos que mantêm um ritmo de caminhada excepcionalmente rápido, apelidadas de “supercaminhantes”, também são muito mais propensas a manter a mente afiada em comparação com seus coetâneos que se movem mais lentamente.

“Um supercaminhante é alguém com mais de 80 anos que apresenta um desempenho muito superior ao de seus coetâneos”, afirma a dra. Sofiya Milman, do Albert Einstein College of Medicine, uma das autoras do estudo.

Milman e seus colaboradores analisaram dados de cerca de 4 mil idosos inscritos num estudo de longo prazo sobre envelhecimento. Os participantes realizaram um teste de caminhada cronometrada, e os 9% mais rápidos – que apresentaram uma velocidade de marcha pelo menos 1,5 desvios padrão acima da média de seus pares da mesma idade – foram classificados como supercaminhantes. Esses indivíduos também apresentaram uma probabilidade significativamente menor de sofrer declínio cognitivo.

“A principal conclusão foi que os supercaminhantes têm cerca de 50% menos probabilidade de desenvolver declínio cognitivo que seus coetâneos que não são supercaminhantes, o que é muito impressionante”, diz Milman. Os resultados foram publicados na revista médica Neurology.

A conexão com a saúde muscular – Caminhar bem exige equilíbrio, coordenação e força, e todos esses fatores dependem de músculos saudáveis, afirma Bonnie Tsui, redatora científica e autora de On Muscle: The Stuff That Moves Us and Why It Matters (em tradução livre, Sobre músculos: o que nos move e a importância disso).

“Acho que a descoberta não é surpreendente, porque sabemos que a saúde muscular está muito correlacionada com a saúde cognitiva, especialmente à medida que envelhecemos”, diz Tsui. “O exercício faz seus músculos crescerem, mas também faz seu cérebro crescer.”

Pesquisas anteriores associaram a prática regular de exercícios físicos a um maior volume do hipocampo, o centro do cérebro responsável pela memória e pela orientação. O novo estudo descobriu que os supercaminhantes tendiam a preservar o volume do hipocampo à medida que envelheciam.

Tsui afirma que os benefícios estão relacionados ao que acontece dentro dos músculos em contração durante o exercício.

“O músculo é um tecido endócrino, o que significa que, quando nos movemos, nossos músculos liberam moléculas sinalizadoras que afetam outros sistemas do corpo, incluindo o estímulo ao crescimento de células cerebrais e a regulação do metabolismo”, diz ela. “Portanto, saúde muscular é saúde cognitiva.”

Entre essas moléculas de sinalização está uma proteína conhecida como fator neurotrófico derivado do cérebro, ou BDNF, que ajuda a regular a glicose e desempenha um papel importante na sobrevivência e manutenção dos neurônios, auxiliando na memória e na função cognitiva.

A rede de um corpo em funcionamento – O dr. Amit Saini, geriatra do consórcio de saúde Kaiser Permanente no norte da Califórnia, afirma que caminhar e manter a capacidade de caminhar bem são indicadores de boa saúde, pois diversos sistemas do corpo são empregados simultaneamente. Ele diz que caminhar beneficia a saúde cardiovascular e pulmonar.

“Ao caminhar, seu coração bate mais rápido e, quando o coração bate mais rápido, ele bombeia sangue não só pros músculos, mas também pro cérebro, nervos e outros sistemas do corpo”, diz Saini. “Seus pulmões também respiram um pouco mais rápido, o que, por sua vez, os mantém mais leves e saudáveis.”

Uma das descobertas mais surpreendentes do estudo: alguns supercaminhantes apresentaram placas e emaranhados neurofibrilares no cérebro, proteínas anormais associadas à doença de Alzheimer e à demência, apesar de não apresentarem sintomas. Os pesquisadores afirmam que isso sugere que o movimento e todos os benefícios de se manter ativo podem ajudar o cérebro a permanecer resiliente, mesmo sofrendo alterações relacionadas à idade.

A genética e o estilo de vida também são importantes – A genética provavelmente desempenha um papel importante em quem se torna um supercaminhante. Um estudo recente descobriu que a genética é responsável por cerca de 50% da expectativa de vida humana, e Milman afirma que, entre os superidosos – pessoas que estão bem aos 80 anos ou mais –, o papel da genética pode ser ainda maior.

No entanto, os autores enfatizam que os hábitos de vida, incluindo as decisões diárias sobre alimentação, priorização do sono e tempo dedicado ao relaxamento e à convivência com amigos e familiares, são todos importantes. De fato, pesquisas mostram que cerca de metade de todos os casos de demência podiam ser prevenidos ou adiados com a intervenção em 14 fatores de risco modificáveis.

As pessoas têm poder de influência sobre suas chances de envelhecer com saúde, e uma maneira de avaliar seus riscos pessoais e tomar medidas pra os reduzir é calcular sua Pontuação de Cuidado Cerebral. É uma ferramenta online gratuita, desenvolvida por médicos do Hospital Geral de Massachusetts, pra calcular teus riscos e sugerir medidas, por meio de mudanças nos hábitos diários, que podem ajudar a diminuir o risco de AVC, demência, doenças cardíacas e câncer.

“Caminhar rápido é um indicador de que o cérebro e o corpo estão envelhecendo bem”, diz Joe Verghese, chefe do Departamento de Neurologia da Stony Brook Medicine em Nova York e um dos autores do estudo. “Mas também é possível que as pessoas que caminham mais rápido, ao se envolverem nessas atividades, também protejam a saúde do cérebro por meio de diversos mecanismos, reduzindo inflamações, melhorando a saúde cardiovascular e promovendo o crescimento cerebral em áreas essenciais pra manter a função cognitiva à medida que envelhecemos.”

Verghese afirma que as descobertas trazem uma mensagem pra pessoas de todas as idades e níveis de condicionamento físico.

“Uma das principais mensagens é: mantenha-se ativo”, diz ele. “Faça exercícios regularmente, pois isso pode te colocar no caminho pra se tornar um supercaminhante à medida que envelhecer.”

Seja caminhando, nadando ou pedalando, os pesquisadores afirmam que a forma do movimento importa menos que sua consistência. É um hábito que pode trazer benefícios tanto pros músculos quanto pra memória no longo prazo.



domingo, 12 de julho de 2026

Russos, remadores e Haaland


erickfishuk.blogspot.com/remador-ru

Veja também “Sobre o significado de Rus”:
erickfishuk.blogspot.com/rus-urss



Neste sábado, o inutilismo geopolítico do Jeum nos saiu com essa que, na verdade, me divertiu muito mais do que a semelhança física em si entre os dois seres humanos. Nem abri a matéria, mas a primeira coisa que me veio à mente foi a relação entre a “remada” comemorativa dos noruegos durante os certames da Cópula e a origem nórdica do gentílico “russo”, que no norte da Europa viria da palavra “remar”.

Como indiquei no início da publicação, já falei outras vezes da origem da palavra “Rússia” e de sua relação problemática com o termo Rus’ (a confederação medieval dos eslavos orientais), reapropriada pelo império moscovita no início do século 18 pra designar o próprio país. Dos séculos 9 a 13, ainda não havia clara diferenciação entre os povos russo, belarusso e ucraniano (e russino, se quisermos), por isso, a associação da Rus e de seu nome apenas com os atuais russos é malvista pelos vizinhos eslavos. Não quero voltar à polêmica, mas a viralização da “remada viking” e o significado de “remar” (a mesma remada nórdica!) como fonte das palavras “Rus” e “Rússia” são ótimos motivos de reflexão.



Tudo em história que é reapropriado pelo presente sempre vai gerar polêmica, e a “remada viking”, assim como a própria trajetória dos vikings, não foi exceção nesse Torneio do Laranjão. Neste ótimo short da Deutsche Welle Brasil, historiadores colocam a remada em seu devido lugar, mas o UOL também lançou um longo artigo esclarecedor, ainda mais incisivo. Recomendo abri-los, mas resumo pros preguiçosos: o ato de remar estaria muito mais relacionado aos suecos, que navegavam em rios e nos mares europeus internos, do que aos noruegueses, que, tendo velejado mais em pleno Atlântico e até chegado à América bem antes de Cristóvam Buarque, dependeriam muito mais do vento sobre as velas do que do impulso manual. Além disso, veio à tona o lado sombrio dos vikings, que também pilhavam, matavam e destruíam vilarejos (como qualquer povo da época, aliás), tornando problemática a associação com eles.

Os falsos críticos do politicamente correto já desancaram no UOL vociferando que “a matéria é besta e tudo agora é motivo de polêmica; o povo tem mesmo é que se divertir”. Sou historiador e garanto que nesse caso não há lacração: trocando em miúdos com a situação do Centro-Sul bananeiro, é como se um grande clube esportivo começasse a reivindicar os bandeirantes ou algum gesto racista outrora inocente, como o blackface. Tudo bem que forcei um pouco a barra, porque não é toda região tupiniquim que se identifica com um Fernão Dias ou Anhanguera da vida, e nada vai forçar à renomeação de logradouros com nomes de bandeirantes ou, digamos, de Getúlio Vargas, um dos ditadores mais corruptos e assassinos que esse país já conheceu. Mas um pouco de informação histórica a mais é sempre bom, pra não deixarmos nossa imaginação no “piloto automático” o tempo todo.

Inclusive, a julgarmos pela etimologia dada pelo Wiktionary e que traduzi logo abaixo, a origem do nome “Rus” realmente remete a finlandeses que encontraram suecos, os maiores inimigos do império tsarista durante séculos, e não bacalhaus, rs. Portanto, mesmo que os próprios especialistas digam que isso pode ser birra dos vizinhos que logo caíram fora da disputa, há um fundo de verdade histórica na associação. Ou, como diria Maria Putinieta: “O povo quer gasolina? Então que ande de barco!”


Do latim medieval Russia, do antigo eslavo oriental Русь (Rusĭ) – de onde vem o árabe رُوس (rūs) e o grego bizantino Ῥῶς (Rhôs ) –, que originalmente se referia a um grupo de varegues que se estabeleceram perto de Kyiv no século 9 e comandaram a “Rus de Kyiv”; provavelmente do proto-fínico *roocci, do nórdico antigo oriental *roþs- (“relacionado a remar”); relacionado ao nórdico antigo Roþrslandi (“a terra do remo”), uma denominação mais antiga de Roslagen, onde os finlandeses encontraram os suecos pela primeira vez. Em última análise, do nórdico antigo róðr (“remo de direção”), do proto-germânico *rōþrą (“leme”), do proto-indo-europeu *h₁reh₁- (“remar”).


Trilha sonora e patrocínio desta publicação:


Agora me deixe ir embora, pois eu mesmo tenho mais o que fazer, rs: